domingo, janeiro 11, 2009
Postado por Fábio Andrade às 2:05 PM
2008 em 10 Filmes
Já é manjado o meu discurso de que os meus melhores filmes e discos de um ano talvez não sejam exatamente os melhores filmes e discos de um ano, mas sim os que me moveram às palavras. Esse ano, portanto, deixo que esse sentimento me mova também: saem os Melhores, e entra a denominação mais exata que apresenta este post. Correção de eixos que não amplio aos marcadores, pois os Melhores de ... seriam uma categoria ampla que, nesse caso, inclui sua própria revisão.
As regras são as mesmas: filmes que passaram no circuito comercial do Rio de Janeiro, em 2008. Nada de mostras, festivais, dvds ou coisa que o valha, e por um motivo simples: há de se manter um mínimo de ordem para a casa funcionar. Pois se o foco aqui fosse a experiência em sessões de cinema em 2008, lidaríamos com um triplo primeiro empate entre Sonata de Tóquio, Aurora e O Ano Passado em Mariebad – filmes que fazem partes de momentos tão distintos das histórias (minha e do cinema) que, por mais que se faça um esforço para dobrá-las, parecem incapazes de conviver em um mesmo pódio. Um espaço e um tempo – é disso que preciso para não atropelar minhas próprias vírgulas. Deixemo-nas aí, e que fique com o assassígnio a reforma ortográfica.
No mais, me pareceu uma boa hora de acabar com aquela vergonheira de prolongar essa lista até Agosto do ano seguinte, perdendo o bonde temporal que é essencial a organizações como essa. Não, isso não significa que vou publicar um texto por dia, mas sim que decidi mudar o formato da lista de filmes: em vez de análises mais detidas sobre cada um dos escolhidos, optei por um formato mais tradicional onde a lista é, basicamente, uma lista mesmo. Quando comecei a fazer meus melhores por aqui, esse blog era o único lugar onde eu escrevia sobre cinema. Com a minha entrada para a redação da Cinética e a “cobertura” do Festival do Rio de 2007 que fiz por aqui (com filmes que só entraram em cartaz em 2008), percebi que boa parte dos favoritos já tinha textos meus. Considerei seriamente escrever novos textos, explorando outros ângulos que me interessavam, mas para isso sair minimamente bem feito eu teria que rever todos os filmes. Embora já tenha feito isso com alguns, não tenho a disciplina necessária para me encerrar no processo com um mínimo de método, e isso significa que ou eu não acabaria nunca de escrever os textos, ou escreveria sem a reflexão que eles merecem. Fiquemos, portanto, com links aos textos já escritos, e comentários breves quando eles parecerem pertinentes. A lista de discos, pretendo fazer à maneira antiga.
10 – Serras da Desordem (idem)
de Andrea Tonacci (Brasil, 2006)
É bastante significativo que Serras da Desordem venha inaugurar essa lista, como a de 2007 fora inaugurada por Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. Pois, pensados lado a lado, é como se o filme de Tonacci levasse adiante mais uns passos o entruncamento de discursos de Jogo de Cena, invertendo a representação de uma mesma preocupação. No filme de Coutinho, diversos rostos aportavam uma mesma fala; em Serras da Desordem, o rosto é um só, mas é a imagem que está em constante mutação: Carapirú e os diversos olhos que deitam sobre uma mesma história. É, porém, a diferença maior entre os dois filmes que faz melhor a Serras da Desordem: enquanto Jogo de Cena e Santiago seriam filmes sobre a crise de um certo regime da imagem (ou das palavras que o traduzem), Serras da Desordem usa isso como combustível, não como foco. O filme de Tonacci nasce a partir de imagens onde a questão não é mais documentário, ficção, reencenação, reportagem, montagem de arquivos, ou o que quer que seja: esses registros são todos dobrados a serviço de um olhar, de uma experiência.
