Mostrando postagens com marcador show. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador show. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, julho 09, 2009

Cinema Argentino

É bastante expressivo que o brasileiro Curumin tenha fechado sua apresentação de ontem, no Central Park, com uma versão para "Beat It", do Michael Jackson - e ainda mais gritante que tão pouca gente tenha comprado a adulação. Expressivo, pois sela a minha impressão de que o problema mais grave dessa tal nova música brasileira é a vontade excessiva de agradar. Sua música é bem tocada, com boas referências, e tudo mais; mas é simpática demais, redondinha demais. Com isso, se torna inofensiva, inócua, estéril.

Há, no trabalho de Curumin, uma coordenação clara que agrupa muito da música brasileira que funcionou fora do Brasil (de Jorge Ben ao funk carioca), mas que tira delas o fator de risco que lhes era originalmente revigorante. O mesmo acontece com a relação com a música alternativa contemporânea, do que o sampler de violão é o grito mais alto (por que não tocá-lo ao vivo, se o sampler, em si, nada acrescenta?). É Tim Maia sem peso, samba sem a iminência do descontrole, Karnak feito óbvio (em vez de "O mundo caquinho de vidro" temos "A esperança é a última que morre"), Animal Collective como tocador de playback. Falta uma ponta de algo que, talvez, só seja perfeitamente expresso em inglês: edge. Algo que estava lá até mesmo no pior de Caetano, Chico, João Gilberto, ou nos momentos mais auto-indulgentes dos Hermanos.

O show do Curumin fez lembrar o do Ludov que vi no Curitiba Pop Festival (ano do Pixies), em que a vocalista parecia ter medo de deixar dissipar o sorriso constante, como se toda pessoa na platéia fosse um executivo de gravadora em potencial. E poucas coisas são tão repulsivas quanto o sorriso forçado, a simpatia obrigatória.

Juana Molina, por sua vez, foi exatamente o oposto disso. Dá seu boa noite cheio de doçura (mas sempre meio tímido) em vestido xadrez amarelo, e começa logo a impressionar pela destreza e criatividade com que pilota seus aparatos (dessa vez escorados por dois outros músicas - baixo e bateria). Não é pro meu gosto, mas é sempre bom, instigante e sólido. Vi umas cinco músicas (lembrando que eu já tinha visto seu show no ano passado), mas aí ja era tarde para recompor a pau molência proporcionada por Curumin e o dj El G - que animava os intervalos com overdoses de raggaton (vulgo: o ritmo mais chato do mundo, a não ser pela abertura do Beau Travail).

quarta-feira, abril 29, 2009

Day For Night



segunda-feira, abril 27, 2009

Outro


Antes de mais nada, peço perdão pela negligência com este naco de blaguespot nas últimas semanas. Diversos motivos circunstanciais - de mudança de apartamento até o calendário cinematográfico carioca, passando, claro, pelo primeiro show carioca do Driving Music - ocasionaram essa pausa, mas a maior parte desses motivos começa a se estabilizar, a ponto de eu vislumbrar dias vindouros mais cheios para este boteco aqui. Nos próximos dias, retomo minhas bobagens de sempre - das listas de melhores do ano aos parágrafos dedicados a pensamentos que não fixam - e espero, com isso, contar novamente com o desvio de atenção de vocês. 

Mas este post serve para mais do que assumir obviedades, e a pista tá no título lá em cima: na próxima sexta-feira, feriadão de primeiro de Maio, subo novamente ao palco para mais um show do Driving Music. A noite na Audio Rebel foi encantadora para mim, e o convite para uma nova apresentação foi irresistível: farei o primeiro show da Drinkeria Maldita Copacabana, misto de bar e casa de shows que inaugura essa semana, já com pinta de lugar mais cool da cidade.  A agenda deles já está bastante cheia, e será com enorme satisfação que eu e meu violãozinho escreveremos as primeiras linhas desta história. 


Se quiserem pagar mais barato, deixem os nomes que você gostaria de acrescentar na lista amiga nos comentários, até quinta-feira. 

No mesmo tópico, deixo calorosos agradecimentos a todos os amigos que apareceram na Audio Rebel, dia 19. Foi uma noite bastante especial pra mim, e é sempre bom saber que rostos tão simpáticos povoarão para sempre esse cado de memória. Acho que as pessoas gostaram - ou então eram amigas de menos e sentiram a necessidade de mentir. Eu gostei muitíssimo. O amigo e comediante de plantão Daniel Develly disse que, mesmo depois de tantos shows do Invisibles, ele sentiu, pela primeira vez, ter ouvido minhas canções como eu as ouço na cabeça. Foi bonito de ouvir. 

Apareçam lá na sexta, e me digam outras coisas bonitas. Tentarei me portar com elegância.

A foto que ilustra a filipeta é do show do dia 19, e acredito ser essa a que o André elogiou nos comentários. Também acho muito bonita. Para ver outros instantâneos captados pela minha Clarissa, é só dar uma olhada no fotolog do Driving Music. Em breve, brevíssimo mesmo, começo a colocar no Youtube alguns trechos filmados do show.  

terça-feira, abril 14, 2009

Driving Music no Rio



Enfim, um primeiro show em terras cariocas. Como em Juiz de Fora, no ano passado, o set será acústico, misturando músicas do Driving Music a velhas composições do Invisibles. Será um prazer ter vocês por lá. 

terça-feira, janeiro 13, 2009

2008 em 10 Shows

10 – Stone Temple Pilots
08/07 – Glens Falls Civic Center, Glens Falls, NY

Scott Weiland entende que todo show precisa de um showman. E isso conta muito mais do que o painel de luzes ao fundo, o setlist que responde a tudo que se espera, e toda a papagaiada padrão que envolve uma turnê de reunião de uma banda de rock mainstream nos dias de hoje.

09 – The National
24/10 – Tim Festival, Rio de Janeiro

Continuo achando a mesma coisa.

08 – Hold Steady
30/07 – Avalon, Los Angeles

É preciso respeitar uma banda que sobe ao palco e toca, quase na íntegra, um disco que havia saído na semana anterior (mesmo que todos ali já o escutassem há um par de meses). Mais fácil, porém, se a banda for o Hold Steady, e o disco em questão for o ótimo Stay Positive. Na segunda fila, bem na minha frente, dois amigos em outra dimensão se abraçavam, e trocavam socos na cabeça. De vez em quando um deles tentava conversar com uma das garotas que estavam na grade, e o outro lhe mandava um porradão na nuca. Eu nunca consegui fazer dessa cena uma analogia para coisa alguma, mas Craig Finn talvez seja capaz de transformá-la em uma canção.

07 – Spoon
08/11 – Festival Planeta Terra, São Paulo

Apesar de ter visto o Spoon em grande forma no Prospect Park, nada poderia ter me preparado para a avalanche sonora que a banda despejou no Planeta Terra. Um show tão bom que fez a lembrança do Jesus & Mary Chain, alguns minutos antes, se tornar uma memória pálida e distante.

06 – Josh Rouse
15/08 – Sesc Vila Mariana, São Paulo

A intensidade do brilho do artista é proporcional à consciência de suas limitações. Josh Rouse se conhece muito bem.

05 – Lucero
24/07 – The Echo, Los Angeles

E aí vem o click, e você se lembra como foi que se sentiu quando se apaixonou pelo rock. E você olha em volta, tentando entender, e tudo que vê é uma banda sem roadies e um bando de marmanjos cobertos em suor e cerveja alheios, cantando projetos de palavras fora de tom, com garrafas de cerveja erguidas em um interminável brinde à banda. E o mais constrangedor é que você entende.

04 – Ron Sexsmith
16/07 – Joe’s Pub, Nova York

A descoberta de um gênio.

