segunda-feira, outubro 20, 2008
Postado por Fábio Andrade às 9:12 PM
Top 5 da semana
De volta após o Festival do Rio, em semana de filmes assustadoramente fortes. Pelo populismo, passei a incluir as cotações do imdb ao lado dos títulos.
Filmes
1 – Bom Trabalho (Beau Travail)
de Claire Denis (França, 1999) – 10/10
Na revisão, a obra-prima de Claire Denis (diretora que traz uma penca de grandes filmes no currículo, e pelo menos outra obra-prima – Desejo e Obsessão, de 2001) conseguiu me impressionar ainda mais. É, sobretudo, um filme grego – lembrando, com o glorioso balé de músculos frente ao céu azul, as estátuas dos deuses em O Desprezo, de Jean-Luc Godard. Além de ter um dos finais mais marcantes do cinema contemporâneo, toda a coreografia de Bom Trabalho se torna monumental pelo brilho primoroso dos key lights de Agnès Godard – que a bela cópia em DVD da Artificial Eye consegue conservar.
2 – Os Três Bêbados Ressuscitados (Kaette kita yopparai)
de Nagisa Oshima (Japão, 1968) – 10/10
Por sua incorruptível crueza, Oshima sempre me pareceu quem melhor incorporou o sentimento dos cinemas novos. Os Três Bêbados Ressucitados traz diversos dos elementos mais caros a essa geração – a juventude, o cinema como tema a ser problematizado, as drogas, as mulheres, a desorientação política – com um senso de humor tão admirável quanto cortante. Parte de uma simples imagem – a célebre foto do vietnamita morto com um tiro na cabeça que, apesar de revelada de fato apenas ao fim, ronda a narrativa desde os primeiros minutos – para pensar todo um manancial imagético dos jovens na década de 1960, questionando política e moralmente essa relação, sem nunca querer ser denúncia de coisa alguma. É um filme sobre consequências – não sobre causas – e isso faz uma diferença brutal.
3 – As Damas do Bois de Boulogne (Les Dames du Bois de Boulogne)
de Robert Bresson (França, 1945) – 9/10
Realizado logo antes da ruptura estética (Diário de um Pároco de Aldeia, filme seguinte a este) que marcaria o Bresson que o mundo conhece, As Damas do Bois de Boulogne é movido por uma transparência narrativa que faz lembrar sujeitos como David Lean (Desencanto, sobretudo), Max Ophuls e até Josef Von Sternberg. Mas é um parentesco surpreendente justamente pela maneira particular que Robert Bresson explorará a decupagem clássica. Talvez a seqüência que melhor expresse isso seja justamente a inicial: ao ouvir de um amigo que seu marido não lhe amaria mais, Hélène (María Casares) torna uma situação banal tão particular por uma simples distorção dos corpos: em vez de interagir com o amigo, Bresson a coloca olhando levemente na direção contrária – para fora do carro e do quadro. “Eu só vejo e ouço o que desejo”, diria ela, mais tarde. Já estava dito por aquele olhar, naquele plano. Hélène parece, ao fim, representar a própria figura do diretor: uma personagem que manipula as estruturas à sua volta para, com o máximo de discrição, conduzir os outros a produzirem ações que pareçam espontâneas e naturais, mesmo quando rigorosamente armadas. Antes de desenvolver todo o seu solidíssimo projeto artístico, Bresson já abalava as estruturas convencionais em cenas como a do carro (e como o diálogo no bosque que é abafado pelo som da cachoeira), ou por falas tão brilhantes quanto “Ela queria viver para dançar, e não dançar para viver”.
4 – Uma Ave no Vento (Kaze no naka no mendori)
de Yasujiro Ozu (Japão, 1948) – 9/10
Se Ozu não assinasse todas as suas imagens em letras garrafais, não seria difícil assistir a Uma Ave no Vento acreditando ser, na realidade, um filme de Kenji Mizoguchi. Um dos filmes menos conhecidos de Ozu, Uma Ave no Vento forma com o filme seguinte – a obra-prima Pai e Filha – um retrato duplo sobre os efeitos da segunda guerra mundial em seu cinema. Cineasta das contingências, é bastante natural as famílias de Ozu também serem afetadas pela vida na guerra, e Uma Ave no Vento se torna – por isso mesmo – o momento em que uma circunstância tão pontual ganhou maior destaque em sua carreira. Ozu não precisa de mais do que uma seqüência para pôr a trama em movimento: vemos uma mãe interagindo com o filho para, com um corte, passarmos à foto do marido vestindo um uniforme militar. O filho fica doente e, com o marido na guerra, a mulher se vê obrigada a se prostituir para pagar as contas do tratamento. Se para Mizoguchi esse detalhe renderia (como rende) questão para vários filmes, Ozu passa rapidamente por isso e faz o marido voltar logo da guerra. A partir daí pode pensar seu único tema: os efeitos do tempo sobre o núcleo familiar. Filme de intensidade estranha a Yasujiro Ozu, Uma Ave no Vento traz uma das imagens mais fortes já criadas pelo diretor: a mãe que carrega, literalmente, o filho nas costas.
