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terça-feira, dezembro 15, 2009

Dissonata

Coloquei hoje em prática um plano/desejo antigo e criei um blog de análise e apreciação de canções. O nome é Dissonata e a propsta é essa mesmo: destrinchar canções que me movem/emocionam/intrigam, para o bem ou para o mal, tentando detectar como essas sensações são evocadas dentro da estrutura da canção. Por enquanto tem só o texto de apresentação, mas logo mais pretendo subir o primeiro texto de fato. A idéia é manter um ritmo bem frequente de atualizações, e aos poucos formar uma equipe de redatores pro Dissonata. Sugestões e voluntários são mais que bem vindos. Ah e, claro, ajudem a divulgar.

sexta-feira, novembro 27, 2009

2008 em 10 discos

4- Cut Copy – In Ghost Colours

Em época em que até o mau gosto dos anos 1980 parece em alta novamente – algo que pode ser visto tanto nas cores dos anúncios de uma American Apparel, quanto nas calças à MC Hammer que tomam as ruas da cidade – é fácil subestimar o feito realizado pelo grupo australiano Cut Copy em seu In Ghost Colours. Pois, embora esteja claramente conectado a um sentimento revivalista carnavalesco da década de 1980, In Ghost Colours se faz realmente impressionante por driblar a redução sempre assassina do kitsch, se relacionando com a cultura que lhe interessa com uma frontalidade convicta. Não temos, portanto, a ironia de ponta de língua de um Cansei de Ser Sexy, tampouco o clima cadavérico das festas cariocas que desenterravam Rosana e Sylvinho Blau Blau com traços nojentos de piedade. As referências, aqui, são convivas de uma mesma época; mas elas ganham uma vitalidade inegável justamente por esse diálogo ser direto, frontal e honesto.

In Ghost Colours parece, em diversos sentidos, combinar o que de melhor foi feito na dance music da década de 1980 em único disco. Temos a espinha dorsal mais clara de um New Order, mas apenas para segurar elementos pinçados de outros artistas do gênero: as guitarras lembram Jesus & Mary Chain e até Pixies (“So Haunted” é puro Joey Santiago), as linhas de vocal mais grave ecoam Information Society, a festividade dos tons maiores faz pensar em Erasure, e os teclados são tão marcantes quanto os melhores momentos dos Pet Shop Boys. Não há, portanto, espaço para gracinhas ou terceirizações; aqui, como em Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, o que existe é a restauração dos sentidos de um universo que os aproveitadores sem paixão quase condenaram à insignificância. Mas aqui ele aparece vivo, pulsante e feliz. Em In Ghost Colours, o Cut Copy provoca uma ressurreição.

O milagre é mais impressionante pois não existe, no disco, qualquer tentativa de atualizar as convenções por meio de combinações com convenções mais recentes. Pois se há crença de que aquele corpo vive e respira por si só, não há necessidade alguma de amarrá-lo a aparelhos; basta lhe oferecer combustível para que ele saia novamente às ruas, caminhando com as próprias pernas. O Cut Copy consegue isso fazendo algo que nenhuma das bandas que lhe servem de inspiração mais direta parece ter conseguido, nem mesmo em seus melhores momentos (penso em um Technique, por exemplo): escrever um conjunto irretocável de canções. Pois sobra, aqui, uma percepção bastante simples que fugiu a todas as bandas da época: se o disco é para ser uma festa, é preciso que a avalanche de canções seja ininterrupta. Se não temos a genialidade que gerava “Regret”, “Being Boring” ou “Enjoy The Silence”, também não temos os momentos de auto-indulgência, o fascínio tecnológico com os eletrônicos; ou, mais simplesmente, não temos más canções. In Ghost Colours é de uma consistência rara, impressionante e rigorosamente coerente.

Por conta disso, pinçar faixas que se destacam acaba sendo tarefa bem mais difícil do que se espera. O que sobra ao fim da audição é, sobretudo, o prazer da absoluta fluidez do disco, com seus refrões fortíssimos (“Strangers In The Wind”, “Lights and Music”), a pulsação constante do baixo (“Out There On The Ice”), as melodias solares (“Unforgettable Season”, “Feel The Love”) ou simplesmente a firmeza irresistível das batidas (“Hearts On Fire”). São elementos que, apesar da raiz de referencialidade, empurram o disco sempre pra frente, nunca para trás. É um pouco a percepção de que a música de pista é algo que impulsiona ao movimento pelo simples prazer de se estar em movimento, e que para isso precisa – seja pela aproximação das batidas com o ritmo do coração, ou pela frequência rítmica que coordena também a respiração – se manter realmente próxima do corpo para permencer eficaz.


For Dummies
Álbuns do Cut Copy em ordem de preferência

In Ghost Colours (2008)
Bright Like Neon Love (2004)

sábado, agosto 15, 2009

Iggy Pop


"Single Ladies", de Beyoncé, é o mais próximo que a música pop já chegou de reinventar "Lust For Life".

quinta-feira, julho 09, 2009

Cinema Argentino

É bastante expressivo que o brasileiro Curumin tenha fechado sua apresentação de ontem, no Central Park, com uma versão para "Beat It", do Michael Jackson - e ainda mais gritante que tão pouca gente tenha comprado a adulação. Expressivo, pois sela a minha impressão de que o problema mais grave dessa tal nova música brasileira é a vontade excessiva de agradar. Sua música é bem tocada, com boas referências, e tudo mais; mas é simpática demais, redondinha demais. Com isso, se torna inofensiva, inócua, estéril.

Há, no trabalho de Curumin, uma coordenação clara que agrupa muito da música brasileira que funcionou fora do Brasil (de Jorge Ben ao funk carioca), mas que tira delas o fator de risco que lhes era originalmente revigorante. O mesmo acontece com a relação com a música alternativa contemporânea, do que o sampler de violão é o grito mais alto (por que não tocá-lo ao vivo, se o sampler, em si, nada acrescenta?). É Tim Maia sem peso, samba sem a iminência do descontrole, Karnak feito óbvio (em vez de "O mundo caquinho de vidro" temos "A esperança é a última que morre"), Animal Collective como tocador de playback. Falta uma ponta de algo que, talvez, só seja perfeitamente expresso em inglês: edge. Algo que estava lá até mesmo no pior de Caetano, Chico, João Gilberto, ou nos momentos mais auto-indulgentes dos Hermanos.

O show do Curumin fez lembrar o do Ludov que vi no Curitiba Pop Festival (ano do Pixies), em que a vocalista parecia ter medo de deixar dissipar o sorriso constante, como se toda pessoa na platéia fosse um executivo de gravadora em potencial. E poucas coisas são tão repulsivas quanto o sorriso forçado, a simpatia obrigatória.

Juana Molina, por sua vez, foi exatamente o oposto disso. Dá seu boa noite cheio de doçura (mas sempre meio tímido) em vestido xadrez amarelo, e começa logo a impressionar pela destreza e criatividade com que pilota seus aparatos (dessa vez escorados por dois outros músicas - baixo e bateria). Não é pro meu gosto, mas é sempre bom, instigante e sólido. Vi umas cinco músicas (lembrando que eu já tinha visto seu show no ano passado), mas aí ja era tarde para recompor a pau molência proporcionada por Curumin e o dj El G - que animava os intervalos com overdoses de raggaton (vulgo: o ritmo mais chato do mundo, a não ser pela abertura do Beau Travail).

domingo, junho 28, 2009

2008 em 10 discos

05 - The Hold Steady -
Stay Positive


Ouvir Stay Positive sem um par de headphones é como passar pelo Hold Steady sem se atentar para o que Craig Finn está cantando. Em falantes que não estão grudado aos seus ouvidos, Stay Positive parecerá tanto mais um disco como outros do Hold Steady, quanto o Hold Steady parece uma banda de rock qualquer se não prestamos atenção nos salmos entoados por Finn. "I went to yr schools, I did my detention, but the walls are so gray I couldn't pay attention. I heard yr gospel. It moved me to tears, but I couldn't find the hate and I couldn't find the fear. I met yr savior, I knelt at his feet, and he took my ten bucks, and he went down the street. I tried to believe all the things that you said, but my friends that aren't dying are already dead", canta o monge vadio em "Constructive Summer". Canta sobre Charlemagne, Gideon e Holly; jovens já não tão jovens que se entregam, igualmente, aos prazeres do mundo terreno, e à culpada salvação projetada sobre o céu. Nas letras de Finn, os momentos realmente extraordinários (como o pinçado acima) são os que melhor se sustentam entre essas duas tensões. Questão de equilíbrio; questão de mixagem.