03 – Bob Dylan
08/03 – Rioarena, Rio de Janeiro, RJ

É inevitável que cada uma das pessoas na Rioarena desejasse um setlist ideal diferente, e que o escolhido por Dylan não desse conta da maior parte das canções que elas gostariam de ouvir. Ainda assim, a música que vinha do palco era tão extraordinariamente envolvente (ainda mais para aqueles que, como eu, adoram Modern Times) que segurava os pensamentos pelos tornozelos, fazendo com que todos desejassem ouvir qualquer música que Dylan viesse a tocar. Independente da história, da mitologia, da idade dos afetos, tudo soava perfeito. E assim foi.

02 – Jon Brion e convidados
25/07 – Largo, Los Angeles

Mais conhecido por seus trabalhos para o cinema (as trilhas de filmes como Huckabees – A Vida É Uma Comédia, Embriagado de Amor, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, etc), Jon Brion faz shows regulares no Largo – casa de Los Angeles que o abriga em temporadas de sextas-feiras, com duas apresentações por noite. Entrei no segundo round da última noite de seu verão por lá, sem a menor idéia de o que esperar. Fui ao Largo para ver o show do Grant Lee Phillips na segunda sala da casa (apropriadamente chamada de Little Room – uma salinha à luz de velas, sem palco, microfonação mínima, e não mais que 10 mesas,) e, ao final do set, a platéia foi convidada pelo gerente da casa a pegar café e biscoitos, e seguir para a noite com Jon Brion, que começava no teatro principal.

Entre carpetes de borgonhas lynchianos, Brion tocava piano no canto de um palco onde estavam montados cerca de 30 instrumentos diferentes. Junto ao contrabaixo de Sebastian Steinberg (Soul Coughing), único convidado da noite, Brion improvisava uma peça de jazz a partir de riffs de “Iron Man”, do Black Sabbath. Terminada a primeira música, ele se levanta e pergunta à platéia o que todos gostariam de ouvir. Da chuva de sugestões, Brion escolhe uma que pareça interessante, e improvisa uma versão em real time. E assim vai até o final da noite, pulando de instrumento para instrumento, de canção para canção: “Eye of the Tiger” em versão two-step, “This Charming Man” dando errado e virando “Please, Let Me Get What I Want” no meio, “If I Only Had A Brain” na pianola, uma versão jazzy para “Come And Knock Yourself Out” (canção-tema do Huckabees) – tudo improvisado, com a participação direta do público. Até que ele anuncia a hora do sing along, e alguém pede que ele toque Queen. “What song?”, ele pergunta. “Bohemian Rhapsody!”, grita uma voz do meio do teatro. Jon dá uma gargalhada, e responde: “You know what? I’ll fucking do it!” As luzes sobre a platéia se acendem, Brion pede que o PA seja desligado e, ao piano, comanda o coro que vem de todas as cadeiras do teatro. E vamos, todos juntos, à direção qualquer que o vento desejar soprar.

01 – Feist
9/07 - Prospect Park, Brooklyn

Oh Leslie, quel drôle de chemin il m‘a fallu prendre pour arriver jusqu‘à toi.

* * *

Prêmios especiais

O melhor show que eu não vi em 1999:
Face to Face

O melhor motivo para se ir a um show:
Eu poderia dizer que conheço bem sua discografia; ou então que adoro uma ou outra de suas canções. Mentira. Eu fui ao show do Grant Lee Phillips só pra ver o trovador de Gilmore Girls.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Rosto a rosto

Então, Rafael, não sei se eu saberia escrever uma resenha, de fato, sobre o show do Face to Face no Rio não. Diria que foi um show histórico, não só pelo sentido corrente do termo, mas também porque todos ali - público e banda - estavam celebrando uma história, uma relação do passado, uma dívida que era, enfim, purgada. Por isso mesmo, talvez a frase que melhor definia a noite para mim não vinha de uma canção do Face to Face, mas sim do refrão daquele hit do Prince: so tonight I'm gonna party like it's 1999.

E, ao mesmo tempo em que foi incrível reencontrar amigos e canções que há anos haviam sumido da minha vida, quando cheguei em casa eu fui tomar um Dorflex, para fazer com que a dor no corpo ficasse suportável nos dias seguintes. E
a data de validade do comprimido e a necessidade de tomá-lo me faziam lembrar que estamos em 2008.

sábado, outubro 25, 2008

In the basement of my brain

O belíssimo show do National ontem, na Marina da Glória, confirmou impressão que há um tempo já coçava meu ouvido: a banda é o U2 da nossa época. O Coldplay é só o bom aluno que até leu as coisas certas, mas entendeu quase tudo errado.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Top 5 da semana


Atrasado pela ida a São Paulo, mas mantendo semanas de apenas sete dias como critério de transparência! Ontem comecei o mergulho na inestimável mostra completa de Alain Resnais, no CCBB (Rio e SP). Aguardem cinco filmes dele comentandos aqui, na semana que vem.

Filmes

1Pai e Filha (Banshun) – Yasujiro Ozu, 1949

Se existem sempre aqueles malucos capazes de, na cara limpa, perguntarem quem seria o maior diretor de todos os tempos, eu sou o maluco que, sem titubear, responderia à pergunta: Yasujiro Ozu. Revi Pai e Filha para escrever um texto que, em breve, será publicado na Cinética. Como rápido traço blogueiro, vale dizer que ter um dos melhores filmes de Ozu lançado em DVD no Brasil (é só o segundo, gente, só o segundo!) merece semanas de comemoração. Mesmo que precisemos, no processo, relevar a tradução (do inglês, obviamente quase literal) meio porquinha da edição da Lume Filmes.

2Rushmore – Wes Anderson, 1998


Conheci o trabalho de Wes Anderson pela obra-prima Os Excêntricos Tennenbaums. Embora venha acompanhando sua carreira desde então, faltava-me conhecer seus dois primeiros e elogiadíssimos filmes. Rushmore tapa o primeiro buraco, sem o vento de novidade que deve ter sido à época de seu lançamento. O contato tardio vem, felizmente, calar uma incômoda dúvida: minha decepção com O Expresso de Darjeeling tem muito mais a ver com um momento menos inspirado na carreira do diretor, do que com um tédio meu em relação ao seu universo. Mesmo não sendo novidade alguma, o final em slow motion, as composições rigorosamente frontais, as caras de vazio, os rocks bem escolhidos, e todos os outros supostos "maneirismos" de Anderson me bateram fortemente neste seu segundo longa-metragem. Resta, agora, Bottle Rocket, na pilha de DVDs, esperando seu melhor momento.

3Pecados de Guerra (Casualties Of War) – Brian De Palma, 1989
Mais um De Palma riscado da lista, não exatamente entre os maiores, mas bem acima dos menores. É impressionante como um gênero aparentemente tão pouco frutífero aos interesses mais claros do cineasta abre brechas para suas mais manjadas obsessões, sem que a hostilidade do universo filmado confine De Palma nos cantos mal iluminados de um desejo obsessivamente realista, ou da necessidade de curvar sua mise-en-scéne diante de um grande tema. Pecados de Guerra é, rigorosamente, um filme de Brian De Palma, e traz, ao menos, duas das mais surpreendentes sequências de sua carreira: os túneis vietnamitas que fazem campo do extra-campo; e o assassinato da garota vietnamita – filmado como sequência de filme de horror. A mistura de gêneros deixa de ser assinatura estilística e se torna, nesse cruzamento, uma forte declaração política: filmar o horror como horror, puro e simples.