09 – Falsa Loura (idem)
de Carlos Reichenbach (Brasil, 2007)
O encontro entre a câmera de Carlos Reichenbach e a presença de Rosane Mulholland é um dos mais extraordinários da história do cinema brasileiro. Mais do que uma construção generosamente interessada no universo da mulher operária brasileira (algo que o filme é, com uma intensidade sem precedentes mesmo no cinema de Reichenbach), Falsa Loura é forte justamente pela troca de olhares, o flerte, o jogo de sedução entre a atriz e câmera, onde a predominância dos travellings e das fusões (ambos lindíssimos) parecem buscar os detalhes do corpo de Mulholland, projetando-os, sempre, sobre o imaginário do próprio diretor; sobre a construção que ele devolve àquela mulher. Se Carlão sempre diz não saber filmar o que não conhece, Falsa Loura é fascinante por deixar claro que conhecer não é somente experimentar, mas sim interpretar, projetar, imaginar. É, ao fim e ao cabo, um filme sobre tudo aquilo que o diretor não é, mas que, como uma construção de seu próprio olhar, ele conhece como ninguém.
08 – Canções de Amor (Les Chansons D’Amour)
de Christophe Honoré (França, 2007)
Existem filmes de todos os tamanhos, dos mais desprezíveis aos menos ignoráveis. E existem outros que, não respondendo a essa lógica, são apenas um grande prazer de se assistir. É esse o caso de Canções de Amor, que prova que Honoré filma a perda com uma leveza um tanto rara no luto que move boa parte do cinema contemporâneo. Enquanto Em Paris partia de uma crise do afeto para tentar compreender suas motivações, Canções de Amor faz (assim como A Bela Junie – filme seguinte e menos poderoso de Honoré, já nos cinemas de São Paulo) o caminho contrário: suas personagens são movidas pelo trânsito ininterrupto do desejo de explorar cada esquina, seja da cidade onde elas moram, ou da geografia de seus próprios afetos. Em Canções de Amor, Honoré aprofunda a abordagem derivativa iniciada com Em Paris, se entregando de vez às canções, ao movimento da literatura jovem, e à bolha de imaginário que é sua própria cidade.
07 – O Nevoeiro (The Mist)
de Frank Darabont (EUA, 2007)
Com crítica na Cinética.
06 – Fim dos Tempos (The Happening)
de M. Night Shyamalan (EUA, 2008)
Com crítica na Cinética.
05 – Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd: The Demon Barber Of Fleet Street)
de Tim Burton (EUA/Reino Unido, 2007)
Com crítica na Cinética.
04 – A Espiã (Zwartboek)
de Paul Verhoeven (Holanda/Alemanha/Bélgica, 2006)
Com crítica na Cinética.
03 – Em Paris (Dans Paris)
de Christophe Honoré (França, 2006)
O atraso nos lançamentos fez com que Honoré assinasse dois dos mais intensos contatos cinematográficos do ano. Embora seja bem mais irregular do que Canções de Amor, Em Paris tem momentos absolutamente apaixonantes, costurando a vida com as relações que a conferem sentido: canções, filmes, livros, amores, separações, família. Conferir sentido é um dado importante, pois muito além da presença esvaziada que parece incomodar os que rejeitam seu cinema, Honoré adiciona esses ícones como complementos à encenação, de fato. Como maior exemplo está a cena em que Jonathan (Louis Garrel) está deitado à cama ao lado de Alice (Alice Butaud), a moça dos cotovelos falantes, enquanto ele declara sua desatenção às suas palavras lendo Franny & Zooey, livro de J.D. Salinger sobre um irmão que tenta ajudar a irmã a sair de uma crise de depressão (lembremos que o núcleo dramático central de Em Paris gira em torno de Paul – Romain Duris – irmão mais velho de Jonathan que amarga as dores de um rompimento amoroso). No momento em que ela finalmente conquista sua atenção, Jonathan já aparece segurando outro livro. O título? L'amour d'une honnête femme. Com uma simples mudança de objeto de cena, Honoré nos revela a mudança de direção do fluxo de pensamentos de sua personagem.