É preciso ouvir
Stay Positive com fones de ouvido, pois a soberba mixagem de John Agnello e Ted Young capta, literalmente, esse tênue espaço pela maneira como é configurado o espectro estéreo. Se as convenções de mixagem - que regem, inclusive, os discos passados do Hold Steady, basta lembrar como se alternam as guitarras em "Chips Ahoy" - normalmente abrem as guitarras cada uma a seu canto (uma na caixa esquerda, outra na direita), aqui, seguir a regra seria como tirar a cruz das letras de Finn. Seria aniquilar justamente o que faz do Hold Steady uma banda única. Daí que é praticamente excluída toda a segunda guitarra (e quem já viu a banda ao vivo sabe que Finn mal encosta em seu instrumento), e o estéreo se abre de maneira mais particular: de um lado, a guitarra certeira de Tad Kubler; do outro, o teclado multiforme de Franz Nicolai. Saturação/pureza; homem/mulher; inferno/céu; um copo de cerveja para o alto, um crucifixo que puxa os joelhos ao chão. Uma cabeça, um coração e dois ouvidos - o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A guitarra sempre altiva ("Lord, I'm Discouraged" deixaria Slash orgulhoso), e o teclado em constante transformação: um cravo solene; um sintetizador esquizofrênico; pianos de Asbury Park, e órgãos de catedrais. Por vezes as coisas fogem do controle, e um riff de guitarra se joga para a outra caixa como um tapa é dado em momentos de pouca clareza; mas logo as palpitações passam, e as coisas voltam para seus devidos lugares.

Se existem particularidades em
Stay Positive que o separam do quase impecável Boys And Girls In America (há mais pecados aqui), são mudanças de produção. Pois Boys And Girls In America marcava o ponto alto da estratégia usada pela banda em todos os seus discos até aquele momento: fazer com que seu andamento se aproximasse o máximo possível de um show, com canções e arranjos por vezes mal acabados que traziam, nessa precariedade, um necessário senso de urgência. Stay Positive já não pensa as canções como fragmentos de um todo, e as trabalha como obras individuais. No caso do Hold Steady, isso produz algumas de suas mais perfeitas jóias ("Sequestered In Memphis", "Constructive Summer", "Magazines" - mesmo com Ben Nichols, do Lucero, soando completamente fora de lugar - "Yeah, Sapphire", "Slapped Actress" e as extraordinárias faixas bônus "Ask Her For Aderall" e "Two-handed Handshake" - duas das melhores canções da banda, presentes apenas na versão em digipak do cd), mas também faixas que giram em certa alto-indulgência ("One For The Cutters", "Both Crosses", alguns momentos de "Navy Sheets" - que tem a seu favor um Drive-by Trucker, e uma ótima letra) e acabam nunca virando coisa alguma.

O que não muda, porém, é a destreza com que Finn constrói um dos universos mais fascinantes e particulares da música atual. Ele aprende com Bruce Springsteen a dedicar o olhar para os
underdogs, mas percebe que o drama hoje não está mais no proletariado, mas sim na potência de apatia dos jovens de classe média. Pois se em "Thunder Road" havia o desejo de sair da cidade para vencer, em "Constructive Summer" há apenas a consciência de que se morrerá nela. Temos o sujeito de meia idade moldado por Joe Strummer, "Youth of Today and the early 7 Seconds"; a garota que é sempre encantadora pela manhã, mas nunca à noite; as canções cantaroladas entre lábios que se beijam; o sangue derramado; os jovens que saem de casa virgens, e voltam vampiros; as suturas e os hematomas; a vida como performance; os garotos que ficam mais novos, e as bandas que soam mais altas (e sabem que nunca se tornarão estrelas); o dinheiro que custa sonhos; os rapazes que mal tentam, e as garotas que em nada ajudam. "I hope you'll still let me kiss you". Corpos que se esbarram e, donos do tempo que preferem ver passar, se entregam intensamente à vida que são capazes de inventar. "I'll be Ben Gazarra, You'll be Gena Rowlads (...) I'll be John Cassavettes, let me know when you're ready".

For Dummies
Álbuns do Hold Steady em ordem de preferência

Boys And Girls In America (2006)
Stay Positive (2008)
Almost Killed Me (2004)
Separation Sunday (2005) 

domingo, maio 31, 2009

2008 em 10 discos

06 - Smoking Popes - Stay Down

Os Smoking Popes surgiram para o mundo, na segunda metade da década de 1990, como mais uma banda de pop punk a ser rapidamente assimilada pelas majors na onda pós-Green Day. Lançaram dois álbuns belíssimos (Born To Quit, de 1995; e o irrepreensível Destination Failure, de 1997); depois partiram para coletâneas de demos (Get Fired; depois relançado com faixas bônus, como 1988-1998) e de covers (The Party's Over) bem menos dignas de atenção e apareceram com músicas em trilhas-sonoras razoavelmente populares (As Patricinhas de Beverly Hills; Angus - O Comilão, filme que teve sua trilha lançada no Brasil, e acabou mais conhecido pelo cd do que por possíveis méritos cinematográficos - nada surpreendente, aliás). Até que Josh Caterer, vocalista e guitarrista da banda, encontrou Deus e, meio como o Rodox, resolveu que só cantaria letras de fé. Josh montou o Duvall para cantar sobre Jesus, banda que praticamente não existiu; Mike Felumlee lançou canções solo e teve uma breve passagem pelo Alkaline Trio; e Eli Caterer tocou com o Colossal. Enquanto isso, os discos dos Popes iam lentamente desaparecendo do catálogo da Capitol. As lembranças da banda apareceriam em um disco tributo, e nas constantes menções de Morrissey, que sempre apontava o quarteto de Chicago como sua banda "nova" favorita.

A história comercial dos Smoking Popes é, portanto, a mesma de diversas outras bandas do período, de Ruth Ruth a Muffs. Mas a história comercial é, também, a que menos importa. Musicalmente, os Popes passaram lamentavelmente por debaixo do radar de boa parte dos ouvidos mais dedicados - embora Destination Failure tenha recebido um nada desprezível 8.8 da Pitchfork - como mais uma entre as inúmeras bandas de pop punk descartadas no período. Uma audição mais atenta, porém, seria suficiente para perceber não só uma abordagem bastante única do gênero (pelo simples fato de Josh Caterer desafiar as paredes de guitarra como um crooner de graves inabaláveis - preferência que ficava ainda mais clara no repertório nada ortodoxo de The Party's Over), mas principalmente uma inquietação aguda diante das convenções melódicas que caracterizaram o punk desde seu nascimento. Por baixo do verniz de simplicidade, as canções de Caterer invariavelmente tomavam os rumos menos prováveis, mudando de tom ou andamento quando já parecíamos ter roubado seu mapa, e buscando menores e diminutos que, em um primeiro momento, pareciam travar a fruição, mas logo depois se mostravam muito mais recompensadores. Enquanto os acomodados engoliam qualquer coisa lançada pela Fat Wreck Chords ou pela Epitaph, e os inconformados se expandiam para os catálogos da Dischord e da Jade Tree, os Smoking Popes morriam em um fosso de desatenção.

Até que Josh resolve voltar a cantar sobre o que sempre cantou. A banda faz uma turnê de reunião (com um novo baterista se juntando aos irmãos Caterer) e, dois anos depois, lança Stay Down, seu primeiro disco de inéditas em 10 anos. E, numa uruca de timing sem tamanho, se restabelecem como uma banda que não interessa a quase ninguém. Pois Stay Down é um disco muito mais direto que a maior parte das pessoas está disposta a se interessar, sem artifícios de momento que simulem algum frescor (penso, aqui, na emulação de Springsteen que tenta esconder o pop punk quadradíssimo feito por bandas como Gaslight Anthem e Loved Ones, por exemplo), ou interesses acessórios que possam vir a falar mais alto que as canções (da ironia babaca dos últimos do Weezer, à precariedade conceitual de bandas como Vivian Girls, Matt & Kim e No Age). As canções dos Popes continuam ricas demais para os ouvidos simplórios, e simples demais para os esnobes. Enquanto todos se surpreendem com a pegada roqueira que Morrissey vem afiando em seus últimos discos (lembremos, inclusive, que Destination Failure foi uma das melhores produções de Jerry Finn - falecido gênio das frequências que vinha pilotando os últimos do Moz), a banda que parece ter inspirado tudo isso segue lançando discos belíssimos, fadados ao desconhecimento.

Stay Down é, por diversos ângulos, o mais puro dos discos dos Smoking Popes. Enquanto Destination Failure construía encantamento nas dobras surpreendentes da escala musical, em Stay Down toda canção parece absorver essas esquinas com uma naturalidade serena. Seja pela urgência latente ("Welcome to Janesville", "Maybe I'll Stay") ou pela delicadeza de suas canções quase infantis ("Little Jane-Marie", "Into The Summer Sky", a própria faixa-título), os Popes deslizam pelas 12 faixas de seu último disco com a facilidade dos talentos natos. Josh ainda tem a voz de um anjo, Eli Caterer ainda cria riffs penetrantes, Matt Caterer ainda sai com linhas de extremo bom gosto (o baixo de "If You Don't Care" é um grande exemplo), e Neil Hennessy (dos Lawrence Arms) preenche os pedais de Mike Felumlee com absoluta precisão. Apesar dos momentos de fraqueza ("It's Never Too Late (For Love)" é a canção mais acomodada que a banda, entre erros e acertos, já escreveu), Stay Down tira a poeira de um gênero extremamente desgastado pelos anos de mau uso e excesso de exposição, sem nunca precisar recorrer a falsos conceitos, atalhos, makeovers que fracassam por sempre tenderem a uma nova caricatura. E se o disco me faz retomar um caminho que venho abandonando há alguns anos, é porque o que faltava eram boas canções, registradas com honestidade e paixão, sem a impressão de estarmos ouvindo a um plano de marketing. Aqui estão elas.




