quinta-feira, outubro 04, 2007

Festival do Rio – Dias 9 e 10

DIA 9

Mulher na praia (Haebyonui yoin) – Hong Sang-soo




Certos filmes me ganham antes mesmo que uma primeira imagem filmada chegue à tela. Há pouco tempo, conheci uma fatiazinha do cinema de Hong Sang-soo assistindo “Turning Gate”, de 2002. Logo depois dos créditos de apresentação, uma cartela resumia tudo que viria a acontecer na seqüência seguinte. Essas cartelas reapareceriam ao longo de todo o filme, sempre anunciando aquilo que iríamos ver. Mais do que me encantar com a redundância (e todos que já assistiram a “Desencanto”, de David Lean, sabem do poder da redundância enquanto ferramenta dramatúrgica) ou com a previsibilidade voluntária das cartelas (efeito semelhante ao que o título de “Um condenado à morte escapou”, de Robert Bresson, tem sobre o filme em si), fiquei impressionado com um detalhe visual dessas cartelas: em vez do popular texto branco sobre fundo preto, em “Turning Gate” as letras brancas eram acolhidas por um fundo de efusivo verde limão. “Alguém que tem a coragem de começar um filme com uma cartela verde limão deve ter muita certeza do que faz”, pensei.

“Mulher na praia” marca a estréia de Hong Sang-soo em salas brasileiras. Mesmo em festivais, o diretor sul coreano nunca antes havia passado pelos cinemas brasileiros, e o acesso à sua obra se limitava a rips de internet. Após assistir “Turning Gate”, “Mulher na praia” acabou se tornando um dos filmes que mais ansiava ver nesse festival. E, mais uma vez, Hong Sang-soo me ganha antes dos atores tomarem a tela. Dessa vez, porém, as cartelas de crédito vieram em preto e branco, mas, junto delas, uma bela (quase frívola) melodia era executada ao piano. É com uma peça de música extremamente simples, singela até, que Hong Sang-soo convida o espectador a experimentar seu “Mulher na praia”. Convite perfeito, porque, uma vez seduzido pelo tema, ser arrastado pela leveza do último filme de Hong Sang-soo é ato incrivelmente agradável.

Leveza, de fato. Essa parece ser a única palavra que, talvez, chegue perto de capturar a experiência de se assistir “Mulher na praia”. Existe um prazer em sua lente por captar a vida passando, as pessoas interagindo, se conhecendo, se aproximando, que é muito rara no cinema atual. Um prazer encantado, diria, mas sempre mais interessado no outro do que em seu próprio interesse. Afinal, tanto “Turning Gate” quanto “Mulher na praia” poderiam ser resumidos em uma mesma tagline: rapaz conhece moça. O que sai daí são as conseqüências mais banais desse primeiro esbarrão: amor, sexo, traição, porres, decepções, transformações, repetições. Tudo que acontece no cinema de Hong Sang-soo parece advir dessa pré-disposição por se relacionar e se interessar pelo outro. Não à toa os personagens principais de “Turning Gate” e “Mulher na praia” são pessoas de cinema (um ator, outro diretor): o cinema é sempre pano de fundo para a vida amorosa que toma o primeiro plano. Não seria essa uma das declarações mais poderosas do cinema de Hong Sang-soo? Não deveriam os filmes surgir a partir da vida?

A graça (no sentido literal do termo) do cinema de Hong Sang-soo está justamente nesse gosto pelo observar; nesse interesse por vidas tão banais quanto a de qualquer um. Impressiona muito que esse apreço pela banalidade seja costurado com linhas tão firmes: todo o filme parece um jogo de reflexos, onde cada ação pequena espelha as decisões “maiores” tomadas pelo personagem. Nesse sentido, é especialmente ilustrativo o paralelo entre a fobia que o personagem principal tem de cachorros e o receio que sente em torno das mulheres (e o músculo que rompe “por falta de uso” quando ele corre na praia com sua nova namorada e um cachorro que cenas antes lhe fizera fugir). Assim como em Apichatpong Weerasethakul ou mesmo em Wong Kar-wai (existe filme tão apaixonado pela leveza quanto seu “Amores expressos”?), Hong Sang-soo impressiona por gerar obras-primas sem esforço aparente, extraindo uma quantidade impressionante de significados de momentos aparentemente banais. Em seu cinema, qualquer coisa parece ser capaz de conter o mundo: um bate-papo, uma caminhada à beira da praia, um jantar, uma ligação telefônica, uma cerveja. Ou mesmo uma melodia tamborilada ao piano que corre junto aos créditos de abertura.


