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quarta-feira, julho 08, 2009

Contrabando de Formigas

5. The Everlasting Youth


Perto da Washington Square, um jovem aproveitava o raro dia de vento no verão. Naquele breve cruzamento, nada sobre ele importava muito, a não ser o fato de ele ser jovem. E, como quase todos os jovens do país, tinha algo de roqueiro. A camisa azul clara fazia menção a um festival de 2002. No centro dela, um desenho de traços à New Yorker de um homem de perfil, com os cabelos penteados para trás, e o rosto sério como o de um jovem Leonard Cohen. Logo abaixo, o nome da estrela aparecia todo em caixa alta, feito ELVIS, BEATLES ou RAMONES:

MAHLER.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Contrabando de Formigas

4. The Man On Broadway

São três horas de uma tarde de Julho de 2008, e o sol derrete camadas de asfalto que os carros levam grudadas em suas rodas. Na esquina da Broadway com um número qualquer, o nobre homem trabalha. Veste uma meia-calça branca, sapatos pontudos, paletó de veludo azul escuro com ornamentos dourados, e uma peruca branca de séculos outros. É do branco rosado típico dos caucasianos do norte, e circula a casa dos quarenta anos. Com o peito estufado e o nariz parcamente equilibrado na dignidade de seu rosto, distribui panfletos para os passantes; papéis que convidam para uma peça na qual ele não trabalha. “Parte do elenco; só não no palco”, ele retrucaria. A umidade do ar se esfuzia em uma piada, criando uma corrente de vento que cisma fazer troça do passado, arrancando as madeixas do falso fidalgo. E o pobre nobre corre sem correr - com uma mão segurando a careca e a outra, a pilha de papéis - perseguindo a peruca branca que rodopia em vôo Broadway acima.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Contrabando de formigas

3. The Dust Jacket

Perto da ida, abandonei O Processo – que lia sem nunca faltar entusiasmo – e decidi reservar algumas horas dos dias pré-partida para a escolha de bons companheiros de viagem em uma livraria. Que Kafka me perdoe, mas não consigo dormir fácil quando tomado por ansiedade. Embora suas páginas sejam convite que estou sempre pronto a aceitar, a idéia provável de passar as 14 horas de vôo com a cabeça enterrada em sua prosa não me pareceu preságio de boas férias. Não sou superticioso, mas zelo ferozmente por meus bons tempos.

Tento sempre me dar chances de comprar amigos novos. O Juliano havia me recomendado ler o Ask The Dust, do John Fante, antes de ir para Los Angeles. A certeza por trás da dica me pareceu ainda mais digna de confiança por ele nunca ter se sujado com o pó de lá: Fante construíra a imagem da cidade que existe em sua cabeça, e entendi a recomendação como um desejo de que eu pudesse passar minhas férias nesse espaço imaginário. Uma franca vontade de companhia e um sincero aceno de boa viagem: aceitei-os prontamente. Em uma das prateleiras, achei um pocket em inglês por um preço decente – não para um pocket, mas sim para o inglês. A capa trazia imagens de palmeiras esbranquiçadas – as mesmas que veria em todas as ruas da cidade, duas semanas depois. Comprei também o Na América, da Susan Sontag, para provar que eu poderia levar o humor de minhas obsessões temáticas a novos índices de ridículo.

Como a tensão já havia anunciado, quase não preguei os olhos no vôo de ida. Afoguei-me, em pleno ar, nas palavras de Fante, com sede reveladora do vulto de seu talento: bom o suficiente para merecer viver à sombra de Henry Miller. Depois de Miller, apenas João César Monteiro conseguiu me derrubar com equivalente fome artística. Fante e Bukowski são sujeitos bacanas, mas não passaram fome, e é isso que seus livros gritam: palavras extremamente bem nutridas. Eu estava voando, e meus olhos roncavam acordados.

Apaguei minha luz de bordo quando percebi que era a última a permanecer acesa em todo o avião – a primeira classe, invisível, vivia vôo onde se lê em sono suave. Descansei por umas horas, e logo os selos das pálpebras foram novamente rasgados pelo dia que nascia lá embaixo. Bati a primeira foto da viagem e voltei a Fante. Chegado em terras outras, parei a leitura apenas para experimentar os rituais de imigração; Ask The Dust me acompanharia pelas horas rodadas no aeroporto em Atlanta, entre um vôo afogado pela chuva que atrasara a primeira decolagem, e a incerteza de ser encaixado no seguinte. Poucos minutos antes de decolar dali, a certeza da partida interrompeu minha leitura: ver meu nome anunciado na tela de confirmed da Delta foi mais intenso do que encontrá-lo nas páginas da Folha Dirigida, à época do vestibular. Às vezes canso-me da vida como espera para um começo; só queria começar logo, de uma vez. Queria ir logo pra casa.