4Encarnação do Demônio – José Mojica Marins, 2008

Salvos os louros sem freios, a politicagem crítica, a sombra do tempo longe das telas, a montagem muitas vezes descaralhada, a caricatura da superexposição invertida das últimas décadas, os repórteres obcecados com suas unhas, etc; o retorno de José Mojica Marins à direção traz algumas das imagens mais impactantes vistas no cinema este ano. Apesar de os problemas do filme me afastarem do coro de “obra-prima”, é difícil imaginar uma volta mais apropriada para Mojica e seu Zé do Caixão. Por vezes, o filme toma vias de atualização que giram em círculo; mas quando ele decide, de fato, se pensar como um novo momento em um longo e admirável processo (os filmes antigos que voltam à tela; as impressionantes personagens em preto e branco que caminham pelas cores; a mulher que sai do porco; a putaria; os banhos de sangue; o esconderijo na favela; o céu vermelho; o trem-fantasma), Encarnação do Demônio acaba sendo um dos mais emocionantes filmes do ano. Mojica sempre teve consciência absoluta de sua posição como realizador, e o tempo longe das câmeras parece não tê-la abalado em rigorosamente nada.

5Man In The Sand – Kim Hopkins, 1999

Man In The Sand é um documentário sobre a realização de Mermaid Avenue – álbum em dois volumes de Billy Bragg e Wilco, a partir de letras inéditas de Woody Guthrie. Mais notável do que o inevitável fetichismo em ver parte do processo escancarada é a maneira como, pelo trabalho de Bragg e da filha de Woody Guthrie, uma figura tão escorregadia quanto Guthrie começa a ganhar contornos pela recuperação de uma memória que não é a dele, mas sim a de quem o busca. Uma memória inventada. Seja pela estória com traços de “h”, narrada por Nora Guthrie (e a câmera colocada na cabine de gravação, expondo o rosto da voz em off, é uma escolha brilhante), ou pela maneira como Billy Bragg monta seu Woody Guthrie a partir dessas canções (a cena em que Bragg comenta “Ingrid Bergman” em um show, por exemplo), o filme de Kim Hopkins equilibra-se nessa busca fadada à incompletude, nessa necessidade de se criar Guthries particulares, pois o Woody Guthrie de Woody Guthrie não está mais ali.

Canções

Especial “Eu fui no show do Josh Rouse”! Fotos tiradas pela Clarissa, da fileira H do Sesc Vila Mariana.

1“Streetlights”

Todos sabíamos que “Winter In The Hamptons” – maior hit de Rouse – seria um momento memorável, por isso reservo estes cinco lugares a canções menos esperadas; às surpresas que todo grande show reserva (pois a noite com a Rouse foi, definitivamente, grande). Sempre achei “Streetlights” uma de suas mais belas canções, afinal, a identificação com um refrão que diz “We can talk about the streetlights” era inevitável – tão próximo que está do meu universo de composição. Como Rouse tem muitas canções, estava preparado para não ouvi-la. Mas se o show deixou uma impressão incontornável a respeito de Rouse é a sua plena consciência de quais são suas melhores canções, e “Streetlights” veio marcada pelo violão de 12 cordas, já próxima ao final da noite. Ao contrário de canções como “Givin’ It Up” – sensivelmente lascada pela falta das cordas – em “Streetlights”, a saída dos violinos gerou uma versão mais crua, mas talvez ainda mais forte, mais orgânica, do que a conhecida em Nashville.

2“Hollywood Bassplayer”

Embora mal possamos ouvir guitarras em seus dois últimos discos, é ela o instrumento que permaneceu nos braços de Rouse pela maior parte da noite. Não espere, porém, ouvir transposições de arranjos para o instrumento, ou sequer ver Josh Rouse mover os dedos pelo braço da guitarra para fazer um solo – os essenciais ficam a cargo de Mike Cruz, que em duas ou três canções abandonaria o teclado para tocar uma segunda guitarra. Em “Hollywood Bassplayer”, a ausência foi tapada por um recurso genial: o agudo solo de guitarra foi “cantado” por toda a banda. “Hollywood Bassplayer” é a melhor canção de Country Mouse, City House, seu mais novo álbum, comentado aqui à época dos Melhores de 2007.

3 “Quiet Town”

Faixa de abertura do impecável Subtítulo, “Quiet Town” é uma canção quase boba, mas que ganhou contornos realmente inesperados em sua versão ao vivo. Seja pelo trabalho de luz durante sua apresentação (nesse momento, apenas um corte amarelo retirava o rosto de Rouse da escuridão do palco) ou pela acentuada dinâmica no momento em que o violão passa a ser acompanhado pelo resto da banda, “Quiet Town” mostrou, ao vivo, uma força que sua versão em estúdio – por melhor que seja – nunca pareceu encontrar.

4“His Majesty Rides”

A organização do SESC é tão competente que chega a alguns absurdos: na entrada do show, havia uma pilha de programas que, além de explicarem quem era Rouse, anunciavam o repertório completo do show. Embora não tenha resistido a uma breve conferida em minhas favoritas, fiquei um pouco chateado de a inevitável olhada estragar as possíveis surpresas da noite. “His Majesty Rides” foi a primeiríssima canção da noite, contrariando a fraca “Pilgrim” (que apareceria, mais tarde, só para eu ter uma canção para, imaginariamente, substituir pelas grandes que ficaram de fora - como "Rise", "My Love Has Gone", "Nothing Gives Me Pleasure", "1972", "Late Night Conversation"...), anunciada como abertura no folheto. E ali passei a agradecer por, embora impecável, a organização do SESC também ter suas falhas.

5“It’s The Nighttime”

Já estava com o nome da canção rodando na boca, percebendo que o show caminhava para o fim e ela ainda não havia aparecido. Pensava que não haveria maneira mais bonita de encerrar noite tão especial do que com canção que dizia “It’s the nighttime, baby, don’t let go on my love”. Antes que pudesse gritar por ela, Rouse assinou embaixo da intuição de que temos cabeças musicais extremamente parecidas, puxando a canção ao violão para encerrar o tempo regulamentar. Ele voltaria ao bis com “Slaveship”, “Sad Eyes” e “Directions”, mas “It’s The Nighttime” foi a canção que me acompanhou até o hotel. Fato digno de nota: ao fazer o check in, após o show, vejo que a Clarissa olhava fixamente para o bar do hotel. Perguntei o que era, e sua resposta foi manter os olhos fixos. Olho pro bar e lá estão Josh Rouse e banda. E eu fui lá agradecer mais uma vez, por tudo, antes de ir dormir.

Faixas tocadas:

de Home - "Directions"

de 1972 - "Come Back", "Love Vibration" e "Slaveship"

de Nashville - "It's The Nighttime", "Winter In The Hamptons", "Streetlights", "Carolina", "Why Won't You Tell Me What" e "Sad Eyes"

de Subtítulo - "Quiet Town", "It Looks Like Love", "Summertime", "His Majesty Rides" e "Givin' It Up"

de Country Mouse, City House - "Sweetie", "Pilgrim" e "Hollywood Bass Player".

quarta-feira, agosto 13, 2008

O susto e o sorriso

Estava lendo o ótimo Calmantes com Champagne (aliás, prometo em breve fazer uma lista apresentando mais detalhadamente as leituras recomendadas aí ao lado) quando, em meio a um post sobre o fim de uma banda que não conheço, dou de cara com a bomba:

"Então vamos parar com esse lenga lenga porque a vida segue em frente e, sexta, em São Paulo, tem show do graaaande Josh Rouse (que eu saiba, ainda tem ingressos)..."

Senti o coração parar por um ou dois minutos, me perguntando como uma notícia feita para mim (até poucos meses atrás, Josh Rouse era o meu número um no Last.fm. Hoje, ele só perde para o Bruce - o que não deveria sequer ser considerado uma derrota) poderia ter me escapado por todo esse tempo. Descobri que o show fora confirmado quando eu ainda estava fora, e que, além desta data em SP, Rouse só faria uma outra apresentação no Brasil, no MADA. E olha que, no estrangeiro, sempre dava uma olhada no Lúcio Ribeiro, para confirmar que o mundo aqui continuava muito mais caído do que o mundo de lá. Mesmo assim, nem uma nota, sequer, sobre a surpreendente passagem de Rouse pelo Brasil.