O que é mais tocante no filme, porém, é a percepção de que um relacionamento amoroso não se traduz de forma linear, mas sim no acúmulo de situações que vão do pleno encantamento ao absoluto fastio. Pela montagem não linear, Honoré ressalta que o peso (positivo e negativo) de um relacionamento vem desse acúmulo, dos sorrisos e lágrimas que deixam marcas, independente de cronologia, em um dueto onde as frases se completam, ora como tapa, ora como afago. Mas que, ao fim, isso tudo gera uma história, uma vida conjunta que não se traduz em um começo e um final, mas sim em tudo que está entre as duas pontas.
02 – Paranoid Park (idem)
de Gus Van Sant (EUA/França, 2007)
Com texto aqui no blog.
01 – Não Estou Lá (I’m Not There)
de Todd Haynes (EUA, 2007)
Nas revisões de I'm Not There, o que me pareceu mais fresco no brilhante filme de Haynes é algo que eu já indicava no texto que escrevi aqui no blog, quando vi o filme no Festival do Rio: como alcançar a pessoa por trás das imagens? Haynes monta seu filme a partir do reconhecimento de que Dylan, como toda pessoa pública, chega aos nossos olhos filtrado por uma série de reinterpretações: filmes, reportagens, anedotas e até mesmo suas próprias canções. O que é mais genial em I'm Not There é que o filme, mais do que uma biografia de Bob Dylan, é um caleidoscópio dessas mediações, indo desde as matrizes criativas de Dylan (Gutrie, Billy The Kid, Rimbaud) às suas projeções posteriores (todas as outras personagens, mas também o próprio filme). E com isso, se torna um filme infinito.
Segundo pelotão - Rebobine, Por Favor, Trovão Tropical, Os Estranhos, Speed Racer, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Vicky Cristina Barcelona, O Sol, Onde Os Fracos Não Têm Vez
Terceiro pelotão - A Questão Humana, Leonera, Encarnação do Demônio, Uma Garota Dividida em Dois, Cleópatra, Shortbus, Juno, Desejo e Reparação, O Escafandro e a Borboleta
sábado, outubro 06, 2007
Postado por Fábio Andrade às 7:48 PM
Festival do Rio – Dias 11 e 13
Pulei a terça-feira para comemorar os 10 anos de vida ao lado de minha Clarissa. Poder celebrar esse dia com ela foi viver o melhor filme que o festival nunca poderia passar. Agora, basta de intimidade.
DIA 11
Paranoid Park - Gus Van Sant
É padrão bastante recorrente no mundo do rock que bandas que sentem ter dominado um determinado gênero (e, normalmente, tenham sido bem sucedidas nele) alcem vôos tortuosos em discos movidos pela dissonância, pela necessidade de provar versatilidade e amadurecimento musical (ambas coisas bastante discutíveis, mas parto, aqui, do que me parece o ponto de vista desses artistas nesses momentos específicos). Podemos pegar os exemplos mais diversos; de Face to Face a Radiohead, de Yellowcard a Get Up Kids, de Cardigans a Saves the Day - é extremamente comum vermos compositores bem sucedidos (em especial, na música pop) abandonarem a base evidente de suas carreiras por essa auto-afirmação artística (por vezes sinal de liberdade; por outras, evidência de que a “maturidade” é conceito tão definido e previsível quanto o seu oposto). Mais comum ainda é que esses discos mais “autorais” provoquem uma cisão bastante clara com os antigos fãs, e que os mesmos artistas que haviam promovido essa mudança sintam a necessidade (e não discuto motivações) de retornar àquilo que os fez populares. Em alguns casos, esse suposto retorno vem com sabor de ressaca, e parece apenas mimetizar trejeitos do passado com a esperança de recuperar algo perdido no processo. O acesso de liberdade se torna, portanto, raiz de uma irremediável perda. Um velho em roupas de jovem. A morte da inocência. Em outros casos (e são esses que mais me interessam), o retorno se completa melhor etimologicamente, e vem temperado pelo aprendizado proporcionado pela guinada anterior. A vida como círculo, não como linha reta. Um tempo canino, diria. Uma vez que não exista mais o que provar a si mesmo, a liberdade de escrever boas canções retorna com uma força impressionante. Saem daí, comumente, os melhores trabalhos das carreiras desses artistas.
