quinta-feira, dezembro 27, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:33 AM
Top 5 da semana
Em meio à confusão de natal+aniversário (já aceito parabéns nos comentários, embora espere ainda postar isso no dia 26)+passagem de ano, resolvi deixar cá uma última listinha, antecipando a listona que abre todo novo ano aqui, no Fabito's Way. Logo nos primeiros dias de 2008, portanto, começo a eleger meus melhores por cá – filmes primeiro, discos em seguida, como no ano passado. Depois de quatro necessários dias de descanso em Barra Mansa, encerrei meu 25 tentando matar a alergia crônica com os últimos copos de chope do barril do Natal, enquanto seguia quitando – pau-la-ti-na-men-te – minha dívida com o Rohmer. Foi uma belíssima maneira de enterrar o feriado, e não deixei de me enfurecer com essa vida ingrata de trabalhos fixos que não permitem realizar a vontade de ficar, por um dia ou dois mais, onde eu realmente gostaria de estar. Espero que no ano que vem eu consiga extrair os milhões que se escondem nessa carreira de roqueiro em potencial, para poder reclamar com um pouco menos de razão.
Filmes
01 - O Mundo (Shijie) – Jia Zhang-ke

Até hoje só tinha visto "O Mundo" em um rip baixado no eMule. Revendo o filme em um belo dvd área 1, é desnecessário dizer que minhas impressões foram ainda melhores. Jia Zhang-ke me ganhou por completo da primeira vez que vi "Plataforma", e seus filmes seguintes vêm mantendo um nível realmente assustador. O tal World Park, onde ele filma "O Mundo", me parece a locação perfeita para abrigar o misto de fascínio e repúdio que o atual estado de coisas na China põe em movimento dentro do diretor. É, de fato, um filme absolutamente embasbacante.
02 – Pauline na praia (Pauline à la plage) – Eric Rohmer

De Rohmer, até pouco tempo só conhecia "Conto de verão". Lembro ter visto o filme no cinema, com minha mãe e minha irmã. Elas ficaram extremamente irritadas com a canção do piratinha que alguém começa a cantar lá pela metade do filme, e saíram um pouco aborrecidas. Em mim, o filme deixou impressa a suavidade do desenrolar, a leveza climática, o desapego de Rohmer a tudo que o mundo tende a considerar grande em nome de coisas pequeníssimas. Dia desses me lembrei com carinho dessa sensação, e decidi mergulhar nos filmes do diretor. De fato, a locação de "Pauline na praia" me trouxe de volta – e com muita vivacidade – tudo aquilo que lembro de ter sentido em relação a "Conto de verão". A diferença é que, hoje, o tal apego miúdo de Rohmer me parece projeto de nobreza realmente insuperável. Seus filmes são um prazer só.
03 – Operação França (The French Connection) – William Friedkin

Outra dessas dívidas que ao pouco vou riscando do caderninho, o famosíssimo filme de Friedkin merece tudo que construiu ao longo dos anos. Inclusive "Os donos da noite", filme de James Gray que faz ao menos um par de homenagens a algumas das melhores seqüências do filme. É o tipo de situação em que pai e filho só têm a se orgulhar.
04 – O virgem de 40 anos (The 40 Year Old Virgin) – Judd Apatow
Finalmente vi o director's cut de uma das melhores comédias lançadas nos últimos anos. Mesmo com quase 20 minutos a mais, o ritmo de "O virgem de 40 anos" permanece absolutamente inabalável. Que venha a faixa comentada.
05 – Viver ou morrer (Dead or Alive: Hanzaisha) – Takashi Miike

É uma satisfação ver as filmografias (ou parte delas) de sujeitos tão interessantes quanto Takashi Miike e Johnny To sendo lançada em dvd no Brasil. Os incríveis dez minutos iniciais de "Viver ou morrer" parecem resumir todas as intenções do cinema de Miike, e o fato de o filme conseguir se sustentar depois dessa enxurrada diz muito sobre o talento de Miike como diretor. "Viver ou morrer" é um dos filmes mais extremos e descontrolados de um dos artistas mais extremos e descontrolados dos nossos tempos. Famoso por interesses temáticos peculiarmente desafiadores (só em "Viver ou morrer" temos cenas de bestialidade, escatologia, mutilação, muita droga, muito tiro – até de bazuca – e muito sangue), me impressiona como Miike acaba tendo ignorado seu impressionante talento visual. Vendo "Viver ou morrer", por muitas vezes me senti diante do mais direto herdeiro de Seijun Suzuki.
