domingo, fevereiro 15, 2009
Postado por Fábio Andrade às 4:28 PM
2008 em 10 discos
10 – The Killers – Day & Age
Mais uma vez, começo minha lista de melhores com uma moderada decepção. Mas como poderia, eu, falar dos discos do ano sem passar pelo insolúvel quebra-cabeça de cinco peças que é Day & Age, terceiro álbum dos Killers? Pois, considerando os excessos (já que excluí-los seria matar a banda), quantas bandas recentes foram tão bem sucedidas usando como mote criativo a esquizofrenia completa de idades e influências, criando um rosto que é, ao mesmo tempo, moderninho e anacrônico; belo e repugnante; vagabundo e glamouroso; másculo e aviadado? Ouvir os discos do Killers é, em diversos momentos, como se aproximar demais de um rosto conservado jovem por sucessivas cirurgias plásticas - às vezes, você só consegue enxergar as cicatrizes.
É plenamente compreensível, portanto, o bloqueio de fãs de música bastante dedicados diante do Killers, pois a aproximação com a banda atravessa essa espinhosa parede de referências trabalhadas em chaves que as desmentem, muitas vezes neutralizando o exato valor que a banda foi buscar ali. Em Hot Fuss, o bonde do rock de garagem era projetado contra as bolas de espelho já enferrujadas dos anos 80, desnudando a nova pose de rebeldia em uma penteadeira de sintetizadores. Em Sam’s Town, a banda transformava a motivação épica das grandes bandas de rock de arena (Queen, U2, Bruce Springsteen) em um cabaré bolorento, onde os paetês já não tinham mais brilho algum, e as plumas eram substituídas por rabos de pombos mortos. De certa forma, a nobreza maior dos discos dos Killers está justamente nessa revelação da mágica como espetáculo; do épico como alegoria carnavalesca, mostrando o banquinho de madeira em que precisa subir o frontman para fingir que seus refrões são maiores que a vida. O rock é um espetáculo, mesmo em sua raiz mais espontânea, e o Killers simplesmente não compra o engodo; ao contrário, jogam-no, todo desmontado, no colo do ouvinte (o que faz da participação de Lou Reed em "Tranquilize" - tão polêmica à época - até mais coerente que as de Elton John e Neil Tennant em "Joseph, Better You Than Me").
Day & Age é ainda mais exigente, pois não pretende sequer a ilusão de foco: desde o primeiro momento, somos apresentados a combinações que não se encaixam, influências evocadas em cômodos em que elas não cabem, versos ridiculos entoados como verdades divinas. “Are we human, or are we dancer?”, pergunta Brandon Flowers em “Human”, segunda e melhor faixa de Day & Age. Mas não pergunta, somente; se põe de joelhos, como se a resposta trouxesse solução para os mais secretos mistérios da existência – e faz isso sobre camas de teclados datados, melodia roubada de alguma balada do U2, e batidão pra se entrar correndo em um programa do Celso Portiolli. E, do lado de cá, o ouvinte olha aquela cena um tanto embaraçosa, sem saber exatamente o que fazer com aquilo - dividido entre o riso de deboche e a compaixão que o faz querer andar até o pobre coitado do cantor, e limpar os joelhos de sua calça. Até que o céu se abre e, lá de cima, Deus responde com majestosa impostação: “Dancer”.
É preciso, portanto, se assumir como dançarino, pois o Killers abre a porta para um fim de mundo onde só se caminha em passo marcado. O desafio, para roqueiros emburrados como eu, é esse exercício de soltar a franga, de se deixar levar por essa onda ridícula e, por isso mesmo, maravilhosa. É aprender a cantar banalidades como se sua vida dependesse disso; de acessar o armário de influências sem um mínimo de organização ou método, pois é essa a paixão do desvario. É entrar em Las Vegas (terra da banda) e enxergar o cenário de Fundo do Coração. E, como o Harry Haler de O Lobo da Estepe, não só perceber que o mundo é uma venda e é melhor mesmo aprender a rebolar; mas também que estamos em um livro que, apesar de ter sido levado a sério demais desde sempre, nunca deixou de ser raso e vagabundo.
O Killers é esse minúsculo leviatã de cultura pop; essa inofensiva máquina ceifadora de rádios. Daí misturarem, em “Joyride”, funk de branco com percussões de salsa, sax de cassino e um refrão que faz lembrar as melhores coisas do Modest Mouse; ou, em “Spaceman”, começarem com um oh-oh-oh vexaminoso para, depois, culminar em refrão gigantesco, digno das maiores arenas de Springsteen. É um saco onde cabe tudo - da Cinderella white trash de “A Dustland Fairytale”, à lambada Disney de “I Can’t Stay” - que parece se resumir perfeitamente nos primeiros 30 segundos de “This Is Your Life”: abrir com uma paródia dos coros do Queen, cobri-la com um cravo sintetizado e, logo depois, chutar a porta com harmônicos de extraordinário bom gosto, carimbando a canção com a elegância silenciosa das guitarras de The Edge.
É justamente essa colagem de fragmentos que impressiona, pois os extrai de qualquer contexto, isolando-os em sua força (ou falta de) individual. Daí o falsete roubado do Bono funcionar lindamente em “Neon Tiger” (0:48 da canção), e a emulação de Bjork em “Goodnight, Travel Well” parecer tão despropositada. Pois a força da música do Killers nunca esteve no raciocínio sobre as estruturas musicais pop convencionais, mas sim por tratar a canção como a apropriação de pequenas manifestações, de sonoridades que produzem uma emoção que eles tentam, à sua maneira, reproduzir. Nesse sentido, Day & Age é, igualmente, o mais ousado e menos bem sucedido disco da banda, pois se torna inteiro justamente em sua fragmentação indiscriminada e esquizóide. É o retrato fascinante e imperfeito de uma banda que busca, com afinco cada vez maior, se tornar uma paródia de si mesmo.
