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domingo, julho 05, 2009

Those Lovely Seaside Girls



É esse o nome do ep que traz "Chorus" e "Rain or Shine", as duas mais novas canções do Driving Music. Passei os últimos meses (mesmo com alguns longos intervalos) trabalhando pesado nas duas filhotas, e agora elas estão aí, pelo mundo, esperando que você as escute. Você pode fazer o download direto do novo site do Driving Music, ou escutá-las primeiro (para ver se vale a pena) no MySpace. Passe para quem você acredite que possa se interessar, e não deixe de depositar seus dois tostões de prosa nos comentários

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Hoje parto para Nova York para mais um mês de férias roqueiras. Como estarei devidamente conectável por lá, enviarei atualizações rápidas ou por aqui, ou pelo Twitter. Até Agosto!

terça-feira, abril 14, 2009

Driving Music no Rio



Enfim, um primeiro show em terras cariocas. Como em Juiz de Fora, no ano passado, o set será acústico, misturando músicas do Driving Music a velhas composições do Invisibles. Será um prazer ter vocês por lá. 

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Rosto a rosto

Então, Rafael, não sei se eu saberia escrever uma resenha, de fato, sobre o show do Face to Face no Rio não. Diria que foi um show histórico, não só pelo sentido corrente do termo, mas também porque todos ali - público e banda - estavam celebrando uma história, uma relação do passado, uma dívida que era, enfim, purgada. Por isso mesmo, talvez a frase que melhor definia a noite para mim não vinha de uma canção do Face to Face, mas sim do refrão daquele hit do Prince: so tonight I'm gonna party like it's 1999.

E, ao mesmo tempo em que foi incrível reencontrar amigos e canções que há anos haviam sumido da minha vida, quando cheguei em casa eu fui tomar um Dorflex, para fazer com que a dor no corpo ficasse suportável nos dias seguintes. E
a data de validade do comprimido e a necessidade de tomá-lo me faziam lembrar que estamos em 2008.

sábado, dezembro 13, 2008

Um parágrafo: Vampire Weekend

Outro hype que demorei a conferir; só fui ouvir o disco de estréia do Vampire Weekend essa semana. As comparações com o Clash são previsíveis, mas existe uma diferença profunda entre os dois: o Vampire Weekend é uma banda de brancos, tocando música de branco como se fossem negros. Algo como o Libertines querendo ser o Hepcat. O Clash conseguia tocar música de qualquer jeito, do jeito deles, sem nunca ser outra coisa que não o Clash. O disco tem ótimos momentos: as três primeiras faixas são realmente muito fortes, em especial “Mansard Roof”, a primeira e melhor do disco. “A-Punk”, a terceira, parece um Operation Ivy depois de tomar vacina anti-rábica. Fora isso, alguns bons momentos isolados (“I Stand Corrected” e “Walcott”, principalmente – canção bastante prejudicada pelo desleixo do baterista cruzar a fronteira do estilo), e a impressão de que, como hype do novo mundo, o Vampire Weekend deveria ter ido mais fundo em sua época e lançado canções avulsas, e não fazer um esforço desnecessário para encher um álbum antes de ter repertório forte o suficiente para isso.

Download

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Status Update

Day & Age, novo disco do Killers, é bom pra caralho.

sábado, outubro 25, 2008

In the basement of my brain

O belíssimo show do National ontem, na Marina da Glória, confirmou impressão que há um tempo já coçava meu ouvido: a banda é o U2 da nossa época. O Coldplay é só o bom aluno que até leu as coisas certas, mas entendeu quase tudo errado.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Chorus #1 – I’m Not There

Há algum tempo já vinha ensaiando gravar algumas canções novas que fiz para o Driving Music. A idéia, porém, não era gravar cinco delas de uma só vez – como foi com a primeira demo – mas ir canção por canção, liberando-as ao mar no andamento natural da produção. Cheguei a sequenciar a bateria inteira de uma das novas canções há uns meses atrás (tirando as inúmeras que vou deixando de lado, tenho umas outras cinco – prontas ou em processo – que quero gravar logo, antes que desista delas também), e aí foi uma enxurrada de contratempos: viagem, placa de som em greve, trabalho, Festival do Rio, etc. Hoje ia rever Era Uma Vez em Tóquio na Caixa Cultural, mas um torcicolo que começou a descer pra escápula (meu calcanhar se eu fosse Aquiles) me aconselhou evitar as cadeiras daquela sala, para estar inteiro para um dia seguinte de 3 horas de Imamura, seguido pelo aguardadíssimo show do National. Aproveitei o tempo de molho pra abrir o computador, limpar a placa de som (maresia não gosta de rock - tanto quanto eu gosto de parênteses) pra ver se ela funcionava de novo (funcionou!), e recomeçar os trabalhos. A idéia desse post, portanto, é começar um acompanhamento – que a pricípio pretendo seguir, mas que está sempre à maré do interesse – desse processo de gravação, já que até hoje recebo emails perguntando como fiz pra gravar a demo toda em casa, sozinho, sem grana, etc.

A nova canção se chama “Chorus”, e já estava rascunhada quando gravei as primeiras cinco do Driving Music. Desde que comecei a escrevê-la, animei-me com a possibilidade de caminho musical que ela me acenava: é uma canção bem curta (dois minutos e meio, segundo a timeline do Sonar), de andamento mais fluido, cantada do início ao fim – como as canções pop sem solos da década de 1950 – e com uma melodia ensolaradíssima. Nasceu do meio de coisas que eu estava escutando na época – Lemonheads, Teenage Fanclub, Pernice Brothers, Limbeck – e aos poucos foi se transformando, ganhando traços mais definidos conforme perdia as roupas pelo caminho. Uma das poucas adições, e das mais distintivas, foi um riff que se repete a todo tempo, virando uma espécie de leitmotif dentro da canção. É uma linha melódica de cinco notas enfileiradas feito bobas, que pela construção fazem lembrar as melodias Coney Island do Tom Waits, mas que eu quero gravar à Springsteen, dobrando essa linha com guitarras, teclados e glockenspiel. Pode ser que não funcione, mas estou ansioso pra testar. De resto, quanto maior a discrição, melhor: baixo e bateria retos – muito mais diretos se comparados aos das canções anteriores - e guitarras tweedy quase limpas deitadas em camas de violões e hammond. Estou tentado a gravar uma guitarra com slide também, embora eu saiba que não domino muito bem a geringonça. Também planejo harmonizar minhas várias vozes, na esperança de pegar um pouco dessa atmosfera 50’s original à canção.

Então hoje foi dia de reabrir o projeto da bateria no Reason, tirar alguns excessos, acertar um acento de dinâmica que me ocorreu nos meses em pausa, e exportar a coisa toda pro Sonar. Acho interessante que a canção tenha sido escrita com uma vontade meio “Into Your Arms”, mas que agora ela vai sendo remoldada pela minha recente obsessão pelos discos do Ron Sexsmith – que, hoje, me parece ser o paralelo mais apropriado a se fazer com a “Chorus” que ainda ouço na minha cabeça (embora alguém vá comparar com Millencolin no final). Não no território das baladas, quem me dera, mas de canções como “Keep It In Mind”, “Disappearing Act” ou “A Clown In Broad Daylight”. Existe um parentesco estrutural entre essas canções mais rock’n’roll do Ron Sexsmith e “Chorus”, talvez pela busca da contenção nos arranjos; pela preocupação maior de inflá-los de invisibilidade. Porém, à distância, meu registro vocal é bem mais alto e áspero, passando longe do gogó à Roy Orbison do Sexsmith. Talvez ela pudesse ser uma canção que ele tenha gravado aos doze anos de idade – o que, para mim, parece bom o suficiente.