For Dummies
Álbuns dos Smoking Popes em ordem de preferência

Destination Failure (1997)
Stay Down (2008)
Born to Quit (1995)
Get Fired (1996)
The Party's Over (2001)

terça-feira, maio 19, 2009

I Am Trying Not To Break Your Heart



quinta-feira, maio 14, 2009

2008 em 10 discos

07 - Girl Talk - Feed The Animals



Girl Talk é o paroxismo do método deleuziano. Alinhando-se a obras tão distintas quanto um ...se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, e os Kill Bill`s de Quentin Tarantino, Feed The Animals é mais um trabalho que - consoante a tendências ultra contemporâneas - pensa a taxinomia, a evocação, o inventário como um discurso artístico. Desde Secret Diary, o DJ Greg Gillis (o homem por trás da garota) usa uma mesma técnica de composição: criar peças musicais novas a partir de samples de outros artistas. Até este momento, seus álbuns se enterravam em limitações bastante previsíveis desse formato: tanto nos mais (Night Ripper) quanto nos menos interessantes de seus discos (Secret Diary), sempre pairava a impressão de estarmos ouvindo um exercício curioso de associações, mas nunca uma obra com joelhos firmes. Com Feed The Animals, porém, somos convidados a pular todas as páginas restantes do manual para, enfim, botar o brinquedo pra funcionar. E Feed The Animals funciona.

A diferença dele para os títulos anteriores não é de método, mas sim de aplicação. Em Secret Diary, os samples eram esmigalhados em microframes, construindo batidas e linhas a partir da combinação desses fragmentos. Com isso, Gillis fazia, talvez, seu mais radical exercício, tirando daquelas ínfimas unidades a possibilidade mais ampla de reconhecimento. Mas o sample, o inventário, funciona justamente a partir da identificação. Podemos não saber de onde, exatamente, vem cada referência de Kill Bill, mas elas são escoradas pela certeza da familiaridade. Nunca vimos aquelas imagens antes, mas sabemos que elas vêm de lugares imaginários muito específicos. Enquanto Secret Diary era como um quebra-cabeças sem peças, Night Ripper trazia peças bastante reconhecíveis (de "Where Is My Mind?" a "Tiny Dancer") que, ainda assim, não formavam uma imagem muito interessante. Unstoppable, seu terceiro disco, juntava as duas pontas, e encaixotava um quebra-cabeças de peças que não se encaixavam.

Até aqui, portanto, a relação com o Girl Talk era - embora fascinante em essência - de resultados um tanto tolos. A arte como jogo de montar nunca foi exercício dos mais interessantes, e os discos do Girl Talk pareciam expor o problema mais grave do método popularizado e rubricado por Gilles Deleuze: enfileirar referências não é, em absoluto, um discurso artístico. A chave encontrada por Gillis, em seu quarto disco, é simples, mas de resultados não raro muito surpreendentes: ele deixa os trechos das canções durarem um pouco mais, mas nunca os deixa tocarem sós, se esvaziando como simples citação. Além de sua preciosa arqueologia musical, o Girl Talk tem a seu favor um talento notável para perceber proximidades, e sobrepor canções ( o tão falado mash up) muitas vezes separadas por décadas (momentos como o que um verso de Lil Wayne é projetado sobre a introdução de "Under The Bridge", do Red Hot Chili Peppers, são de um timing musical desconcertante) - algo que acontece, nesse disco, muito mais vezes do que nos anteriores.

Mas Feed The Animals é mesmo uma obra notável por, enfim, encaminhar as pulsões de uma geração que se comunica por citações, e busca, na cultura pop, encontrar voz para expressar sentimentos genuinos e fabricados. O que temos, aqui, é o som dessa voz. Em um primeiro momento, é impossível não se deixar levar pelo jogo de advinhações: Radiohead, Cranberries, David Bowie, Faith No More, Toni Loc, Thin Lizzy, Elvis Costello, Nirvana, Jay-Z, Avril Lavigne, The Cure (jogo que, a propósito, as montagens feitas no YouTube a partir das faixas de Feed The Animals servem bem como gabarito). Tudo isso marcado pela batida incessante (lembremos que Gillis sempre diz que sua música favorita é "Scentless Apprentice" - aquele genuíno pancadão do Nirvana) que vai esburacando essa grande dobra temporal, trazendo um "Jump! Jump!" pra cima de um refrão do The Band; indo buscar Sinnead'O'Connor e Ace of Base em lugares cobertos de luminosa poeira; emendando o refrão de "Lovefool", do Cardigans, com o hit do ano do Hot Chip. Tudo em uma velocidade galopante, trazendo, a cada novo sample, um número avassalador de lembranças.

No entanto, se existe algo comum que faz de Kill Bill e ...se um viajante numa noite de inverno obras notáveis, é justamente o salto da taxinomia para o discurso próprio. Buscamos as palavras dos outros porque as palavras são sempre as mesmas; mas podemos criar frases fabulosas trocando cada uma delas de lugar. Logo passamos para um segundo estágio, que é o de perceber o que é criado de novo a partir de combinações de elementos já tão sedimentados na memória. É esse sentido de unidade que faz de Feed The Animals um disco tão bacana, pois Gillis não só escava a memória de cada ouvinte com os samples que tira de sua discoteca, mas, principalmente, cria momentos extraordinariamente únicos na combinação desses elementos individuais. É claro que o solo de guitarra de "In A Big Country", do Big Country, é genial por si só; mas quão mais genial ele se torna quando combinado com o refrão de "Whoomp! (There It Is)"? Quando ouvimos "ABC" montada sobre um solo de "Bohemian Rhapsody" - talvez duas das canções mais reconhecíveis da história da música pop - e sentimos ouvir essas velhas conhecidas pela primeira vez, é sinal que uma operação muito especial está acontecendo ali. Feed The Animals é uma festa ininterrupta onde essas operações acontecem diversas vezes por minuto.


For dummies
Álbuns do Girl Talk recomendados em ordem de interesse

Feed The Animals, 2008
Night Ripper, 2006
Unstoppable, 2006
Secret Diary, 2004

sexta-feira, maio 08, 2009

Um parágrafo

The Pains of Being Pure At Heart


A maior surpresa do disco de estréia do The Pains of Being Pure At Heart - talvez o primeiro hype de 2009 - é a de que uma banda com um nome tão ridículo não seja uma merda. Não é. Na verdade, a suposta inclinação shoegaze advogada por aí é uma tentativa bastante desesperada de parte da crítica (ou da própria banda) em tentar legitimizar algo que, em si, já é plenamente legítimo: o TPOBPAH escreve ótimas canções pop. Se existe algo que impressiona mais do que o número alto de músicas boas no disco de estréia da banda, é o número quase inexistente de canções ruins. Tudo soa bastante derivativo, parecendo um disco perdido da virada da década de 1980 para 1990, mas não por isso menos agradável de se ouvir. É claro que eles cresceram ouvindo My Bloody Valentine, mas a influência aparece como roupa (os vocais enfumaçados, por exemplo) que esconde armações internas tiradas de outras fontes: Jesus & Mary Chain ("Contender"), Echo & the Bunnymen ("The Tenure Itch"), Teenage Fanclub ("Come Saturday" e "This Love Is Fucking Right!" parecem tiradas do Thirteen), Pretenders ("A Teenager In Love"), Cranberries ("Stay Alive") e até algo de Hoodoo Gurus (a ótima "Young Adult Friction"). Como se pode notar, o disco é uma festa indie pronta. Mas o que realmente me intrigou nas primeiras audições do TPOBPAH foi que, embora eu conseguisse detectar todas essas influências aí, na verdade eu só pensava em bandas indie brasileiras. Em algum momento pensava em Pin Ups, outro em Pelvs, Second Come, Cigarettes, brincando de deus... e quebrava a cabeça tentando entender o porquê dessa segunda camada de derivação. Até que meu pensamento foi interrompido pela décima quinta virada de bateria mal executada no disco. E aí, eu entendi.

quarta-feira, abril 29, 2009

Day For Night



segunda-feira, abril 27, 2009

Outro


Antes de mais nada, peço perdão pela negligência com este naco de blaguespot nas últimas semanas. Diversos motivos circunstanciais - de mudança de apartamento até o calendário cinematográfico carioca, passando, claro, pelo primeiro show carioca do Driving Music - ocasionaram essa pausa, mas a maior parte desses motivos começa a se estabilizar, a ponto de eu vislumbrar dias vindouros mais cheios para este boteco aqui. Nos próximos dias, retomo minhas bobagens de sempre - das listas de melhores do ano aos parágrafos dedicados a pensamentos que não fixam - e espero, com isso, contar novamente com o desvio de atenção de vocês. 

Mas este post serve para mais do que assumir obviedades, e a pista tá no título lá em cima: na próxima sexta-feira, feriadão de primeiro de Maio, subo novamente ao palco para mais um show do Driving Music. A noite na Audio Rebel foi encantadora para mim, e o convite para uma nova apresentação foi irresistível: farei o primeiro show da Drinkeria Maldita Copacabana, misto de bar e casa de shows que inaugura essa semana, já com pinta de lugar mais cool da cidade.  A agenda deles já está bastante cheia, e será com enorme satisfação que eu e meu violãozinho escreveremos as primeiras linhas desta história. 