Planeta Terror (Planet Terror) – Robert Rodriguez




Da mesma maneira que alguns filmes acabaram cortados de minha programação no festival pela contingência, outros antes não previstos acabaram entrando pela definidora conjunção de curiosidade e comodidade. Gosto bastante do cinema de Robert Rodriguez, embora considere seu “Sin City” (última peça de sua filmografia que assisti) bastante limitado. Apesar da curiosidade imediata por seu projeto com Quentin Tarantino, havia decidido aguardar que o filme de Rodriguez entrasse em circuito, para dedicar meu já escasso tempo a filmes que dificilmente serão exibidos fora do Festival. Até que assisti “À prova de morte”, e a curiosidade de conhecer sua cara-metade cresceu exponencialmente. Remanejei alguns filmes de minha agenda e consegui, na noite de sábado, sentar diante de “Planeta Terror”.

Parte do que disse sobre o filme de Quentin Tarantino se mostra, com o filme de Rodriguez, um dos conceitos por trás da série “Grindhouse”: reaparecem, aqui, os riscos na película, a interatividade com o material físico, o filme que queima na projeção (recurso que, confesso, não me parece funcionar depois que Bergman fez “Persona”), o rolo perdido que provoca uma “acidental” elipse. Mais uma vez, está reconhecida aqui a influência desses acidentes no filme visto, e na aura que envolve os filmes que ambos os diretores homenageiam nesse “Grindhouse” (e a intrusão do boom já familiar aos freqüentadores do Estação Ipanema – cinema que não possui janela 1:1.85, e aumenta o teto desses filmes exibindo-os em 1:1.66, fazendo do microfone parte integrante da imagem – se torna, aqui, elemento que corrobora a tese de Rodriguez).

Assinaladas as semelhanças, resta remarcar as claras diferenças entre o cinema de Tarantino e o de Robert Rodriguez. Se “À prova de morte” busca na estilização a possibilidade constante de se criar ícones, não é descabido dizer que “Planeta Terror” estiliza ícones do passado com a intenção de valoriza-los, não exatamente de reinventa-los. Se o excesso de reverência havia traído Rodriguez em “Sin City”, aqui ela é sabiamente dosada pelo senso de humor rasgado do diretor, alcançando um equilíbrio entre o deboche e o respeito pelo gênero que o badalado “O hospedeiro”, de Bong Joon-ho, nunca me pareceu ser capaz. Robert Rodriguez acha os filmes de zumbi hilários, mas ao mesmo tempo tem uma fé inabalável no gênero. Não é por achar graça dos exageros (e exagero é uma palavra importante em “Planeta Terror) permitidos pelo gênero que Robert Rodriguez demonstra não ter fé nesses signos. Muito pelo contrário, é por conhecer intimamente o universo em que quer situar seu filme que Rodriguez se permite tantos exageros, pois sabe que o gênero os comporta, os acolhe.

Se aproveitarmos a configuração de programa-duplo original de “Grindhouse”, é justo dizer que “Planeta Terror” se sai extremamente bem enquanto aperitivo para “À prova de morte”. Se não chega a ser do mesmo nível do filme de Tarantino, a diferença entre eles é proporcional à distância dos dois projetos de cinema. Enquanto Tarantino parte do passado para criar uma nova iconografia para o presente, Rodriguez se satisfaz plenamente adicionando um pouco de sua visão a universos já bastante consolidados. Ainda assim, o faz com habilidade e talento suficientes para colocar “Planeta Terror” junto de suas melhores obras.