Mas a identificação com os discos de Sexsmith que já começa a nortear o trabalho com a canção é justamente pela limpeza de todo excesso, e isso já começou nesse primeiro dia. Na primeira demo eu queria muito que a bateria programada não fosse uma limitação, e que eu pudesse trabalhá-la como faria com uma bateria gravada ao vivo. Hoje, já me sinto mais à vontade para retornar às canções, simplesmente, podendo trabalhar os elementos que tenho à disposição sem tanta dedicação virtuosística ou técnica (dois papéis que eu nunca soube representar), jogando ao fundo o que ao fundo pertence (hoje, as baterias daquelas primeiras gravações me soam irritantemente altas), tentando compreender melhor o tamanho de cada coisa. É uma ambição nada nova de depuração, que carrego comigo desde o Hollywood (já que o Fireworks é o resultado do encantamento com as possibilidades de se estar à vontade em um estúdio, em uma ilusão de que o processo andava ao seu tempo enquanto, na verdade, se esticava para além de suas bordas) e que hoje acredito compreender melhor. É um processo - inviável como realização, mas necessário para mim enquanto meta - de me retirar de uma canção que, como todas as outras, só ao mundo pertence. E se, ao final, o ouvinte não conseguir me encontrar dentro dela, tanto melhor.

* FOTO por Clarissa de Oliveira, e seu olhar capaz de gerar sol até em fotos tiradas às 10 da noite.

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Aos leitores que não têm interesse algum em minhas canções, mas nutrem um fetiche pelas minhas sandices e cotações no imdb, fiquem tranquilos: este blog seguirá funcionando normalmente, com apenas algumas intervenções deste eu que acha que cria melhor quando não cria em silêncio.

terça-feira, setembro 16, 2008

Driving Music

Setembro começa com o Driving Music bombando em páginas virtuais: além de uma ótima resenha no blog norte-americano Sound As Language, o Driving Music é banda do mês na PunkNet. O especial traz uma resenha e três entrevistas comigo: um faixa-a-faixa da demo; uma lista dos 10 discos que mais me influenciaram; e uma conversa geral sobre ser uma banda. Diverti-me bastante com o processo, então espero que o resultado seja, também, minimamente interessante para quem lê. Aproveitem!

segunda-feira, junho 30, 2008

Start spreading the news

A próxima quinta-feira marcará não só o início de um mês longe de todas as atividades que convencionei chamar de vida, mas também o mergulho na vontade de torrar todo o dinheiro guardado nesse último ano, rachando Julho entre Nova York e Los Angeles. Será meu primeiro ano com dois verões desde 1997, e a primeira viagem dedicada quase que exclusivamente ao rock. Estarei muito provavelmente afastado do blog durante todo o mês (a não ser que parar pra postar qualquer coisa pareça, por algum motivo, mais interessante do que desbravar mais um canto em uma cidade onde estarei ridiculamente feliz por estar), com visitas ocasionais à caixa de emails quando a abstinência se tornar insuportável. Prometo não trazer nenhum cd, um ou outro dvd que pareça realmente inalcançável por qualquer outro meio, e alguns cartões de memórias lotados de fotos que – um dia, quem sabe – podem parar em um Flicker da vida (para, pouco depois, virarem propaganda de um curso de música no interior de São Paulo).

Usem o espaço de comentários para recomendações de lugares que devo visitar, amigos de amigos que mereçam uma ligação, marcas de cerveja que eu não posso deixar de experimentar, ou qualquer outra coisa que confirme minha viagem de férias como um convite ainda mais sedutor, e que a volta sirva apenas para catar a Clarissa pelo braço, depois de vender meu corpo na loteria do Green Card.

Encontros roqueiros já agendados:

· Feist – top de 2007 com The Reminder, vice-musa da casa, e ausência sentida desde o perdidão no Tim Festival.

· Lucero – top de 2006, meia dúzia de belos discos e dois shows à $15, no meio da semana. Vou acabar vendo os dois.

· The Hold Steady – medalha de prata em 2006, com um belo disco novo já espalhado na rede. Não é tão bom quanto o álbum anterior, mas a soma dos hits de ambos rende, certamente, os melhores setlists possíveis na carreira da banda até hoje.

· Smoking Popes – quarteto de Chicago que parece capturar o Morrissey no momento em que seu desejo por se tornar um cantor de country se tornou incontornável, só que com uma banda punk de apoio. Lançaram dois discos lindos antes de acabarem (Born To Quit e Destination Failure), e, após uma tour de reunião, estão lançando um terceiro.

· Stone Temple Pilots – se o Scott Weiland de fato aparecer, tem tudo pra ser histórico.

· Jimmy Eat World – uma das poucas bandas da adolescência capaz de ainda sustentar meu interesse. Chase This Light, o último disco, não é nenhum Bleed American, mas é bem mais legal que Futures, o anterior. O show deve ser uma overdose de hits. Diversão garantida.

· Spoon – somando as favoritas de todos os discos, eles podem fazer um puta show. Se forem no sentido contrário, pode ser um saco. Reza a lenda que a banda não é boa ao vivo, mas eu vou me divertir mesmo se for muito ruim.

· Hot Water Music – vai ser ainda mais fera por proporcionar um encontro com vários amigos da west coast, em Philadelphia. Prometo não medir esforços pra tirar um foto ao lado da estátua do Rocky.

· Breeders – não fui vê-los no primeiro Curitiba Pop Festival porque, na época, Curitiba me parecia tão distante quanto Nova York. Eles fazem dois shows grátis em um mesmo fim de semana, mas o primeiro bate com a viagem a Philadelphia. O único disco deles que eu realmente gosto é o Last Splash, então o show pode acabar sendo um fiasco (um fiasco grátis, é bom lembrar). Ainda assim, poucas possibilidades me parecem tão imperdíveis quanto ouvir “Divine Hammer”, “Driving on 9” ou “Cannonball” em uma tarde de verão em Nova York.

· The Loved Ones – projeto atual de um ex-Kid Dynamite, seguramente a melhor banda de hardcore dos últimos 20 anos. O primeiro disco deles é bacana, e todos dizem que eu iria adorar o segundo. Eles abrem pro HWM e pro Hold Steady, então devo vê-los duas vezes. De qualquer maneira, é a única banda de abertura que parece digna de menção.

Possíveis adições:

· Alkaline Trio – tenho bastante vontade de vê-los ao vivo, mas os dois shows que batem na minha agenda já estão esgotados. Caso a Ticketmaster coloque outro lote à venda, ou eu consiga comprar um ingresso por um preço razoável, entram pra lista.

· Mighty Mighty Bosstones - embora eles não lancem um disco bom desde o essencial Let’s Face It, é um show que eu tenho muita vontade de ver. Ainda não comprei ingresso, mas eles tocam em Nova Jersey, no mesmo dia dos Breeders em NY, com os Dropkick Murphys – banda que me dá medo, mas que o Bruce gosta. Se a logística não parecer inviável, vai rolar.

· Vaselines – tocam duas vezes em Nova York. Nem sabia que a banda tinha voltado à ativa, e sei menos ainda o que esperar desses shows.

· St. Vincent – Marry Me é um disco bem interessante, e a moça faz um show grátis no mesmo dia do Vaselines. Tem tudo para virar um belo programa duplo.
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· Brian Wilson – o ingresso é caríssimo ($125 o mais barato) e tenho quase certeza que sua atual presença seria mais fonte de depressão do que de saudável lembrança dos anos passados. É verdade que acho o sujeito um dos maiores gênios da história da música pop, mas é mais verdade ainda que aquele gênio muito pouco tem a ver com o homem que estará no palco, soterrando por uma monstruosa banda de apoio.