Se quiserem pagar mais barato, deixem os nomes que você gostaria de acrescentar na lista amiga nos comentários, até quinta-feira. 

No mesmo tópico, deixo calorosos agradecimentos a todos os amigos que apareceram na Audio Rebel, dia 19. Foi uma noite bastante especial pra mim, e é sempre bom saber que rostos tão simpáticos povoarão para sempre esse cado de memória. Acho que as pessoas gostaram - ou então eram amigas de menos e sentiram a necessidade de mentir. Eu gostei muitíssimo. O amigo e comediante de plantão Daniel Develly disse que, mesmo depois de tantos shows do Invisibles, ele sentiu, pela primeira vez, ter ouvido minhas canções como eu as ouço na cabeça. Foi bonito de ouvir. 

Apareçam lá na sexta, e me digam outras coisas bonitas. Tentarei me portar com elegância.

A foto que ilustra a filipeta é do show do dia 19, e acredito ser essa a que o André elogiou nos comentários. Também acho muito bonita. Para ver outros instantâneos captados pela minha Clarissa, é só dar uma olhada no fotolog do Driving Music. Em breve, brevíssimo mesmo, começo a colocar no Youtube alguns trechos filmados do show.  

terça-feira, abril 14, 2009

Driving Music no Rio



Enfim, um primeiro show em terras cariocas. Como em Juiz de Fora, no ano passado, o set será acústico, misturando músicas do Driving Music a velhas composições do Invisibles. Será um prazer ter vocês por lá. 

sexta-feira, março 13, 2009

2008 em 10 discos

09 - Little Joy - Little Joy


O disco de estréia do Little Joy era aguardado ansiosamente por muita gente. Não por mim. As duas maiores credenciais da banda não faziam bem o lobby por aqui, já que, fora uma ou outra canção avulsa, tanto Strokes como Hermanos se perderam em meu interesse há bastante tempo (no caso do Strokes, depois do primeiro disco; dos Hermanos, após o segundo). Embora eu me simpatizasse com a escolha feita por Amarante de trocar um previsível solo mais firme por um vôo mais baixo, porém mais panorâmico, essa simpatia reduziria a banda a um fenômeno, o que seria o maior desserviço que eu poderia lhe fazer. Joguei de lado todas as comparações mexeriqueiras (bobagens do tipo "quem fez melhor, Camelo ou Amarante?"), e esperei, sem ânsia ou inquietude, que viessem as canções.

Até que, um dia, elas vieram, e não me pareceram nada geniais. Melhor: não me pareceram desejar aparentar genialidade. Desde a primeira audição, Little Joy se assume minúsculo, leve, aerado - palavras que uma vez já vestiram bem o Strokes (saudades de "Someday"), mas que nunca molharam os olhos dos Hermanos. Nada de hinos, grandiloquência ou iscas de salvação; apenas 11 canções tropicais, misturando Buddy Holy com ukeleles, letras que desejavam mais os fonemas do que as palavras, uns dedilhados de bossa nova pouco ou nada revisionistas, e uma moça de voz transparente. Um disco doce, mas um tantinho ácido; certamente com gosto de verão. Não soava como o céu; soava como um pedaço de areia, e isso era ótimo. Era um grupo formado por músicos que não exatamente precisavam se desvencilhar do passado, mas que pareciam querer respirar um pouco de brisa salgada - mudança de relação que, pelo show, os fãs antigos não parecem ter compreendido, deixando Amarante com cara de quem, após um primeiro encontro promissor, percebe ter passado a noite sentado de costas para a ex-mulher. Little Joy é, com toda a leveza da palavra, uma banda de férias.

Mas, após as primeiras audições, Little Joy logo se mostra bom o suficiente para deixar as menções às bandas matrizes apenas para parágrafos introdutórios. E, embora o disco ainda me pareça muito claramente dividido entre as canções principais e os (bons) fillers, sua passada é extremamente convidativa, mesmo quando algumas boas idéias parecem não ir a lugar algum (caso mais exemplar de "Unattainable", promessa que só faz girar em seu próprio eixo). Essa impressão é incorporada à letra de "The Next Time Around", que estabelece maravilhosamente o tom do álbum: "E onde a sorte há de te levar / saiba, o caminho é o fim, mais que chegar", canta Binki Shapiro, em português empapado de sotaque, com frase envergada pela fraqueza da rima. A alegria está na jornada, no durante, nas texturas de rádio AM que fazem tudo parecer imediato. É platitude que, em si, tem pouco de reveladora, mas que serve muito bem como motivação estética para o disco, pois mesmo quando há buracos no acabamento ("How To Hang A Warhol", ou mesmo o encerramento um tanto grosseiro da ótima "Brand New Start"), eles são incorporados à fruição do conjunto.

Fica, no disco, essa impressão de canções nativas de lugar algum, temperadas com toques tradicionais de regiões imprecisas: ao mesmo tempo brasileiro, caribenho, havaiano, californiano. Mais do que um apego a tradições (algo um tanto esperado de um disco que se assume vintage), há um interesse por determinados climas e paisagens: Little Joy é sempre solar, praiano, ágil, leve. Daí a canção mais deslocada no conjunto não ser exatamente "Evaporar" - a única totalmente em português - mas sim "With Strangers", exceção em tons menores de morosidade texana que faz lembrar o Cake (o solo de guitarra, aliás, é moldado pelas frases de trompete de Vince DiFiore). Os destaques, porém, são mesmo os mais óbvios: "The Next Time Around" e sua orquestra de pulgas; o irresistível refrão de "Brand New Start"; a levada recortada de "For No One's Better Sake"; o quase rock "Keep Me In Mind"; e as baladas "Shoulder to Shoulder" e "Don't Watch Me Dancing" - melhor momento de Shapiro, em que um belo recorte instrumental faz lembrar os intermezzos de "Sentimental" e "Todo Carnaval Tem Seu Fim".

E, como as férias, Little Joy acaba muito pouco depois de começar - ligeireza que dificulta a escrita, amarrando as palavras aos diários das jovenzinhas. Voltam os trabalhos, os cenhos franzidos e os shows de reunião. Tudo isso, por maior que possa vir a ser, sempre parece um pouco menor do que aquele mês; aquele pequeno e liso risco de despreocupação.  



For Dummies
Álbuns do Little Joy recomendados em ordem de preferência

Little Joy (2008)

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quarta-feira, março 11, 2009

Um parágrafo: Ben Lee - The Rebirth of Venus


É um tanto lamentável que Ben Lee não tenha dado um passo adiante, e convidado apenas crianças para compor o coro que responde seus chamados nas melhores faixas de The Rebirth of Venus. Lamentável, pois se Ripe parecia um álbum de adult contemporary pop for dummies, esse novo disco parece mesmo ser pop for kids (under the age of 5). Desde a primeira faixa, Ben Lee - de seu jeito igualmente simpático e meio mongolóide - parece uma espécie de Bia Bedran do novo milênio, cercado por seus aluninhos, aprendendo sobre a vida por meio de canções, repetindo sempre o que o mestre mandar. Esses ensinamentos começam por uma justa limpeza de culpa ("What's so bad about feeling good"), transmitem lições sobre lealdade ("Surrender" - a melhor do disco) e sobre o valor da música ("Sing" e "I Love Pop Music"); no meio tempo, tio Ben ainda fala sobre o orgulho de ser diferente ("Boys with Barbies"), e ensina até um palavrão, ao apresentar as crianças a "Yoko Ono" (dá até pra imaginar os risos abafados). A abordagem nem sempre funciona (casos de "Boys with Barbies" e "I Love Pop Music" - ambas embaraçosas demais até mesmo para os altos padrões de Ben Lee), e o disco perde bastante força quando esse conceito começa a se dissipar. Mas é difícil negar que a primeira metade de The Rebirth of Venus tem um vigor que Ben Lee talvez só tenha mesmo alcançado antes em Awake Is The New Sleep. Além disso, toda a atmosfera do disco - onde o Botticelli e o clipe de "I Love Pop Music", com seu cachecol de teclado, são o ápice - deixa claro que ouvir Ben Lee é um exercício de colaboração, simpatia e paciência muito parecido com o de se ouvir Daniel Johnston.


domingo, fevereiro 15, 2009

2008 em 10 discos

10 – The Killers – Day & Age


Mais uma vez, começo minha lista de melhores com uma moderada decepção. Mas como poderia, eu, falar dos discos do ano sem passar pelo insolúvel quebra-cabeça de cinco peças que é Day & Age, terceiro álbum dos Killers? Pois, considerando os excessos (já que excluí-los seria matar a banda), quantas bandas recentes foram tão bem sucedidas usando como mote criativo a esquizofrenia completa de idades e influências, criando um rosto que é, ao mesmo tempo, moderninho e anacrônico; belo e repugnante; vagabundo e glamouroso; másculo e aviadado? Ouvir os discos do Killers é, em diversos momentos, como se aproximar demais de um rosto conservado jovem por sucessivas cirurgias plásticas - às vezes, você só consegue enxergar as cicatrizes.