Canções
01 – "Long way home" – Norah Jones
Nas compras de Natal, me dei de presente o dvd "Norah Jones and the Handsome Band Live", de 2004. Assistindo à belíssima apresentação (filmada sem grande brilho de direção, a não ser pelos bonitos registros em passagem de som) fui surpreendido quando Norah Jones anunciou uma canção do Tom Waits, e logo tocou "Long way home" – uma de minhas faixas favoritas de Feels Like Home, seu melhor álbum. Amaldiçoei o fato de eu não comprar mais cds ou ler sobre tudo que ouço no Allmusic – locais onde posso ter esse tipo de informação de forma muito mais suave. A descoberta, porém, faz todo sentido: embora eu não conheça a versão de Waits (que, ao que parece, só foi lançada em 2006, no seu álbum triplo de sobras), toda a estrutura da canção sugere a interpretação do cantor. O trabalho de Norah Jones, porém, não é menos que extraordinário, e sua voz ganha um belo adorno (timidíssimo, me parece) ao vivo.
02 - "Take me anywhere" – Tegan & Sara
Ainda não fui de todo sugado por The Con – último disco de Tegan & Sara que já vem aparecendo em algumas listas de melhores do ano. The Reason, o anterior, tem canções agradabilíssimas, e "Take me anywhere" é a melhor delas. Além de artistas de talento, as duas canadenses são irmãs gêmeas e lésbicas. Sim, irmãs gêmeas e lésbicas. Se isso é pauta valiosa para qualquer publicação, não sou eu que vou fazer do Fabito's Way uma exceção.
03 – "Silly love songs" – Paul McCartney
Porque Paul McCartney sem vergonha de fazer músicas para discoteca é bom demais para se ignorar.
04 – "Beautiful girl" – INXS
Há muito tempo atrás, estava eu prestes a descer de um táxi quando uma familiar melodia de teclado começa a tocar no rádio. Deu vontade de ficar para ouvir o resto da canção, mas minha fobia de táxis foi mais forte. Meses depois, lá estava eu em minha aula de pilates quando o mesmo teclado encheu a sala. Foi só entrar a voz do Michael Hutchence para eu me lembrar do INXS – banda que nunca me dei ao trabalho de conhecer com um mínimo de cuidado. "Beautiful girl" é, com efeito, uma excelente canção. Logo depois o rádio veio se confirmar como relevante veículo de alegria, e foi vez de o Ben Lee entrar com "Catch my disease". Obrigado Antena 1.
05 - "Life On A Chain" - Pete Yorn
O Pete Yorn é mais famoso por suas covers - uma do Buzzcocks na trilha do segundo Shrek, outra do Ramones naquele álbum tributo de alguns anos atrás - do que por seu trabalho como compositor. Tremenda injustiça. Lá fora, a inclusão de "Strange Condition" na trilha de "Eu, eu mesmo e Irene" fez de musicforthemorningafter - seu primeiro álbum - um razoável sucesso. "Life On A Chain" é a canção que abre o disco, e o faz de maneira brilhante. Uma boa letra e um grande refrão seriam plenamente suficientes, mas ainda temos um solo de baixo surrupiado da cartilha de Peter Hook, que faz par a uma surpreendente intervenção de gaita. Seus discos não são regulares, mas musicforthemorningafter é o que chega mais perto. Ainda assim, Yorn conseguiu cravar um número considerável de faixas memoráveis em seus álbums seguintes. Basta uma audição de "Crystal Village" (de Day I Forgot) ou de "The Man" (de Nightcrawler) para ter certeza de que o talento de Yorn é vítima de grande subestimação.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Postado por Fábio Andrade às 1:00 AM
Top 5 da semana
Vou tentar, a partir dessa semana, levar a cabo um top 5 duplo: uma lista de filmes, outra de canções. As idéias de o quê escrever para o blog não jorram como eu gostaria, e essas listas aleatórias deixam de ser inúteis ao me conformarem a uma mínima periodicidade, forçando as palavras ao convívio com o mundo. Parece-me um bom exercício.