· Chuck Raggan – show solo de um dos vocalistas do Hot Water Music. Não sei. Mesmo.

· Bloc Party – não conheço bem, mas eles fazem dois shows em noites vazias em LA. Se alguém pilhar, acabo vendo.

· Less Than Jake / Goldfinger – esse aí só será levado em consideração se a insanidade das férias chegar a um nível tal que, no aconchego do meu apartamento, me é inconcebível. Já vi o LTJ aqui no Rio, e o Goldfinger não lança nada que preste há uns 10 anos. Se eles fossem tocar toda a primeira metade do Hang Ups, eu iria na hora, mesmo que só por consideração à adolescência. Como a chance de isso rolar é ínfima, a chance de eu ir não é nada maior.

Fora isso tem um show grátis do Sonic Youth (mas com reservas já esgotadas) no dia em que eu chego, Beach Boys (quem serão?), Zombies (e esses, então?), Shelby Lynne no mesmo dia do STP, Bob Mould, Bruce e Against Me! chegando a Nova York depois de minha partida, Wilco em Agosto, e o desejo de que as férias e o dinheiro durassem só um pouco mais.

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Driving Music

Meus mais sinceros agradecimentos a todos que apareceram no primeiro show do Driving Music, na adorável cidade de Juiz de Fora. A experiência não foi traumática o suficiente para sufocar o desejo de repeti-la, e estou tentando marcar uma edição carioca para a minha volta de férias. As músicas tocadas no show estão na comunidade do Driving Music no Orkut – em tópico que já rendeu comentários, err, interessantes.

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Cinética

Revista atualizada com textos meus sobre Fim dos Tempos – mais um belíssimo filme de M. Night Shyamalan – e a simpática surpresa Quando Estou Amando, de Xavier Giannoli.

sexta-feira, junho 20, 2008

Revisões e novos hits

Agora que meu ano finalmente acabou, posso começar meu processo favorito de toda a virada: revisões críticas! Na verdade, é só uma lista de canções que teriam entrado no meu mix de melhores do ano, caso ele fosse um álbum duplo.

01 - LCD Soundsystem – “All My Friends”

Qualquer pessoa que reserve um mínimo de atenção às publicações de música já deve ter enfiado o pé em uma poça de baba derramada em nome de James Murphy. Ao ouvir o álbum Sound of Silver, não é difícil entender o porquê: o LCD Soundsystem é, mesmo, uma coisa ótima de se ouvir em quase qualquer situação ou estado de espírito. De todas as faixas do disco, a melhor disparada é o single “All My Friends”. Embora os quase oito minutos oficiais da canção assustem, passada a longuíssima introdução de piano (cortada do single), “All My Friends” parece uma mistura do que há de melhor no New Order e no Jesus & Mary Chain em uma só canção. Duas notas, uma melodia vocal mais que grudenta, uma ótima letra e, para somar, um clipe que é uma versão de “Numb”, do U2, com maquiagem de luta livre.

02 – Band of Horses – “No One’s Gonna Love You”

Desde que eu ouvi falar no Band of Horses pela primeira vez, decidi que o nome da banda era genial demais para eu não gostar dela (imagine se eu soubesse que era uma banda de surfistas barbudos...). Insisti várias vezes com o álbum anterior, Everything All The Time¸ mas o contato nunca rendeu fagulhas significativas. Até que saiu Cease to Begin, e todos os fãs pareciam decepcionados. Por algum motivo, isso normalmente significa que eu vou acabar gostando muito do disco, e não deu outra: a química foi instantânea. “No One’s Gonna Love You” é uma balada insuportável de tão bonita, com sua guitarra insistente e o vocal à Flaming Lips (ou seria Supertramp?) de Ben Bridwell esticando as pontas de seus agudos. Ainda consegue uma proeza rara: começa com um ar meio nostálgico, mergulha de cabeça na tristeza na ponte para, depois, explodir em um refrão deliciosamente ensolarado. É uma canção incrível.

03 – Spoon – “You Got Yr Cherry Bomb”


Ga ga ga ga ga, sexto álbum de estúdio do Spoon, foi hypeado até não mais poder. Como vem acontecendo com todos os discos da banda, algumas faixas me parecem absolutamente extraordinárias, e outras francamente abomináveis (caso do single “Don’t You Evah”, cover da finada banda National History, insuportavelmente parecida com aquele hit mau caráter das Pussycat Dolls). Na metade boa de Ga ga ga ga ga, temos, porém, pérolas como “The Underdog”, “Don’t Make Me A Target” e a fabulosa “You Got Yr Cherry Bomb”, canção de refrão forte e de batida disposta a não parar por nada nesse ou em outro mundo. Músicas boas o suficiente para se juntarem ao repertório de esperanças do passado, e adicionarem o Spoon à minha lista de shows para ver nas férias.

04 – Andrew Bird – “Herectics”

O Andrew Bird é um talentoso violinista/cantor/compositor de Chicago que, além de contribuir com o Measure for Measure e tocar ocasionalmente com o Wilco, lançou, via Fat Possum, o interessante Armchair Apocrypha no ano passado. “Herectics”, sua melhor canção, soa como um improvável encontro entre Pavement (o vocal de Andrew lembra o Stephen Malkmus de Terror Twilight e Brighten the Corners) e Arcade Fire. A ponte faz uma mudança de tom meio incômoda, mas o ótimo refrão e os marcantes riffs de guitarra e violino fazem você querer retornar à canção várias vezes. E o bom é que, depois de algumas audições, a parte que parecia um pouco torta começa a fazer algum sentido.

05 – Cat Power – “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”

É uma ironia dos diabos, mas sempre fico com a impressão de que a Cat Power rende mais como intérprete de repertório alheio do que como compositora. Por mais que eu goste de The Greatest (e eu gosto muito), não deixa de ser impressionante como ela sabe extrair vida nova de canções já queimadas na memória pelos anos de convívio. Seu último disco de covers, Jukebox, é prova contundente, mas não tão boa quanto sua versão para “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”, gravada para a trilha-sonora de I’m Not There. Enquanto boa parte dos artistas convidados trabalhou o material original de Dylan com abordagens protocolares (caso de Jeff Tweedy e sua versão um tanto decepcionante para a bela “Simple Twist of Fate”, ou o Sonic Youth, fazendo exatamente o que se espera deles, com a faixa-título), Cat Power faz uma versão negona, hiper dançante do clássico de Blonde on Blonde. A canção dura quase 7 minutos, mas se durasse para sempre você não pararia de dançar.

06 – Stars – “Midnight Coward”

Existem poucas coisas tão agradáveis quanto encontrar, na pilha de RARs , um disco bacana que você baixou e, por algum motivo, acabou não ouvindo. In Our Bedroom, After the War, do Stars, foi minha mais recente grata surpresa. Lançado via Arts & Crafts, selo do Broken Social Scene (que, dizem, tem show imperdível confirmado no Canecão, em Setembro), o álbum do Stars é um conjunto de belas e delicadas canções pop, por vezes lembrando um Magic Numbers com menos guitarras (ou um Belle & Sebastian do espaço). O disco todo faz ótima companhia, mas minha favorita nesses dias é o belo dueto “Midnight Coward”.