Depois de uma hora de tremedeira e dedos correndo pelos teclados (do computador e do telefone), estou com as confirmações de uma passagem da Gol (que o vôo não atrase, Clarissa, que eu já tô chegando!) e dois pares de ingresso na última fila do mezanino do Vila Mariana. Faço esse post como símbolo de meu agradecimento ao Marcelo Costa (dono dos calmantes), e como gesto de generosidade para outros possíveis fãs desavisados que, como eu, ainda podem descobrir que depois de amanhã, a última fila do mezanino do Sesc da Vila Mariana será o lugar mais feliz do mundo.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Contrabando de formigas

Tentei escrever um poema quando uma formiga atravessou o papel em branco. Nada escrevi, posto que o misterio da natureza por ali havia passado. (Mário Quintana).

1. Magic Kingdom

- Have you found what you were looking for? - perguntou-me um brooklyniano gente boa, depois de me ver passar um ou dois minutos com meus olhos colados no mapa do Prospect Park.

Ele tinha longos cabelos grisalhos presos em um rabo-de-cavalo, parecia ter passado as duas últimas horas correndo pelo parque e, como manda a etiqueta nova iorquina, estava louco para encerrar o dia demonstrando seu conhecimento geográfico local.

- Not really – respondi – I’m looking for the bandshell.
- The bandshell? Easiest thing in the world! – disse ele, feito um personagem tipificado em algum esquete do SNL. Como em um carteado de verbo e gesto, abriu à mesa cinco ou seis maneiras diferentes de se chegar à concha acústica do parque, sendo que todas elas poderiam ser resumidas em “escolha um desses caminhos e siga em frente que você chegará lá”. Agradeci e ele me pareceu querer fazer o mesmo.

- Who’s playing tonight?
- Feist.
- Five?

Abri um sorriso (que não fecharia pelo resto da noite) ao lembrar da banda que cantava “Everybody Get Up” e “Keep On Moving”. Pareceu-me uma boa maneira de começar uma nova amizade.

- No, Feist. The canadian singer.

Com o rosto, deixou claro que nunca tinha ouvido aquele nome antes.

- She’s really good - continuei.
- Really? Well, unfortunately, I already have plans for tonight. But have a good show!

Segui pela ciclovia que se espichava ao lado da estrada principal, no sentido contrário dos carros e ciclistas. O asfalto cortava o verde enquanto, às margens, um número descomunal de vaga-lumes acendia um prenúncio de noite que ainda tardaria a cair. Não via vaga-lumes há alguns anos, mas naquela caminhada acreditei ter esgotado os créditos para as próximas duas ou três vidas.

Peguei meu ingresso na tenda da Ticketmaster (“You look scared”, comentou a moça ao ver a foto do meu visto), comprei uma camiseta que dizia (e diz) “The limit to your love” e, imitando todos que não estavam nas filas dos bares ou dos banheiros químicos, sentei-me na grama, como que esperando por um piquenique. Logo, subiu ao palco Juana Molina (“it rhymes with Argentina” – disse ela, ao se apresentar), com um violão, dois teclados e uma quantidade estonteante de pedais. Levantei-me e segui para as fileiras da frente, já que ali se concentravam os poucos pingados afim de ver o show de pé.

Com riffs e ritmos minimalistas, Juana sobrepunha camadas sonoras gravadas on the fly, rodando em loops hipnóticos, em playbacks gravados ao(s) vivo(s olhos da platéia), em performance que talvez seduzisse mais pelo malabarismo de engenhocas do que por sua real musicalidade. Conforme os nativos iam amolecendo com seu sotaque, a organicidade (Indígena? Japonesa? Inca?) da música de Juana se acumulava em um transe crescente, com todo o contágio que o equilibrado empilhamento sonoro de vozes, violões, teclados e sintetizadores almejava promover. Até que o dia resolveu ratificar meu óbvio desejo de Shara, caindo com um extrovertido temporal sobre os corpos que pesavam sobre a grama. Os sentados levantaram-se em direção ao palco, tentando se abrigar sob o resto de teto que protegia da chuva as primeiríssimas fileiras. Seco por levantar-me cedo, mas com algum desejo de me molhar também, permaneci em local marcado pela queda d’água. Juana se foi, com aplausos.

Se o show de abertura embaçara a fronteira sonora entre o vivo e o simulacro, o de Feist mergulharia no mesmo processo, mas em sua natureza visual. Um biombo branco é colocado em frente ao microfone. As luzes se apagam, e apenas um contraluz projeta a sombra do microfone sobre a tela branca. Feist entra no palco pelas laterais, carregando uma lanterna de fazenda na mão e um chapéu meio ridículo na cabeça. A pessoa, vista aqui tantas vezes como imagem, aparece, ali, real. Anda até o outro lado do palco, fingindo procurar algo com sua lanterninha. E pára ao centro, voltando a ser imagem, em silhueta que faz lembrar a capa de The Reminder. Canta, sozinha, que a ajuda já está a caminho. A banda entra em palco, toda de branco, enquanto o biombo é retirado e voltamos a vê-la novamente.

“When I Was A Young Girl”, “Mushaboom” e “My Moon, My Man”. O som é límpido e maravilhosamente baixo. As palavras vêm bater à porta dos lábios, mas o desejo de cantar junto é quase sempre calado pelo medo de que uma voz estrangeira possa quebrar aquela atmosfera tão delicada. Sobre o fundo do palco, duas artistas projetam intervenções plásticas realizadas sobre um retro-projetor. Um vaga-lume ocasional cruza o palco, em apropriado lampejo de espontaneidade. Feist tem gestos afetados o suficiente para seus amantes considerarem adoráveis, e seus detratores, enervantes.

Lembro que, fora 3 ou 4 que eu desconhecia, de Let It Die foram cinco (“Gatekeeper”, “Mushaboom”, “Let It Die”, “When I Was A Young Girl” e “Inside And Out”), e oito de The Reminder (“I Feel It All”, “My Moon, My Man”, “The Water”, “The Limit To Your Love”, “Sea Lion”, “1234”, “Honey, Honey” e “How My Heart Behaves”). Alguns dias depois, veria “Brandy Alexander” na voz do parceiro Ron Sexsmith, em uma memorável noite de voz e violão. Lembro também de, em dado momento, ouvi-la dizer “Sincerity is the new irony, guys”. E de, ironia das ironias, a frase ter realmente soado sincera. E lembro de, após o fim do show (“slow dance the way back home” com “Let It Die”) ter olhado para o palco já vazio e visto, lá em cima, vaga-lumes que acendiam e apagavam e acendiam e apagavam novamente.


Os sentados.


O chapéu e as franjas.


O sorriso sob o óculos familiar, entre o indie cabeçudo e a menina loira de blusa azul.

Fotos: Brooklyn Vegan

segunda-feira, junho 30, 2008

Start spreading the news

A próxima quinta-feira marcará não só o início de um mês longe de todas as atividades que convencionei chamar de vida, mas também o mergulho na vontade de torrar todo o dinheiro guardado nesse último ano, rachando Julho entre Nova York e Los Angeles. Será meu primeiro ano com dois verões desde 1997, e a primeira viagem dedicada quase que exclusivamente ao rock. Estarei muito provavelmente afastado do blog durante todo o mês (a não ser que parar pra postar qualquer coisa pareça, por algum motivo, mais interessante do que desbravar mais um canto em uma cidade onde estarei ridiculamente feliz por estar), com visitas ocasionais à caixa de emails quando a abstinência se tornar insuportável. Prometo não trazer nenhum cd, um ou outro dvd que pareça realmente inalcançável por qualquer outro meio, e alguns cartões de memórias lotados de fotos que – um dia, quem sabe – podem parar em um Flicker da vida (para, pouco depois, virarem propaganda de um curso de música no interior de São Paulo).

