terça-feira, dezembro 08, 2009
Postado por Fábio Andrade às 11:05 AM
Um parágrafo: (500) Dias Com ElaA bonita abertura de (500) Dias Com Ela é um convite a uma comparação pronta com Regina Spektor – cantora de perceptível bom gosto, mas que muitas vezes condena esse refinamento pela vontade excessiva de ser cute, beirando a caricatura infantil. Mas as comparações prontas são as que menos precisam ser feitas e, nesse caso, passaria bem longe dos méritos e problemas do filme de estréia de Marc Webb – onde a crítica que se isola no fator cute não é mais do que manha de criança tirana. O que parece realmente central é ainda mais óbvio: é um filme feito por um diretor de videoclipes. (500) Dias Com Ela é uma colagem de esquetes, de momentos dó de peito, onde fica difícil até mesmo dizer que o filme “pára” para que elas aconteçam; não há filme a ser interrompido para além das esquetes, dos pequenos fragmentos – no que ele se parece bastante com Em Paris, de Christophe Honoré. O longa é exatamente o acúmulo, a junção dessas partes. O sucesso inconstante de Webb é, aqui, proporcional ao quanto de organicidade ele consegue promover na colagem desses pequenos clipes – algo que está muito bem representado no uso de “Us”, a canção de Regina Spektor que abre o filme, ou no split screen de “expectation/reality”; mas que desanda em licenças poéticas mais grosseiras, como a cena musical ou a intervenção em desenho sobre a cidade. As citações cinematográficas, por outro lado, me parecem bastante vigorosas – do deboche com Bergman à mitologização de Zooey Deschanel, frívola e adorável como a Bernadette, de Les Mistons. Apesar do destempero, (500) Dias Com Ela tem a felicidade maior de indicar que Marc Webb é muito mais competente como diretor de cinema do que de videoclipes.
sábado, agosto 08, 2009
Postado por Fábio Andrade às 1:56 PM

sexta-feira, maio 08, 2009
Postado por Fábio Andrade às 10:40 AM
Um parágrafo
The Pains of Being Pure At Heart
A maior surpresa do disco de estréia do The Pains of Being Pure At Heart - talvez o primeiro hype de 2009 - é a de que uma banda com um nome tão ridículo não seja uma merda. Não é. Na verdade, a suposta inclinação shoegaze advogada por aí é uma tentativa bastante desesperada de parte da crítica (ou da própria banda) em tentar legitimizar algo que, em si, já é plenamente legítimo: o TPOBPAH escreve ótimas canções pop. Se existe algo que impressiona mais do que o número alto de músicas boas no disco de estréia da banda, é o número quase inexistente de canções ruins. Tudo soa bastante derivativo, parecendo um disco perdido da virada da década de 1980 para 1990, mas não por isso menos agradável de se ouvir. É claro que eles cresceram ouvindo My Bloody Valentine, mas a influência aparece como roupa (os vocais enfumaçados, por exemplo) que esconde armações internas tiradas de outras fontes: Jesus & Mary Chain ("Contender"), Echo & the Bunnymen ("The Tenure Itch"), Teenage Fanclub ("Come Saturday" e "This Love Is Fucking Right!" parecem tiradas do Thirteen), Pretenders ("A Teenager In Love"), Cranberries ("Stay Alive") e até algo de Hoodoo Gurus (a ótima "Young Adult Friction"). Como se pode notar, o disco é uma festa indie pronta. Mas o que realmente me intrigou nas primeiras audições do TPOBPAH foi que, embora eu conseguisse detectar todas essas influências aí, na verdade eu só pensava em bandas indie brasileiras. Em algum momento pensava em Pin Ups, outro em Pelvs, Second Come, Cigarettes, brincando de deus... e quebrava a cabeça tentando entender o porquê dessa segunda camada de derivação. Até que meu pensamento foi interrompido pela décima quinta virada de bateria mal executada no disco. E aí, eu entendi. 
quarta-feira, março 11, 2009
Postado por Fábio Andrade às 2:14 PM
Um parágrafo: Ben Lee - The Rebirth of Venus
É um tanto lamentável que Ben Lee não tenha dado um passo adiante, e convidado apenas crianças para compor o coro que responde seus chamados nas melhores faixas de The Rebirth of Venus. Lamentável, pois se Ripe parecia um álbum de adult contemporary pop for dummies, esse novo disco parece mesmo ser pop for kids (under the age of 5). Desde a primeira faixa, Ben Lee - de seu jeito igualmente simpático e meio mongolóide - parece uma espécie de Bia Bedran do novo milênio, cercado por seus aluninhos, aprendendo sobre a vida por meio de canções, repetindo sempre o que o mestre mandar. Esses ensinamentos começam por uma justa limpeza de culpa ("What's so bad about feeling good"), transmitem lições sobre lealdade ("Surrender" - a melhor do disco) e sobre o valor da música ("Sing" e "I Love Pop Music"); no meio tempo, tio Ben ainda fala sobre o orgulho de ser diferente ("Boys with Barbies"), e ensina até um palavrão, ao apresentar as crianças a "Yoko Ono" (dá até pra imaginar os risos abafados). A abordagem nem sempre funciona (casos de "Boys with Barbies" e "I Love Pop Music" - ambas embaraçosas demais até mesmo para os altos padrões de Ben Lee), e o disco perde bastante força quando esse conceito começa a se dissipar. Mas é difícil negar que a primeira metade de The Rebirth of Venus tem um vigor que Ben Lee talvez só tenha mesmo alcançado antes em Awake Is The New Sleep. Além disso, toda a atmosfera do disco - onde o Botticelli e o clipe de "I Love Pop Music", com seu cachecol de teclado, são o ápice - deixa claro que ouvir Ben Lee é um exercício de colaboração, simpatia e paciência muito parecido com o de se ouvir Daniel Johnston.