Em torta analogia, esse me parece o caso de Gus Van Sant. Após mergulhar de olhos bem abertos na frieza encantada do cinema de dispositivo da trilogia “Gerry”, “Elefante” e “Os últimos dias”, o que haveria ainda a ser provado? Uma vez que a exploração dos cruzamentos possíveis entre tempo e espaço tenha sido praticamente esgotada pelo diretor, como continuar? Que disco fazer? Gus Van Sant fez “Paranoid Park”; posivelmente, sua obra-prima.
Havia cortado “Paranoid Park” de minha lista de intenções ao saber que o filme seria exibido no festival em cópia digital. Conhecendo as condições de projeção do circuito digital carioca, preferi aguardar para ver o sempre estupendo trabalho fotográfico de Chris Doyle (provavelmente o melhor fotógrafo em atividade no mundo, só encontrando paralelo em outros gênios da luz como Roger Deakins e Lee Ping Bing) em condições mais apropriadas, quando o filme fosse lançado (pelo que sei, já está comprado para exibição) com cópias em 35 mm. Até que um acidente com a cópia digital impediu sua exibição, e a distribuidora enviou para o Rio uma bela cópia em película (e, reza a lenda, a circulação comercial, sim, será feita somente em digital). Essa mudança de planos obrigou-me a, com muito gosto, alterar meu roteiro e abrir um espaço para, a tempo, pegar a última exibição de “Paranoid Park” no festival. Ah, as linhas tortas!
Muitos dos dispositivos que marcavam a trilogia anterior (os longos planos de caminhada, a manipulação do tempo narrativo, o estado flutuante da mise-en-scène) estão presentes em “Paranoid Park”. A grande diferença, porém, é que se em “Elefante” – por exemplo – a dramaturgia nascia a partir dos dispositivos, em “Paranoid Park” são eles que estão a serviço da dramaturgia. Depois de tanto explorar as esquinas dissonantes da composição, nada mais reconfortante do que simplesmente sentar e escrever canções pop novamente, certo? Em termos, sim. “Paranoid Park” é tão interessante estética e dramaturgicamente quanto os filmes imediatamente anteriores de Van Sant, com a diferença de que sua fruição imediata me parece muito mais suave (ainda encontro pedaços de “Elefante” entalados em minha garganta sempre que sinto sabor semelhante em outras obras). O último filme de Gus Van Sant é tão próximo de “Os últimos dias” quanto de “Drugstore Cowboys”, e ao mesmo tempo parece trazer a seu cinema elementos absolutamente novos. Filme síntese como poucos o são.
Paranoid Park é o nome de um mítico skate parque em Nova York, uma espécie de Moby Dick para jovens skatistas. Construído e habitado por tipos tidos como marginais, Paranoid Park é o misto perfeito de sonho e pesadelo de garotos de classe média. Uma espécie de ritual de iniciação, mas também a evidência da entrada em um mundo menos seguro, menos previsível. “Ninguém nunca está preparado para o Paranoid Park”, diz um dos garotos do filme. Tomado pela curiosidade que o medo aguça, Alex dribla todas as suas relações (família, namorada, amigos e, posteriormente, a lei) em nome de uma primeira noite no Paranoid Park. Não vemos Alex andando de skate; sabemos que seu interesse no parque é mais mítico do que prático. É preciso estar ali. Tornar-se um deles. Passar da infância para a vida adulta. Passagem importante mas que, como os acidentados retornos das bandas do primeiro parágrafo, sempre ocasionam a perda de alguma coisa. Alex é aceito pelos locais do Paranoid Park, mas, no processo (e, definitivamente, é assim que o filme encara o acontecimento), mata uma pessoa (muito propriamente representada no filme por um segurança – figura bastante clara de autoridade, de limites).