Usem o espaço de comentários para recomendações de lugares que devo visitar, amigos de amigos que mereçam uma ligação, marcas de cerveja que eu não posso deixar de experimentar, ou qualquer outra coisa que confirme minha viagem de férias como um convite ainda mais sedutor, e que a volta sirva apenas para catar a Clarissa pelo braço, depois de vender meu corpo na loteria do Green Card.

Encontros roqueiros já agendados:

· Feist – top de 2007 com The Reminder, vice-musa da casa, e ausência sentida desde o perdidão no Tim Festival.

· Lucero – top de 2006, meia dúzia de belos discos e dois shows à $15, no meio da semana. Vou acabar vendo os dois.

· The Hold Steady – medalha de prata em 2006, com um belo disco novo já espalhado na rede. Não é tão bom quanto o álbum anterior, mas a soma dos hits de ambos rende, certamente, os melhores setlists possíveis na carreira da banda até hoje.

· Smoking Popes – quarteto de Chicago que parece capturar o Morrissey no momento em que seu desejo por se tornar um cantor de country se tornou incontornável, só que com uma banda punk de apoio. Lançaram dois discos lindos antes de acabarem (Born To Quit e Destination Failure), e, após uma tour de reunião, estão lançando um terceiro.

· Stone Temple Pilots – se o Scott Weiland de fato aparecer, tem tudo pra ser histórico.

· Jimmy Eat World – uma das poucas bandas da adolescência capaz de ainda sustentar meu interesse. Chase This Light, o último disco, não é nenhum Bleed American, mas é bem mais legal que Futures, o anterior. O show deve ser uma overdose de hits. Diversão garantida.

· Spoon – somando as favoritas de todos os discos, eles podem fazer um puta show. Se forem no sentido contrário, pode ser um saco. Reza a lenda que a banda não é boa ao vivo, mas eu vou me divertir mesmo se for muito ruim.

· Hot Water Music – vai ser ainda mais fera por proporcionar um encontro com vários amigos da west coast, em Philadelphia. Prometo não medir esforços pra tirar um foto ao lado da estátua do Rocky.

· Breeders – não fui vê-los no primeiro Curitiba Pop Festival porque, na época, Curitiba me parecia tão distante quanto Nova York. Eles fazem dois shows grátis em um mesmo fim de semana, mas o primeiro bate com a viagem a Philadelphia. O único disco deles que eu realmente gosto é o Last Splash, então o show pode acabar sendo um fiasco (um fiasco grátis, é bom lembrar). Ainda assim, poucas possibilidades me parecem tão imperdíveis quanto ouvir “Divine Hammer”, “Driving on 9” ou “Cannonball” em uma tarde de verão em Nova York.

· The Loved Ones – projeto atual de um ex-Kid Dynamite, seguramente a melhor banda de hardcore dos últimos 20 anos. O primeiro disco deles é bacana, e todos dizem que eu iria adorar o segundo. Eles abrem pro HWM e pro Hold Steady, então devo vê-los duas vezes. De qualquer maneira, é a única banda de abertura que parece digna de menção.

Possíveis adições:

· Alkaline Trio – tenho bastante vontade de vê-los ao vivo, mas os dois shows que batem na minha agenda já estão esgotados. Caso a Ticketmaster coloque outro lote à venda, ou eu consiga comprar um ingresso por um preço razoável, entram pra lista.

· Mighty Mighty Bosstones - embora eles não lancem um disco bom desde o essencial Let’s Face It, é um show que eu tenho muita vontade de ver. Ainda não comprei ingresso, mas eles tocam em Nova Jersey, no mesmo dia dos Breeders em NY, com os Dropkick Murphys – banda que me dá medo, mas que o Bruce gosta. Se a logística não parecer inviável, vai rolar.

· Vaselines – tocam duas vezes em Nova York. Nem sabia que a banda tinha voltado à ativa, e sei menos ainda o que esperar desses shows.

· St. Vincent – Marry Me é um disco bem interessante, e a moça faz um show grátis no mesmo dia do Vaselines. Tem tudo para virar um belo programa duplo.
.
· Brian Wilson – o ingresso é caríssimo ($125 o mais barato) e tenho quase certeza que sua atual presença seria mais fonte de depressão do que de saudável lembrança dos anos passados. É verdade que acho o sujeito um dos maiores gênios da história da música pop, mas é mais verdade ainda que aquele gênio muito pouco tem a ver com o homem que estará no palco, soterrando por uma monstruosa banda de apoio.

· Chuck Raggan – show solo de um dos vocalistas do Hot Water Music. Não sei. Mesmo.

· Bloc Party – não conheço bem, mas eles fazem dois shows em noites vazias em LA. Se alguém pilhar, acabo vendo.

· Less Than Jake / Goldfinger – esse aí só será levado em consideração se a insanidade das férias chegar a um nível tal que, no aconchego do meu apartamento, me é inconcebível. Já vi o LTJ aqui no Rio, e o Goldfinger não lança nada que preste há uns 10 anos. Se eles fossem tocar toda a primeira metade do Hang Ups, eu iria na hora, mesmo que só por consideração à adolescência. Como a chance de isso rolar é ínfima, a chance de eu ir não é nada maior.

Fora isso tem um show grátis do Sonic Youth (mas com reservas já esgotadas) no dia em que eu chego, Beach Boys (quem serão?), Zombies (e esses, então?), Shelby Lynne no mesmo dia do STP, Bob Mould, Bruce e Against Me! chegando a Nova York depois de minha partida, Wilco em Agosto, e o desejo de que as férias e o dinheiro durassem só um pouco mais.

* * *

Driving Music

Meus mais sinceros agradecimentos a todos que apareceram no primeiro show do Driving Music, na adorável cidade de Juiz de Fora. A experiência não foi traumática o suficiente para sufocar o desejo de repeti-la, e estou tentando marcar uma edição carioca para a minha volta de férias. As músicas tocadas no show estão na comunidade do Driving Music no Orkut – em tópico que já rendeu comentários, err, interessantes.

* * *

Cinética

Revista atualizada com textos meus sobre Fim dos Tempos – mais um belíssimo filme de M. Night Shyamalan – e a simpática surpresa Quando Estou Amando, de Xavier Giannoli.

quarta-feira, junho 18, 2008

Primeiro show do Driving Music


Há muito venho considerando uma volta aos palcos. Lá se vão dois anos e um par de meses do último show do Invisibles e, embora as gravações do Driving Music tenham sido extremamente gratificantes, a vontade de encarar pessoas mais ou menos estranhas por meia hora e cantar um punhado de canções para elas vinha crescendo com o tempo. Até que rolou o convite para tocar na festa de lançamento da revista S+S+A, na adorável cidade de Juiz de Fora. De todas as paradas que o Invisibles fez por aí, foi sempre em Juiz de Fora que encontramos as pessoas mais generosas, os sorrisos mais abertos. Para completar, depois descobri que as irmãs da Clarissa já moraram na casa onde hoje funciona o lugar do show. Tamanho encontro de a favores foi fazendo o convite parecer cada vez mais irrecusável, então cá estamos: o primeiro show do Driving Music acontece por lá no próximo sábado, dia 21.

A indagação natural vem logo em seguida: como fazer show se eu sequer tenho uma banda? Bom, de fato, banda eu não tenho. Mas tenho um violão, dois dedos de piadas guardadas no bolso e uma inabalável cara de pau. Farei um set de aproximadamente meia hora, tocando versões acústicas de canções do Driving Music, algumas do Invisibles, e uma ou outra cover para temperar o ambiente. Tem tudo pra ser uma noite divertida. Na pior, o clima da cidade é ótimo e a cerveja é barata. Se eu não conseguir fazer nada para ajudar, essas duas coisas sustentam qualquer noite boa no meu caderninho. É isso. Seria um prazer inenarrável tê-los por lá.