terça-feira, fevereiro 17, 2009
Postado por Fábio Andrade às 1:07 PM
Um parágrafo: O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married)
De Jonathan Demme, 2008
É interessante que o título original de Rachel Getting Married fosse Dancing With Shiva, pois a música é, sem dúvida, o aspecto estético e político central nesse novo filme de Jonathan Demme. Como questão estética, por Demme trabalhar com essa câmera free jazz, com uma mise-en-scene que precisa ser redefinida o tempo todo, buscando os enquadramentos enquanto as situações se desenvolvem, mas antes que elas se percam completamente (resquício direto da incursão documental mais presente em sua carreira recente). Se, por um lado, essa opção estimula presenças cênicas bastante fortes (sendo a síntese aquele poodle gigante e deselegante que, ao contrário de seus donos, sempre interage com leveza com todos ao seu redor), por outro, revela a maior fraqueza do filme: a necessidade de se instaurar um elemento (Shiva, ou seja, Kym – personagem de Anne Hathaway) capaz de gerar constantes crises, fazendo do roteiro uma rubrica a um cinema que só existe se existir conflito – algo mais questionável pela banalização da idéia de conflito no roteiro de Jenny Lumet, e pela necessidade de se fechar um arco dramático, ao fim. A resposta eloquente, porém, vem da família do noivo – negros, amorosos e extremamente musicais (e dizer que isso não importa é, na verdade, fugir de uma questão que o filme propõe com muita clareza). Não faltam grandes exemplos – da presença segura e silenciosa de Sidney (Tunde Adebimpe, vocalista do TV On The Radio) ao primo militar que voltara temporariamente do Iraque com um sorriso irremovível em seu rosto – e o contraste entre essas estruturas familiares não é exatamente maniqueísta ou ingênuo, mas sim uma postura política. É interessante, portanto, que Jonathan Demme sublinhe essa musicalidade e, ao mesmo tempo, tente incorporá-la ao filme. Ao fim e ao cabo, O Casamento de Rachel é um filme sobre brancos aprendendo a dançar – seja literalmente (a ótima cena com a bateria de samba; a outra, com a máquina de lavar louças; a linda dança a quatro que ilustra esse parágrafo; o Neil Young no casamento), ou pela aceitação da imprevista irmã de cinza, e da chuva na hora do casamento; mas também pelo choro do bebê que perturba a cena, e que Jonathan Demme valoriza como uma interferência bem vinda e musical em seu próprio cinema.
terça-feira, janeiro 06, 2009
Postado por Fábio Andrade às 11:27 PM
Um parágrafo: Rebobine, Por Favor (Be Kind, Rewind)
de Michel Gondry, 2008
Rebobine, Por Favor é um filme sobre o cinema, mas não no verniz referencial mais pobre que sua premissa ameaça sugerir. O que é mais tocante nesse último trabalho de Gondry é a percepção de que a relação estabelecida mais significativa pelos filmes – como em todas as artes – é com a sua comunidade. Essa comunidade não necessariamente é geográfica, embora seja esse o enfoque escolhido por Gondry: os filmes “suecados” de Jerry (Jack Black) e Mike (Mos Def) se tornam sucessos locais por conferirem às grandes produções uma familiaridade que lhes é exterior. A cultura para as massas é reinterpretada pela memória, e mascara os rostos estranhos com proximidades de quintal. A relação de um jovem francês com o cinema norte-americano. Existe, portanto, a possibilidade de um reconhecimento: os atores são seus vizinhos, as ruas são as suas, a história é a que você mesmo inventou. Por isso, o filme só alcança sua força plena na sequência final: o cinema visto por trás, assim como Elroy Fletcher (Danny Glover) escrevera para si mesmo o aviso na janela do trem, em uma inversão de ótica daquela comunidade que faz nascer uma relação. Uma história inventada, mas assimilada como auto-ficção pela própria cidade quando ela aprende a ler com os olhos de quem a escreve. zzaJ. Ao fim, fica aquela imagem linda e vagabunda da loja-tela onde era projetado, de dentro para fora, o imaginário de uma comunidade. O momento em que o avesso da verdade não é, necessariamente, uma mentira.
Amanhã – ou assim espero – começo a publicar minhas intermináveis listas de “melhores” de 2008. Aos leitores mais fiéis, asseguro a prática impossibilidade de surpreendê-los. Que as obviedades, ao menos, sejam das boas.
sábado, dezembro 13, 2008
Postado por Fábio Andrade às 1:58 PM
Um parágrafo: Vampire Weekend
Outro hype que demorei a conferir; só fui ouvir o disco de estréia do Vampire Weekend essa semana. As comparações com o Clash são previsíveis, mas existe uma diferença profunda entre os dois: o Vampire Weekend é uma banda de brancos, tocando música de branco como se fossem negros. Algo como o Libertines querendo ser o Hepcat. O Clash conseguia tocar música de qualquer jeito, do jeito deles, sem nunca ser outra coisa que não o Clash. O disco tem ótimos momentos: as três primeiras faixas são realmente muito fortes, em especial “Mansard Roof”, a primeira e melhor do disco. “A-Punk”, a terceira, parece um Operation Ivy depois de tomar vacina anti-rábica. Fora isso, alguns bons momentos isolados (“I Stand Corrected” e “Walcott”, principalmente – canção bastante prejudicada pelo desleixo do baterista cruzar a fronteira do estilo), e a impressão de que, como hype do novo mundo, o Vampire Weekend deveria ter ido mais fundo em sua época e lançado canções avulsas, e não fazer um esforço desnecessário para encher um álbum antes de ter repertório forte o suficiente para isso.
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