sábado, agosto 12, 2006
Postado por Fábio Andrade às 12:55 AM
Passados os segundos de auto-questionamento, o retorno à privada de regras
1 Dia desses estava assistindo ao programa "Claro que é rock", no Multishow. Enquanto culpava os VMBs por terem, um dia, levantado a hipótese de que jam sessions poderiam ser uma boa idéia, o apresentador Roberto Frejat projetava constrangimento com uma amadoríssima versão para "Rock the Casbah". Assistindo ao "Claro que é rock" não consegui domar o pensamento de que o rock brasileiro peca por falta de profissionalismo e competência.
Mudei para o canal 52, e no People & Arts passava "Rockstar Supernova" - divertido reality show onde Tommy Lee Jones, Gilby Clarke e Jason Newsted procuram o vocalista para a nova banda que o ex-baixista do Metallica, atual Voivod, já fez questão de, publicamente, colocar entre aspas. Enquanto os candidatos exageravam nas caras de roqueiro louco e no visual previsível, era inevitável pensar no programa como um "American Idol" com guitarras, e ter que admitir que o grande problema do rock americano atual é o excesso de profissionalismo e competência. Ainda assim, preferi continuar vendo "Rockstar Supernova" do que retornar ao "Claro que é rock".
2 Não consigo me decidir se a pessoa debaixo da fantasia de Cauê, o solzinho mascote do Pan Americano, tem o pior trabalho do mundo ou, na verdade, goza, todos os dias, do privilégio de poder se imaginar no palco junto com o Flaming Lips.
3 Não tenho ouvido discos novos. Ainda não terminei de ler "Retrato do artista quando jovem" para poder adicionar o romance de James Joyce à lista dos melhores que já li. Não tenho ido ao cinema com a frequência dos dias de glória. Ainda assim, sinto-me obrigado a confrontar os detratores e defender uma das últimas sessões que frequentei: o novo "Super Homem" (Superman Returns, 2006) é excelente! Bryan Singer mostra, mais uma vez, que domina melhor o universo cinematográfico dos super-heróis do que a maioria de seus pares - sejam os fazedores de filme de capacidade questionável (Brett Ratner e Christopher Nolan) ou mesmo os artistas talentosíssimos que tiveram trajetórias irregulares pelo gênero (Sam Raimi e Robert Rodriguez). Singer comprova as boas impressões marcadas em filmes anteriores (em especial os dois primeiros "X Men", "O aprendiz" e "Os suspeitos") e, se não constrói uma obra-prima, faz um filme de pleno domínio cinematográfico, que pensa o cinema de forma explícita (a bela sequência de Lex Luthor destruindo a cidade feita em maquete, e as referências constantes a outros blockbusters - "Titanic", "Parque dos dinossauros" - não me deixam mentir) e segura as rédeas da ação com toques do mais genuíno melodrama. Além disso faz das cenas de vôo - em um céu silencioso e poético - uma das mais belas declarações cinematográficas do ano.
4 Domingo o Queerstoca no Rio. Embora eu já possa descrever exatamente como será o show - mesmo só tendo visto o Queers uma vez - tenho certeza que vou me divertir. Joe King já cometeu seus deslizes, mas é também autor de algumas das melhores canções das últimas décadas ("Debra Jean" ao vivo faz pensar sobre a beleza da ingenuidade). Prometo passar todo o show do Marky Ramone (que trocará as canções do simpático Answer to your problems - que no Brasil saiu com o título cretino de Don't blame me - por reciclagem de clássicos do Ramones junto com o Tequila Baby) no bar, porque quem apóia safadeza, safado é.
segunda-feira, julho 24, 2006
Postado por Fábio Andrade às 10:49 PM
De Chihiro a Sen
Existem pouquíssimas interseções possíveis entre a banda de hardcore californiana Strung Out e o autor britânico Nick Hornby. Ambos, porém, passaram pelos meus últimos dias de forma parecida, tornando os paralelos mais urgentes do que relevantes. Enquanto revisitava a discografia do Strung Out como aclimatação para o show da banda (que verei em São Paulo no próximo sábado) nas últimas semanas, coincidentemente me dedicava às páginas de "Uma longa queda" (Long Way Down, 2006) , última obra do badalado romancista autor de megahits como "Alta fidelidade" (High Fidelity, 1995) e "Um grande garoto" (About a boy, 1998). Curioso é que as páginas recém impressas do livro de Hornby tenham um sabor tão semelhante ao das canções de Exile in Oblivion (2004), último disco do Strung Out.
Assim como Hornby lançou trabalhos que tiveram uma importância enorme na minha adolescência (em especial os mencionados "Alta fidelidade" e "Um grande garoto", com menção honrosa para o mais recente "31 canções" - 31 songs, 2003 - embora não um romance, leitura das mais agradáveis), o Strung Out foi uma das bandas que mais me impressionou na segunda metade dos anos 90, com discos excepcionais como Suburban Teenage Wasteland Blues (1996) e o supremo Twisted by Design (1998). Tanto Hornby quanto o Strung Out partiram de lançamentos mornos, mas com momentos de promissor talento (com, respectivamente, "Febre de bola" - Fever Pitch, 1992 - e Another Day in Paradise, de 1994), para segundas obras de grande impacto geracional ("Alta Fidelidade" e Suburban), e terceiras marcadas pelos melhores traços da maturidade artística ("Um grande garoto" e Twisted). Ambos erraram a mão no quarto lançamento (os fracos "Como ser legal" - How to be good, 2002 - e An American Paradox, do mesmo ano) e me inclinaram a uma inevitável dúvida: estariam eles realmente em fases pouco inspiradas ou seria eu quem mudara, condenando-os às amarras de uma época passada que hoje não faria sentido senão como nostalgia?
A resposta deveria vir com "Uma longa queda" e Exile in Oblivion, e a fruição sincronizada das duas obras me conduziu a um sonoro "não sei!". São, ambos, trabalhos melhores do que seus predecessores, mas falham em reproduzir o brilho que costumavam refletir em meus olhos adolescentes. "Uma longa queda" parte de uma premissa bastante interessante: quatro pessoas completamente diferentes se conhecem no topo de um prédio durante a passagem de ano, e todas haviam subido até lá com a intenção de cometer suicídio. A estória é narrada pelas quatro personagens, como entrevistas individuais editadas por cronologia, adicionando ao livro uma intenção de multiplicidade de pontos-de-vista. Exile in Oblivion foi anunciado pelo Strung Out como o disco mais pesado de sua carreira. Após o fracasso em fazer as pazes com a melodia em An American Paradox, a banda teria deixado seu sempre presente lado metaleiro prevalecer ao tatear novos destinos, já que a sonoridade do passado há muito perdera o vigor. Reforçando a intenção, convidaram Matt Hyde para trabalhar no disco, produtor famoso por parcerias com Slayer e Hatebreed. Surpreendentemente, porém, o livro de Hornby e o disco do Strung Out encontram nas ambições de seus projetos justamente as raízes de seus maiores problemas.
Muito por conta de sua formação jornalística, é inegável o talento de Hornby para transitar entre as sutilezas do discurso falado. Se a crença de que a literatura deve se aproximar da fala coloquial anda em alta, não é à toa que o autor inglês seja acolhido por parte da crítica ainda que seus livros alcancem inegável popularidade. A ambição da alternância dos narradores, porém, exacerba essa qualidade como motor principal, e por vezes gera a frustrante impressão de que a motivação de Hornby em seu novo livro não passa da construção mais rasa dos personagens por meio da fala. Ao escolher protagonistas de formação completamente diferentes (um apresentador de televisão, uma senhora reclusa de meia idade, uma moderninha desbocada e um roqueiro frustrado norte-americano), Hornby cria para si mesmo um laboratório de linguagem, e acaba tornando-se o rato dentro de sua própria gaiola.
Exile in Oblivion não nega, a princípio, sua proposta inicial: sua primeira metade traz de fato o material mais pesado já gravado pela banda, com os méritos e problemas que isso traz a reboque. A banda mostra-se mais vigorosa explorando o novo gênero do que mimetizando seus dias de glória. Porém, o uso descomedido do bumbo duplo, o timbre incômodo das guitarras e a falta de refrões fortes fazem que o disco passe longe de ser memorável. Assim como Hornby explora o discurso de seus personagens mas acaba negligenciando a estória que quer contar, o Strung Out se esbalda com os clichês de um gênero ainda pouco explorado pela banda, mas nesse meio tempo parece esquecer de escrever canções de verdade.