De Atlanta para Nova York, sentei na poltrona direita da trinca que forma a fileira central. Ao meu lado, uma jovem de traços do oriente se fragilizava sob o ar condicinado em short e chinelos. Um espirro parecia capaz de quebrá-la em mil pedaços. E na cadeira esquerda, uma adolescente estadunidense típica, se típicos existissem: ruiva, com bochechas rosadas e uma cara de criança que saltava do moletom, cheia de preguiça de mudar para a fase seguinte da vida.

Voltei-me ao Fante, esperando terminar o volume antes de pousar. Passei mais um par de horas por ali quando, com olhos cheios da vontade de passeio que forçam o pescoço a girar em busca do entorno, vi a ruiva da cadeira direita com o rosto desconfortavelmente apoiado em suas coxas, contorcendo-se em nome da curiosidade que cismara descobrir o livro em que seu quase-vizinho de poltronas mergulhara sem desejo de volta. Sem tirar a capa do livro da perna cruzada, observei-a em torção, tentando imaginar seus motivos para tamanha curiosidade. Pensei se ela pensava nos primeiros parágrafos deste contrabando, sabendo que minhas projeções nunca completariam a imagem daquela esfinge entortada. Até que seus olhos deixaram a capa do meu livro e se cruzaram com os meus, flagrando-a naquele estranho ritual de invasão. As bochechas gordas queimaram juvenis, enquanto o corpo se destorcia, e os olhos buscavam algo novo que pudessem fingir buscar.

Retornei às últimas páginas de Ask The Dust, ainda flutuando naquele estranho incidente. Enquanto recomeçava a leitura, com a mão esquerda inclinei levemente a capa do livro, na esperança de ajudar a quase-vizinha de poltronas, caso – em outro espasmo de curiosidade – ela tentasse novamente ler o título de minha leitura.

sábado, agosto 23, 2008

Contrabando de Formigas

2. The Meaning


As narrativas sobre iluminações divinas provocadas por viagens não são poucas, e o gênero não precisa de novas lombadas na estante. Ainda assim, o período longe de casa é sempre assombrado pela busca de um sentido, uma razão, um porquê que faça da peregrinação um trajeto à Pícaro. Algumas pessoas trombam com a epifania diante de um quadro pendurado em uma parede de um museu. Outras chegam ao sentido da vida observando como mendigos de primeiro mundo são cidadãos tão dignos que sequer pedem esmolas. Outras mais justificam o dinheiro torrado no momento em que, enfim, ouvem suas canções favoritas pisando fora do mundo dos simulacros. Já eu, percebi-me frente ao significado de minha viagem nos jardins de um museu na sudorenta Philadelphia:

quinta-feira, agosto 07, 2008

Contrabando de formigas

Tentei escrever um poema quando uma formiga atravessou o papel em branco. Nada escrevi, posto que o misterio da natureza por ali havia passado. (Mário Quintana).

1. Magic Kingdom

- Have you found what you were looking for? - perguntou-me um brooklyniano gente boa, depois de me ver passar um ou dois minutos com meus olhos colados no mapa do Prospect Park.

Ele tinha longos cabelos grisalhos presos em um rabo-de-cavalo, parecia ter passado as duas últimas horas correndo pelo parque e, como manda a etiqueta nova iorquina, estava louco para encerrar o dia demonstrando seu conhecimento geográfico local.

- Not really – respondi – I’m looking for the bandshell.
- The bandshell? Easiest thing in the world! – disse ele, feito um personagem tipificado em algum esquete do SNL. Como em um carteado de verbo e gesto, abriu à mesa cinco ou seis maneiras diferentes de se chegar à concha acústica do parque, sendo que todas elas poderiam ser resumidas em “escolha um desses caminhos e siga em frente que você chegará lá”. Agradeci e ele me pareceu querer fazer o mesmo.

- Who’s playing tonight?
- Feist.
- Five?

Abri um sorriso (que não fecharia pelo resto da noite) ao lembrar da banda que cantava “Everybody Get Up” e “Keep On Moving”. Pareceu-me uma boa maneira de começar uma nova amizade.

- No, Feist. The canadian singer.

Com o rosto, deixou claro que nunca tinha ouvido aquele nome antes.

- She’s really good - continuei.
- Really? Well, unfortunately, I already have plans for tonight. But have a good show!