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É fato que meu ano só começa em Agosto, mas 2008 já tem, até agora, dois hits incontestáveis. Um, de escala global: “Ready For The Floor”, do Hot Chip, parece capaz de bombar toda e qualquer pista de dança no mundo. O outro, particular a esse cantinho: “Sequestered in Memphis”, primeiro single do álbum novo do favoritíssimo Hold Steady (que também vejo ao vivo, em Julho) já é pré-candidato a rock mais fera do ano.

quarta-feira, junho 18, 2008

Primeiro show do Driving Music


Há muito venho considerando uma volta aos palcos. Lá se vão dois anos e um par de meses do último show do Invisibles e, embora as gravações do Driving Music tenham sido extremamente gratificantes, a vontade de encarar pessoas mais ou menos estranhas por meia hora e cantar um punhado de canções para elas vinha crescendo com o tempo. Até que rolou o convite para tocar na festa de lançamento da revista S+S+A, na adorável cidade de Juiz de Fora. De todas as paradas que o Invisibles fez por aí, foi sempre em Juiz de Fora que encontramos as pessoas mais generosas, os sorrisos mais abertos. Para completar, depois descobri que as irmãs da Clarissa já moraram na casa onde hoje funciona o lugar do show. Tamanho encontro de a favores foi fazendo o convite parecer cada vez mais irrecusável, então cá estamos: o primeiro show do Driving Music acontece por lá no próximo sábado, dia 21.

A indagação natural vem logo em seguida: como fazer show se eu sequer tenho uma banda? Bom, de fato, banda eu não tenho. Mas tenho um violão, dois dedos de piadas guardadas no bolso e uma inabalável cara de pau. Farei um set de aproximadamente meia hora, tocando versões acústicas de canções do Driving Music, algumas do Invisibles, e uma ou outra cover para temperar o ambiente. Tem tudo pra ser uma noite divertida. Na pior, o clima da cidade é ótimo e a cerveja é barata. Se eu não conseguir fazer nada para ajudar, essas duas coisas sustentam qualquer noite boa no meu caderninho. É isso. Seria um prazer inenarrável tê-los por lá.

Serviço:

No próximo sábado, venha prestigiar a festa de lançamento da revista S+S+A!

Quando: 21/06/08 - às 23hs.
Onde: Café Acústico, Av. dos Andradas, 197 - 2°piso - Centro.
Juiz de Fora - MG
Entrada + Revista: 10 reais [com flyer, 7!]

Cervejas Brahma/Skol 600ml à 3,50. ;)

Driving Music [Acústico] +
Dj's Monster Family: Danni Boy, Monstro e Claire. [Soul/Funk Rockabilly/Ska Rock'n'Roll]

quinta-feira, junho 05, 2008

Melhores de 2007

02 – Wilco – Sky Blue Sky




Quando escrevi, na minha lista de filmes, sobre Os Donos da Noite, de James Gray, lembro de ter ressaltado a surpreendente força extraída, pelo diretor, de construções narrativas absolutamente clássicas, habilmente contrapostas a um mundo em que o esvaziamento narrativo se tornou lugar comum. De certa forma, sentimento muito próximo me tomou ao ouvir, pela primeira vez, Sky Blue Sky – a mais nova obra-prima do mais genial grupo de rock de nosso tempo (superlativos sempre insuficientes). Mas, enquanto o projeto de cinema de Gray responde a seus pares, a conversa do Wilco é com seu próprio passado. Jeff Tweedy, o líder da banda, inventou o alt-country ainda na adolescência, tocando com o fundamental Uncle Tupelo. Finada a banda, Tweedy forma o Wilco com a ambição de desconstruir o gênero que ajudara a criar. Abre esse processo com certa timidez, em AM, disco que – embora promovesse um frutífero flerte do gênero com o indie pop – serve mais como um ótimo espanador do que como retrato do potencial da banda.

A partir do ambicioso álbum duplo Being There, Tweedy e escudeiros sujam as mãos pondo ao chão suas próprias fundações, em canções que sorvem goles de sabores tão diversos como Velvet Underground (“Misunderstood”), David Bowie (“Sunday” – quase-plágio inspiradíssimo de “Rebel, Rebel”) e Beach Boys (“Outta Site, Outta Mind”), passeando pelo rock setentista (“I Got You (At the End of the Century)”), o pop atemporal (na belíssima “Say You Miss Me”) e o country da idade do mundo (“Someday Soon”). Recolhem e reempilham os tijolos em Summerteeth - disco impressionante por sua capacidade de ser mais desafiador à medida que se revela mais pop – para depois derrubá-los novamente com os monumentais Yankee Hotel Foxtrot e A Ghost Is Born.

Sky Blue Sky nasce como resposta a uma inevitável interrogação: quais canções seriam possíveis após o fim do mundo? Pois não é menos que o apocalipse o que a banda buscava com A Ghost Is Born. Enquanto Yankee Hotel Foxtrot cantava os restos do mundo, seu sucessor tentava traduzir em canções o som da deterioração desses restos. Sons produzidos pelo seu próprio desaparecimento. Vácuos que poderiam circular aprisionados em um eterno andamento (“Spiders (Kidsmoke)”), na balada do desejo de auto-aniquilação (“Handshake Drugs”), nas asas de um espírito do passado (“Hummingbird”), ou na insuportável prisão de um ruído sem pausas (o pós-canção de “Less Than You Think”). O aceno de resposta vinha, porém, ao fim do funeral: após o prólogo de “Less Than You Think”, somos presenteados com uma nostálgica e quase frívola cançãozinha chamada “The Late Greats”. “The best life never leaves your lungs”, canta o defunto. Troca-se o desejo de encontrar curvas no minimalismo por um retorno ao útero (à terra, se pensarmos em Naomi Kawase) das canções pop, em sensação próxima à alcançada pela última parte de Nossa Música, de Jean Luc-Godard.

Depois de destruir o mundo, parece nos responder o Wilco, a única coisa decente a se fazer é pedir desculpas. Pois é como uma longa retratação que Sky Blue Sky se configura. Não temos mais esquinas que dão em outras esquinas. Como deixa clara a repetição de seu próprio título, a ambição do Wilco parece ser dar a volta no mundo em uma só reta, para chegar, enfim, novamente ao princípio. Esse desejo é cuidadosamente arquitetado em todos os níveis que discursam em Sky Blue Sky: enquanto Yankee Hotel Foxtrot era fruto do empenho de se extrair novas texturas sonoras pela manipulação sonora promovida pela tecnologia, Sky Blue Sky é gravado e mixado como um disco de 30 anos de idade. A bateria é encaixada em um canto dos headphones, seca em espacialidade como costumava ser antes do abuso de compressão se tornar lei de mercado; as texturas são extraídas de instrumentos essencialmente orgânicos (órgãos, claro, mas também violinos e a slide guitar de Nels Cline), não mais de plug-ins de Pro-Tools; a voz de Tweedy, mais áspera e imperfeita do que jamais foi, troca o universo imagético críptico dos discos anteriores pelo encanto diante da cor do céu.

Depois do fim do mundo, temos a infância do mundo. A vida se torna circular quando os homens se percebem inseridos em uma horizontalidade absoluta. Depois do azul do céu, existe, ainda, o céu azul. As vontades e as satisfações, em Sky Blue Sky, são as mais mundanas. “With a sky blue sky / This rotten time / Wouldn’t seem so bad to me now”, canta Tweedy na faixa-título. “Oh I didn’t die / I should be satisfied / I survived / That’s good enough for now”. O mundo acabou, mas o sujeito percebe que ainda está vivo. E esse olhar recém-ressucitado é capaz de uma generosidade extraordinária. Enquanto A Ghost Is Born era um mergulho no ser-eu, Sky Blue Sky é um conjunto de pequenas epifanias mundanas. É a tradução musical do eterno retorno. É um disco sobre a intensa sensação de pertencimento ao mundo.