5 – A Rua da Vergonha (Akasen chitai)
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1956) – 9/10
Curiosa uma semana que contrapõe visões tão complementares: assim como Uma Ave no Vento aproxima o universo de Ozu ao de Kenji Mizoguchi, os primeiros minutos de A Rua da Vergonha parecem, de fato, um filme de Yasujiro Ozu. Último grito de Mizoguchi – lançado em dvd esplendoroso na série Masters of Cinema – A Rua da Vergonha parece expor o ambiente mais caro ao diretor (um bordel) aos efeitos do tempo que passa. Quando ouvimos a possibilidade da aprovação de uma lei que tornaria a prostituição ilegal (e Mizoguchi faz clara declaração de princípios ao dividir a discussão em uma amigável conversa entre um dono de bordel e um policial), temos a impressão de que Mizoguchi estaria enxergando, ali, o fim de seu cinema. O mais perturbador, porém, é que a lei não é aprovada, fazendo a discussão sobreviver à morte do diretor. Mizoguchi retorna ao que todos seus filmes deixam claro: seu interesse não está nas questões pontuais, mas sim nos valores. Não à toa temos, aqui, em meio a discurso tão múltiplo quanto complexo, a inserção de meninas que já absorveram trajes e hábitos ocidentalizados (fazendo lembrar de O Fim do Verão, também de Ozu), e que, com notável impetuosidade, quebram o jogo de máscaras das relações japonesas expondo-as na nudez de sua natureza: é comércio, puro e simples. Além dos talentos já conhecidos de Mizoguchi (o exímio controle da luz; o trabalho cuidadoso das camadas de profundidade dos cenários; a certeza de seus movimentos de câmera), fica como interessante vislumbre a trilha de Toshirô Mayuzumi – compositor que, embora tenha trabalhado com Ozu e Mizoguchi, se tornaria mais conhecido pelo trabalho de vanguarda com a geração seguinte de realizadores japoneses, em especial ao lado de Shohei Imamura.
Canções
1 – “I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free”
de Nina Simone (Silk and Soul, 1967)
Clássico gravado por Nina Simone em Silk and Soul, “I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free” deveria ser adotada em cursos de música como tradução perfeita do conceito de “dinâmica musical”. Uma única linha melódica é repetida ao longo de toda a canção, mas vai ganhando corpo ora pelas variações da letra, ora pela entrada de novos instrumentos (os metais, em especial) ou, ainda mais complexo, pela dobra da levada de bateria na estrofe final. É de um minimalismo extremo que, pelo brilhantismo do arranjo e a interpretação carnal de Nina Simone, se constrói como pura redenção.
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2 – “Diane”
de Guster (Keep It Together, 2003)
Muito provavelmente o melhor disco lançado em 2003, Keep It Together levaria a um nível inimaginável as potências pop que o Guster já deixara claras em Lost and Gone Forever, de 2001 (e um tanto pálidas em Ganging Up On the Sun, de 2006). “Diane” é a primeira de uma seqüência de 9 canções perfeitas (só parando para um breve respiro depois da linda “Come Downstairs and Say Hello”) e, mesmo depois de tantas audições, seu brilho permanece intacto. Basicamente um jogo de camadas de uma mesma voz (a de Ryan Miller – já que Adam Gardner faz apenas alguns dos backing vocals da canção), “Diane” alcança novos níveis de emoção conforme Miller sobe no registro (os agudos de “The theme returns so deep / and visits us in sleep...”, e do backing “And I may leave in time you'll see / I'll come right back for you”). Keep It Together é um disco delicioso, e – assim como Lost and Gone Forever e o primoroso dvd ao vivo Guster On Ice – traz uma banda interessantíssima em seu melhor momento.