Por fim (antes do começo), não sei qual a temperatura da descoberta, mas hoje cedo fiquei sabendo de duas grandessíssimas aquisições do Telecine Cult para 2008: “O mundo”, de Jia Zhang-ke, e “Three Times”, de Hou Hsiao-hsien, entram para a grade do canal em Janeiro. Mais do que duas belas estréias, a abertura do canal a dois dos nomes mais importantes do cinema mundial contemporâneo (somada ao lançamento de “Em busca da vida” nos cinemas do Rio, e da já anunciada aquisição de “A viagem do balão vermelho” para distribuição comercial) talvez sinalize a entrada definitiva dos dois realizadores no circuito brasileiro. “Three times” não é irretocável como “Millennium Mambo”, “Adeus ao Sul” ou “Café Lumière”; a culpa, porém, é de seu primeiro tempo (o do amor). A beleza que Hou Hsiao-hsien alcança na primeira de suas três estórias é tão estonteante que acaba dificultando a vida das partes seguintes (quem será capaz de fazer frente a um jogo de sinuca ao som de “Smoke gets in your eyes”? Quem?). Parece-me, porém, uma ótima iniciação à obra daquele que muitos consideram o mais importante realizador em atividade. De Jia Zhang-ke, basta dizer aos que viram “Em busca da vida” (filme que certamente entrará na minha lista de melhores do ano) que “O mundo” é ainda melhor. Além disso, também pesquei um “Close Up” na grade do canal. Resta torcer para que seja, de fato, o de Kiarostami, e não uma excentricidade de tradução.
Filmes
01 – Império dos sonhos (Inland Empire) – David Lynch
A minha sensação de que o fim de ano guardava as melhores estréias vem se confirmando.Mais do que uma obra-prima, “Império dos sonhos” é mais uma confirmação de um cineasta de espírito inquieto, disposto a desafiar até mesmo a sua própria (já consagrada) estética. É um desses filmes que pedem, de fato, uma nova relação até mesmo dos espectadores mais vacinados (e quantos fãs de Claire Denis não conseguiram passar por “O Intruso”?). No caso de Lynch, o movimento é extremamente saudável: seus seguidores mais cartesianos são tipo dos mais chatos em qualquer discussão sobre cinema. “Império dos sonhos” me parece radical o suficiente para faze-los engolir os risos (e as risadas desconexas de toda a encenação da família-coelho me parece um recado bastante direto a todos que sempre acreditaram estar rindo com David Lynch) e os manuais de instruções, acuando-os para o fundo da sala.
02 – Repulsa ao sexo (Repulsion) – Roman Polanski
O que mais me impressiona no cinema de Polanski é sua capacidade de ir borrando, progressivamente, o limite entre a paranóia e o desejo obsessivo. “Repulsa ao sexo” se entrega a essa ambição com a mesma voluntariedade que “O bebê de Rosemary”, e o resultado não é nada menos impactante. Além do mais, a carcaça do coelho morto é metáfora de literalidade tão desconcertante que faz frente ao choro sobre o leite derramado de “Não Amarás”.
03 – Irmãs diabólicas (Sisters) – Brian de Palma
Quanto mais rumo ao passado de Brian de Palma, maior a impressão de ser ele um desses raros casos (como Orson Welles, Tsai Ming-liang, Quentin Tarantino) de diretores que já nascem com o olhar absolutamente maduro. “Irmãs diabólicas”, um de seus primeiros longas (e não conheço nenhum dos anteriores), já é tomado por todas as questões que povoam a obra de De Palma: o duplo (que reaparece em “Síndrome de Caim”, “Vestida para matar”), a consciência extrema da mise-en-scène, o jogo com uma estética popular (o início de “Irmãs diabólicas” é quase idêntico em estrutura ao de “Um tiro na noite”), a referencialidade (e Hitchcock é apenas a ponta mais óbvia de um repertório extremamente vasto), a resignificação dos objetos pelas convenções (a bisnaga de confeiteiro que é empunhada como uma faca, nos primeiros minutos de “Irmãs diabólicas”, indicando o assassinato que virá a ocorrer pouco depois). É um filme em que a contribuição que me parece maior em toda a obra do diretor já está em pleno vigor: a câmera que nunca olha, sempre espia, espreita, vê o que não deve, gerando uma mise-en-scène no entorno da diegese (a mise-en-scène de quem olha). Essa obsessão marcará toda a obra de De Palma: da antológica seqüência do vestiário feminino de “Carrie” à câmera que sobe o telhado para testemunhar um assassinato em “Dália negra” (e que toma o centro da narrativa em filmes como “Um tiro na noite”, “Dublê de corpo” e, pelo que indica o pouco que li, “Redacted”).