É plenamente compreensível, portanto, o bloqueio de fãs de música bastante dedicados diante do Killers, pois a aproximação com a banda atravessa essa espinhosa parede de referências trabalhadas em chaves que as desmentem, muitas vezes neutralizando o exato valor que a banda foi buscar ali. Em Hot Fuss, o bonde do rock de garagem era projetado contra as bolas de espelho já enferrujadas dos anos 80, desnudando a nova pose de rebeldia em uma penteadeira de sintetizadores. Em Sam’s Town, a banda transformava a motivação épica das grandes bandas de rock de arena (Queen, U2, Bruce Springsteen) em um cabaré bolorento, onde os paetês já não tinham mais brilho algum, e as plumas eram substituídas por rabos de pombos mortos. De certa forma, a nobreza maior dos discos dos Killers está justamente nessa revelação da mágica como espetáculo; do épico como alegoria carnavalesca, mostrando o banquinho de madeira em que precisa subir o frontman para fingir que seus refrões são maiores que a vida. O rock é um espetáculo, mesmo em sua raiz mais espontânea, e o Killers simplesmente não compra o engodo; ao contrário, jogam-no, todo desmontado, no colo do ouvinte (o que faz da participação de Lou Reed em "Tranquilize" - tão polêmica à época - até mais coerente que as de Elton John e Neil Tennant em "Joseph, Better You Than Me").

Day & Age é ainda mais exigente, pois não pretende sequer a ilusão de foco: desde o primeiro momento, somos apresentados a combinações que não se encaixam, influências evocadas em cômodos em que elas não cabem, versos ridiculos entoados como verdades divinas. “Are we human, or are we dancer?”, pergunta Brandon Flowers em “Human”, segunda e melhor faixa de Day & Age. Mas não pergunta, somente; se põe de joelhos, como se a resposta trouxesse solução para os mais secretos mistérios da existência – e faz isso sobre camas de teclados datados, melodia roubada de alguma balada do U2, e batidão pra se entrar correndo em um programa do Celso Portiolli. E, do lado de cá, o ouvinte olha aquela cena um tanto embaraçosa, sem saber exatamente o que fazer com aquilo - dividido entre o riso de deboche e a compaixão que o faz querer andar até o pobre coitado do cantor, e limpar os joelhos de sua calça. Até que o céu se abre e, lá de cima, Deus responde com majestosa impostação: “Dancer”.

É preciso, portanto, se assumir como dançarino, pois o Killers abre a porta para um fim de mundo onde só se caminha em passo marcado. O desafio, para roqueiros emburrados como eu, é esse exercício de soltar a franga, de se deixar levar por essa onda ridícula e, por isso mesmo, maravilhosa. É aprender a cantar banalidades como se sua vida dependesse disso; de acessar o armário de influências sem um mínimo de organização ou método, pois é essa a paixão do desvario. É entrar em Las Vegas (terra da banda) e enxergar o cenário de Fundo do Coração. E, como o Harry Haler de O Lobo da Estepe, não só perceber que o mundo é uma venda e é melhor mesmo aprender a rebolar; mas também que estamos em um livro que, apesar de ter sido levado a sério demais desde sempre, nunca deixou de ser raso e vagabundo.

O Killers é esse minúsculo leviatã de cultura pop; essa inofensiva máquina ceifadora de rádios. Daí misturarem, em “Joyride”, funk de branco com percussões de salsa, sax de cassino e um refrão que faz lembrar as melhores coisas do Modest Mouse; ou, em “Spaceman”, começarem com um oh-oh-oh vexaminoso para, depois, culminar em refrão gigantesco, digno das maiores arenas de Springsteen. É um saco onde cabe tudo - da Cinderella white trash de “A Dustland Fairytale”, à lambada Disney de “I Can’t Stay” - que parece se resumir perfeitamente nos primeiros 30 segundos de “This Is Your Life”: abrir com uma paródia dos coros do Queen, cobri-la com um cravo sintetizado e, logo depois, chutar a porta com harmônicos de extraordinário bom gosto, carimbando a canção com a elegância silenciosa das guitarras de The Edge.

É justamente essa colagem de fragmentos que impressiona, pois os extrai de qualquer contexto, isolando-os em sua força (ou falta de) individual. Daí o falsete roubado do Bono funcionar lindamente em “Neon Tiger” (0:48 da canção), e a emulação de Bjork em “Goodnight, Travel Well” parecer tão despropositada. Pois a força da música do Killers nunca esteve no raciocínio sobre as estruturas musicais pop convencionais, mas sim por tratar a canção como a apropriação de pequenas manifestações, de sonoridades que produzem uma emoção que eles tentam, à sua maneira, reproduzir. Nesse sentido, Day & Age é, igualmente, o mais ousado e menos bem sucedido disco da banda, pois se torna inteiro justamente em sua fragmentação indiscriminada e esquizóide. É o retrato fascinante e imperfeito de uma banda que busca, com afinco cada vez maior, se tornar uma paródia de si mesmo.


For Dummies
Álbuns do Killers recomendados em ordem de interesse

Sam’s Town, 2006
Hot Fuss, 2004
Day & Age, 2008 (Download)

domingo, fevereiro 01, 2009

Fabito’s Way 2008 Mix – Last Chance to Dance!

Assim como em 2007, começo minha peregrinação pela memória musical mais ou menos recente disponibilizando a vocês, fiéis leitores, uma coletânea com alguns dos hits que mais bombaram por aqui. Como sempre, o fiscal do recorte é o AllMusic: todas as canções presentes nessa compilação são registradas no banco de dados do site como lançadas em 2008 (e dessa vez isso me garantiu ao menos uma boa trapaça). Vale sempre lembrar que nem todas são as minhas faixas favoritas em seus respectivos álbuns, pois a regra número 1 por aqui é a interação entre as canções, a fluidez do conjunto. E como eu sigo ouvindo alguns discos que passaram pro ano novo por debaixo da porta, é bastante provável que bandas ausentes nessa coletânea acabem aparecendo na minha listinha de melhores; na verdade, um disco que já segue seguro entre os 10 primeiros não teve faixa alguma pinçada aqui, simplesmente por nenhuma delas funcionar bem fora de contexto.

Esse ano, selecionei 23 canções (3 a mais que em 2007), mantendo o limite de 80 minutos (tá, passei 39 segundos, mas isso não deve ser problema) para os antiquados modernos queimarem em um cd. O arquivo completo – com capinha superindie, subtítulo hehehe e tudo mais – está disponível para download. Abaixo, o tracklist corrido, e depois o faixa-a-faixa detalhado que vocês já bem conhecem. Coloque os headphones aí, enquanto eu coloco os meus aqui, e escrevo sobre as canções enquanto elas vão rolando.

01 – Ryan Adams & The Cardinals – Crossed Out Name (2:43)
02 – T.V. On The Radio – Crying (4:10)
03 – The B-52’s – Hot Corner (3:24)
04 – Little Joy – Keep Me In Mind (2:22)
05 – Vampire Weekend – Mansard Roof (2:09)
06 – Supergrass – Rebel In You (4:41)
07 – Smoking Popes – If You Don’t Care (4:16)
08 – The Hold Steady – Sequestered In Memphis (3:32)
09 – R.E.M. – Supernatural Superserious (3:23)
10 – Drive-By Truckers – The Righteous Path (4:13)
11 – Bon Iver – Skinny Love (3:58)
12 – Elvis Costello & The Imposters – No Hiding Place (4:00)
13 – Cat Power – Silver Stallion (2:52)
14 – MGMT – Time to Pretend (4:25)
15 – The Killers – Human (4:06)
16 – Hot Chip – Ready For The Floor (3:52)
17 – Santogold – Lights Out (3:12)
18 – Cut Copy – Unforgettable Season (3:13)
19 – Frightened Rabbit – Good Arms Vs Bad Arms (5:07)
20 – Fleet Foxes – White Winter Hymnal (2:28)
21 – Billy Bragg – If You Ever Leave (3:00)
22 – The Decemberists – The Raincoat Song (2:22)
23 – Ron Sexsmith – Hard Time (3:11)


01 – Ryan Adams & The Cardinals - Crossed Out Name
de Cardinology

Ryan Adams pode continuar lançando um disco medíocre por ano, desde que em cada um deles exista algo do peso de “Crossed Out Name”. Cardinology talvez seja ainda mais fraco do que Easy Tiger (2007), e só um pouquinho melhor do que Love Is Hell (2004) e 29 (2006), mas traz na sétima faixa a melhor e mais sofrida canção gravada por Adams desde “My Winding Wheel”. É um bocado estranho começar qualquer coletânea com uma pedrada como essa, mas é fascinante como “Crossed Out Name” vai se esgueirando pelos ouvidos, crescendo nas beiradas menos prováveis, adicionando ao violão reto um pad que canta o vento, e um piano que marca o último refrão nas oitavas mais graves, como se uma mão pesada batesse à porta - um estranho que chega para tornar mais ambígua a solidão. Apesar de estar lá no meio do disco, acaba sendo um convite forte para qualquer coisa que a siga.