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3 – “Your Lies”
de Shelby Lynne (I Am Shelby Lynne, 2000)
Procurei I Am Shelby Lynne por recomendação do Sérgio Alpendre em seu Melomania, e logo me vi de joelhos diante de “Your Lies”, o furacão retrô que abre o disco. A canção faz lembrar as Ronettes (em especial por a produção revitalizar as cordas de Phil Spector), mas talvez só como um lado b descartado por não ser alegre o suficiente para as três moças do Brooklyn (embora ainda seja florido demais para as Shangri-las).
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4 - "All My Stars Alligned"
de St. Vincent (Marry Me, 2007)
A melhor canção de Marry Me continua sendo a faixa título, mas "All My Stars Alligned" deixa muito claro que, por mais que as canções mais angulares de Annie Clark sejam divertidas, é realmente nas baladas que seu disco se torna especial. "All My Stars Alligned" tem tanto de Joni Mitchell quanto de Walt Disney - com direito a um mergulho nas sombras da canção por volta dos 2:35. É também a canção em que a voz de Annie mais lembra a de Sarah Shannon, do saudoso Velocity Girl.
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5 - "A Car That Sped"
de Gene (Olympian, 1995)
Sempre que vou passar um fim de semana em Barra Mansa, desencravo algum cd esquecido para ouvir durante minha estada. Nesse último foi a vez do Gene, banda que nunca nem tentou se esquivar das comparações com os Smiths. Seja pela influência incortonável de Morrissey na empostação levemente afetada de Martin Rossiter, ou na própria capa de Olympian, o quarteto inglês de britpop sempre deixou clara sua filiação à seminal banda de Manchester. A grande diferença, é que o Gene adicionava às melodias agridoces um punch de banda de rock que os Smiths talvez só tenham almejado em "London". Hoje finado e esquecido, o Gene lançou quatro álbuns de estúdio (e um outro ao vivo) sem nunca alcançar a notabilidade que suas belas canções mereciam. Olympian segue como o melhor trabalho da banda, e a bela "A Car That Sped" se destacou no novo contato com seu fortíssimo refrão - em um disco que ainda tem pérolas como "Haunted By You", "London Can You Wait" e a velha favorita "Sleep Well Tonight".
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quarta-feira, setembro 10, 2008
Postado por Fábio Andrade às 11:02 AM
Top 5 da semana
Filmes
01 – Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups) – François Truffaut, 1959
Terminada a mostra do Resnais, comecei a rever alguns Truffauts que eu tenho em DVD. Comecei pela fabulosa caixa da Criterion de Antoine Doinel – a mais adorável vertente da obra do diretor. Os Incompreendidos está ali, com Aniki Bobó e Eu Nasci, Mas..., entre os melhores retratos da infância já filmados. Embora seja difícil dizer qualquer coisa nova sobre o filme, sinto-me obrigado a assinar apenas uma nota levemente melancólica: a certeza de que Jean-Pierre Leaud e seu Doinel atingiam, nessa primeira infância, um nível de excelência que não se repetiria nos filmes seguintes.
02 – Smoking/No Smoking – Alain Resnais, 1993
Difícil imaginar maneira mais adequada de terminar minha passagem pela mostra do que com a dupla Smoking/No Smoking – filme tão intrigante quanto delicioso de se assistir. Resnais passa, aqui, por um processo de extrema redução: apenas dois atores interpretando quatro ou cinco personagens cada, mantendo sempre só duas pessoas em cena, em planos longos que permitem a perfeição do timing entre os dois, em cenários imóveis que ressaltam as saídas e entradas de cena de Sabine Azéma e Pierre Arditi. Além de três ou quatro personagens absolutamente geniais e de um texto primoroso, Smoking/No Smoking impressiona como visão: no fim das contas, tudo de que o cinema precisa é de um homem e uma mulher tentando gerar fagulhas em cena.
03 – Beijos Proibidos (Baisers Volés) – François Truffaut, 1968
Depois do bonito, mas um pouco excessivamente auto-referente Antoine et Colette (episódio de Truffaut no coletivo Amor Aos Vinte Anos), Antoine Doinel retorna no ótimo Beijos Proibidos. Mais do que uma continuação dos filmes anteriores, Beijos Proibidos parece um filme inventado pelo próprio Doinel de Os Incompreendidos. Sua trama detetivesca (que, como um filme de François Truffaut, serve apenas como disfarce para o amor) e suas idas e vindas de roteiro parecem imaginadas por um pré-adolescente, em uma realização visual de o que ele sonha para seu futuro. Assim como Os Incompreendidos, Beijos Proibidos possui uma das mais extraordinárias sequências finais já filmadas.
