segunda-feira, novembro 12, 2007

Duas ou três coisas sobre Superbad


Salvo engano, desde a entrega total às salas do festival do Rio eu não pisava no cinema. Mantive as sessões caseiras e o cineclube em alta rotatividade, mas, se quando pensamos em cinema estamos falando de projeção em película, da solidão coletiva, da legenda que bate a cada fotograma, tirei, realmente, um tempo para dar folga ao hábito. Até que, nesse último fim de semana, fui com minha pequena assistir "Superbad - é hoje", de Greg Mottola, e me peguei pensando um par de coisas que me pareciam um bom ponto final para o silêncio-luto-pós-não-Feist que abateu esse blog.

Existem poucos momentos tão gratificantes quanto aquele em que percebemos a surpresa conquistada por um filme pelo qual nutríamos pouca ou nenhuma expectativa. Parte do arrebatamento vem da beleza da própria surpresa em si; por mais que tente, conscientemente, desarmar-me antes de cada projeção, a dedicação mais atenta ao cinema (sentimento que muitos chamam de cinefilia – palavra que sempre me deu calafrios por parecer vir acompanhada de um forte cheiro de café seco e um gorduroso excesso de vírgulas) traz consigo a dúvida de até onde seu gosto permanece seu. Falsa questão, claro. Mas, por mais que eu afaste toda defesa da pureza pela pureza, assistir a um filme que vai me ganhando aos poucos - misturando meu senso crítico com o gosto de espectador mais instintivo que às vezes se acanha diante das racionalizações – me vem sempre como um agradável exercício de afirmação de individualidade.

Mais apropriado impossível, portanto, que após tanto tempo longe dos cinemas eu me visse sorrindo com as belas imperfeições que aos poucos me aproximavam de “Superbad” de maneira pulsante, viva. Gratas surpresas tendem a reservar bons lugares na memória; ainda defendo praticamente sozinho a vontade que pareceu tomar Norah Ephron de rachar a cabeça no fundo da piscina de metalinguagem que afoga “A feiticeira”, e sinto que o silêncio crítico diante de “Superbad” pede, aqui, um par de parágrafos (escritos com tripas, há de se dizer).

O que mais me comove no filme de Greg Mottola é um interesse agudamente apaixonado pelo universo adolescente que evita o excesso de romantização nostálgico (penso na série “Anos Incríveis”, por exemplo) e o dedo em riste (sensação que – para ficar em um cineasta que admiro – vira e mexe mordisca o cinema de Larry Clark, por exemplo) que conecta boa parte das expressões adultas acerca do universo jovem. Os maiores méritos de “Superbad” parecem vir da idéia de que o que existe de mais interessante na adolescência é a sua existência enquanto tempo – esse incrível limbo entre a infância e a vida adulta que condena os jovens a um milhão de novas experiências por minuto. Se para Gus Van Sant algo é irremediavelmente sacrificado no processo, para Greg Mottola (e é preciso acrescentar os nomes dos roteiristas Seth Rogen e Evan Goldberg à lista) o que mais parece interessar é justamente o ato de descobrir (des-cobrir, de fato) que é a adolescência.

Em “Superbad” o registro desse tempo é apenas coerente com seu objeto. Se na série “American Pie” as piadas buscam graça em uma estrutura de gags circense, em “Superbad” elas são cuspidas com a falta de acabamento típico do universo dos personagens; são piadas de adolescentes, não piadas sobre adolescentes (não à toa, os únicos personagens que são aparentemente ridicularizados são os policiais – alvos mais que comuns quando se tem17 anos). Essa fé absoluta no universo que retrata ficou ainda mais clara por uma coincidência de projeção: após a saída de cena dos pré-adolescentes de vinte e tantos anos que figuravam o trailer de “Pode crer”, o rosto claramente jovem de Michael Cera (que interpreta Evan com precioso equilíbrio) ganha uma expressividade impressionante. Em vez de tentar fazer um panorama geracional, as piadas sobre MySpace, sites de pornografia e peitos recauchutados ganham, em “Superbad”, funções climáticas.

Climáticas, sim, pois é nos climas que o longa de Greg Mottola se revela, e nesse ponto “Superbad” acaba se aproximando de “Jovens, loucos e rebeldes”, ainda hoje meu filme favorito de Richard Linklater. Se a trama principal (dois garotos nada populares vêem na possibilidade de comprarem bebidas alcoólicas para uma festa de colégio a maneira mais rápida de se aproximarem das garotas que desejam) é rapidamente exterminada pela nossa falta de vontade de cumprir certas leis (uma criança de dois anos pode se embebedar sem esforço no Brasil), “Superbad” se safa pela força das sensações decorrentes do ato de descobrir que é a adolescência. Quando Evan percebe que está prestes a perder sua virgindade com a garota de seus sonhos, é inevitável que o espectador tenha a espinha esmagada pelo misto de ansiedade e curiosidade que congela as palmas encharcadas que tocam o desconhecido. É aí que “Superbad” se afasta do cinema besteirol ou da comédia física de onde ele aparentemente nasce (trata-se de um filme irmão, em produção, do magnífico “O virgem de 40 anos”), e se torna um filme doce, carinhoso e extremamente encantado com o universo que retrata.

“Superbad” talvez não seja sequer um grande filme (dificilmente entrará pra minha lista de melhores, ao fim do ano), mas acaba se mostrando uma das mais animadoras propostas de cinema dos últimos anos. Pois se o cinema de John Hughes não consegue mais dar conta do tempo (e a falta de fôlego que condena os filmes de Jorge Furtado me parece prova bastante clara que essa estrutura já expirou faz tempo), é preciso buscar uma nova maneira de se olhar para ele. Em “Superbad”, Greg Mottola me parece extremamente interessado em buscar quais maneiras essas poderiam ser. Essa busca, por si só, já é suficiente para me emocionar ao longo de toda a projeção.

2 comentários:

Unknown disse...

Você sabe o nome da música que um dos personagens canta naquela cena da festa que os caras puxam 12 e obrigam ele a cantar?
Bjs espero que possa me ajudar

Unknown disse...

A música que o Evan canta no filme Superbad na hora da festa é These eyes - Guess Who
Espero ter ajudado!!!
bjus