Serviço:

No próximo sábado, venha prestigiar a festa de lançamento da revista S+S+A!

Quando: 21/06/08 - às 23hs.
Onde: Café Acústico, Av. dos Andradas, 197 - 2°piso - Centro.
Juiz de Fora - MG
Entrada + Revista: 10 reais [com flyer, 7!]

Cervejas Brahma/Skol 600ml à 3,50. ;)

Driving Music [Acústico] +
Dj's Monster Family: Danni Boy, Monstro e Claire. [Soul/Funk Rockabilly/Ska Rock'n'Roll]

sexta-feira, março 07, 2008

Noite de sábado



Yeah!

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Sobre sábado

Por mais que eu seja pagante dos mais dedicados, nunca realmente cogitei ir ao show do Police. Em primeiro lugar porque, com exceção de uma meia-dúzia de canções, não acho a banda lá grande coisa. Em segundo, porque qualquer show que burle meu código de sobrevivência em primeiras filas cobrando mais caro pelo privilégio das áreas vips não vai ver meu dinheiro. E em terceiro – e mais importante – porque toda vez que ouço uma gravação de rock brasileiro feita dos anos 80 pra cá e me irrito com os timbres magros e com aquele sonzico de Fender ensopado de reverb, não consigo afastar a suspeita de que, de alguma forma, o Sting está por trás disso tudo.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Prova irrefutável

De que toda mulher é escrota e todo homem é babaca.

terça-feira, setembro 11, 2007

Top 5 da semana (passada)

01 -
"NOVAS DIVAS
KATIA B * CIBELLE
FEIST * CAT POWER
AND DIRTY DELTA BLUES
MARINA DA GLORIA
SEXTA 22:30 26-OUY-07" - Texto do ingresso pro Tim Festival que repousa em minha gaveta.

02 - "Hey, every other hour I pass that house where you told me that you had to go, I wonder if the landlord has fixed the crack that I stared at, instead of staring back at you" - trecho de "Civil Twilight", do Weakerthans

03 -
"Não tenho muito tempo. Tenho medo de ser um só. Tenho medo de ser só um... alguém pra se lembrar" - trecho de "Canção pra você viver mais", do Pato Fu, ainda hoje coisa das mais bonitas de se ouvir ao vivo.

04 -
"Acho que eles devem ter mexido no final, porque no dvd o filme termina sem final. Ele termina como se a estória pudesse continuar. E no cinema brasileiro não tem isso, né? Quando o filme termina, ele termina mesmo." - Restauração livre da epifania do motorista de taxi pós-show do Pato Fu sobre "Tropa de Elite".

05 -
"Let's take a map across your pillow and breathe the sky in through your window. I'll stay in the riddle and watch your books cave in" - Trecho de "A Magazine Called Sunset", uma das melhores canções do Wilco.

domingo, setembro 09, 2007

O mesmo ar



Deixando uma margem para possíveis exceções apagadas pela seletividade da memória, nunca gostei de discos ao vivo. A maior parte deles sempre pareceu morrer em um limbo entre a eternidade das gravações em estúdio e a instantaneidade insubstituível das apresentações ao vivo. O estúdio é ambiente naturalmente assombrado pela idéia de permanência; o dever de transformar aquele momento no mais representativo possível, pois ele será, de fato, a representação daquela obra. Já o palco não; é o espaço do momento, da partilha. As gravações de shows sempre me pareceram um híbrido fraco das duas pontas; o equívoco de se transformar em definitivo algo que encontra beleza justamente na efemeridade. Em vídeo, esses registros ganham outras camadas. O simulacro permanece simulacro, mas se torna mais rico à medida que incorpora novos elementos (a imagem, a presença, claro, mas também a decupagem, o enquadramento, a montagem). Ainda assim, são raros os vídeos de shows que se tornam extraordinários para além do registro. U2 Go Home: Live from Slane Castle é agradabilíssimo, mas muito mais por registrar um evento extremamente feliz (do setlist à locação) do que por ser um registro criativo desse evento. O dvd de Jeff Tweedy que apareceu em um dos meus tops semanais é o flagrante de um artista extremamente interessante em plena atividade, mas não existe nada em sua maneira de lidar com esse material que torne o registro, em si, também extraordinário. Um vídeo pirata do Face to Face que copiei da falecida Spider permanece, ainda hoje, como um dos melhores shows que já vi – embora tenha sido filmado com uma câmera VHS, frontal, que às vezes ainda arriscava com texturas e efeitos duvidosos, feitos na própria câmera. Já filmes como Don't Look Back (de D.A. Pennebaker) ou Gimme Shelter (dos irmãos Maysles) são obras-primas em seus registros, mas parecem transitar com maior conforto nas filmografias de seus realizadores do que entre as obras musicais de seus protagonistas (Gimme Shelter ou Cocksucker Blues, de Robert Frank, foram, vale lembrar, prontamente enxotados pelos Stones de sua história).

Não seria descabido dizer que o Guster é a melhor banda pop em atividade. Enquanto nomes como Teenage Fanclub ou mesmo Belle & Sebastian deixam impressos em cada acorde seus esforços em alcançar o pop perfeito (muitas vezes – façamos justiça – alcançado), o Guster consegue, por vias muito menos referenciais, realiza-lo sem nunca lascar o acabamento. Em álbuns como Lost And Gone Forever e, principalmente, a obra-prima Keep It Together, o Guster alcança a perfeição inúmeras vezes, mas sempre parecendo chegar lá quase que por acidente. Não sei se o segredo está na formação pouco ortodoxa da banda (até Keep It Together o Guster nunca havia gravado uma faixa com bateria tradicional – substituída sempre pelo kit de percussão de Brian Rosenworcel) ou na falta de referências diretas das composições de Ryan Miller e Adam Gardner (sim, até pensamos em Big Star ou Violent Femmes, mas nunca com a intensidade que as influências afloram no Teenage Fanclub ou no Belle & Sebastian – para ficar nas bandas já citadas), mas o que parece fazer do Guster uma banda extraordinária é justamente sua capacidade de universalidade. Suas canções não são destinadas a nenhum público especial; estão aí para quem quiser ouvi-las. E quando uma banda consegue aperfeiçoar sua proposta no cume absoluto que é Keep It Together (sem dúvida um dos melhores discos da última década), só resta registrar esse momento especial de todas as maneiras imagináveis.

Guster On Ice é o primeiro registro ao vivo da banda. Gravados em Portland, Maine, os primeiros shows (duas noites consecutivas) em que o trio se torna oficialmente um quarteto (com a entrada de Joe Pisapia – até então presente como músico de apoio) foram lançados em um cd, que trazia como suposto bônus um registro em dvd dessas mesmas noites. E, embora eu até hoje não tenha tido interesse em ouvir o cd, o vídeo dirigido pelo talentoso fotógrafo Danny Clinch reina, soberano, sobre todos os outros dvds de música que já se hospedaram em meu player.

O que faz de Guster On Ice especial é uma idéia anterior à realização do vídeo em si. O registro proposto por Clinch se destaca de toda a pasteurização corrente, gerada por anos de padrão Mtv, justamente por perceber o que faz de um show uma experiência especial: a possibilidade do encontro. É claro que estamos todos lá para ver a banda, mas a percepção de Clinch é a de que, independente disso, um show é algo muito maior que uma banda no palco. On Ice começa com um passeio de carro. Ao lado de um fã, deslizamos pelas ruas nevadas de Portland enquanto ouvimos “Careful” – uma das melhores canções da banda – no rádio. Corte para o Guster tocando a mesma canção, no que parece ser uma performance rápida em uma loja de discos (ou seria a apresentação que ouvimos no estúdio de rádio?). E, entre relatos locais do dia em que Elvis tocou no mesmo teatro que abrigará o show e o aquecimento vocal da banda no backstage, o dia se torna noite, e a fila de fãs à porta do teatro começa a aumentar. Uma rádio local entrevista fãs que declaram seu amor pelo Guster, enquanto um outro saca o violão e, ali na fila, puxa a introdução de “Fa fa”. Corte para a banda iniciando o show em raccord da mesma música tocada pelo fã do lado de fora.