Segui pela ciclovia que se espichava ao lado da estrada principal, no sentido contrário dos carros e ciclistas. O asfalto cortava o verde enquanto, às margens, um número descomunal de vaga-lumes acendia um prenúncio de noite que ainda tardaria a cair. Não via vaga-lumes há alguns anos, mas naquela caminhada acreditei ter esgotado os créditos para as próximas duas ou três vidas.

Peguei meu ingresso na tenda da Ticketmaster (“You look scared”, comentou a moça ao ver a foto do meu visto), comprei uma camiseta que dizia (e diz) “The limit to your love” e, imitando todos que não estavam nas filas dos bares ou dos banheiros químicos, sentei-me na grama, como que esperando por um piquenique. Logo, subiu ao palco Juana Molina (“it rhymes with Argentina” – disse ela, ao se apresentar), com um violão, dois teclados e uma quantidade estonteante de pedais. Levantei-me e segui para as fileiras da frente, já que ali se concentravam os poucos pingados afim de ver o show de pé.

Com riffs e ritmos minimalistas, Juana sobrepunha camadas sonoras gravadas on the fly, rodando em loops hipnóticos, em playbacks gravados ao(s) vivo(s olhos da platéia), em performance que talvez seduzisse mais pelo malabarismo de engenhocas do que por sua real musicalidade. Conforme os nativos iam amolecendo com seu sotaque, a organicidade (Indígena? Japonesa? Inca?) da música de Juana se acumulava em um transe crescente, com todo o contágio que o equilibrado empilhamento sonoro de vozes, violões, teclados e sintetizadores almejava promover. Até que o dia resolveu ratificar meu óbvio desejo de Shara, caindo com um extrovertido temporal sobre os corpos que pesavam sobre a grama. Os sentados levantaram-se em direção ao palco, tentando se abrigar sob o resto de teto que protegia da chuva as primeiríssimas fileiras. Seco por levantar-me cedo, mas com algum desejo de me molhar também, permaneci em local marcado pela queda d’água. Juana se foi, com aplausos.

Se o show de abertura embaçara a fronteira sonora entre o vivo e o simulacro, o de Feist mergulharia no mesmo processo, mas em sua natureza visual. Um biombo branco é colocado em frente ao microfone. As luzes se apagam, e apenas um contraluz projeta a sombra do microfone sobre a tela branca. Feist entra no palco pelas laterais, carregando uma lanterna de fazenda na mão e um chapéu meio ridículo na cabeça. A pessoa, vista aqui tantas vezes como imagem, aparece, ali, real. Anda até o outro lado do palco, fingindo procurar algo com sua lanterninha. E pára ao centro, voltando a ser imagem, em silhueta que faz lembrar a capa de The Reminder. Canta, sozinha, que a ajuda já está a caminho. A banda entra em palco, toda de branco, enquanto o biombo é retirado e voltamos a vê-la novamente.

“When I Was A Young Girl”, “Mushaboom” e “My Moon, My Man”. O som é límpido e maravilhosamente baixo. As palavras vêm bater à porta dos lábios, mas o desejo de cantar junto é quase sempre calado pelo medo de que uma voz estrangeira possa quebrar aquela atmosfera tão delicada. Sobre o fundo do palco, duas artistas projetam intervenções plásticas realizadas sobre um retro-projetor. Um vaga-lume ocasional cruza o palco, em apropriado lampejo de espontaneidade. Feist tem gestos afetados o suficiente para seus amantes considerarem adoráveis, e seus detratores, enervantes.

Lembro que, fora 3 ou 4 que eu desconhecia, de Let It Die foram cinco (“Gatekeeper”, “Mushaboom”, “Let It Die”, “When I Was A Young Girl” e “Inside And Out”), e oito de The Reminder (“I Feel It All”, “My Moon, My Man”, “The Water”, “The Limit To Your Love”, “Sea Lion”, “1234”, “Honey, Honey” e “How My Heart Behaves”). Alguns dias depois, veria “Brandy Alexander” na voz do parceiro Ron Sexsmith, em uma memorável noite de voz e violão. Lembro também de, em dado momento, ouvi-la dizer “Sincerity is the new irony, guys”. E de, ironia das ironias, a frase ter realmente soado sincera. E lembro de, após o fim do show (“slow dance the way back home” com “Let It Die”) ter olhado para o palco já vazio e visto, lá em cima, vaga-lumes que acendiam e apagavam e acendiam e apagavam novamente.


Os sentados.


O chapéu e as franjas.


O sorriso sob o óculos familiar, entre o indie cabeçudo e a menina loira de blusa azul.

Fotos: Brooklyn Vegan