04 – A Famosa Espada Bijomaru (Meito bijomaru) – Kenji Mizoguchi, 1945
Tido por muitos como um mero trabalho de sobrevivência comercial (como ressalta a entrevista com Kaneto Shindo, nos extras da edição francesa em DVD), A Famosa Espada Bijomaru é de um subtexto tão gritante que salta à primeira página: realizado durante a guerra, logo após alguns pares de filmes feitos de acordo com os preceitos estabelecidos pela política de exceção do governo japonês, Mizoguchi filma a estória de um forjador de espadas consumido pelo dilema entre produzir espadas para o Imperador, e espadas que possuam uma alma própria. Em determinado momento, a personagem principal afirma algo como: “Eu e você morreremos, mas as espadas continuarão aí para sempre”. A Famosa Espada Bijomaru vem para afirmar que, na filmografia de um sujeito como Kenji Mizoguchi, os filmes tidos como “menores” não raro dizem muito mais sobre a cegueira crítica diante de suas questões do que sobre seu valor. Em 65 minutos, Kenji Mizoguchi faz um estupendo tratado sobre a responsabilidade e o comprometimento artístico.
05 – Os Pivetes (Les Mistons) – François Truffaut, 1958
Célebre curta-metragem de Truffaut, realizado naquele que se mostraria seu mais caro ambiente: a idealização do amor jovem. Em seu andar apaixonantemente desconjuntado, Les Mistons é belíssimo justamente por seu trabalho de afetos, por filmar o amor com olhos absolutamente amorosos. Mesmo sendo, ao fim e ao cabo, uma tragédia.
Canções
01 – “Brandy Alexander” – Ron Sexsmith
Finalmente botei pra rodar Exit Strategy For The Soul, novo álbum de Ron Sexsmith. E lá estava ela: uma versão deslumbrante para “Brandy Alexander” – parceria com Leslie Feist, já gravada por ela em The Reminder. Enquanto os arranjos de Feist se seguram na delicadeza do estalar de dedos, Sexsmith cria uma versão pulsante, com metais que vibram com a levada de bateria e violões à Tom Petty. Lá uma das melhores canções já gravadas por Feist; aqui, entre as melhores de Ron Sexsmith. Uma beleza.
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02 – “She’s So Static” – The Joykiller
Sem dúvida a banda mais subestimada em todo o catálogo da Epitaph, o Joykiller foi formado pelos ex-TSOL Jack Grisham (vocais) e Ron Emory (guitarras), em 1995. A banda lançou três discos em três anos, e depois só ouvimos falar novamente de Grisham por uma faixa solo em uma coletânea da Epitaph, e por sua (séria) candidatura ao governo da Califórnia – no mesmo ano do Governator. Static, o segundo disco, é uma obra-prima particularíssima: gravado ao vivo no estúdio, traz 14 canções esmiuçando ansiedades, um Jack Grisham entre Jello Biafra e Frank Sinatra, e um originalíssimo porto entre o punk rock e a lounge music de Burt Bacharach (com direito a pianos e órgãos – ainda mais presentes no seguinte, Three). Ao longo de todo o disco, impressiona a dosagem milimétrica de fúria – “I Don’t Know” e “Nowhere Ever” – e doçura – “Sad”, “White Boy, White Girl”, “Brainless”. “She’s So Static”, porém, é a que parece trazer a melhor dosagem dos ingredientes: bateria afogada em cafeína, riffs de guitarra de um bom gosto extremo, e o irretocável vocal de Grisham – saltando de uma oitava à outra dentro de um só refrão, queimando a melodia em nossa cabeça pelo resto do dia. Como registro, a foto pixelada: o Joykiller anda tão esquecido que encontrar uma foto com mais de 11kb na internet se torna tarefa quase irrealizável.