Seriam de fato trabalhos menos impressionantes de artistas que já não estão mais no auge, ou teria eu cumprido a sina de me tornar o alvo de meus ódios do passado? Encurralado pela dúvida, acalmo-me com uma solitária canção do último disco do Strung Out, e um trecho específico do livro de Hornby. Quando ambos deixam de lado seus novos pressupostos estéticos, me conquistam com a bela "Swan Dive" (curiosamente a canção de Exile in Oblivion que mais se assemelha ao passado da banda) e com a passagem onde a mãe de um adolescente em estado vegetativo assume ter comprado para seu filho coisas que os rapazes de sua idade gostam, e que ele provavelmente gostaria se não vivesse alheio ao mundo desde o nascimento. "Uma longa queda" e Exile in Oblivion melhoram exponencialmente em suas segundas metades, justamente quando Nick Hornby e Strung Out parecem menos afetados pelas expectativas externas e mais à vontade para fazer aquilo que sempre fizeram bem.
A dúvida, porém, continua. Não consigo afirmar com certeza se Suburban Teenage Wasteland Blues ou "Alta Fidelidade" teriam hoje em mim o mesmo impacto que tiveram há 10 anos. Nenhuma obra é desvinculada de seu tempo, e eu, obra do acaso, não sou diferente. Quando a feiticeira Yubaba, no magistral "A viagem de Chihiro" (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001) obriga a pequena Chihiro a crescer (com um emprego, novas responsabilidades, e uma tendência a esquecer seu passado), muda seu nome para Sen. O observador atento percebe, porém, que o ideograma que representa Sen já estava contido entre os ideogramas que escreviam Chihiro. Sen, a pessoa adulta, seria portanto apenas parte (mas não todo) de Chihiro, a criança, potência aos poucos minadas pelas escolhas da vida. Confesso que, hoje, quando penso sobre uma das minhas seqüências favoritas do filme de Hayao Miyazaki, me pergunto se o processo não seria exatamente o contrário. Se o que fui quando jovem ainda seria parte de mim, mas que essa parte nunca teria sido todo. Se os discos do Strung Out ou os livros de Nick Hornby na verdade nunca foram grandes obras, mas apenas estavam presentes no momento mais oportuno. Mas também me pergunto se toda essa reflexão não seria a minha parte Sen devorando impiedosamente minha porção Chihiro, iludindo-me de que o processo de me tornar o que costumava odiar não é nada além de uma equivocada visão daquilo que os adultos chamam de "crescer".
sexta-feira, julho 14, 2006
Postado por Fábio Andrade às 11:23 AM
A melhor música que já inventaram até hoje
Train in Vain - The Clash
Porque esse tipo de certeza só vem depois de você ouvir uma versão r&b, quase gospel, no rádio e a canção ainda soar absolutamente magnífica.
quinta-feira, julho 13, 2006
Postado por Fábio Andrade às 1:15 PM
Eu, edifício
Assim como o Rubinho relatou uma vez em seu blog ter uma amiga que criou o gênero dos "filmes de tortinho" (aqueles filmes onde uma estrela interpreta um personagem com deficiência física ou mental - se for as duas, melhor ainda - e ganha montanhas de prêmios por conta disso), tenho uma amiga que também inventou seu gênero cinematográfico: os filmes edificantes. Seriam, esses, filmes como "A sociedade dos poetas mortos", de Peter Weir (Dead poets society, 1989) ou os momentos mais canastrões de Cameron Crowe, como "Jerry Maguire" (Jerry Maguire, 1996) e o recente "Tudo acontece em Elizabethtown" (Elizabethtown, 2005). São filmes onde personagens e espectadores são ensinados uma lição de vida, e saímos do cinema revigorados, dando valor a pequenas coisas que a corrida cotidiana do mundo contemporâneo nos havia feito esquecer. Filmes edificantes, portanto.
A despeito da qualidade sempre variante de tais filmes, o maior incômodo surge da intenção de seus autores em reservarem, já, suas cadeiras ao lado de Nosso Senhor. Esses artistas - iluminados por sabedoria que nós, reles espectadores, jamais teríamos - usam seus filmes como veículos educativos e, com imagens visualmente sedutoras, personagens carismáticos e falas bem escritas demais para parecerem reais, passam sua "mensagem" com superioridade panteônica.
Pior do que o monstro, porém, só o monstro que se reproduz. Em pouco tempo, outro mercado já deveras antipático encontrou fertilidade inabalável nas intenções edificantes: a publicidade. Sim, a antipatia pela publicidade é uma de minhas indignações de estimação. Reconheço que meios não são culpados por seu uso, e sou o primeiro a admitir quando vejo uma campanha publicitária interessante, mas, via de regra, a publicidade é um veículo que sofre na mão de profissionais que se acham mais inteligentes e brilhantes do que realmente são. Basta lembrar que o maior expoente da categoria no Brasil teve a petulância de criar uma campanha de auto-promoção nos cinemas, onde com uma tela branca ele tentava, com onisciente narração em off de canastrice inaceitável, nos convencer a comprar a paz (o que significa, imagino, que a paz era propriedade dele). Desde então, passei a reparar na crescente difusão da publicidade edificante. Seja com o plano de saúde que se assume o segundo melhor (pois o melhor plano de saúde seria viver; com imagens sépias, crianças, cães e narração em off, claro) até o sofrível "Estatuto da sua nova vida", de Thiago de Mello, apropriado por uma empresa de automóveis, a publicidade agora quer nos tornar pessoas melhores.
O grande problema dessa intenção de mudar a vida dos outros é que ela parte do pressuposto, em si complicado, de que existe algo de errado com a vida dos outros, e que você tem a capacidade de perceber e solucionar esse problema por elas. O pior de ver isso associado à publicidade é que, se no cinema ainda existe um mínimo conforto de que um filme que muda a vida das pessoas vende a si mesmo, a publicidade não se encerra em si mesma, e edifica em nome de uma terceira coisa. Curiosamente, esse produto é normalmente tanto solução quanto causa do problema. E é nessa encruzilhada que me pego engalfinhado com a campanha criada pela agência Fallon para o Citibank, possivelmente a mais ultrajante de todas as publicidades edificantes.
A tal campanha do Citibank é um sossega-yuppie dos mais baixos, tentando apelar, com razão, justamente aos clientes do Citibank. Nenhuma oferta de produto associada (só sabemos o que a publicidade vende por conta de um discreto logo da empresa), e sim peças clean com dizeres (reduzindo-se, portanto, somente à "mensagem") asquerosos como: "crie filhos em vez de herdeiros"; "dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha"; "trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça: vírgulas significam pausas"; e os meus favoritos, "não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama" e (Deus do céu!) "o valor da bolsa subindo não é mais emocionante do que um dente-de-leite caindo". Fico especialmente tocado com o juízo de valor indicado pelo "não é justo", na penúltima peça, que indica que a publicidade agora quer, também, ser parâmetro de justeza. Além de vender produtos, as agências querem fazer julgamentos abertos sobre seus consumidores (até então esses julgamentos não costumavam sair dos relatórios das empresas). Os publicitários sabem quais são os problemas de nossas vidas, e com um mesmo anúncio são capazes de soluciona-lo (consigo visualizar plenamente um executivo com coração de pedra tendo sua alma tocada por um desses anúncios) e prolonga-lo (afinal, a solução está em um banco, justamente um dos ícones mais clássicos da mentalidade que eles apontam como causa do problema).
Pior do que o edificante, porém, é o edificante barato. Se antes a crença era de que precisávamos de Tom Cruise ou Robin Williams como catalizadores de uma mudança, hoje basta meia-dúzia de palavras em um ponto de ônibus. A crise do sujeito se tornou descartável. A vaidade yuppie atingiu níveis tão altos que se pode, anonimamente, ter a petulância de oferecer soluções rápidas para a vida dos outros (um "outro" que é genérico, impessoal, e que existe por ser o oposto do emissor da mensagem). Se somos tocados por uma propaganda (e esse blog de publicidade que encontrei enquanto pesquisava é indicador de que a campanha é bem sucedida) que diz "crie filhos em vez de herdeiros", estamos admitindo que, até alguns minutos atrás, todos pensávamos em criar herdeiros, não filhos. Precisamos, todos, ser edificados. Desde que não imaginemos o criador da edificação trabalhando até tarde, sem vírgulas, deixando de ir ao "cineminha" (em um nojento diminutivo) para criar uma peça publicitária que faça dele um yuppie bem sucedido.
sábado, julho 01, 2006
Postado por Fábio Andrade às 8:16 PM
Copa Cola
1- Esse tempo todo evitei falar da Copa por aqui, mas agora que já é inofensivo contribuo com minhas moedinhas. Não vou dizer que Parreira é caído, que o Ronaldo tava gordo, que ninguém jogou nada contra a França, pois, afinal, não sou imprensa. Mas só cumprimento Deus pelo senso de humor em colocar o gol francês justamente nos pés daquele que, durante a semana, havia dito que o Brasil só era favorito porque enquanto ele estava na escola os jogadores brasileiros já estavam jogando bola. Só faltou um corte seco pra Deus com cara de Didi Mocó, e na trilha-sonora o Pelé cantando "A, B, C... A, B, C..."