Nick Hornby uma vez publicou um artigo sobre “Oh My Sweet Carolina”, onde ele definia Ryan Adams dizendo: “Some people are at their best when they're miserable”. “Crossed Out Name” parece, como nenhuma de suas canções parecia desde Heartbreaker (nem mesmo “So Alive”), fruto dessa profunda e incontornável solidão. Embora seus ásperos sussurros do primeiro disco tenham se transformado em uma impostação aberta e anasalada, só a dor e o vazio podem gerar frases de simplicidade tão forte quanto “I wish I could tell you just how I’m hurt”, ou “For everything there is a word / for everything but this”. Palavra, talvez de fato não haja. Mas quando a sua ausência encontra a força de uma bela canção, o sentimento fica absolutamente cristalino.

02 – T.V. On The Radio – “Crying”
de Dear Science

Respeitando a dinâmica iniciada pela abertura em canção de mesmo tom, mas arejando sensivelmente o clima, “Crying” é o hit mais imediato do extraordinário Dear Science. É notável como a sofisticação dos arranjos do T.V. On The Radio (ótima banda para se ouvir com headphones) nunca distraem o ouvinte de seu gigantesco talento para canções plenamente radiofônicas. Ao contrário, a precisa economia de baixo e guitarras fazem chão para o empilhamento incessante de teclados, palmas eletrônicas e sintetizadores etomológicos, que culminam em contágio crescente com os metais após o último refrão. Deslizando pela dinâmica, as muitas vozes de Tunde Adebimpe – um mestre do double tracking – dançam na largura de seu registro, indo do grave profundo ao falsete em um mesmo verso, alcançando efeito especial quando ele harmoniza duas vozes cantando as mesmas notas, só em oitavas diferentes (um bom exemplo aos 1:55, e outro mais radical a partir de 2:45).

03 – The B-52’s – “Hot Corner”
de Funplex

Aproveitando o convite à pista de “Crying”, celebremos o retorno do B-52’s após 16 anos de férias, exibindo a mesma forma de sempre: discos meio chatos em sua cansativa dispersão, mas que sempre trazem ao menos um momento de brilho intenso e instantâneo. Em Funplex, é esse o caso de “Hot Corner”, canção de inspiração pop semelhante a “Legal Tender” e “Roam”, mas com sonoridade saudavelmente atualizada por toques de garage rock. Os ingredientes são confiabilíssimos: riff forte de guitarra que faz lembrar o de “Flores”, dos Titãs (que, por sua vez, foi roubado de alguma canção que eu nunca lembro qual é – e os comentários estão aí para quem se lembrar), Fred Schneider cantando feito boneco de ventríloquo, cowbell e pandeirolas pendurados no ventilador, e as inconfudíveis vozes de Kate Pierson e Cindy Wilson cantando coisas como “Shake it honey! shake! shake it honey!” e (minha favorita) “Shimmy shimmy! hot! shimmy shimmy!”. E, nessa fanfarronice toda, escrevem uma canção que vale as discografias do Hives e do Kaiser Chiefs somadas.

04 – Little Joy – “Keep Me In Mind”
de Little Joy

É, eu também não imaginava, mas o fato é que o disco de estréia do Little Joy – que tem show marcado no Circo Voador em 6 de Fevereiro – continua rodando firmemente por aqui. “Keep Me In Mind” não é a favorita (prefiro “Next Time Around”, "No One's Better Sake" e “Brand New Start”), mas melhor fazia a transição do B-52’s para a faixa seguinte. Além de ser no mesmo tom da canção anterior (recurso barato que eu nunca abro mão de usar - já foram duas vezes, em quatro canções), é a que mais parece uma colagem do melhor das duas bandas que geraram o Little Joy: guitarras picadas alternadas e bateria reta como no primoroso disco de estréia do Strokes, com um refrão que os Hermanos esqueceram de incluir no Ventura.

05 – Vampire Weekend – “Mansard Roof”
de Vampire Weekend

Em outra bela estréia, o Vampire Weekend assina umas cinco canções dignas desse espaço. “Mansard Roof” é a que abre o disco, e é um sambão torto, ensolarado e divertidíssimo. A bateria em frevo marcial que atravessa o metrônomo, o tamborilado teclado que parece música de roda gigante, as imagens tropicais da letra, a presença surpreendente do arranjo de cordas (que, a propósito, garante boa parte do charme do disco), o refrão instrumental com guitarra de palhetadas natalinas – tudo em “Mansard Roof” parece jovem e urgente, em uma viagem a jato que conecta terras de sabores, cores e sonoridades distantes. Faz lembrar as primeiras coisas dos Paralamas, só que sem a produção ruim e o reverb feio das guitarras. Talvez por isso, fazem uma boa ponte “brasileira” com o Little Joy.

06 – Supergrass – “Rebel In You”
de Diamond Hoo Ha

Lembro que o que mais me impressionou quando ouvi o Supergrass pela primeira vez, lá na época do I Should Coco (1995), foi o descompromisso latente com que a banda trabalhava todos os aspectos de suas canções: da execução precisa, mas extremamente livre de Danny Goffey (um dos herdeiros mais visíveis de Keith Moon), aos backing vocals no debochado falsete de Mickey Quinn, e, principalmente, a falta de pudor com que Gaz Combes se aproveitava de influências de anos muito anteriores aos seus, sem nunca sistematizá-las em excesso. Bandas que se sustentam pelo frescor correm, porém, o risco iminente de perderem a vida com a bonança da maturidade – algo que parecia inevitável pelas densas camadas de psicodelia que cobriam Road to Rouen (2005). Diamond Hoo Ha não é exemplo de íntegro rigor – há, sobretudo, um deslumbramento de Combes com seus pedais oitavadores que cansa logo na quarta ou quinta canção – mas “Rebel In You” resgata cores que a banda parecia decidida a não mais usar. Apesar do monocromatismo da capa, os ecos de Bowie da canção fazem lembrar das camisetas coloridas do clássico clipe de “Alright”. E, mesmo com todos os anos passados, eles ainda as vestem muito bem.

07 – Smoking Popes – “If You Don’t Care”
de Stay Down

O que acontece quando uma banda de pop punk destacada pela ousadia com que sempre desbravou cantos escuros das escalas musicais retorna, após 11 anos de sumiço, com uma canção de absoluta convencionalidade melódica? Se a banda for o Smoking Popes, a resposta vem com “If You Don’t Care”: eles escrevem a melhor música de sua carreira. Os três irmãos Caterer voltam ao mundo com a companhia de Neil Hennessy (baterista dos Lawrence Arms), mostrando que o desinteresse quase absoluto que eu desenvolvi pelo punk rock nos últimos anos só aguardava que uma grande banda lançasse um grande disco para ser quebrado novamente. Em Stay Down os Smoking Popes fazem tudo aquilo que sempre fizeram de melhor: canções de tranquila urgência, onde um baixo de notável bom gosto, guitarras cortantes e baterias desenfreadas aconchegam o vozeirão de Josh Caterer, sempre nos lembrando o porquê de eles serem a banda americana favorita do Morrissey. “If You Don’t Care” é o lindo primeiro single do ultra-ignorado Stay Down, e foi a canção que abriu o show da banda que vi (ao lado de umas outras 80 pessoas) em minha passagem por Nova York.

08 – The Hold Steady – “Sequestered In Memphis”
de Stay Positive

De todos os discos do Hold Steady, Stay Positive é o que mais traz à vista – a começar pelo título – as raízes punk da banda. Curiosamente, é nele que aparece a canção mais pop que Craig Finn e companhia já escreveram: “Sequestered In Memphis” tem riff forte de piano, guitarras roqueirérrimas dividindo as orelhas com o hammond (cada um pra um lado), sax quase Kid Abelha, e refrão tão fácil de cantar junto que a banda ainda volta a ele com palmas e coro antes de fechar. Mas, como sempre se deve esperar do Hold Steady, os fortes raios de sol encobrem apenas parcialmente um mundo de personagens fora de foco, de significados que se escondem nas sombras. A toda a alegria dos tons maiores, a letra (na verdade, um interrogatório policial) da canção ilumina imagens muito particulares, por um ponto de vista que raramente ganha tanta complexidade em canções pop. “In barlight, she looked alright / In daylight, she looked desperate”, canta a banda no pré-refrão. Barra pesada, mas que Craig Finn olha com honestidade tão apaixonada que dilui esses momentos nas contradições e banalidades de personagens absolutamente cotidianos.

09 – R.E.M. – “Supernatural Superserious”
de Accelerate

Considerando que as duas últimas grandes canções escritas pelo R.E.M. eram baladas (“At My Most Beautiful”, de Up, e “Imitation of Life”, de Reveal), é bastante surpreendente que o melhor momento de Accelerate seja um dos rockões mais furiosos da carreira da banda. “Supernatural Superserious” tem uma pegada fortíssima, com guitarras tão marcadas que lembram até Ramones, e um refrão que traz todo o drama registrado por Michael Stipe.