Esse prólogo parece condensar tudo que guiará o interesse de Danny Clinch pela próxima hora e meia: o momento (pré e pós incluídos) em que todas aquelas pessoas – banda, platéia, roadies, câmeras – respiram um mesmo ar e vivenciam um encontro. Não à toa, Clinch não hesita em cortar da banda para um casal que se beija na platéia, para pessoas que cantam e outras que não sabem as letras, para os cartazes levados pelos fãs e a réplica de Adam Gardner pedindo para que os cartazes sejam abaixados, para que as pessoas que estiverem atrás também possam ver o show. A multiplicidade de experiências que marca Guster On Ice – assumindo que, para banda e platéia, o show é apenas uma parte de várias noites individuais, construídas por cada uma daquelas pessoas – é visualmente realçada pela variedade de texturas de captação (que vão de micro câmeras de vídeo a variadas bitolas de película). E, se Clinch realmente acredita no show como parte, e não integralidadade, daquela noite, nada mais justo que acompanhemos a banda no backstage, nas ensolaradas caminhadas pelas ruas da cidade, na passagem de som (e o corte do ensaio de “So long” para sua execução no show é especialmente ilustrativo), na repetição das músicas (“Careful”, que abriu o vídeo, reaparece em sua versão noturna pouco antes do final) no whisky com gelo (para aliviar as mãos do percussionista) após o show. Curiosa também a capacidade do vídeo de gerar perguntas no espectador: como a banda soa tão cheia com tão poucos instrumentos? De onde sai o som do baixo em “I Spy”? O som de bateria de “Careful” é, na verdade, percussão?

Musicalmente, On Ice acaba gerando um paradoxo interessante: embora valorize o instante qualquer em sua noite, escolhe aquilo que poderíamos chamar do instante pregnante da carreira da banda (e, como Clinch é fotógrafo fixo de ofício, o paralelo com Cartier-Bresson se torna inevitável). A profusão de canções de Keep It Together entre os hits incontestáveis de Lost And Gone Forever (basta lembrar das versões gloriosas de “I Spy” ou “Happier”) fixa a banda em seu melhor momento, que só seria confirmado pelo anticlimático álbum seguinte (o correto, mas pouco inspirado Gangin’ Up On The Sun). E, se o híbrido que questionei no primeiro parágrafo retorna para fechar o texto, é porque Danny Clinch compreende o meio que está carregando sua obra como poucos outros diretores já o fizeram. Em vez de contraria-lo, usa-o a seu favor. O registro de shows é sim o parodoxo do eterno e do instante, e ignorar esse instante apenas gera um eterno incompleto. Em Guster On Ice, Danny Clinch compreende o lado orgânico dos shows que os agressivos braços esticados com celulares e máquinas digitais insistem ofuscar. E, com esse pequeno deslocamento, assina uma obra-prima justamente ao assumir a instabilidade do terreno; ao se jogar na areia movediça onde todos seus outros pares parecem morrer tentando sair.

domingo, agosto 26, 2007

Top 5 da semana

01
- Vou pra casa (Je rentre à la maison) - Manoel de Oliveira
02 - Reunion Tour - The Weakerthans (álbum)
03 - Sunken Treasure: Live in the Pacific Northwest - dvd de Jeff Tweedy dirigido por Christoph Green e Brendan Canty.
04 - The Picture - Son Volt (canção)
05 - Daqui pro futuro - Pato Fu (álbum)

sexta-feira, julho 27, 2007

Tell me that you love me more

1- Há algum tempo venho ensaiando uma volta à rotina deste blog. Terminei as gravações há cerca de um mês, mas estava esperando o site de minha nova banda ficar pronto para sincronizar um retorno completo e triunfal. Como sempre falho em triunfar, desisti de esperar e cá estou. As músicas permanecem escondidas por mais alguns dias, enquanto providencio a casa mais confortável possível para elas. Esse blog, porém, retorna hoje às atualizações (quase) freqüentes. Espero que esse tempo tenha servido para todos desenjoarem de mim.

2- Antes do GNT voltar sua programação para o público feminino, o canal exibia um documentário quadradão, mas ainda assim bem interessante, sobre os Beach Boys chamado "Endless Harmony". Já bem no finalzinho, Brian Wilson dizia que certas canções pareciam ter a capacidade de transmitir incondicional alegria ao mundo. Segundo ele, Paul McCartney teria alcançado isso com "Let it be", e os Beach Boys podiam se orgulhar desse feito com "Surfer girl".

Os ingleses do Magic Numbers não escreveram “Let it be” ou “Surfer girl”, e certamente não estão na mesma liga dos gênios acima (deveriam estar?). Mas na noite de anteontem, enquanto assistia ao show deles no Circo Voador, era tomado pela certeza de estar vendo uma banda que busca, canção após canção, transmitir a tal alegria incondicional definida de Brian Wilson. Se as fantasias e os confetes fazem do show do Flaming Lips uma inesquecível celebração de sorrisos, os Magic Numbers transmitem sensação muito semelhante (e tão intensa quanto) confiando apenas em sua música. No palco, os irmãos Stodart & Gannon transformam-se em pãezinhos cantores, e as simpáticas canções da banda tornam-se mais memoráveis a cada compasso. Se em disco a banda oscila entre belas melodias e momentos que beiram o asceticismo, é ao vivo que os vocais quase transparentes de Romeo e Angela ganham força real, as canções assumem seus devidos traços, e a baixista Michele Stodart prova ser das personagens mais interessantes de se ver em um palco na atualidade (não só por - como havia me alertado o Melvin - pilotar o instrumento com impressionante ousadia, mas também pela desinibida presença de palco que confere uma graça a mais à simpatia latente da banda).

Embora 2007 esteja muito longe de nos brindar com um calendário de shows tão marcante quanto o de 2005, a vinda dos Magic Numbers foi uma agradabilíssima surpresa. Curioso como uma banda que nunca tomei como mais que simpática tenha a capacidade de girar a chave certa, e me lembrar porque um dia decidi dedicar minha vida a ouvir e fazer música.

3- Assim como nos shows, 2007 não tem sido ano dos mais impressionantes no calendário cinematográfico carioca. Resta-nos celebrar a quase obra-prima "Medos privados em lugares públicos" (Coeurs), do veterano Alain Resnais, em cartaz nos cinemas do Rio. Em um filme leve, mas extremamente triste, o diretor constrói uma mise en scène das barreiras inevitáveis que, apesar dos encontros, separam as pessoas (marcado pelo belo recurso estético das cortinas e dos vidros que contornam a direção de arte, permitindo que as personagens se vejam, mas nunca se relacionem diretamente). Impressionante como Resnais parece atingir com esse filme um equilíbrio entre a abstração de suas obras mais célebres (o cinema do sujeito de "Hiroshima Mon Amour" – considerado por muitos o primeiro filme do cinema moderno – e o radicalismo temporal de "O ano passado em Marienbad") com a leveza cotidiana já indicada em “Amores parisienses”, seu último trabalho lançado no Brasil.