For Dummies
Álbuns do Killers recomendados em ordem de interesse
Sam’s Town, 2006
Hot Fuss, 2004
Day & Age, 2008 (Download)
quarta-feira, dezembro 10, 2008
Postado por Fábio Andrade às 4:22 PM
Status Update
Day & Age, novo disco do Killers, é bom pra caralho.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Postado por Fábio Andrade às 5:09 PM
Melhores de 2006 - Discos 
09 – The Killers – Sam's town
Na América do Norte, o Killers é mais um daqueles casos em que uma banda deixa de ser levada a sério pela crítica mais segmentada pelo excesso de execução pública. Com seu álbum de estréia, Hot Fuss (e, mais especificamente, o hit "Mr. Brightside"), a banda se tornou enormemente popular nos EUA, mas sua música não é distante o suficiente dos mais novos ícones indie para ser abraçada como pop de qualidade pela Pitchfork (caso de Justin Timberlake e Lily Allen, por exemplo). Ao sul do continente, porém, os ecos de tais implicâncias não provocam mais que leves cócegas (motivo pelo qual acredito que Chorão e seu Charlie Brown Jr. ainda serão descobertos como gênios do pop rock em algum canto distante do nosso), e o sempre confiável atraso brasileiro em assimilar as mais novas pragas da indústria (para o bem e o para o mal) nos mantém indiferentes o bastante para receber Sam’s town com moderadas expectativas.
À primeira audição, o segundo disco do Killers parece um quarto extremamente bagunçado de um jovem rapaz que nutre uma secreta paixão por plumas. Apesar da reaparição dos sintetizadores à Duran Duran que garantiram o sucesso do primeiro disco, a idéia de combinar rock clássico com atmosfera de cabaré pé-sujo do segundo parece longe de funcionar. Logo na primeira faixa o disco já faz lembrar o hediondo Kaiser Chiefs, e nenhuma das outras 11 é pronta candidata ao posto de nova "Mr.Brightside" (como no parágrafo anterior, também para o bem e para o mal). O que mais surpreende, porém, é que depois de algumas audições toda essa bagunça começa a fazer um sentido danado, e Sam’s town se revela um disco até mais consistente do que Hot Fuss.
Mais consistente porque em vez de Duran Duran e rock pós-Strokes, temos uma combinação desorientadora de Queen, U2, Bruce Springsteen, David Bowie e Meat Loaf. Sim, o Killers decidiu resgatar o esquecido rock de arena, e nada mais justo que tal resgate seja protagonizado por uma das poucas bandas que enchem arenas na atualidade. Seja pelo quase conceito criado nas simpáticas "Enterlude" e "Exitude", ou pelos coros que tentam levar os refrões aos pés de Vosso Senhor, o Killers quer criar canções maiores do que a vida. E embora a tentativa não seja exatamente bem sucedida, a ingenuidade com que eles se jogam em tal jornada tem momentos de particular beleza. Tanto nas canções mais próximas à essência de Hot Fuss - como "Read my mind" (nova encarnação da melancólica "Smile like you mean it") ou "When you were young" (que regurgita os riffs quase-The Edge que faziam de "All the things that I’ve done" uma canção memorável) - ou em momentos de maior frescor, - a inusitada construção melódica de "For reasons unknown", ou os metais galhofeiros de "Bones" - o Killers transita por territórios extremamente duvidosos com inabalável vitalidade.
Esse excesso de confiança - escancarado no vibratto do desinibido, e apropriadamente batizado, Brandon Flowers - é tão constrangedor quanto comovente, pois Sam’s town não deixa de ser uma seqüência de reapropriações musicais. Se a guitarra de The Edge e os sintetizadores mofados têm influência constante, a atmosfera teatral de Queen e Meat Loaf sustenta canções como "Blig (confessions of a King)" e "Why do I keep counting?", a dramaticidade viril de Bruce Springsteen entoa "My list" e "This river is wild", e o Killers parece reinterpretar todos esses elementos por realmente acreditar em sua força dramática. E isso não é menos que coerente, pois o rock de arena é o espaço onde quem é atração principal não é a banda ou suas canções, mas o espetáculo em si. Em seu segundo disco, o Killers parece incorporar valores tão broadwayanos - ou carnavalescos - e com tamanha consciência, que acaba indo muito mais longe do que qualquer outro filho do mundo pós-Strokes (que, ao contrário do Killers, nunca passou no teste do segundo disco). E quando a derivação é feita às claras, ela deixa de ser entrave e se torna conceito.
Mais do que pela derivação em si, o Killers acerta por buscar boas fontes. Com isso, muitas das intenções aos arredores de Sam’s town acabam sendo, por fim, bem sucedidas. E se todo o glamour decadente que perpassa as 12 faixas do álbum não é propriamente inédito, a releitura feita pela banda é extremamente convidativa. Enquanto Hot Fuss acertava em alguns de seus tiros aleatórios, Sam’s town sabe onde está atirando, e por isso é um disco muito mais coeso. O quarto bagunçado com plumas sob a cama, que estranhamos na primeira faixa, é o mesmo, do início ao fim. A diferença é que em algum momento você embarca na fanfarronice, e ao fim do dia não consegue mais se lembrar qual era mesmo o problema que via nas tais plumas.