2- Meu Reverendo favorito postou em seu RTU uma excelente análise do clipe "Wake Up", da Hilary Duff, dirigido por Marc Webb. Sobre "Wake Up" nada tenho a dizer que Rev.Albuquerque já não tenha dito melhor, mas sinto-me obrigado a tecer randomicidades sobre seu favorito "Helena", do My Chemical Romance (dirigido pelo mesmo Marc Webb). Minhas reservas ao clipe têm pouco a ver com a minha completa ausência de afeição pela bandica, mas sim por achar que é um exemplo perfeito onde a má direção é a ruína de uma grande idéia.
Sem dúvida, Marc Webb marca pontos ao retomar as origens do sucesso do videoclipe (obviamente "Thriller", de Michael Jackson), adaptando-a à proposta estética do cliente (mesmo essa proposta sendo tão inaceitável quanto a do My Chemical Romance). O grande deslize de Webb, porém, é não perceber os recursos narrativos solicitados pelo gênero. Por que filmar coreografias de grupo em planos fechados? Por que mutilar em planos curtos um objeto que pede um maior tempo de observação? Como compreender a coreografia de conjunto se o conjunto em si é raramente mostrado? Por que usar um elemento de visualidade tão grande quanto os guarda-chuvas e não fazer planos gerais (e de cima para baixo) suficientes para que o efeito se dê?
Por "Helena", fica a sensação de que Marc Webb pode ser mais um diretor de clipes que ferve com idéias originais, mas tropeça ao não conhecer as propriedades narrativas do audiovisual. O My Chemical Romance devia ter chamado o carnavalesco que era da Unidos da Tijuca pra dirigir o clipe.
3- Não tenho ouvido muitos discos recentes, ou mesmo prestado atenção às dúzias de bandas de pop punk genérico que surgem todos os dias. Recentemente, porém, me percebi escutando Commit this to memory, segundo disco do Motion City Soundtrack, com a freqüência dos mais freqüentes.
Admito que não há nada nas composições que provoquem raios de originalidade. Admito também que a produção do rapazote do Blink e o excesso de auto-tune deixa o som da banda mais pasteurizado do que devia (especialmente se lembrarmos que a produção de I am the movie, o primeiro da banda, era muito mais interessante). Admito terceiro que o disco tem momentos bem fracos, e fica especialmente constrangedor no final. Apesar disso tudo, Commit this to memory busca o sol sem constrangimento, e traz na garupa algumas das canções mais legais lançadas por uma banda do gênero em anos. O Motion City Soundtrack é uma das poucas bandas dessas últimas levas que faz o tipo de musica perfeito para ser popular, sem que isso seja um ponto negativo. Desde que você se mantenha longe das fotos promocionais para não acabar com a boa impressão, claro.
domingo, junho 25, 2006
Postado por Fábio Andrade às 11:05 PM

Ruth Ruth - Laughing Gallery
Quando o Green Day fez o punk novamente popular na metade da década de 90, milhões de bandas com uma sonoridade razoavelmente próxima assinaram contrato com gravadoras grandes. Algumas delas, como Goldfinger e Eve 6, fizeram razoável sucesso. Outras, como Jawbreaker e Samiam, tiveram em seu período major apenas mais uma fase indistinta dentro de carreiras independentes sólidas. Mas para cada Green Day, dúzias de bandas tinham breve chance no mainstream, para terminar de desaparecer depois de um ou dois discos invisíveis. A maioria delas realmente não merecia atenção. O Ruth Ruth, porém, é o outro lado de várias moedas, e nos faz pensar em todas as bandas legais que deixamos de conhecer nesse vai-e-vem da indústria do disco. O trio nova iorquino, formado por Chris Kennedy (bx/v), Mike Lustig (g) e Christian Nakata (bat.), lança seu primeiro cd pela major American Recordings (Laughing Gallery, 1995), passa por um período independente que rende o belo ep The Little Death (lançado em 1996 por uma parceria da Deep Elm com a Epitaph, o que rendeu edição nacional a ser garimpada a preço de nada nos saldões da vida) e depois se torna um quarteto ao assinar com outra major, dessa vez a RCA, para lançar o estranho (mas não menos interessante) Are you my friend?, em 1998.
Até poucos minutos atrás, era essa a biografia que conhecia de uma das bandas mais subestimadas desse período. Fazendo o dever de casa, descobri que o Ruth Ruth segue na ativa e lançou um quarto disco - independente, gravado de forma caseira - em 2004. Fiz uma busca no SoulSeek, e entre Ruth Brown e Babe Ruth não encontrei uma música sequer do trio de NY, nem mesmo de seus discos mais antigos. O site da banda não é atualizado desde 2005, sua página no MySpace tem menos acessos do que a do Invisibles, e o All Music não traz sequer a capa de Right about now, o tal disco de 2004. Depois de várias tentativas, independentes ou industriais, em 10 anos de carreira, o Ruth Ruth permanece como se não tivesse existido. E Laughing Gallery, o disco mais completo da banda, segue como obra não ouvida.
Talvez parte (pequena, se tanto) do fracasso comercial de Laughing Gallery venha de um erro crasso cometido pela banda: o disco abre com sua pior canção. "Uninvited" não só é ruim como foi single, tendo seu clipe até mesmo exibido na MTV brasileira. O problema da má escolha da primeira faixa (maximizado para o primeiro single) é tanto de ordem estética quanto prática: além de ela não situar o ouvinte corretamente na fruição do disco, é fracasso certo nas compras que partem de audições em loja. "Uninvited" é uma má canção. Mas Laughing Gallery ainda é um belo disco de outras 11 canções. "Uptight", a segunda, mostra uma banda de uma originalidade sutil que se desenha com total solidez no restante do disco. Embora a canção tenha uma estrutura típica pro contexto (batida acelerada, power chords ramônicos e um verso todo estruturado em torno de um solitário mi maior), o refrão salta da caixa de presente com uma dinâmica impressionante. É aí que descobrimos o que faz do Ruth Ruth uma banda especial: por traz da simplicidade dos arranjos e da ironia debochada das letras, está uma banda com pretensões de arena. Ao mesmo tempo que se veste como Billy Joe Armstrong, esconde por baixo uma camiseta do Meat Loaf. É desse encontro de opostos à época antagônicos (lembrando que o fenômeno Green Day dos dias de hoje era impensável então, mesmo no auge do Dookie), dessa improvável colisão entre o teatral e o imundo, de canções que lembram tanto Queen quanto Ramones, que o Ruth Ruth ergue a cabeça acima do oceano.
O vocalista/baixista/compositor Chris Kennedy é, sem dúvida, o merecedor dos louros. Embora a guitarra nunca plenamente distorcida de Lustig e a pegada de Nakata (que está mais para Peter Cris do que para Marky Ramone) confiram personalidade à mistura, é a voz rouca e a entonação dramática de Kennedy que se tornam plenamente reconhecíveis no som da banda. Se em Laughing Gallery ainda não temos os experimentos com sonoridades e texturas que marcariam Are you my friend?, a forma como o vocalista incorpora e dramatiza os personagens de suas estórias já aparece pronta nesse primeiro registro (e atingiria níveis ainda mais impressionantes em The little death).
"All readydown", a terceira faixa do cd, reverencia Kiss com um belo riff de abertura e tem um dos melhores refrões. "Neurotica" e "Bald Marie" (que satiriza os amores incompreendidos cantados pelos mais rebeldes heróis adolescentes, sem que a ironia impeça a criação da bela passagem "I don’t want your reputation, I want you") poderiam vir do mesmo lugar das melhores de Insomniac, não fossem as mudanças de tons e a dinâmica crescente tão particular do Ruth Ruth. "Amnesia" é outro rockão clássico, com o refrão ("What can I do? I forget why I need you") cuidadosamente estruturado para gerar crises de bronquite no estádio de Wembley. Enquanto excelentes canções como "Pervert", "I killed Meg the prom queen" e "I grew up" reservam bons momentos de puro pop punk, a pérola pop "Mission Idiot" bagunça o 4x4 com complexidade de melodia das mais fáceis. E se olhar para trás é o que difere o Ruth Ruth das várias bandas que homogeneizavam o estilo, com um mínimo desvio ocular eles buscam em "Don’t shut me out" (possivelmente a melhor de todo o cd) a clássica levada Clash/Pretenders/Cure que bandas como Strokes e Libertines revitalizariam anos depois em canções como "Someday" e "Death on the stairs", respectivamente.