Muito por isso, é um álbum obcecado com a idéia do movimento da vida. Logo na primeira faixa, “Either Way”, Tweedy se entrega a um jogo de “talvez” que vem justamente colocar suas canções em um ritmo uno, inabalavelmente mantido ao longo de todo o disco. “Maybe you still love me / Maybe you don’t”. Nove faixas depois, na deliciosa “Walken”, encontraremos compasso parecido em “I was singing / This song about you / I was thinking about singing / This song for you” – sensação que se repete no título de “Leave Me (Like You Found Me)”; ou na reiteração que é ferramenta para a aceitação do inevitável em “Hate It Here”; ou ainda como “white light”, “one light” e “what light” se misturam na penúltima canção do disco. Tweedy busca força na repetição dos fonemas (ou dos riffs – como em “Impossible Germany”), e aproveita a abundância de consoantes da língua inglesa como tradução concreta desse sentimento de repetição, de retorno.

Mas se a repetição nos leva do fim ao princípio, não existem fins nem princípios. O que existe é o som de uma vogal que atravessa o tempo, soando, soando, soando. Tweedy atinge, enfim, o objetivo que colocará para si no primeiro verso de "Hummingbird": torna-se um eco. A busca quase budista pelo som do universo fecha o disco em “On And On And On” – a canção que a banda parece ter passado todos esses anos tentando fazer. As vogais são reinterpretadas pela linha-base de piano e guitarra – que, conscientemente, evita que o som do contato dos dedos com os instrumentos interrompa o soar das notas, como as consoantes interrompem o som que sai pela boca. O Wilco realiza, com esse último e brilhante número, a canção-de-ninar que a banda já, antes, buscara um sem número de vezes (“In A Future Age”, “My Darling”, “Reservations”, “Wishful Thinking”). E com isso, Sky Blue Sky faz valer a máxima de que as obras-de-arte mais bem acabadas são aquelas construídas com um rigor formal tão absoluto que ele se torna transparente. Vê-se através dele como se ele não estivesse ali. Em canção que continua soando após o disco acabar, voltamos ao início novamente, no delicioso movimento de, ao fim de Sky Blue Sky, continuar enfileirando blue sky blue sky blue...


For Dummies
Álbuns do Wilco recomendados em ordem decrescente de interesse:

01 - Sky Blue Sky (2007)
A Ghost Is Born (2004)
Yankee Hotel Foxtrot (2002)
Summerteeth (1999)
Being There (1996)

06 - AM (1995)

quinta-feira, maio 29, 2008

Melhores de 2007

03 – Bruce Springsteen – Magic


Em época em que todo estreante já é capaz de se entregar aos prazeres da auto-referência, a diferença substancial só vem às claras quando um sujeito com uma obra monumental, como é o caso de Bruce Springsteen, devolve ao processo a força de seu significado. Em 30 anos de carreira, Bruce vem re-escrevendo uma relação apaixonada – e, por isso mesmo, conflituosa – com seu próprio lar, tanto geográfico quanto musical. A auto-referência se expande em Magic, arrebentando as correntes do fascínio por um mundo ficcional hermético, e, como um papel dobrado, promovendo encontro entre pontos que o tempo e o espaço separaram em distância. Depois de 30 anos de plena invenção musical, Bruce resolve olhar para o passado com uma abrangência que sua pontualidade política nunca permitira e faz, com isso, um de seus melhores álbuns.

Tratando-se de um sujeito que sempre se colocou no mesmo plano de seu país, é bastante significativo que o desvio do olhar se dê no presente momento. Com The Rising, seu extraordinário disco pós-11 de Setembro, Springsteen se via diante de um lar partido. Como lhe é de praxe, sua exaltação do heroísmo do homem comum vagava pelos destroços de uma terra que, imortalizada em décadas de suas próprias canções, parecia irreconhecível. Devils & Dust, de 2005, iniciava o retorno ao passado pela exceção: era uma visita ao universo sombrio e in progress de Nebraska (já revisitado, pouco antes, em The Ghost of Tom Joad), seu disco de demos acústicas lançado em 1982. O retorno é significativo, pois Nebraska era, sobretudo, um disco de luto. Esse luto se manifestava por uma dupla via metalingüística, desnudando as canções dos arranjos da E Street Band em uma terra onde as pessoas matam e morrem porque caminham pelo mundo. Nos primeiros versos das faixas que entitulam e abrem ambos os álbuns, encontramos frases como “Me and her went for a ride sir and ten innocent people died” (em “Nebraska”) e “I got my finger on the trigger / But I don't know who to trust” (em “Devils & Dust”). Depois do esvaziamento do conforto da era Clinton em The Ghost of Tom Joad, e da destruição que reaquecia a fé em The Rising, o homem comum springsteeneano caminhava pelo deserto sempre com um dedo no gatilho.

Mas Bruce sempre foi, em sua alma, um progressista. Se o terror faz uma sombra momentânea em suas canções, é apenas pelo tempo necessário para recolher os cacos e começar sua reconstrução. A resposta mais eloqüente à era Bush viria em 2006, com We Shall Overcome: The Seeger Sessions. Em seu primeiro disco de covers, Bruce ressuscitava as canções de Pete Seeger, o homem-ícone da transformação pregada pelo movimento folk norte-americano (embora, para a música pop, tenha ficado marcado como o sujeito conservador que tentara desplugar Bob Dylan no lendário concerto de 1965). Da crise mais aguda, ouvíamos ressurgir o coro de “We Shall Overcome”, injetando vida em um país pela rememoração de sua própria luta, da resistência de virtudes abandonadas no passado.

Com exceção de seus marcados discos de luto, a carreira de Bruce Springsteen pode ser pensada, retrospectivamente, em blocos temáticos. O primeiro momento é o da juventude encantada pela música negra norte-americana, com Greetings from Asbury Park, N.J. e The Wild, The Innocent and the E Street Shuffle (ambos de 1973). Em seqüência, os épicos proletários de Born to Run (1975) e Darkness on the Edge of Town (1978). A entrada na nova década é marcada pelo deslumbramento diante da possibilidade de se criar uma nova estética pop-rock, tomada por sintetizadores e texturas outras, que vão do esplendor criativo (The River e Born in the USA) ao princípio da decadência (a dupla Human Touch e Lucky Town, de 1992). E aí entramos, enfim, na era de nostalgia pós-Rising, da qual Magic se firma como presença mais otimista.

Não à toa, esse momento coincide com a possível renovação democrata norte-americana, em um ano em que os cantos de resistência podem dar lugar à revitalização dos ícones e dos valores de uma América em reconstrução (já que a iminência das crises políticas e econômicas nunca interessou Bruce – em essência, um sujeito movido por conseqüências, e não causas). O passeio pelo passado – mais ou menos longínquo – vai buscar o que mereceria preservação por ressoar no mundo de hoje. De toda aquela divisão em temas do parágrafo anterior, só uma permanece inacessível: a juventude. A volta aos primeiros dias é impossível, pois a força daquele momento sobrevive, de fato, na fugacidade dos olhos frescos. Hoje, Bruce Springsteen é um senhor de idade. O frescor de seus olhos fora substituído, porém, pelo brilho enternecido de uma leve nostalgia que, em um processo de leitura cumulativo, atualiza os sonhos do passado com as cores do mundo de hoje.