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03 – “Nuclear” – Ryan Adams
É de um humor inegável perceber que, hoje lançando álbuns oficiais com canções que nunca passam do agradável, em 2002 Ryan Adams lançara um disco de demos com canções tão mais inspiradas. Antes mesmo do irônico RockNRoll, Adams já escrevia – por livre e espontânea vontade – rockões do calibre de “Nuclear”, “Starting To Hurt” e “Gimme A Sign” (das três, a única que sofre consideravelmente pelo registro menos cuidadoso de uma “demo”). Em “Nuclear”, até o reverb mal dosado da caixa de bateria ajuda a construir o clima da canção, fazendo uma cama perfeita para o solo de slides oitavados. A voz de Adams rasgando “This is where the summer ends” é um dos momentos mais fortes de toda sua discografia.
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04 – “Trouble” – Limbeck
Meus sentimentos em relação ao Limbeck sempre se dividiram entre a musicalidade sedutoramente agradável de suas canções, e um irritante simplismo nas letras. É notável, porém, que a banda se torna melhor - em ambos os quesitos - a cada disco. “Trouble” convoca os pés a manterem o ritmo, com um refrão deliciosamente clássico, e uma letra que – menor dos males – não incomoda. Ainda assim, eles deveriam gastar mais dinheiro em livros. Quem sabe eles não aprendam, assim, a lançar um disco que seja sem uma canção sobre estacionamentos.
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05 – “Pearl” – Maritime
Embora eu já tenha escrito mais de uma nota sobre o último disco do Maritime, “Pearl” foi uma das músicas mais presentes por aqui durante essa semana. É a síntese perfeita dos três discos da banda, com uma melodia bonita de doer o peito.
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quarta-feira, dezembro 12, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:41 AM
Top 5 da semana
01 – Carmen de Godard (Prénom Carmen) – Jean-Luc Godard – Nunca tinha visto “Carmen”, e ver um Godard pela primeira vez me é sempre uma experiência mais física do que intelectual. Nesse sentido, as ondas (do mar, da luz, das cores, das músicas, dos corpos) de “Carmen” são um banquete. E acho melhor nem entrar na beleza quase indecente que ele arranca de “Ruby’s Arms”, do Tom Waits, pelo risco de passar a noite toda escrevendo e não conseguir ir trabalhar amanhã.
02 – Novo Mundo (Nuovomondo) – Emanuele Crialese – É uma tristeza ver o que uma cópia ruim (mesmo nova) pode fazer com a fotografia de Agnès Godard. O preto empastelado, a dessaturazação, o contraste todo cagado... tudo tenta jogar contra o filme. Ainda assim, “Novo Mundo” é, como esperava, uma maravilha só.
03 – Videodrome – David Cronenberg – Embora todo filme de Cronenberg me pareça uma síntese de todo seu projeto estético, “Videodrome” me parece ser o momento em que isso se dá de forma mais acabada, completa (o abraço à ficção, o cinema como arte essencialmente sexual, o sujeito em risco de anulação, as texturas). Não é meu filme favorito de Cronenberg (tendo a gostar mais de coisas menos acabadas e completas), mas é provavelmente o que eu recomendaria para qualquer pessoa querendo compreender melhor a obra do diretor.
04 – A música de Guion (Gion bayashi) – Kenji Mizoguchi – Não me parece um grande Mizoguchi (não como “Contos da lua vaga” ou “Os amantes crucificados”, por exemplo), talvez por ser menos exuberante (nos travellings, no jogo de luz e sombra, nos enquadramentos). Ainda assim, poder conhecer mais um pedaço da obra de um dos mais importantes realizadores do cinema japonês (o filme reprisa na sexta-feira, no CCBB-Rio) traz sempre uma nova nuance a uma personalidade cinematográfica aparentemente tão consolidada. Enfim, nada como ver os filmes.
05 – Sonata de Outono (Hostsonaten) – Ingmar Bergman - Não consigo ter outro sentimento em relação a Bergman que não um de ambigüidade. Porque ao mesmo tempo em que ele fez filmes que gosto muito, como “Morangos Silvestres” e, sobretudo, “Persona”, alguns de seus trabalhos – mesmo trazendo questões interessantes – me parecem pai dessa auto-comiseração chata, desse apreço pelo sofrimento e pelo drama fácil que define um certo cinema de “arte” de nossos tempos. É meio injusto culpar o pai pelos filhos feios, mas entre os belos amarelos de “Sonata de Outono”, entre os rostos sempre impressionantes de Liv Ullmann e Ingrid Bergman, entre o belo olhar para a câmera de Halvar Bjork e as vogais desconcertantes (em língua cheia de consoantes) de Lena Nyman, essa coisa toda batia com uma intensidade bastante incômoda.