Curioso é perceber como, hoje, Laughing Gallery e toda a discografia do Ruth Ruth permanece íntegra. Enquanto o Green Day parece cada vez mais distante do Dookie, e mesmo Dear You (obra-prima lançada pelo Jawbreaker em 1995, sob contrato com a Geffen) já parece sofrer os efeitos do tempo, as canções do Ruth Ruth continuam frescas e originais apesar de todas as fases que o rock passou nesses últimos 10 anos. Talvez porque reinterpretar o passado sob os signos do presente garanta uma longevidade só alcançada pelas sínteses. Talvez porque o tempo seja um pouco mais generoso com aqueles que o mundo parece nunca ter visto.
segunda-feira, junho 12, 2006
Postado por Fábio Andrade às 12:49 AM
Don’t think twice, it’s alright
Há não muito tempo atrás, era lugar comum que bandas de punk rock gravassem versões "atualizadas" de hits do passado. Não me eximo de culpa, afinal o Invisibles gravou "Always on my mind" (canção imortalizada na voz do rei, que não é o Robertão) em 1999. Ainda assim, as tais covers ficaram marcadas em minha memória como um dos piores vícios daquele período. Embora tenha conhecido várias canções legais por conta dos discos do Me First and the Gimme Gimmes (projeto que reúne integrantes de várias bandas do estilo para gravar covers), raramente as tais versões traziam contribuição relevante às originais, e os discos não sobreviviam como mais que itens de curiosidade.
Como sou roqueiro de passado musical dos mais curtos, conheci "Don’t think twice" (sem o "it’s alright" do título original) na voz de Mike Ness, líder do Social Distortion, que gravou uma versão para a canção de Bob Dylan em seu disco solo de estréia, o ótimo Cheating at solitaire (1999). Seja no Social D ou em carreira solo, Mike Ness assinou diversas covers ao longo de sua carreira (chegando a seu segundo disco solo, Under the influences (1999), todo composto de releituras), e a canção de Bob Dylan talvez tenha sido, entre todas elas, a escolha mais inusitada. Recentemente decidi tomar providências em relação às minhas mais graves falhas curriculares, e entre as medidas tomadas estava o desejo de explorar melhor a obra de Bob Dylan. Foi em um desses passos que topei, finalmente, com a versão original da canção, lançada em The freewheelin’ Bob Dylan (1963), segundo disco do homem.
Entre pencas de momentos brilhantes de Dylan a desvendar, me peguei apaixonado justamente por "Don’t think twice, it’s alright", a sétima faixa do disco. Parte do fascínio vinha da impressão de - embora já tivesse ouvido a versão de Ness inúmeras vezes - estar conhecendo a canção com ouvidos inaugurais. Apesar de a melodia central ser a mesma, as duas versões (e já vi dados de que existem várias outras, incluindo uma gravada por Johnny Cash - que, aliás, também já foi reinterpretado pelo Social Distortion, com cover de "Ring of Fire") parecem vir de direções absolutamente opostas, gerando canções e sentimentos inteiramente diferentes.
As distorções, porém, não são meramente estilísticas. É óbvio que a roupagem country two-step de Mike Ness pouco tem a ver com o dedilhado singelo marcado à gaita por Bob Dylan, mas até aí estamos no terreno das releituras. O que torna a comparação das duas versões tão intrigante é a colisão de duas personas tão marcadamente opostas quanto Dylan e Ness; a sofisticação dos acordes diminutos substituída pela brutalidade dos maiores.
Mike Ness é certamente um dos mais expressivos intérpretes do rock. Poucas vezes uma voz conseguiu incorporar valores de forma tão vívida: cada rasgada de garganta vem embebida de sua imagem de marginal sentimental seduzido por um universo de drogas, pin ups, jogos de azar e toda uma iconografia vintage. A cada nova canção ouvimos Mike Ness rosnar sobre sua vida desgraçada e sua romântica intenção de se reerguer (que, caso consumada, provavelmente arruinaria com sua carreira). Até mesmo seus momentos de maior espiritualidade são pontuados por ressentimento, e é exatamente nesse ponto que sua versão para "Don’t think twice" se torna uma outra canção.
Enquanto a original é uma doce carta de despedida, a versão de Mike Ness bate o telefone (ou a porta) após o desabafo. A diferença está além da entonação: fora o "it’s alright" que lima do título, Mike Ness muda um sujeito essencial, e enquanto Bob Dylan lamenta com "you could have done better, but I don’t mind" (algo como "você poderia ter se saído melhor, mas tudo bem"), Mike Ness esnoba com "I could have done better, but I don’t mind" (mais próximo de "eu poderia ter arranjado alguém melhor, mas tudo bem"). Se Dylan pede para ser convencido em "still I wish there was somethin' you would do or say to try and make me change my mind and stay", Ness reafirma seu território adicionando um "I wish there was something you could do or say to make me want to change my mind and stay".
Se a canção de Bob Dylan era a triste constatação de que as coisas não saíram como o planejado, Mike Ness se envaidece de sua auto-comiseração loser que até tem seu charme (e chega a ser extremamente sedutora em certos momentos da vida), mas não resiste como mais que icônica. Embora seu arranjo seja interessante, Ness faz a canção servir à sua personagem, enquanto Dylan faz com que a canção sirva somente a si própria, apesar da vida. E com isso se torna eterna. Porque talvez não exista ouvido que se preocupe com rosnados se, ao seu lado, soa o canto de um homem feito que, resignado, lamenta os rumos que seus sonhos decidiram tomar.
quarta-feira, junho 07, 2006
Postado por Fábio Andrade às 9:37 AM
I see you, you see the grizzly man
1 Quando vi pela primeira vez o simpático clipe de "Forever Lost", a inegável fofura (musical e visual) do Magic Numbers não me convenceu a buscar outras canções da banda. Alguns meses se passaram até que eu topasse novamente com eles, em mais uma de minhas caminhadas televisivas. Dessa vez, porém, a banda cantava ao vivo, no programa Top of the Pops, uma singela canção chamada "I see you, you see me". Guardei no topo da memória a vontade de conhecer melhor o trabalho da banda, e poucos dias depois o disco de estréia do Magic Numbers já me acompanhava em meu carro.
The Magic Numbers, o disco, passa longe de ser obra-prima. Embora os irmãos Stodart e Gannon (a banda é composta por dois casais de irmãos, todos rechonchudos, tornando a comparação com The Mamas & The Papas ainda mais óbvia) crivem músicas de inegável talento, o disco por diversas vezes parece se arrastar para além do necessário (13 músicas em pouco mais de uma hora de música). Porém, em seus momentos mais inspirados, o Magic Numbers consegue revitalizar elementos do passado com uma espontaneidade comovente.
É o caso de "I see you, you see me", sem dúvida a mais bela fatia do disco de estréia dos irmãos. Para além de ser uma belíssima canção, "I see you, you see me" chama atenção exatamente por desenterrar uma forma defunta e torna-la novamente pertinente: trata-se do mais clássico dueto. Não me lembro qual foi a última vez que ouvi um dueto que se aproximasse com tanta propriedade do formato mais tradicional, sem com isso soar datado de nascença. Irmão e irmã Stodart dividem os vocais em uma canção doce porém forte, simples porém profunda, e retiram brilho justamente do encontro (e da alternância) das vozes. Resgatando um formato que por muitas vezes pareceu condenado, o Magic Numbers consegue a proeza de compor uma canção que, logo nas primeiras audições, parece estar por aí há tempo o suficiente para não nos lembrarmos de como era a vida sem ela.