DIA 10

Uma velha amante (Une vieille maîtresse) - Catherine Breillat




Não conheço nada da obra anterior de Catherine Breillat. Já tinha lido elogios bastante generosos a “Uma velha amante” na crítica internacional, portanto, quando vi que ele estava escalado para o Festival, tratei de adiciona-lo à minha lista. O fator determinante, porém, foi quando descobri que o filme era protagonizado por Asia Argento, sem dúvida um dos nomes mais interessantes a surgir no cinema recente (tanto como atriz – em “Maria Antonieta”, “Os últimos dias” e “Terra dos mortos”, por exemplo – quando como realizadora – tendo como guia o belo “Maldito coração”).

Muito do que gosto em “Uma velha amante” tem a ver não só com Asia Argento, mas com o trabalho de fotogenia que Catherine Breillat realiza com seus atores (incluo aqui os traços marcantes de Fu'ad Ait Aattou e Roxane Mesquida). Em filme onde a sensualidade é tema principal, a opção por conferir tamanha força aos rostos dos atores é um interessante recurso narrativo, e é justamente no rosto de Asia Argento que o filme encontra seus melhores momentos. Sim, pois se o filme de Catherine Breillat tem um grande mérito ele está justamente na capacidade de explorar a ambigüidade da figura da atriz, ao mesmo tempo repulsiva e atraente, animalesca e complexa, baixa e refinada, doente mas extremamente viva. Esse conflito de valores da velha amante encontra lar mais que perfeito no rosto de Asia Argento, e sua escalação para o papel é, de fato, preciosa.

Por conta desse trabalho de fotogenia (e, sim, a capacidade de extrair tanto do rosto de uma atriz é crédito a ser dado à diretora), “Uma velha amante” me deixa com o interesse de buscar mais da obra de Catherine Breillat. Embora a ambientação de época e o tom excessivamente convencional da narrativa me pareçam um pouco enfadonhos, a expressividade que Breillat arranca de uma mera oposição de rostos me parece bastante rara no cinema atual. Resta buscar esses elementos em seus filmes passados, esperando que, em algum momento, Breillat se revele mais do que uma nobre retratista.

4 comentários:

Anônimo disse...

...me tem tomado atenção nos posts é que nenhum deles se parece com um guia de consumo. o único "senão" - e isso não é da confecção do texto; muito é da impossibilidade de acompanhar os filmes - é ter que esperar exibição, mesmo que em circuito de extremidades; daí o texto ficar maior... mas fico ansioso, como fiquei com a lista dos "dez mais".
abraços

Rafael disse...

Mesmo daqui do Rio só consegui ver dois filmes do festival do Rio, Costos de Terramar, que é fraco, e I´m Cyborg but that´s Ok, esse sim um grande filme. Queria ter visto o Planet Terror, mas esse pelo menos irá estreiar no circuito normal, ainda que seja no ano que vem

Anônimo disse...

O Fabio......vc num viu Estomago do Mrcos Jorge

Fábio Andrade disse...

Não vi o "Estômago" não, Evandro. Por conta da minha limitação de tempo, deixei os brasileiros (e alguns me interessavam muito... "Jogo de cena", por exemplo) para quando eles estreiarem.

André, a impossibilidade de se ver os filmes é uma questão que está um pouco mais atenuada, acho. Alguns dos melhores já têm estréia certa ("Sempre bela", Tarantino e Rodriguez , pelo menos... mas, diz-se, também "Paranoid Park" e "I'm not there", que será o próximo texto) e outros já circulam com legendas em inglês no emule ("Síndromes e um século" e "Mulher na praia" - dois dos melhores do festival - com certeza... é provável que rolem outros também).

Rafael, já ouvi um contra-boato que a estréia de Tarantino e Rodriguez seria antecipada para o final de Outubro, e não Maio do ano que vem como vinha sendo dito. Tomara. São filmes que merecem ser vistos várias vezes.