04 – Noites de lua cheia (Les nuits de la pleine lune) – Eric Rohmer
Às vezes basta você colocar telas de Mondrian no quarto de uma das personagens (e deixar que a estrutura das telas transforme as linhas da janela de um quarto em uma composição apropriada), e colunas gregas na de outro para indicar como seus olhares sobre uma mesma relação podem ser dissonantes. Eric Rohmer tem uma habilidade invejável em conciliar o rigor com uma fruição inabalavelmente agradável; muito do que falei sobre Bergman na semana passada parece encontrar resposta direta nos filmes de Rohmer, e “Noites de lua cheia” é apenas mais um bom exemplo.
05 – Um amor jovem (The Hottest State) – Ethan Hawke
O filme de Ethan Hawke provavelmente não entraria nessa lista se sobrasse na conta. Mas, façamos justiça, é ele que inspira a minha primeira contribuição à revista Cinética – onde você pode ler minha a minha crítica sobre o filme. O convite para escrever na Cinética vem dar vazão às minhas impressões sobre cinema, e espero que seja apenas a primeira de uma série de contribuições. E sim, eu dei um jeito de enfiar o Wilco e a Feist no meu primeiro texto por lá também.
Canções
01 – "Ol’ 55" – Tom Waits
Eu sou absolutamente obcecado pelo Tom Waits. O problema é que às vezes eu me esqueço disso, e preciso que o Godard esfregue “Ruby’s arms” em meu nariz para me fazer perceber que eu deveria estar ouvindo toda a discografia do Tom Waits no repeat, dia após dia. “Ol’ 55” é a canção que abre o fabuloso Closing Time, e é a favorita dessa semana. Por nenhum motivo que não o de ser uma canção absolutamente irresistível.
02 – "Rain" – Bishop Allen
É uma grande ironia sofrer com três dias de chuva ininterrupta após passar a semana inteira cantando “Oh, let the rain fall down and wash this world away”. Nesses dias o Rio parece ser o único lugar capaz de desafiar o mantra de Travis Bickle, pois quanto mais chove, mais sujeira parece sair das entranhas da cidade. Dando fim à digressão, “Rain” poderia ser uma canção do Guster, mas só se nascida de uma parceria com o Gordon Gano, movida pelo ciúme doentio que “Careful” sente da frivolidade de “Amsterdam”.
03 – "Sinner Man" – Nina Simone
E quando eu achava, do alto de meu conforto, que “Novo Mundo” havia amarrado o imaginário visual sugerido pela canção, lá me vêm os créditos de “Império dos sonhos”, trazendo à canção uma intensidade que parecia ainda inexplorada.
04 – "The Silence Between Us" – Bob Mould
Bob Mould é um de meus compositors favoritos, e é sempre reconfortante ouvir uma nova criação sua e se sentir testemunha de forma tão plena. “The Silence Between Us” é uma canção belíssima, e vem confirmar seu District Line como um dos mais aguardados discos de 2008.
05 – "1, 2, 3, 4" – Feist
No fundo, acredito já ter perdoado a Feist pelo perdidão no Tim Festival. Mas dia desses eu tava vendo Mtv (sim, eu nutro curiosidades que às vezes escapam a qualquer explicação) e passou uma vinheta com um trecho do clipe de “1,2,3,4”. Desde então venho me perguntando se custava muito ela ter vindo até o Congo fazer a meninada mais feliz.