2 Assim como não tenho tido tempo de atualizar o blog, passei as últimas semanas sem praticamente pisar em uma sala de cinema. Ainda não vi "X-Men III", tampouco filmes que tinha curiosidade de ver, como os novos de Win Wenders e Terrence Malick. Até hoje sigo em débito com a grande maioria dos indicados ao Oscar, desde o bafafá dos cowboys gays de Ang Lee, até o filme preto e branco do ano. Recentemente tentei me reaproximar das salas vendo "A lula e a baleia" (de Noah Baumbach) que, embora fraco e inofensivo, me proporcionou novamente o prazer de estar sentado em uma sala de cinema. Ainda assim, faltava combinar o prazer do estar com o de ver, encontro raro que se deu no sábado, quando fui assistir a "O homem urso" (Grizzly Man, 2005), último filme do alemão Werner Herzog lançado no Brasil.
Conheço pouquíssimos filmes de Herzog, diretor famoso por (além de sua excentricidade) filmes como "O enigma de Kaspar Hauser", "Aguirre: cólera dos deuses" e o remake de "Nosferatu" (obra-prima de F.W. Murnau) e por uma sólida carreira como documentarista. "O homem urso" deu bolo no último festival do Rio, teve sessões conturbadas no último É Tudo Verdade, e chega, finalmente, às telas do circuito carioca. A premissa já é sensacional: Herzog tem à sua disposição 100 horas de material gravado pessoalmente por Timothy Treadwell, ambientalista que durante 13 anos passou seus verões em uma planície do Alaska, convivendo com os ursos pardos. Treadwell desenvolve uma série de técnicas de aproximação dos ursos, e seus constantes avisos do perigo de sua aproximação se fecham em ironia quando descobrimos que, em seu décimo terceiro verão por lá (no caso, o de 2001), Treadwell e sua namorada acabaram sendo devorados por um dos ursos que ele tanto defendia.
Embora a personalidade de Treadwell já seja atrativa o suficiente para que qualquer um se interesse pelo filme, Herzog a contorna com traços de gênio ao inverter a vida do ambientalista: enquanto Timothy Treadwell usava a si mesmo para falar sobre a natureza, Herzog usa a natureza para descobrir a pessoa para além do ambientalista. Aos poucos descobrimos que a aparente insanidade de Treadwell é, na verdade, uma fachada exagerada para uma pessoa que, como todos nós, apenas buscava um sentido para sua vida. E que, não diferente de todos que se entregam sem relutância à sua paixão, acabou sendo devorado por ela.
"O homem urso" é, seguramente, o segundo filme que vi esse ano que imediatamente guardou sua cadeira no top 10 que faço a cada virada (o primeiro sendo "2046 - Os segredos do amor", do gênio Wong Kar Wai). É um filme sobre uma persona criada na solidão, persona essa que acaba se tornando mais forte que seu criador. Herzog é apenas mais um dos artistas contemporâneos que percebe - de forma muito lúcida - que o pequeno, o particular, o ignorado, é, geralmente, mais comovente do que o macro.
terça-feira, maio 23, 2006
Postado por Fábio Andrade às 1:15 AM
Amarcord: Postcard
"Sei que o caminho não é longo, mas no momento me sinto bem" – Anjos Caídos (Duo Luo Tian Shi, 1995), Wong Kar Wai
Para retraçar os caminhos que me levaram a "Postcard" eu deveria assistir novamente o belo "O quarto do filho" (La Stanza Del Figlio, 2001), filme do diretor italiano Nanni Moretti. Não tenho nenhuma lembrança concreta da trilha que Brian Eno fez para o filme, mas, por caminhos sem dúvida estranhos, o drama dos pais que saem em uma viagem de carro para superar a morte do filho me fez sair do cinema com uma melodia na cabeça. Dias depois essa melodia se tornaria "Postcard", canção que até hoje vejo como das minhas mais completas.
Confesso que não sou bom criador de estórias, talvez por não enxergar o mundo por linhas narrativas. "Postcard", portanto, não poderia ser uma canção sobre um casal de pais que perde um filho adolescente em um acidente de mergulho. Porém, olhando para "Postcard" e reafirmando minha impressão de que a base das melhores letras nasce junto com a melodia, penso que minha canção brota justamente dessa viagem de carro, dessa estrada que a família tem que, visualmente, percorrer. Não sou bom criador de estórias, mas me aproximo do mundo por imagens que evocam um certo estado de espírito, e é com esse olhar que crio. Assim como Moretti em seu filme, em minha canção vejo na estrada uma possibilidade de redenção. "Postcard" é minha road song.
Adoro estradas, não só pelo evidente caráter simbólico que encontramos em todo caminho, mas também pelos signos que hoje caracterizam uma estrada não mais como simples passagem, mas também como lugar. Muito do que me atrai nas estradas reflete minha crença de que, talvez, o que existe de mais significativo na vida não seja um objetivo que tentamos alcançar, mas sim o processo de tentar alcança-lo. Talvez o lado mais nobre dos objetivos seja justamente a capacidade de gerar essa possibilidade de um processo, de gerar uma estrada. O Invisibles, como toda vida, não foi um objetivo, foi um trajeto. Foi uma canção que, como toda canção, faz sentido enquanto é cantada, e quando acaba não temos mais do que sua ausência.
Alguns dias depois de ter visto "O quarto do filho", cunhava rimas enquanto arrumava as malas para irmos, eu e Clarissa, para Juiz de Fora, onde o Invisibles faria, à época, seu segundo show na cidade. Embora o nosso set tenha sido tesourado da primeira vez que tocamos por lá, fiquei com a impressão de que naquela cidade encontraríamos pessoas que, de certa forma, realmente compreenderiam quem nós éramos, o que aquelas canções diziam, e reconheceriam o sentimento de onde elas surgiam. Enchia as malas de expectativa, e o tal show foi, de fato, um dos melhores dias que tivemos nos 10 anos que existimos como banda. A cidade realmente nos compreendia. Depois disso, a estrada, que também é retorno.
Uma das minhas maiores ambições sempre foi trazer para o punk rock um certo olhar que nunca teve muito espaço no gênero, que é mais caro aos artistas comumente chamados de singer/songwriter, e é nesse sentido que vejo em "Postcard" uma de minhas canções mais completas. Não é só uma questão de realmente gostar de vários de seus versos, mas também de achar que eles foram concebidos para serem cantados da melhor forma possível, nos momentos certos, extraindo o máximo de sentido de cada palavra. O sentimento-síntese de expectativa parece guiar cada verso, embora não apareça literalmente uma vez sequer. Não é uma canção sobre uma viagem, mas sim sobre a expectativa que antecede essa viagem e sobre todas as coisas inesquecíveis que podem ser vividas nesse curto espaço de tempo. É sobre fazer as malas levando consigo seus melhores sentimentos, deixando pra trás tudo o que acontece quando não é fim de semana.
Muito desse sentimento era factual. Quando escrevi "Postcard" eu havia acabado de mudar para o Rio, e passava minhas semanas distante de minha musa, vivendo vidas-duplas de fato. Só nos víamos em fins de semana, e por isso os sorrisos se despediam com a chegada da primeira estrela do domingo. Por isso pedia que ela não esquecesse seu brilho de sexta-feira, como as senhoritas de outrora tinham roupas separadas para os fins de semana. A expectativa era minha roupa de sair. Era a minha ambição de viver momentos eternos, de fazer com que cada trecho de estrada se tornasse lugar. Os versos passam como os dias da semana – retornam, parecidos mas com algo diferente, como os dias da semana – assim como a canção deixa de cantar o dia e, no exato momento onde adquire traços de uma quase canção de ninar, passa a cantar o anoitecer (marcada aqui pelas solitárias páginas de uma noite de leitura), para depois tornar ao sol, no dia seguinte. "Postcard" seria a tentativa de capturar (como em um cartão-postal) os fins de semana, tratando toda quarta-feira como um contraponto que nos lembre de como é agradável um sábado, que mesmo quando chuvoso não deixa de ser ensolarado. "Postcard" é uma canção sem refrão.
Nunca revi "O quarto do filho". Talvez porque não poderia escrever “Postcard” novamente. Talvez por temer que as ternas lembranças que tenho do filme se perdessem se o deslocasse do momento que o assisti pela primeira vez. Talvez pelo medo de perceber que uma das canções que mais me sinto satisfeito por ter escrito não seja mais que um plágio descarado do Brian Eno.
segunda-feira, maio 15, 2006
Postado por Fábio Andrade às 10:28 AM
O bom cão
Minha obsessão de garoto também nasceu de um elogio. Uma vez, durante o almoço, contei a meu pai que havia me levantado durante a noite para ir ao banheiro. Ele me felicitou em voz alta diante do resto da família, e, por conta disso, passei a me sentir um pequeno senhor. Aquele afago na cabeça era como um biscoito de recompensa, portanto, logo percebi que era um caminho todo pontuado por biscoitos, o que fazia dele objeto de profundo estudo para sanar a curiosidade pela trilha comestível. Queria andar por esse caminho mais vezes, e daí nasceram minhas constantes incursões noturnas ao banheiro.