Pois Magic é, em essência, um disco sobre personagens cientes da proximidade de seu desaparecimento. A vontade de Bruce de se colocar, sempre, no plano do mundo fica expressa logo na primeira canção: em “Radio Nowhere” ele se pergunta se, nos dias de hoje, sua voz ainda ressoa em algum lugar. O desejo de entrar no ritmo do mundo (“I just want to hear some rhythm”) é sempre interrompido pela dúvida de seu próprio tempo (“This is radio nowhere / Is there anybody alive out there?”). Ao estabelecer seu plano de criação, Bruce Springsteen evidencia o óbvio sempre esquecido: é por esses olhos ameaçados de morte que ele construirá suas personagens. A morte pode se encarnar na gravidade que derruba a juventude (na belíssima “You’ll Be Coming Down”), em um relacionamento atormentado pela certeza de que não durará para sempre (“Livin’ in the Future” – canção que revisita o repertório sonoro de Born in the USA com uma vitalidade embasbacante) ou na epifania religiosa do amante que observa a amada, e que sobrevive ao desaparecimento de civilizações inteiras (“I’ll Work For Your Love”, uma das letras mais bonitas do disco, e com uma introdução em piano digna de “Thunder Road”).

Essa consciência aguda de sua própria finitude é devastadora, e talvez só encontre paralelo recente no deslumbrante Modern Times, de Bob Dylan. É quando pensada em sua ambigüidade que ela encontra maior força, e em Magic isso fica mais claro em duas estupendas canções: “Girls In Their Summer Clothes” e “Long Walk Home”. Em ambas, Bruce dirige pelas ruas mágicas de cidades mortas, povoadas pelas lembranças de tempos distantes, em um desfile felliniano por espaços idealizados pelo tempo passado (os letreiros de neon, as luzes sonolentas de uma varanda, as lanchonetes e barbearias, a bandeira que se impõe sobre o fórum como a cruz sobre a torre da igreja). Magic é a percepção da sombra da morte sobre um homem que tem plena consciência que levará consigo uma era, um imaginário. O mais impressionante é que Bruce Springsteen olha – em auto-referência sujeita às críticas sempre dirigidas aos artistas que, em dado momento, resolvem celebrar sua própria vida – para todo esse desfile com um olhar ainda tomado pelo desejo de se manter em movimento, na dança de sua própria vida. Como afirma, em “Girls In Their Summer Clothes”:

“She went away, she cut me like a knife / Hello beautiful thing, maybe you could save my life / In just a glance, down here on magic street / Love’s a fool's dance /
And I ain't got much sense, but I still got my feet”.


For Dummies
Álbuns de Bruce Springsteen recomendados em ordem decrescente de interesse:

01 - Born to Run (1976)
02 - The Wild, The Innocent and the E Street Shuffle (1973)
03 - Darkness On The Edge of Town (1978)
04 - Greetings from Asbury Park, N.J. (1973)
05 - The River (1980)
06 - Born in the USA (1984)
07 - The Rising (2002)
08 - Magic (2007)
09 - We Shall Overcome: The Seeger Sessions (2006)
10 - Nebraska (1982)
11 - Tunnel of Love (1987)
12 - Devils & Dust (2005)
13 - Human Touch (1992)
14 - Lucky Town (1992)
15 - The Ghost of Tom Joad (1995)

Bob Mould


Não é que District Line (2008) não seja um bom álbum, mas a distância que existe entre os dois discos de rock anteriores de Mould (The Last Dog and Pony Show, de 1998 - Body of Song, de 2005) parece ser a medida exata para a diferença de grandeza entre "Paralyzed" (a melhor música de Body of Song) e "The Silence Between Us" (a melhor faixa deste último disco). No caso de Mould, o tempo parece ser realmente capaz de produzir saltos espantosos.

quarta-feira, maio 14, 2008

Melhores de 2007

04 – Josh Ritter – The Historical Conquests of Josh Ritter


Se o Jeff Tweedy seria o mais próximo que a nossa geração chegou de ter seu próprio Bob Dylan, o Josh Ritter é o mais perto que chegamos de ter alguém que soe exatamente como o Bob Dylan. Enquanto seus dois primeiros discos pareciam não trazer mais que um jovem artista folk de notável talento, é a partir de The Animal Years que a obsessão em se tornar, de fato, Dylan vira o norte de seu trabalho. The Historical Conquests of Josh Ritter é o passo adiante nessa mesma missão. O curioso é que essa vontade de Ritter – que, reza a lenda, decidiu aprender a tocar guitarra após ouvir Dylan e Cash repartirem os vocais de “Girl From the North Country” – por Dylan é, claramente, uma obsessão de fã: seu projeto artístico está claramente mais interessado no trânsito livre pela deambulação rítmica que marcara a carreira de Dylan, do que em se tornar um sósia irreconhecível em sua individualidade. É exatamente nesse salto que The Historical Conquests deixa de ser uma boa imitação, e se torna uma fascinante declaração de amor musical.

Nesse passeio pela discografia de Dylan – e que inclui, em certa medida, seus ancestrais e sua prole – é natural que Ritter vá à primeira grande ruptura promovida pelo mentor, abrindo The Historical Conquests com sua própria versão para “Subterranean Homesick Blues”: “To The Dogs or Whoever” mergulha em um palavrório sem freios decidido a atropelar a métrica, convocando de Joana D’Arc a Casey Jones para uma dança freneticamente desregrada, capaz de girar em versos escorregadios que se agarram em imagens absolutamente poderosas (“Through the wreck of a brass band I thought I could see her / In a cakewalk she came through the dead and the lame / Just a little bird floating on a hurricane” ou, minha favorita, “Running her hands through the ribs of the dark”). A urgência da levada quase punk da música só tem a crescer se lembrarmos de “Girl In The War”, a linda balada que abria The Animal Years. Mais do que uma análise acadêmica do cancioneiro de Dylan, The Historical Conquests traz Josh Ritter clamando por uma possessão.

“Right Moves”
– canção que apareceu aqui no meu mix de melhores do ano – acompanha Dylan em sua busca pelo pop perfeito ao lado dos Travelling Wilburys. Em uma de suas melhores canções, Ritter mistura o refinamento de Dylan com a sensibilidade quase ingênua de George Harrison, e o olhar pseudo-operário de Tom Petty, colorindo uma melodia próxima do universo quase infantil construído por Brian Wilson. É uma canção que celebra a vida com leveza, sem frear os impulsos de se divertir nas convenções, ou de fechar uma estrofe com um mi maior, mesmo quando ele parece absolutamente previsível em sua obrigatoriedade.

“The Tempation of Adam” parece, em princípio, um retorno ao formato acústico de Freewheelin’ ou Another Side of Bob Dylan, mas é perturbada em sua lógica por uma intromissão mais significativa do que o belo fraseado de cordas e metais que parte a canção ao meio: Ritter pega um dos temas mais caros da música pop – o velho sentimento do casal que se consome em isolamento diante do mundo – e o transfigura em literalidade ao colocá-los em um abrigo nuclear, à espera da terceira guerra mundial. Isso rende uma das letras mais impressionantes de sua carreira, começando com “If this was the Cold War we could keep each other warm”, e terminando com “Would we ever really care the world had ended
/ You could hold me here forever like you're holding me tonight / I look at that great big red button and I'm tempted”.

“Rumors” segue para Highway 61 Revisited, criando uma versão não balada de “Ballad of a Thin Man”. A intromissão instrumental “Edge of the World” poderia nascer em Pat Garret & Billy The Kid, se o filme de Peckinpah repousasse no conforto das nuvens. “Next To The Last True Romantic” caberia em medley com “Maggie’s Farm” ou “Tombstone Blues”. A belíssima “Still Beating” lembra o Dylan sereno de Blood On The Tracks (“Simple Twist of Fate”, por exemplo), mas torna a simplicidade mais complexa com um belo arranjo de trompa e texturas de scrap guitar.