10 – Drive-By Truckers – “The Righteous Path”
de Brighter Than Creation’s Dark

Patterson Hood canta praticamente uma nota só durante toda a canção e isso diz tudo: é a tentativa de se manter “on the righteous path”. Letra e música se equivalem com uma precisão assustadora, e a entrega do Drive-By Trucks aos adornos que sustentam essa quase única nota é tão dedicada que mantém (as oscilações se devem ao "trying", do refrão), tranquilamente, a força durante os quatro minutos de “The Righteous Path”. No hi-hat que morde a baqueta, na pedal steel que desliza sobre as guitarras, na postura absurdamente roqueira que nunca quer ser roqueira demais (quantas canções tão rock têm guitarras tão leves? Quantas têm tão poucas viradas de bateria?) e em frases como “I don’t know God, but I fear his wrath”, os Drive-By Truckers sintetizam o espírito do sul dos EUA como poucos artistas já foram capazes.

11 – Bon Iver – “Skinny Love”
de For Emma, Forever Ago

Fico saltitante por o AllMusic não considerar a data original de lançamento de For Emma, Forever Ago, caso contrário, o Bon Iver seria a grande ausência de meus melhores de 2007. Graças ao relançamento oficial pela Jagjaguwar, pude incluir a linda “Skinny Love” nesse mix, fazendo justiça a um dos artistas que mais ouvi nesse ano. As comparações da voz de Justin Vernom com a de Adebimpe, do T.V. On The Radio, vêm não pelo timbre, mas pelo recurso de execução: ambos abusam de falsetes em double tracking, fazendo com que a voz perca sua textura mais reconhecível, parecendo mais uma teia, um tecido esburacado que tenta cobrir esse amor magricela, frágil, quebradiço. Acho impressionante como antes de cantar “And I told you to be patient”, no segundo refrão, Vernom acrescenta um compasso de pausa, como que exercitando a paciência que ele pediu no refrão anterior, e que não lhe foi concedida. Naqueles segundos de silêncio, de aparente hesitação, temos um dos mais fortes momentos da música em 2008.

12 – Elvis Costello & The Imposters – “No Hiding Place”
de Momofuku

O nome do disco parece coisa do Sérgio Mallandro, mas Costellão é sempre Costellão: “No Hiding Place” mostra que ninguém tem a capacidade dele de pegar uma canção de estrutura simples e, aos poucos, ir transformando-a a partir de suas bases mais sólidas. Isso pode vir na mudança do mi maior, do verso, para o menor, na ponte; na progressão perfeitamente executada para um improvável sol maior, no refrão; ou ao adicionar uma nova parte à canção quando ela já aparece terminada. Embora “No Hiding Place” prometa uma boa forma que Elvis Costello não consegue manter até o final de Momofuku, até mesmo seus discos menos firmes são incrustados de grandes soluções, e de um domínio absoluto das convenções da composição pop.

13 – Cat Power – “Silver Stallion”
de Jukebox

Se eu conseguisse congelar minhas primeiras impressões até as listas de melhores do ano ficarem prontas, Jukebox teria um lugar folgado na de 2008. Talvez tenha sido a empolgação com o belo placebo-não-Feist que ela ofereceu no Tim de 2007, ou a confirmação de que, apesar de ser boa compositora, Chan Marshall é uma interprete ainda mais interessante. Logo que saiu, o disco não parava de tocar por aqui. Mas com o tempo, Jukebox foi se cristalizando como o que realmente parece ser: um disco de covers bastante divertido em sua intenção de criar novos standards, mas não exatamente memorável em sua totalidade.

Não à toa, a única versão realmente brilhante é essa aqui: uma interpretação levemente sombria em voz e violão para “Silver Stallion”, rock à Dire Straits dos Highwaymen. A interpretação de Cat Power é mais do que superior à original: faz real o chavão “parece ter sido escrita para ela”. Isso porque quando a voz falha de Chan Marshall canta “I’m gonna find me a reckless man / Razorblades and ice in his eyes / Just a touch of sadness in his fingers / Thunder and lightning in his thighs”, as imagens ganham contornos de tocante delicadeza, como se ela imaginasse em voz alta o homem dos seus sonhos jovens. E para gerar essa impressão, a voz sussurrada de uma mulher é muito mais instigante do que a de um sujeito que masca as palavras como um punhado de tabaco.

14 – MGMT – “Time to Pretend”
de Oracular Spectacular

O show é uma chatice, o disco não é lá grande coisa, mas é questão de justiça: “Time to Pretend” é uma das canções mais bacanas do ano, e dá início à lasca mais dançante desse mix. O MGMT embarca em uma (boa) onda recente de revisitar o que havia de legal na música disco dos anos 1970, tirando aquela falsa alegria putrefata e focando na putaria, no desbunde da década que se escondia sob pantalonas brancas. “Time to Pretend” fala sobre casar com modelos e morrer cedo; mistura ABBA com cocaína, passado sem futuro, e, bom, dá uma puta vontade de dançar.

15 – The Killers – “Human”
de Day & Age

Are we human, or are we dancer?

16 – Hot Chip – “Ready for the Floor”
de Made In The Dark

Hit de pista absoluto de 2008, “Ready for the Floor” combina batidas tortas de electro, barulhinhos de tudo que é jeito, e um refrão digno dos melhores dias dos Pet Shop Boys. Além disso, é a melhor música já feita para se dançar imitando robô. Se isso é coisa que te apetece, claro.

17 – Santogold – “Lights Out”
de Santogold

Santogold é uma ex-A&R da indústria da música norte-americana que, um dia, decidiu já conhecer suficientemente bem o mercado para cavar seu espaço nele. O resultado é um disco extremamente diverso, em que Santogold muda de voz como muda de gênero (e de estampas, no clipe de “Lights Out”): vai do raggamuffin ao rock, passando por r&b, pancadões à M.I.A., e uma penca de gêneros bons pra pista. Nem sempre Santogold funciona por aqui, mas “Lights Out” é um deleite: com seus doces "aahs", parece uma versão synth pop para uma canção perdida dos Fastbacks.

18 – Cut Copy – “Unforgettable Season”
de In Ghost Colours

Outra feliz descoberta de 2008, o Cut Copy mistura tudo que de melhor foi feito na dance music durante as décadas de 1980 e 1990: baixo à New Order, passagens oníricas dignas de “Being Boring”, teclados ritmados que emulam Erasure, e até umas guitarrices tiradas do Jesus & Mary Chain. “Unforgettable Season” é a “Regret” de In Ghost Colours; canção em vibrante dó maior, com riff de guitarra insistente, imagens ensolaradas jogadas a esmo pela letra, uma linha de baixo marcante, e um refrão que o ouvinte já intui como será antes mesmo que se chegue a ele pela primeira vez.

19 – Frightened Rabbit – “Good Arms Vs. Bad Arms”
de The Midnight Organ Fight

O Frightened Rabbit era uma das bandas que apareceram na lista de melhores do Filipe no Roadrunner e na lista da Pitchfork, e que eu nunca nem tinha ouvido falar. O que imediatamente me chamou a atenção em The Midnight Organ Fight é como o vocal de Scott Hutchinson se parece com o de John Roderick, dos Long Winters. A diferença é que, antes de mergulharem no indie rock, os escoceses do Frightened Rabbit parecem ter passado bons anos ouvindo Death Cab For Cutie e Get Up Kids (basta ouvir “The Modern Leper”), enquanto o sr.Long Winters (um quarentão, ora bolas) escutava Neil Young e R.E.M. O resultado é tão estranho quanto a base da equação: apesar da semelhança, The Midnight Organ Fight é mais legal de se ouvir de cabo a rabo do que qualquer disco dos Long Winters. “Good Arms Vs. Bad Arms” vem cumprir a obrigatória cota de canções em compasso 3/4 nesse mix, sustentando o dó maior da canção anterior nos violões da introdução. É a transição mais bonita de toda a coletânea.

20 – Fleet Foxes – “White Winter Hymnal”
de Fleet Foxes

Quando estava programando minha viagem de férias, o nome Fleet Foxes se tornou familiar por me seguir em turnê de uma costa à outra nos EUA. Nunca tinha ouvido falar na banda, e esnobei solenemente suas apresentações. É claro que pouco depois eles despontariam como grande hype do ano e, pior, hype dos bons. “White Winter Hymnal” é canção que joga em uma mesma fogueira The Band, Beach Boys e Fleewood Mac, criando algo que parece brotar das cascas das árvores, do ar, das folhas secas, dos duendes, ou algo que o valha. É estranho, bonito e circular, dando aquela familiar impressão de estarmos diante de uma melodia que é tão velha quanto o mundo.

21 – Billy Bragg – “If You Ever Leave”
de Mr. Love and Justice

Talvez a ponte do Fleet Foxes para o Billy Bragg tenha vindo das imagens que encerram o comentário sobre a canção anterior: aquilo que parece sugerido nas entrelinhas de "White Winter Hymnal" se torna literal em Bragg, com menções ao sol, à praia, à tempestade, às marés, à costa, às estrelas. Tudo ao alcance do rapaz que, apesar do contato oferecido pelo mundo, diz “If you ever leave / there’s nothing for me here”. Mr. Love and Justice é incrivelmente forte nas primeiras audições, mas logo se desgasta em algum esquematismo, e uma certa previsibilidade. “If You Ever Leave” nada tem de surpreendente, mas prova que o cuidado da carpintaria de Bragg é capaz de gerar frutos muito impressionantes. Em acordes simples, refrão familiar e imagens aparentemente desgastadas, Billy Bragg consegue criar uma canção fresca, cheia de vida, sustentada apenas pelo exímio controle de sua estrutura.