Como é comum termos heróis paridos pela conjuntura, explico a natureza do afago: minha irmã mais velha freqüentemente se deixava levar por seus sonhos mais sinestésicos e relaxava a continência durante a noite. Lembro que me contava que em seu sonho mais recorrente ela estava numa piscina – o que, por si só, já revelava um hábito que me afligia toda vez que, por acidente, engolia água enquanto nadava – ou mesmo no banheiro, e que seu sono era tão traiçoeiro que a expulsava de lá quando começava a sentir a cama molhada. Por vezes sonhei estar também boiando em silêncio na piscina, mas mantinha-me alerta contra possíveis ciladas armadas para minha honra.
Admito que, por duas ou três vezes, não fui forte o bastante. Para pelo menos uma dela, porém, tenho a clara certeza de ter sido seduzido pelo meio. Como era bastante comum em minha infância, fui passar a noite na casa de meus primos. Meus dois primos mais velhos eram famosos na família por não terem o menor pudor em fazer de suas camas, banheiro. Por vezes viajávamos todos de férias, e praticamente todos os dias a irmã mais nova acordava chorando, pois havia dividido o colchão com um dos irmãos e acabara acordando com as costas empapadas de relaxamento alheio. Como meu faro é meu guia do passado, as duas maiores lembranças que tenho da casa de minha tia são o cheiro dos pães de leite condensado que ela preparava, todo dia, para o lanche, e o desagradável cheiro da varanda, onde, todos os dias, os colchões de meus primos eram colocados para secar ao sol. Uma vez acordei na casa de meus primos e minha tia me disse que havia molhado a cama. Embora reconheça ser fácil se deixar levar em ambientes de necessidades tão opressoras, ainda tenho dúvida se minha tia não queria, com isso, apenas melhorar a imagem de seus dois mijões. Ainda assim, meus primos mais velhos continuavam dizendo “caçapete” quando queriam falar “capacete”, portanto, ainda me sentia um vencedor.
Minhas incursões noturnas ao banheiro foram perturbadas quando nos mudamos de apartamento. Na casa nova, o banheiro mais próximo ficava de frente para o quarto de meus pais, e embora isso tenha despertado a tentação de agora poder buscar novos afagos provando minha disciplina de forma mais contundente, ao mesmo tempo me via intimidado pela possibilidade de acorda-los com o barulho da descarga. Assim que começavam as férias, eu passava a cultivar o hábito de assistir televisão durante as primeiras horas da madrugada, indo dormir cada dia um pouco mais tarde. Muito disso vinha do medo que sentia de um comercial noturno do SBT que combinava o desenho de uma família modelo, com a ameaçadora voz narrando que em cada cinco pessoas, uma morria de câncer, enquanto a figura relativa ao pai desaparecia do desenho.
Esse pesadelo me mantinha acordado por mais algumas horas, aumentando em número minhas idas ao banheiro. Para não acordar meus pais, aboli a descarga na esperança de desvendar mais alguns metros do caminho de biscoitos. Até que um dia acabei adormecendo mais cedo, e tive o sono cortado pela disciplina. Caminhei até o banheiro na ponta dos pés, evitei acender a luz para não acordar meus pais e enchi o vaso de orgulho, tentando não acertar diretamente a água no fundo da privada, na esperança de assim manter o silêncio do ritual. De alguma forma, porém, feri o sono leve de minha mãe. Dedicada a meus hábitos como lhe pedia a função, ela chamou-me a atenção: “não vai dar descarga não, porquinho?”. Sua voz cortou minha necessidade pelo meio, fazendo todo meu ritual parecer um pouco mais estúpido. Acendi a luz do banheiro, assassinei a noite com o estrondo da descarga, e, com passos duros, tornei à minha cama, assombrado pela imagem do desenho do pai que, lentamente, desaparecia.
segunda-feira, maio 08, 2006
Postado por Fábio Andrade às 12:15 AM
Quatro coisas
1- Infelizmente não encontrei na internet a sensacional foto da Associated Press que ganhou a capa do jornal "O Globo" essa semana (acompanhada de um genial "Muy Amigos" como legenda), onde Lula era - figurativamente falando, claro - enrabado por Evo Morales, o tal populista boliviano. Ver a foto na primeira página de um dos maiores jornais do Brasil me fez lembrar dos bons tempos do "Jornal do Brasil", época em que, mais do que simplesmente retransmitir a notícia, o jornal abria espaço para o bom humor e escancarava a subjetividade nos textos e nas manchetes (como a histórica capa sobre o sequestro da filha de Silvio Santos que vinha com a garrafal manchete "Nasce uma estrela"). Se os principais jornais percebessem que é justamente nesse tipo de abordagem que eles podem se diferenciar de todos os sites gratuitos de notícias que existem por aí, voltariam a me ter como assinante.
2- Obrigado a todos que apareceram no último show do Invisibles no Rio, domingo passado no Teatro Odisséia. Melhor do que tocar e reencontrar vários amigos, só o conforto da certeza de que fechar com um dos melhores shows dos 10 anos de Invisibles era a melhor lembrança que poderíamos guardar da banda. Mais uma vez, obrigado por terem contribuído na construção dessa mais cara memória. Dia 27 de Maio encerramos de vez com um derradeiro show em Barra Mansa, enterrando os ossos na cidade que figurou a maior parte de minhas canções.
3- Invariavelmente me percebo encantado com uma nova canção entoada por alguma moça genérica de rádio. Embora nem todas essas canções levem a descobertas tão sólidas como foi o caso de "Lovefool", do Cardigans, mantenho a generosidade a todo vapor quando alguma vozinha minúscula me chama atenção na programação quase sempre desagradável das rádios do Rio. Foi assim com "Thank You", da Dido, "Everywhere" de Michelle Branch, "A thousand miles", de Vanessa Carlton e os hits inconstantes de Alanis Morrisette. Talvez "Suddenly I see", da escocesa KT Tunstall, não tenha o mesmo brilho das jóias acima, mas é, sem dúvida, a canção mais interessante do gênero (se é que podemos chamar isso de gênero) a me fisgar em um bom tempo. O arranjo dos versos é confuso, a ponte beira o inaceitável, mas tudo é compensado por um refrão inspiradíssimo que tem me acompanhado na vida já há algumas semanas. Ainda não ouvi nenhuma outra canção de KT Tunstall, mas "Suddenly I see" é incrivelmente melhor que artistas mão-de-chumbo com toques de artpop como Demian Rice e o horrendo Keane, que o jabá invariavelmente tenta consagrar como deuses contemporâneos.
4- Para compensar pelo pau fino de Luana Piovani, o GNT exibiu hoje - na tal faixa de filmes femininos - "Todas as mulheres do mundo", obra-prima de Domingos Oliveira. "Todas as mulheres do mundo" é o tipo de filme que pega o espectador de uma forma muito visceral, e espanta por emanar uma força que não sabemos precisar de onde vem. Tudo passa a fazer sentido quando descobrimos que Domingos Oliveira fez o filme justamente como uma forma de superar o término de seu casamento com a atriz Leila Diniz (que, nada por acaso, protagoniza o filme ao lado de Paulo José, à época um dos melhores amigos do diretor). Para além do texto excepcional de Domingos e de uma leveza que raramente se viu no cinema brasileiro, "Todas as mulheres do mundo" encanta por ser um filme feito com o olhar apaixonado de um diretor por sua musa (só encontrando paralelo no olhar de Godard por Anna Karina em "Uma mulher é uma mulher"). O GNT ainda reprisa o filme no próximo fim de semana, sábado (13) às 13h, e domingo (14) oito e meia da manhã.
sábado, abril 29, 2006
Postado por Fábio Andrade às 7:06 PM

Hanson - Underneath
Há muito venho fazendo uma defesa pública do Hanson. Passada uma rápida rejeição inicial pelo excesso de execução da simpática "Mmm Bop", comecei a perceber a injustiça feita pela imprensa musical em vender a banda como mais uma das boy bands que estavam tão em voga à época. Se não fosse o fato de ser um banda composta realmente por garotos, os pontos de convergência entre Hanson e os milhares de N Syncs se limitaria simplesmente ao público consumidor. Se em um primeiro momento a banda foi vendida visando justamente um público adolescente feminino (escolha duvidosa, pois era exatamente o tipo de banda que poderia agradar famílias inteiras), aos poucos tornaram-se perceptíveis intenções de real amadurecimento musical por parte dos três irmãos, coisa que sempre passou à margem do universo das boy bands.