Embora Josh Ritter sempre conduza suas referências a lugares que elas não iriam com os próprios pés, é quando promove encontros de mundos que The Historical Conquests se revela um grande álbum. Esses encontros podem se manifestar na belíssima versão campfire de “Wait for Love” – que fecha o disco em reprise – ou na audácia que cruza a porta aberta na cabeça de Bruce Springsteen por “Like A Rolling Stone”, em “Empty Hearts”. Em uma de suas mais inspiradas canções, Ritter consegue combinar versos chupados de Dylan, introdução e refrão digno dos melhores momentos de Bruce e - a cereja no bolo (se eu gostasse de cereja) - um descarado roubo do riff de acordeão de “Neighborhood #2” (aqui harmonizados por guitarra e violino), do Arcade Fire. A colagem é tão perfeita que nunca percebemos as emendas. “Empty Hearts” é a síntese de Ritter justamente por trazer às claras o amor que move sua jornada pela música pop, tomando empréstimo de pais e filhos que, desafiando a aparente linearidade do tempo, chocaram-se em um só espírito.

For Dummies
Álbuns de Josh Ritter recomendados em ordem decrescente de interesse (considerando que seu disco de estréia é inacessível, e que eu não me costumo me interessar por discos ao vivo):

01 – The Historical Conquests of Josh Ritter (2007)
02 – The Animal Years (2006)
03 – Hello Starling (2003)
04 – Golden Age of Radio (2001)

quarta-feira, maio 07, 2008

Melhores de 2007

05 – The Weakerthans – Reunion Tour


Quem não gosta do Weakerthans costuma dizer que sua música não passa de um fundo quase neutro para poesia. De fato, desde Fallow, disco de estréia lançado em 1999, John K. Samson vem esticando os braços como um dos letristas mais originais de seu tempo, capaz de criar um universo tão particular quanto reflexivo. Às canções, sobra a elegância de seguir para o fundo do palco, criando um simples, mas extremamente eficiente cruzamento de composições folk com paredes de guitarra. Não há sinais, aqui, da intenção de transgredir o gênero (como no Wilco). Tampouco de inventariá-lo em suas mais variadas manifestações (como faz Josh Ritter). O que temos são melodias e batidas que se cruzam em quarteirões, criando uma cidade para que as personagens de Samson circulem na esplendorosa simplicidade de suas vidas.

Iniciando uma série de quatro antologias, Fallow era um disco construído a partir do nome da banda – uma citação ao ativista Ralph Chaplin, que se perguntava "What force on Earth can be weaker than the feeble strength of one?". Enfileirando canções sobre a impotência diante da vida, o álbum de estréia da banda já trazia, em toda a sua agradável irregularidade musical, um sem número de exemplos da complexa construção de imagens de Samson: um diploma universitário pendurado na parede do banheiro; o homem que, ao se arrumar para o trabalho, revela o desejo de poder desligar o céu; as mentiras que buscam descanso rastejando para debaixo da cama; as crianças que enterram o passarinho que se chocou com uma vidraça; o morto que vivera como um barco sem âncora; o casal que se comunica somente através de perguntas; as pessoas solitárias que falam alto demais.

Left and Leaving, o segundo, observava as ruas de Winnipeg em busca não só das vidas que circulavam em suas entranhas, mas também da vida da própria cidade. Estão lá a garage sale que oferece flores de plástico, xícaras de café roubadas de restaurante, e uma rotina de trabalho de quarenta horas semanais; a respiração da cidade que passa pelos espaços de prédios derrubados, como dentes que se desprenderam de um sorriso; o convite para se brincar no carrossel de bagagens do aeroporto; o prefeito que mata crianças para não ter que subir os impostos; as luzes gélidas que brilham como congeladas lágrimas de televisão; o sujeito que não consegue perdoar os prédios que o cercam.

Em Reconstruction Site, o recorte temático ganharia intenções abertamente filosóficas em um disco que ambiciona recuperar o sentido das palavras. Suas personagens trajam traços ainda mais sofisticados: um gato chamado Virtute que tenta tirar o dono da depressão; um explorador aposentado que janta com Michel Foucault (e que aprendera francês com um pingüim na Antártica); um paciente terminal que se esconde para rezar; uma garota que fala enquanto dorme; as estórias que sempre chegam a um mesmo fim; o céu de jornal que chove novos nomes para todas as coisas. Reconstruction Site combinava uma sofisticação ímpar de linguagem e de intenções de reformulação semântica com uma banda em produtivo conforto em sua sonoridade. Depois de dois álbuns tão interessantes quanto irregulares (por suas escolhas de timbres, pela ordem das canções, pelos conceitos de produção), o terceiro disco do Weakerthans parecia encontrar liga no vulto gigantesco de suas próprias ambições.

É bastante natural, portanto, que o disco seguinte seja Reunion Tour. Reúnem-se, aqui, alguns dos mais caros personagens de Samson – por vezes, literalmente (como o retorno de Virtute, o gato, que explica, em uma canção, o motivo de sua partida), por outras em indicações de comportamentos já pensados em discos passados. Esse grande reencontro de angústias gera, mais uma vez, um conjunto bastante impressionante de canções agradáveis e personagens absolutamente fascinantes.

Em “Civil Twilight”, ele é o rapaz que tem como passatempo recitar nomes das províncias e de estrelas de Hollywood (é impossível não sorrir diante de “Oh, Ontario! Oh, Jennifer Jason Leigh!”), mas que enfrenta, a cada crepúsculo, a lembrança da partida de um amor que se foi – levando consigo apenas o silêncio que ele fora capaz de lhe ofertar. Em “Hymn of the Medical Oddity”, Samson retorna aos hospitais (já presentes em “Reconstruction Site” e “(hospital verspers)”, cantando sobre um paciente que pede para ser lembrado como mais do que um experimento científico. A estranha métrica da canção traz um dos versos mais fortes de Reunion Tour:

“The sun will start late and clock out early so I drive around and wait for it. Follow familiar roads, emptied of every memory, under a sheet of silence and unmarked snow. Then idle in some parking lot, smoke half a smoke and ask St. Boniface and St. Vital to preserve me from my past”.

A habilidade narrativa de Samson parece, aqui, ainda mais vibrante do que nos discos anteriores. Além do habitual talento do letrista para criar imagens e personagens, Reunion Tour é um disco em que cada canção é, de fato, uma pequena prosa. E essas estórias são, em suas mais variadas encarnações, sempre contos sobre perdas. Em “Sun in an Empty Room” é o abandono de um lar (“The faces we meet one awkward beat too long and terrify, know that the things we need to say have been said already anyway, by parallelograms of light on walls that we repainted white. So take eight minutes and divide by ninety million lonely miles, and watch a shadow cross the floor. We don't live here anymore”); na deslumbrante “Night Windows”, a falta de um passado (“Stop and hold my breath and watch the way you used to be”); em “Tournament of Hearts”, são as respostas que não vêm (“And I know you're out there waiting for an answer I can't give you”); na faixa-título, o jogo de chaves que abrem tudo o que existe.

Se Reconstruction Site era marcado pela ambição formal (é um disco tomado por sonetos), a prosa narrativa de Reunion Tour não é em nada menos impressionante. Talvez esteja um degrau abaixo apenas por não trazer muito de novo, enquanto no disco anterior presenciávamos uma banda que atingia seu ápice. Em Reunion Tour ela decide continuar por ali, naquele mesmo lugar. Para uma banda marcada mais pela inquietação das palavras do que das melodias, o conforto musical encontrado pelo Weakerthans passa longe de qualquer incômodo. Em seus quatro discos, Samson criou um universo real o bastante para transitar nele com a curiosidade de um visitante. Em Reunion Tour, esse universo parece devolver esse olhar confirmando a frase que encerra a linda “Bigfoot!”: “Oh the visions that I see, they will believe me”.