22 – The Decemberists – “Raincoat Song”
de Always the Bridesmaid vol.3

É impressionante como a série de singles Always the Bridesmaid começou a pintar os Decemberists como uma caricatura de seu próprio passado: se discos como Her Majesty e mesmo The Crane Wife inflavam seu pop naif com sopros de novidade, as canções de Always the Bridesmaid parecem todas inspiradas na trilha-sonora de Juno. Os resultados podem ser minimamente agradáveis (“Valerie Plame”) ou totalmente ridículos ( “I’m sticking with you”), mas sempre esterilizando o indie pop com melodias infantis e uma fofura desmedida, quiçá um tanto embaraçosa.

“Raincoat Song” só é diferente no que lhe é essencial: é uma ótima canção. Rolam um violão dedilhado de fazer Dylan corar de vergonha; uma previsível harmonização em quinta logo no segundo compasso, e a decência de acabar com isso tudo antes que o constrangimento bata. Ao fim da canção, fico sempre me perguntando por que “And the raincoat that you wore when it rained today / I think it only made it rain more” é tão melhor do que “I’m sticking with you / ‘cause I’m made out of glue”. Não encontro resposta mais satisfatória do que um “porque sim”, mas isso é suficiente para convidar o refrão – esse sim feito de cola – a passar o resto do dia zanzando em minha cabeça.

23 - Ron Sexsmith - "Hard Time"
de Exit Strategy of the Soul

Poucas coisas tão tristes já foram escritas quanto a frase "One could say I'm having a hard time". É de uma entrega tão resignada e absoluta que sequer faz questão de pegar ar, de manter a cabeça pra fora da janela. É triste, triste, triste. Não sei o porquê de ter resolvido encerrar o ano pesando tanto a barra, mas "Hard Time" é tão bonita que me dá vontade de filmar um longa-metragem, só pra poder usá-la como encerramento. É genial como ela, saindo do mesmo tom de "Raincoat Song" (ah, a safadeza!) passa bem a bola para "Crossed Out Name" - caso alguém caia na pilha de ouvir a coletânea no repeat.

* * *

E assim foi.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Mostra de Cinema de Tiradentes

Passarei a próxima semana cobrindo a Mostra de Cinema de Tiradentes para a Cinética. A demanda da cobertura provalvemente me afastará desse blog até o final do mês, reservando-me às palavras diárias sobre a Mostra lá na Cinética. Tentei deixá-los com um post especialíssimo, mas é claro que tudo deu errado na última hora. Fica pra volta.

Mas especial, especial mesmo, é que, além de ofercer a chance de ver filmes de vários amigos, a Mostra de Tiradentes marca a primeira exibição mundial de No Meu Lugar - primeiro longa do amigo Eduardo Valente, que traz em sua trilha-sonora duas canções do Driving Music. O filme sai de Tiradentes direto para Cannes, e tem estreia no circuito brasileiro prevista para Abril. A sessão de No Meu Lugar em Tiradentes rola no Cine-Tenda, dia 30/01, às 22h e, como em toda a Mostra, a entrada é gratuita.

terça-feira, janeiro 13, 2009

2008 em 10 Shows

10 – Stone Temple Pilots
08/07 – Glens Falls Civic Center, Glens Falls, NY

Scott Weiland entende que todo show precisa de um showman. E isso conta muito mais do que o painel de luzes ao fundo, o setlist que responde a tudo que se espera, e toda a papagaiada padrão que envolve uma turnê de reunião de uma banda de rock mainstream nos dias de hoje.

09 – The National
24/10 – Tim Festival, Rio de Janeiro

Continuo achando a mesma coisa.

08 – Hold Steady
30/07 – Avalon, Los Angeles

É preciso respeitar uma banda que sobe ao palco e toca, quase na íntegra, um disco que havia saído na semana anterior (mesmo que todos ali já o escutassem há um par de meses). Mais fácil, porém, se a banda for o Hold Steady, e o disco em questão for o ótimo Stay Positive. Na segunda fila, bem na minha frente, dois amigos em outra dimensão se abraçavam, e trocavam socos na cabeça. De vez em quando um deles tentava conversar com uma das garotas que estavam na grade, e o outro lhe mandava um porradão na nuca. Eu nunca consegui fazer dessa cena uma analogia para coisa alguma, mas Craig Finn talvez seja capaz de transformá-la em uma canção.

07 – Spoon
08/11 – Festival Planeta Terra, São Paulo

Apesar de ter visto o Spoon em grande forma no Prospect Park, nada poderia ter me preparado para a avalanche sonora que a banda despejou no Planeta Terra. Um show tão bom que fez a lembrança do Jesus & Mary Chain, alguns minutos antes, se tornar uma memória pálida e distante.

06 – Josh Rouse
15/08 – Sesc Vila Mariana, São Paulo

A intensidade do brilho do artista é proporcional à consciência de suas limitações. Josh Rouse se conhece muito bem.

05 – Lucero
24/07 – The Echo, Los Angeles

E aí vem o click, e você se lembra como foi que se sentiu quando se apaixonou pelo rock. E você olha em volta, tentando entender, e tudo que vê é uma banda sem roadies e um bando de marmanjos cobertos em suor e cerveja alheios, cantando projetos de palavras fora de tom, com garrafas de cerveja erguidas em um interminável brinde à banda. E o mais constrangedor é que você entende.

04 – Ron Sexsmith
16/07 – Joe’s Pub, Nova York

A descoberta de um gênio.

03 – Bob Dylan
08/03 – Rioarena, Rio de Janeiro, RJ

É inevitável que cada uma das pessoas na Rioarena desejasse um setlist ideal diferente, e que o escolhido por Dylan não desse conta da maior parte das canções que elas gostariam de ouvir. Ainda assim, a música que vinha do palco era tão extraordinariamente envolvente (ainda mais para aqueles que, como eu, adoram Modern Times) que segurava os pensamentos pelos tornozelos, fazendo com que todos desejassem ouvir qualquer música que Dylan viesse a tocar. Independente da história, da mitologia, da idade dos afetos, tudo soava perfeito. E assim foi.

02 – Jon Brion e convidados
25/07 – Largo, Los Angeles

Mais conhecido por seus trabalhos para o cinema (as trilhas de filmes como Huckabees – A Vida É Uma Comédia, Embriagado de Amor, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, etc), Jon Brion faz shows regulares no Largo – casa de Los Angeles que o abriga em temporadas de sextas-feiras, com duas apresentações por noite. Entrei no segundo round da última noite de seu verão por lá, sem a menor idéia de o que esperar. Fui ao Largo para ver o show do Grant Lee Phillips na segunda sala da casa (apropriadamente chamada de Little Room – uma salinha à luz de velas, sem palco, microfonação mínima, e não mais que 10 mesas,) e, ao final do set, a platéia foi convidada pelo gerente da casa a pegar café e biscoitos, e seguir para a noite com Jon Brion, que começava no teatro principal.

Entre carpetes de borgonhas lynchianos, Brion tocava piano no canto de um palco onde estavam montados cerca de 30 instrumentos diferentes. Junto ao contrabaixo de Sebastian Steinberg (Soul Coughing), único convidado da noite, Brion improvisava uma peça de jazz a partir de riffs de “Iron Man”, do Black Sabbath. Terminada a primeira música, ele se levanta e pergunta à platéia o que todos gostariam de ouvir. Da chuva de sugestões, Brion escolhe uma que pareça interessante, e improvisa uma versão em real time. E assim vai até o final da noite, pulando de instrumento para instrumento, de canção para canção: “Eye of the Tiger” em versão two-step, “This Charming Man” dando errado e virando “Please, Let Me Get What I Want” no meio, “If I Only Had A Brain” na pianola, uma versão jazzy para “Come And Knock Yourself Out” (canção-tema do Huckabees) – tudo improvisado, com a participação direta do público. Até que ele anuncia a hora do sing along, e alguém pede que ele toque Queen. “What song?”, ele pergunta. “Bohemian Rhapsody!”, grita uma voz do meio do teatro. Jon dá uma gargalhada, e responde: “You know what? I’ll fucking do it!” As luzes sobre a platéia se acendem, Brion pede que o PA seja desligado e, ao piano, comanda o coro que vem de todas as cadeiras do teatro. E vamos, todos juntos, à direção qualquer que o vento desejar soprar.

01 – Feist
9/07 - Prospect Park, Brooklyn

Oh Leslie, quel drôle de chemin il m‘a fallu prendre pour arriver jusqu‘à toi.

* * *

Prêmios especiais

O melhor show que eu não vi em 1999:
Face to Face

O melhor motivo para se ir a um show:
Eu poderia dizer que conheço bem sua discografia; ou então que adoro uma ou outra de suas canções. Mentira. Eu fui ao show do Grant Lee Phillips só pra ver o trovador de Gilmore Girls.