Não que esse amadurecimento fosse de fato necessário. Desde "Mmm Bop" e "Where’s the love" o Hanson já aparecia como uma simpática versão caucasiana do extraordinário Jackson 5, coisa que ficava clara até mesmo nas canções da banda (seria forçar muito a barra imaginar o jovem Michael Jackson cantando "Mmm bop"?). Ainda assim, os três irmãos de Oklahoma pareciam teimar em deixar de lado a co-autoria de canções ao lado de compositores de renome para buscar um caminho mais pessoal. Aos poucos a ingenuidade calculada do primeiro momento começou a ceder espaço a canções pop mais maduras, e de single para single víamos os três garotos crescendo diante de nossos olhos.
A minha simpatia se tornou admiração à época do disco This time around (2000), principalmente por conta do single "If only". Lembro-me de ouvir a canção no rádio pela primeira vez e ter a nítida sensação do amadurecimento da banda toda condensada no ótimo refrão da canção (que depois viria a ser não tão discretamente surrupiado pelo Offspring em "Want you bad", justamente por essa safadeza uma das melhores canções da banda nos últimos anos). "If only" passou a figurar minhas coletâneas, e foi prontamente executada nas poucas vezes que fui convidado para discotecar em festas. Ainda assim, a admiração pelos Hanson era freada pela falta de interesse no material da banda para além dos singles. Embora "If only" e "Save me" tivessem me impressionado enquanto canções, só fui ouvir o This time around anos depois, quando já havia decidido colocar meu dinheiro em meu discurso e comprar, finalmente, um cd do Hanson.
Encontrei Underneath (2004) em um desses saldões de cd onde sempre me enfurno em busca de ar fresco barato. Mais uma vez os singles já haviam me interessado, e o bom gosto evidente em toda a parte gráfica do cd me convenceu a, definitivamente, abrir a carteira pelos rapazes. Embora Underneath não seja um disco perfeito, todo o seu contexto faz dele uma experiência extremamente agradável. Em primeiro lugar, trata-se de um disco de maturidade. Após o relativo fracasso de público de This time around, a banda rompeu com a gravadora Geffen e decidiu lançar seu novo disco de forma independente. Se a produção de Underneath ainda soa muito limpa para ouvidos roqueiros, já é possível perceber nas entrelinhas uma vontade de romper com a esterilidade pop e buscar sonoridades mais humanas, mais acústicas. Se somarmos a isso a bela predominância dos tons pastéis da arte, e até mesmo o caprichado trabalho de fotografia dos clipes desse álbum (em especial o de "Penny and me") começa a ficar clara a intenção da banda de se dissociar da imagem descartável do passado e de redirecionar seu trabalho para um público jovem-adulto. Em vez da ingenuidade das letras de outrora temos a rica criação de atmosfera em canções como a estonteante "Penny and me", que evoca imagens já de um universo adulto. Saem as harmonizações vocais em excesso para dar lugar a canções individuais dos três irmãos, deixando o evidente talento vocal familiar conjunto aparecer discretamente em refrões ou pontes.
Underneath não é um disco perfeito por dois motivos interligados: nem todas as canções são igualmente boas, o que faz o disco ser longo demais (passando de uma hora de duração, embora tenha algumas surpresas escondidas no final). Se em vez das 13 canções do disco tivéssemos dez, Underneath seria, sem muita dificuldade, um dos discos pop mais coesos dos últimos anos. "Strong enough to break" abre com ecos de Goo Goo Dolls e outras bandas competentes de rock de rádio. "Dancin’ in the Wind" e a dançante "Get up and go" fazem pensar em Superdrag, enquanto a balada "Misery" lembra os melhores momentos do Coldplay. As ensolaradas "Penny and me" e "Deeper" impressionam não só pelos inspiradíssimos refrões, mas também pelo cuidado de fazer música e letra trabalharem em harmonia. Além disso, temos "Lost without each other", canção composta junto com Gregg Alexander (do finado New Radicals), irresistível convite para dançar que traz à cabeça as canções mais inspiradas do Pretenders.
Embora exista em mim uma calculada preocupação em defender quebra de preconceitos artísticos, Underneath se sustenta tranqüilamente sozinho, para além de qualquer intenção ou discurso. Se artistas como Guster, Fountains of Wayne, Ben Lee, Goo Goo Dolls e Ben Kweller têm garantido que os últimos anos sejam futuramente lembrados por bons discos pop, o Hanson engrossa a lista trazendo consigo o charme de serem garotos que conheceram o sucesso muito cedo e, ainda assim, não se acomodaram com a fôrma. Underneath é a prova do triunfo da inquietação de jovens artistas que acreditam na música que possuem dentro de si, e - dentro de certos limites, reconheço - decidem driblar as imposições da indústria e investir o dinheiro que ganharam nas canções que queriam fazer.
segunda-feira, abril 24, 2006
Postado por Fábio Andrade às 1:54 AM
Piovani, Demy e a canção da semana
Há algum tempo venho acompanhando, com algum interesse, as mudanças de direcionamento do canal GNT. Embora num primeiro momento as tais mudanças (até onde sei para tentar aumentar a audiência do canal) tenham sido anunciadas como "imperceptíveis para o espectador" pelo canal, aos poucos começamos a notar que a intenção transcendia a saudável troca das vinhetas de jornalismo duro por um visual mais clean e moderno. Aos poucos, as vinhetas passaram a ser tomadas por silhuetas femininas a la propaganda de sabonete, programas de temáticas Marie Claire começaram a pipocar pela grade do canal, e, mais recentemente, abriu-se até uma faixa para filmes que "abordassem a temática feminina". As tais mudanças imperceptíveis fizeram da Globo News Television (sim, o GNT já se chamava Globo News antes da existência da Globo News) "o canal da mulher".
Apesar de uma segmentação por meio de uma generalidade sempre me parecer duvidosa, admito (de forma bem otimista!) não ser isso o determinante da qualidade da programação do canal. Bons programas como "A cozinha de Oliver", a faixa fixa de documentários (que várias vezes pende para o jornalismo duro de outrora, mas vez por outra passa boas jóias) e até mesmo o "Marília Gabriela Entrevista" (aproveitei a chance de fazer publicidade do meu programa aqui no blog!) apontam para um lado, enquanto que os documentários caça-níqueis sobre paparazzis, e o desserviço de programas como "Superbonita", "Nós & Eles" e "Mulher Solteira Procura" (sem dúvida o pior dos três) constroem uma visão no mínimo questionável do tal "universo feminino". Esse mesmo olhar que move revistas como "Capricho" ou "Marie Claire", que é pseudo-intelectualizado por programas como "Sex and the city", que ilude-se de uma intenção feminista e acaba por exaltar um machismo consentido, parecia comer um dos melhores canais da tv brasileira pelas beiradas. Não à toa, assim que o GNT se admitiu como "o canal da mulher", não tardou a ser criado o FX, "o canal do homem".
Tenho sobrevivido bem a essa mulher que o GNT tenta agradar/construir/promover, embora mantenha com ela uma relação estritamente televisiva (quando muito). Até que na última semana, enquanto alternava entre um sofrível jogo do Flamengo na Globo e a versão brasileira do "American Idol" no SBT (combinação que só perde em inusitado para o dia em que emendei uma sessão de "Nascido para matar" com "Queer eye for the straight guy"), dei um pulo no 41 para espiar o que a diversidade feminina discutia no "Saia Justa". Se a hostilidade velada (porém visível) entre Fernanda Young e Marina garantia um mínimo de interesse no elenco passado, com a reformulação da equipe o "Saia Justa" caiu de vez na completa irrelevância. E quando ia retornar para os comentários do Miranda, Luana Piovani perguntou a suas colegas (cito de cabeça): vocês ficam muito decepcionadas quando pegam um cara que tem o pau fino? .
Juro que até em meus momentos mais pudicos fujo do moralismo, portanto não entrarei (já entrando) no mérito de que a frase de Luana Piovani foi o que de mais grosseiro ouvi na televisão (em horário nobre, ainda por cima) em um programa que parece se levar com um mínimo de seriedade. O que me surpreendeu, após os minutos de incontornável constrangimento que tive como espectador, foi perceber que nunca tinha ouvido um homem falar de forma tão desrespeitosa sobre uma mulher. Até mesmo em programas chauvinistas como "It’s a man’s world", ou nas conversas menos dignas que já entreouvi nessa vida, não me recordo de já ter ouvido um homem associar uma particularidade estritamente anatômica com performance, ou algo do tipo. As proporções podem agradar mais ou menos, mas limitam-se enquanto preferências. Afinal, o contrário seria como zombar do aleijado!