4- Se você sempre se interessou pelas canções que habitam as páginas deste blog, mas estava com preguiça de procura-las na internet, seus problemas acabaram! Basta ir à Casa da Matriz no próximo domingo (dia 29), onde estarei discotecando na pista 2 da festa Sundae Tracks, que encerra sua magnífica temporada de inverno. Na pista 1, show da banda Phone Trio e DJ Lins Valley cobrindo férias do Melvin. A festa começa às 23hs e vai até o sol raiar. Até meia-noite, promoção de duas caipirinhas pelo preço de uma (esbórnia garantida), e entrada por 10 R$ pra quem tiver com o nome na lista amiga. Se quiser tomar parte na bocada, é só deixar o nome completo nos comentários desse post até o meio-dia de domingo. Vai ser rock.

sábado, abril 14, 2007

Por uma vida menos mediada

The tyranny of framing our attention with all the eyes their eyes no longer see. (The Weakerthans)

Meio dia atrás, quatro ou cinco pessoas me separavam da fisicalidade de meu passado. Dividia meu suor com desconhecidos, tentando chegar um pouco mais perto da imagem presente de ícones de minha formação. Aprendi o que é rock com o Guns’n’Roses. Quando tinha nove anos de idade descobri o Appetite for Destruction, dando o segundo passo em direção à vida que tenho hoje, em caminhada que começou com “Patience”, no post passado. Comprava toda e qualquer revista que trazia matérias sobre o Guns, abrindo a porta do jornalismo musical que, por caminhos maravilhosamente impensáveis, me desembocou na dosagem de ego semanal deste blog. Deixei de participar de uma noite de fondue que meus pais fizeram, quando era garoto, para ficar na sala vendo o tributo a Freddie Mercury. Eu adorava fondue. O Axl cantou “We will rock you” e fez uma ponta inesquecível em “Bohemian rhapsody”, e o Guns’n’Roses como eu conhecia subiu ao palco em uma performance memorável de “Knockin’ on heaven’s doors”. Foi, também, a primeira vez que me lembro de ter visto Gilby Clarke, integrante mais insignificante da história da banda (mas que seria razão principal para, no ano passado, eu ter começado a ver “Rock Star Supernova”, no People & Arts). Pouco tempo depois escrevi a única carta que já mandei à Mtv, praquele CepMtv, pedindo que eles passassem a tal apresentação. Recebi uma carta de desculpas da emissora, pois eles não tinham os direitos de exibição da performance dos meus sonhos. Embora aquele pedaço de show tenha se tornado clipe mais votado no “Top 10 Europa”, a MtvBrasil não podia exibir o clipe em sua programação normal, pois os direitos – como hoje percebo – estavam na mão da Rede Bandeirantes. A mesma Bandeirantes que passou o insuperável show de Paris, e um encontro mal situado na memória de Slash com Lenny Kravitz (segundo a narradora, amigos desde a época do colégio).

Meio dia atrás, porém, estava diante da coisa em si. Adeus anos de mediação e simulacros; à minha frente estava o homem que me fez, um dia, querer chegar perto de uma guitarra. Slash parece ter sido conservado pela memória de seus fãs; sua imagem atual é quase idêntica à que temos, todos, na memória. Na quarta fila do Citibank Hall, eu tinha a chance de olha-lo, literalmente, nos olhos. À minha volta, porém, dezenas de supostos fãs acidentavam o trajeto da visão com mãos em riste, empunhando máquinas fotográficas digitais e telefones celulares. Espremiam-se para chegar mais perto, mas buscavam território apenas para conseguir um melhor enquadramento. Tiravam, todos, fotos essencialmente iguais; mas pareciam acreditar que a autoria do registro valia mais que o momento perdido, a vida que os olhos deixaram de ver enquanto estavam fixos no LCD da câmera. Em devaneio de desejo, empunhava, eu, um taco de beisebol e, com gritos espartanos, quebrava os pulsos, um a um, de todos que insistiam mediar meu contato visual com o passado. Por longos anos, minha relação com essa memória foi conduzida por simulacros. E quando tenho a chance, muitas vezes impensável, de ter um encontro físico com minha trajetória de vida, duas dúzias de aparelhos eletrônicos insistem em tornar essa troca direta em contato novamente mediado.

Sou grande entusiasta tecnológico. Acho magnífico que, a partir de determinado momento, todos os show do Invisibles tenham sido registrados, anonimamente, de alguma forma. Acho a democratização do autor tão bacana que, ora bolas, tenho meu próprio blog. O porém só se torna necessário quando a possibilidade de registro permitida pela tecnologia passa a substituir a vida. O registro tem como função imortalizar um encontro real. Sempre será, porém, simulacro de algo que passou, que não voltará, e cuja essência não é (e tendo a acreditar que, a despeito de todas as impensáveis tecnologias que o futuro nos trará, nunca será) transferida ao simulacro. O incômodo da substituição do encontro pelo simulacro vem justamente do sentimento de que esse registro é legitimado pela autoria. Mais importante do que estar presente é ter as fotos que você mesmo pôde bater como prova de sua presença (se estiver perto, melhor ainda). E aí surgem fenômenos tresloucados como o enquadramento fotologueano de uma mão tirando uma foto de um show, em uma versão moderna da piada do “Mad about you” em que o personagem de Paul Reiser dirigia o making of do making of do “Titanic”. A falta de etiqueta faz o simulacro ser mais importante do que o mundo.

Duas semanas atrás, fui ver a bela apresentação do Evens na AudioRebel. Como disse o vocalista da banda, show que começava no palco, mas terminava na última pessoa presente na casa, que compartilhava aquele frágil momento com Ian Mackaye e Amy Farina. A delicada atmosfera criada por banda e público, que conseguia fazer do calor e aperto da Rebel um ambiente agradável, era ferida pelo flash irritantemente constante de alguém que queria registrar o show inteiro em sua máquina digital. Após a primeira ou segunda música, Ian Mackaye perguntou diretamente à pessoa se não existia uma maneira de se fazer a gravação sem que o insistente flash ficasse ligado o tempo todo. Corte seco para fevereiro do ano passado, e o momento em que uma das garotas escolhidas por Bono para subir ao palco do U2 teve sua tentativa de registro com a câmera de seu telefone celular impedida pelo próprio vocalista. Você paga caro para ir ao show do U2, tem a sorte de ser puxada para o palco pela estrela principal da noite e, em vez de aproveitar seu momento, perde tempo sacando o celular para tirar sua própria foto. No dia seguinte, fotos diferentes daquele mesmo momento ilustravam reportagens em todo tipo de mídia sobre o show. O registro, portanto, seria feito. A garota escolhida pelo vocalista do U2 era tomada pela insana necessidade de ter o registro do seu ponto de vista, mesmo que isso fragmentasse a experiência real. Se Bono, artista que encoraja que as pessoas levantem seus celulares durante o show, achou que a moça tinha passado dos limites, é porque as intenções andam por caminhos errados.

O encontro que caracteriza todo show vem sendo sacrificado pelo seu registro. O simulacro, que sempre serviu para encurtar a distância entre mundos, é agora ferramenta que cria abismos entre pessoas que respiram um mesmo ar. Lembro de como sempre foi difícil enxergar os olhos de Slash nas fotografias. O cabelo no rosto, os óculos escuros e a cartola - cuja sombra fazia a função dos óculos quando os olhos estavam descobertos - impediam que a luz penetrasse nas concavidades de seu rosto. Ontem, quando conseguia olhar por entre os braços levantados – pilares de deselegante inconveniência – minhas lembranças ganhavam feições no presente. Feições fluidas que contrariam a própria noção de enquadramento. Afeto que não cabe em um LCD. Nesses instantes iluminados, ver o Velvet Revolver de tão perto foi um tributo à minha existência. Pude, enfim, olhar meu passado nos olhos, enxergar os detalhes que estão fora do alcance do filme (ou da imagem eletrônica). E, enquanto olhava o presente construído pelas pessoas ao meu lado, fiquei em paz com o pensamento de que aquela caminhada começada com “Patience” não tem sido tão ruim assim.