Alex passa a ser procurado em sua escola (signo também bastante claro das amarras da infância) por um detetive que investiga o crime. Para compreender seu trauma, segue o conselho de uma amiga e escreve sobre o que aconteceu. Não conta seu segredo a ninguém; apenas escreve sobre ele. Não basta viver, é preciso contar, reinterpretar, reorganizar. É o texto de Alex que nos guia. Não seria ele, também, o filme que Gus Van Sant vem fazendo desde sempre? Não estaria o cinema de Gus Van Sant ancorado na necessidade de dar conta dessa transição da infância para a vida adulta? Não seria Gus Van Sant (e, ora, todos nós) irremediavelmente marcado pelo rompimento dos dogmas da infância (se aproximando muito, curiosamente, do universo de J.D. Salinger), e seu cinema não mais que a tentativa de extrair algum sentido desse choque pela ficcionalização? Com “Paranoid Park”, o diretor parece dar mais um passo nesse sentido. Poucos artistas olharam para o universo jovem com a generosidade e o interesse de Gus Van Sant. A tentativa de perceber o que se perde na adolescência (e seu cinema também fala muito sobre o que se ganha) pode estar fadada ao fracasso, mas Van Sant – como as expressivas correções de diafragma que Doyle explora maravilhosamente no filme – nos lembra que é preciso sempre reajustar o olho para olha-la melhor. Em algum momento, talvez enxerguemos, de fato, alguma coisa nova, e tudo passe a fazer um pouco mais de sentido.
DIA 13
Go Go Tales - Abel Ferrara
Todo ano me percebo inabalado por uma obra que parece ter tocado grande parte da crítica que mais me interessa. Ano passado foi a exibição de “O hospedeiro” no Festival do Rio (o filme foi exibido comercialmente este ano, e certamente acabará em várias listas dos melhores de 2007), de Bong Joon-ho, que me chegou de maneira diferente. Onde muitos viam um sopro de vida no cinema de gênero eu percebia uma certa falta de fé; nos momentos em que muitos riam de uma sátira política supostamente bem elaborada, sentia um nariz em pé, um deboche meio feio e ineficiente. Este ano, “Go Go Tales” acabou sendo a minha ilha de desapontamento.
O último filme de Abel Ferrara se parece, em alguns sentidos, com “A última noite”, filme de Robert Altman que reevoquei ao falar de “Cristóvão Colombo – O Enigma”. Enquanto os travellings de “A última noite” nos conduziam por um fascinante balé dos mortos, em “Go Go Tales” esses mesmos travellings nos revelam carnes bastante vivas. Se no filme de Altman a Prairie Home Companion encarnava a resignação diante da morte, no filme de Ferrara a boate Paradise insiste não deixar que fechem o caixão. O fatídico dia que a câmera decide mostrar traz uma sucessão de infortúnios: Ray Ruby (o dono do clube, interpretado pelo sempre interessante Willem Dafoe) não tem dinheiro para pagar suas dançarinas, seu sócio está decidido a retirar seu dinheiro do clube, a proprietária do imóvel diz não mais aceitar o atraso no aluguel. É nesse mesmo dia, porém, que Ruby ganha 18 milhões em uma trapaça na loteria, comprando um número absurdo de bilhetes. O bilhete premiado, porém, desapareceu.
“Go Go Tales” circula nessa alegoria do empresário de show business como o apostador que compra o maior número de bilhetes possível, trapaceia para ganhar na loteria e, como vemos ao final, continua não tendo dinheiro suficiente para tirar o pé da lama. De certa forma, Ray Ruby é representação viva do empresário, do produtor, da stripper que consegue produzir seu roteiro dançando para um figurão, da indústria do disco que trabalha com margem de 90% de fracasso, esperando que os 10% de sucesso cubram seus gastos.
O problema é que, depois de dadas as cartas, o filme vai ficando meio aborrecido, o desenrolar das situações nunca foge do previsível, e a curiosidade em relação àquele universo logo se transforma em tédio. Tirando alguns bons personagens – cozinheiro de hot dogs orgânicos – e um par de seqüências mais interessantes, o filme de Ferrara me fez pensar em todas as outras coisas que deixei de ver para estar naquela sessão. Sentir frieza de um filme que parece tratar sobre a pulsação da carne me parece, no mínimo, bem estranho. Sensação nunca bem-vinda, mas ainda mais angustiante quando o número de coisas a se ver é muito maior do que o tempo que temos para dividir entre elas.