Luana Piovani - que até então eu acreditava ser somente burra, mas desde então estou convencido ser pessoa da pior categoria - chegou ao ponto de dizer que avisava as amigas quando pegava um cara de pau fino! "Iiihhhh, não pega ele não porque o cara tem pau fino!". Beth Lago, a inteligência descolada do programa, admitiu ter terminado um relacionamento com uma pessoa (afinal, quem é da televisão sempre diz ter um relacionamento com uma "pessoa", porque definir seria preconceito, mesmo quando o assunto é o pau da "pessoa") "super bacana" (as pessoas da tv também adoram falar "super") por conta do diâmetro. Atordoado com Luana, a discussão sobre covinhas no "SuperBonita", as solteironas que sempre terminam seu dia flertando em uma happy hour no Outback no "Mulher Solteira Procura" (que, pouco depois, exibiria um episódio sobre uma mulher cuja maior satisfação era sentar numa livraria, pedir um café, acender um cigarro e ler um livro fazendo ar blasé - palavras dela!), o enrustido "Contemporâneo", nada disso me pareceu mais abjeto, e sim simples futilidades. Obrigado Luana, por ter tornado todo o resto da programação do "canal da mulher" menos ultrajante.
* * *
Por outro lado, é claro que só escrevi tudo isso porque eu tenho pau fino...
* * *
Quem mora no Rio não pode perder a oportunidade de assistir no cinema Pele de Asno, clássico de 1970 dirigido por Jacques Demy e relançado em circuito na cidade pelo Grupo Estação. Além de o trabalho de cor absolutamente extraordinário de Demy (que atingira o ápice com "Os guarda-chuvas do amor", filme que ficou famoso por ter rigorosamente todos os seus diálogos musicados) brilhar de forma mais impressionante na película estalando de nova (fujam das salas exibindo o filme em projeção digital!), e das músicas sempre cativantes de Michel Legrand (que consegue fazer uma receita de bolo - literalmente: ovo, leite, farinha, etc - soar encantadora na boca de Catherine Deneuve), é extremamente curioso ver como um diretor ligado às vanguardas - no caso, a nouvelle vague francesa - trabalhou um gênero tão difícil - aqui, a fábula infantil. Jacques Demy foi um esteta muito particular, e "Pele de Asno" antecipa traços que seriam aprofundados pelo cinema posteriormente, ecoando em especial no trabalho de Tim Burton.
* * *
"Quando deus te desenhou, ele tava namorando".
sexta-feira, abril 14, 2006
Postado por Fábio Andrade às 2:22 PM
Amarcord: One last song about summer
Quando comecei o Fabito's Way me impus o desafio de não escrever somente sobre música/cinema/literatura por aqui, numa tentativa de não fazer desse blog um desajambrado espaço de crítica. Também havia me prometido que fugas ao passado seriam reduzidas, embora reconheça que os limites entre passado, presente e futuro sejam os mais difusos, e que um parece pertubar o domínio do outro constantemente. Ainda assim, por medo da nostalgia, prometi-me uma estrada reta em direção ao horizonte, e por alguns momentos me deixei admirar o brilho do sol refletido nas pedras incrustada no asfalto. Levei pouco tempo para admitir a idéia de que seria biografado dos mais tediosos, e que se não falasse sobre música/cinema/literatura por aqui, acabaria não falando sobre nada.
Foi aí que topei com esta tradução de "One last song about summer" e, após me encantar com a flexibilidade de meu ego ao perceber que alguém havia separado um tempinho de sua vida para traduzir minhas palavras (e, sim, fico absolutamente lisonjeado com isso), comecei também a perceber como algumas frases ganharam traduções para mim inesperadas, e daí passei a puxar da memória todo o processo de criação da canção, que, como nos melodramas baseados em estórias reais que vimos dublados na televisão, parecia ter caído em um poço enquanto brincava inocentemente em um ensolarado quintal.
E de tal parágrafo monofrásico me peguei lembrando de como havia escrito cada uma das minhas canções... que parte surgira primeiro, onde estava quando fui tomado pela melodia, qual verso havia definido o espírito da canção para mim, etc. Percebi que me recordo como escrevi rigorosamente todas elas, e como cada palavra ainda traz os questionamentos que me perturbaram à época. E, claro, pensei na idéia que martela minha fruição toda vez que pego para ler uma edição nacional de algum livro estrangeiro de que todas as traduções são reinterpretações, e de como a palavra que leio em "O trópico de Câncer" não foi exatamente a escolhida por Henry Miller, e que o livro que leio, portanto, é outro, não o seu.
Lembro-me que, quando escrevia uma das canções que acabaria em Hollywood, conversei com a minha Clarissa sobre como a palavra "summer" parecia querer se embrenhar em todos os versos possíveis. Clarissa, em um raro momento onde deixou a admiração de lado e pôs-se como crítica, disse que a palavra estava se tornando uma saída esperada pra mim e que acabaria perdendo a força se a usasse de forma indiscriminada. Convencido, segui o conselho e me esquivei de todos os ataques que a palavra desferia a cada verso, chengado a uma canção sem ecos diretos do verão. Acredito que a chuva que a Clarissa fez cair sobre o meu desfile apenas o fez mais belo, e agradeço-a eternamente por isso.
Poucas semanas depois, descendo da casa de minha chuva (trajeto onde escrevi mentalmente boa parte de minhas canções), comecei a montar uma nova canção na cabeça, com uma levada Weezer que progressivamente desapareceria da canção como a conhecemos. A melodia do verso e do refrão surgiu quase naturalmente, e sentia-me positivamente rondado por uma frase da canção "In the summer's when you really know", do Jets to Brazil, onde Blake Schwarzenbach cantava "you're the only summer that I think I'll ever know". Nunca tive pela palavra "verão" a empatia que sinto pela palavra "summer". Nunca o pensei como uma estação do ano, mas sim como um estado de espírito. Nunca pensei em escrever uma canção sobre um "amor de verão", porque nunca vivi um. Não vejo o amor como uma estação, e não vejo o verão de forma tão substantiva. Guardei a poesia daquele dia no bolso e cantarolei mentalmente a melodia até chegar em casa, para que ela não rumasse para o esquecimento como tantas outras canções que comecei a conceber em meu eterno caminhar.
Escrevi a letra que adornaria a melodia alguns dias depois, durante uma aula perdida na faculdade. Com as palavras vieram também o solo e as duas partes finais da canção, sendo a última delas um agradecimento claro à personificação da estação feita na canção do Jets to Brazil que me inspirara. Desta vez não tentei fugir do verão, mas fiz do título um quase pedido de desculpas à minha primeira leitora por ter fraquejado. A introdução instrumental - como bem me atentaria o Pablo, mais tarde - é quase idêntica à linha de piano de "Thirty three", dos Smashing Pumpkins. E escrevo isso tudo para justificar o tal música/cinema/literatura lá de cima, e, consequentemente, todos os posts que podem acabar por aqui. Até em meu mais íntimo sou derivado, e só por isso eu me recordo. Minha biografia seria assustadoramente parecida com uma lista telefônica.
quarta-feira, abril 12, 2006
Postado por Fábio Andrade às 6:52 PM
Pelo retorno das ombreiras
Passei as últimas semanas completamente sufocado de tarefas. No sábado, eu e minha pequena fomos nos aventurar na cidade de Atibaia, onde rolava o show do Supergrass no festival Campari Rock. O site Sobre Música me convidou pra escrever um texto sobre o show, então por aqui eu deixo a impressão extra-música que fiquei do festival: nossa geração conseguiu bater a dos anos 80 em termos de mau gosto pra se vestir. É claro que uma resposta ao descompromisso dos anos 90 eventualmente viria, mas confesso que não estava preparado para viver em um mundo onde os roqueiros de hoje são facilmente confundidos com meninas feias e mal vestidas.
Agora que as coisas começam a voltar aos eixos, prometo me dedicar mais a esse rebento nos próximos dias. E aproveito para anunciar que "Hollywood" já tem data de lançamento, que a versão final de Sugar High já está no ar, que tem um último show no Rio marcado pro dia 30 (no clássico Teatro Odisséia) e que o sistema de pré-venda do ep já tá rolando. Agora prove que você é um leitor dedicado e me dê um pouco do seu dinheiro, ok?