For Dummies
Álbuns do Weakerthans recomendados em ordem decrescente de interesse:

01 – Reconstruction Site (2003)
02 – Reunion Tour (2007)
03 – Left and Leaving (2000)
04 – Fallow (1999)

sábado, maio 03, 2008

Show de carisma

Mais Driving Music: o site Valepunk me convidou para participar da seção "8 por 1". São 8 perguntas sobre música, sempre iguais, respondidas por personalidades microscópicas como eu. Tentei dar respostas interessantes/divertidas pra que, ao fim, o leitor não pedisse seus 3 minutos de vida de volta. Para ter certeza que eu falhei, basta dar uma olhada na entrevista.

Meus mais sinceros agradecimentos ao Valepunk pela entrevista, e por terem dito que o Driving Music é fantástico. Esse torrãozinho de açúcar será suficiente para me alimentar por mais uma semana.

quinta-feira, maio 01, 2008

If you don't like my fuckin' music get your own fuckin' cab!


No último domingo, foi ao ar a edição do programa Aleatório, da Multhishow FM, que recebeu vosso querido dono-de-casa como convidado. Além de escolher todas as músicas do dia, ainda gravei performances acústicas de 3 das 5 canções da primeira demo do Driving Music.

Você pode, deve e vai ouvir o programa no site da Multishow FM. Agora!

quarta-feira, abril 30, 2008

Melhores de 2007

06 – Against Me! – New Wave


“Come on and wash these shores away / I am looking for the crest / I am looking for the crest of a new wave”. Com toda a flexibilidade e a fluidez dos gêneros da música pop, me parece quase inconcebível ver o refrão acima em um disco que não seja de rock. Por mais que a Joni Mitchell deseje um rio congelado para poder patinar embora, ou que Lulu Santos e Tom Jobim vejam nas ondas o mistério do tempo, esse desejo pela onda de mutilação – essa vontade de ver o mundo se acabar em um banho de renovação – é um sentimento ainda muito próprio ao rock. É a crença de que o rock é muito mais que um gênero: é a condensação da juventude em um espírito, mas que deixa marcas que não são facilmente encobertas pelos sedimentos do tempo.

Desde o lá maior martelado que abre a primeira faixa(-título) de New Wave sabemos estar diante do desejo de se construir um monumento do rock. Esse mergulho transborda o álbum, e fica evidente em seu contexto por uma citação da resenha do disco publicada pela Pitchfork:

“In a post indie-rock world where the Decemberists and Death Cab for Cutie and even Mastodon were cheered for making the major label leap, Against Me! became the first band of the 21st Century to actually succeed at selling out”.

Quantas bandas acreditariam tanto no rock a ponto de destruir, com um disco, o conforto alcançado depois de 10 anos de carreira e cinco bem sucedidos discos independentes em nome de uma nova onda que se joga sobre a costa? New Wave é o salto de uma banda punk assumidamente anarquista dentro do furacão niilista do rock básico; é um disco tomado pelo desejo de auto-destruição. É a entrega messiânica à voz que convoca sua própria aniquilação.

Mais do que um disco de grandes canções – que são muitas, mas não todas as de New Wave – o que é absolutamente espantoso no sexto disco do Against Me! é essa manifestação de um espírito, esse grito não-ignorável de uma banda que traz uma exclamação em seu nome. Gritos no vazio de seu próprio desconforto, seja com a onda da faixa-título, com um “are you restless like me?” (de “Up The Cuts”), um “Worked all week long / now the music is playing on our time” (da fabulosa “Thrash Unreal”) ou um “This room feels like it's going to explode” (“Borne on the FM Waves of the Heart”). New Wave só poderia causar um desconforto generalizado, pois é um disco sobre o desconforto, sobre o incômodo de se estar preso em sua própria pele. É um disco sobre pessoas que negam ao tempo o direito de passar, pois encontram na juventude uma posição política da qual não estão dispostas a abrir mão.

Embora tenha lá seus momentos desagradáveis (“Stop”, por exemplo, é uma aberração), New Wave é tomado por acordes que pulsam com uma força rara – algo que parece só ser encontrado quando a garganta é dilacerada pela urgência das próprias canções. Em seus grandes momentos, o sexto disco do Against Me! se isola em uma proeza na terra dos três acordes: é um disco que soa absolutamente único. É o registro de uma banda que, após dez anos de carreira, parece, enfim, fazer seu disco de estréia.


For Dummies
Álbuns do Against Me! recomendados em ordem decrescente de interesse:

01 – New Wave (2007)
15 - Todos os outros.

sexta-feira, abril 18, 2008

Masculino

E não é que a pausa da placa de som se confirmou sintoma de um problema bem maior? Meu computador resolveu parar de funcionar, e já estou há uma semana sem máquina em casa. Meus emails andam acumulando, o blog segue em paciente silêncio, minhas contribuições pra Cinética estão penduradas no cabide, e a crise de abstinência vem corroendo, ferozmente, meus dias. Reza a lenda que isso muda no fim-de-semana, quando o computador deve voltar do conserto, mas, enquanto isso não acontece, venho tentado me acostumar à sensação de ter um tufo de cabelos grudado na base da minha língua. Como há anos já me livrei da maniar de mascar perucas, só posso atribuí-la às variadas manifestações da abstinência informática.

1 - GRANDE PRÊMIO ROUSSEAU DE MÚSICA INCIDENTAL

Não é novidade que, de tempos em tempos, me pego apaixonado por uma canção-mulherzinha que ouço no rádio. No passado, o GRANDE PRÊMIO ROUSSEAU DE MÚSICA INCIDENTAL já havia premiado artistas variadas como Dido (por "Thank You"), Michelle Branch (por "Everywhere"), Vanessa Carton ("A Thousand Miles"), KT Tunstall ("Suddenly I see"), Pink ("Who Knew"), Corinne Bailey Rae ("Put Your Records On") e um sem número de fêmeas sem talento que arejam meus dias com coloridas canções.

A música da vez vinha me perseguindo em rádios aleatórios, enquadrando-me nas jornadas noturnas para o trabalho e nas aulas de pilates. A tristeza é que nunca conseguia descobrir o nome da artista ou da canção, e nosso flerte se mantinha limitado à sorte do acaso. Até que, dia desses, via tv ao acordar e, passando pela Mtv, dei de cara com o clipe da música. Descobri que ela atende pelo bizarro nome de "Bubbly", e a dona da voz se chama Colbie Caillat. Não sei mais nada sobre ela, além daquilo que a canção e o clipe me permitem conhecer. Mas, por ora, posso dizer que nossos encontros têm sido bastante agradáveis.

2 - CABELO

Há alguns anos já venho afirmando que, em matéria de maus cortes de cabelo, nossa geração já superou a da década de 1980. Mesmo tomado por essa certeza, não consegui deixar de me surpreender ao ver a apresentação do Mars Volta no David Letterman. Sempre achei que as pessoas exageravam na babação em cima da banda, mas hoje posso afirmar com certeza: os gênios em que acredito têm bom senso suficiente para não sair na rua com um cabelo assim. Quem quiser conferir, que o faça por sua conta e risco nesse link (NSFW!!).

3 - YOU KNOW HOW I KNOW YOU'RE GAY?

As coisas ficam complicadas quando você se pega emocionado em duas ocasiões diferentes que só têm uma coisa em comum: "I will always love you". Pior do que isso: a primeira, foi vendo Moulin Rouge; a segunda, em um episódio de Gilmore Girls.