sábado, outubro 11, 2008

Festival do Rio 2008 – Balanço geral

Em primeiro lugar, registro aqui meu agradecimento aos leitores que, durante o festival, fizeram a média diária de acessos ao blog dobrar. Se eu ligasse um pouco mais pra essas coisas, a partir de hoje o blog passaria a ser um cópia ilustrada das minhas cotações do imdb. Como eu sou burro, retornarei aos textos que só a metade de vocês tem paciência de ler.

Muito por isso, achei que a experiência merecia um post um pouco mais longo, com comentários mais detidos e alguns gracejos que serviam pra puxar assunto com os amigos após os filmes. Aos que já ouviram algumas deles, mil perdões, mas sou famoso por contar as mesmas piadas várias vezes para todos que eu conheço. Ao menos isso já o classifica como meu amigo. Comecemos, então.

Ausências

Para quem acompanhou com interesse as primeiras programações divulgadas pela organização do Festival, é impossível não lamentar a ausência de, ao menos, quatro filmes:

- 35 Doses de Rum (35 Rhums) – de Claire Denis;
- Che – de Steve Soderbergh;
- Ponyo On The Cliff By The Sea – de Hayao Miyazaki;
- Blue – de Derek Jarman;

Os dois primeiros ficaram sem horários programados no site, e nem chegaram a sair no caderno especial do Globo. Ponyo caiu por determinação do estúdio do Miyazaki, e Blue não chegou nem pra repescagem. De qualquer maneira, são ausências que minguaram sensivelmente a programação. Se somarmos a isso a ausência do vencedor da Palma de Ouro desse ano (Entre Os Muros, que parece confirmado pra Mostra de SP), e de novos filmes de Jia Zhang-ke, Agnés Varda, Abbas Kiarostami e Johnny To (pra ficar nos que vêm à cabeça agora), qualquer intenção de cobrir os filmes mais importantes dos últimos anos (já que filmes como A Viagem do Balão Vermelho, Inútil e Na Cidade de Sylvia já tinham passado em SP no ano passado) vai pro ralo.

Salas

Destaque inevitável para a inclusão do Estação Vivo Gávea – salas novas, com os melhores projetores, o melhor som e – grande destaque – espreguiçadeiras confortabilíssimas nas primeiras filas de duas delas (não conheço a sala 3, mas pode ser que elas existam por lá também). Até a menor – sala 4 – tem uma tela bem razoável, e as espreguiçadeiras ficam a uma distância aceitável da tela. Se não fosse o ar condicionado brutal da Sala 5, ela se firmaria como nova sala favorita no Rio de Janeiro.

Risquei logo da lista o Botafogo 3, por ter tido minha entrada com credencial dificultada por funcionários e gerência da sala. Tive problemas nos primeiros dias no Espaço de Cinema, mas depois a coisa se normalizou. E o Botafogo 1 se firma como a pior entre as salas grandes da zona sul: projetor com lâmpada fraquinha, som em mono e cadeiras que, só na repescagem, me deixaram com uma dor na coluna que ainda não me abandonou.

Ruin

As projeções digitais da Rain continuam uma incógnita completa. Embora Inútil tenha tido uma belíssima projeção digital no Botafogo 1 (nas cabines) – a ponto de eu desejar que o Em Busca da Vida não tivesse sido lançado com aquele transfer safado – as outras duas sessões que vi em digital foram lamentáveis: Minha Mágica virou uma escuridão só, e Conto de Natal passou em um quase-VHS, com as laterais cortadas. Assim que vi o primeiro plano, abandonei a sessão.

Desejos não cumpridos (ou, Queria muito, mas não deu pra ver)

- Guerra Sem Cortes (Redacted) – de Brian De Palma (que tenho em DVD, mas não assisti ainda);
- Alexandra (Aleksandra) – de Aleksandr Sokurov
- Sob Controle (Surveillance) – de Jennifer Lynch
- Happy Go-Lucky – de Mike Leigh
- Ninho Vazio (El nido vacío) – de Daniel Burman
- Queime depois de ler (Burn After Reading) – de Joel & Ethan Coen
- O Casamento do Rachel (Rachel’s Getting Married) – de Johnathan Demme
- Todos Têm Problemas Sexuais – de Domingos Oliveira
- Ballast – de Lance Hammer
- Vicky Cristina Barcelona – de Woody Allen

Fora as retrospectivas de Derek Jarman, irmãos Taviani, e as Divas Italianas.

Aos filmes, então

1 – Sonata de Tóquio (Tôkyô Sonata) – de Kiyoshi Kurosawa

Meu favorito, já com crítica minha na Cinética.

2 – A Viagem do Balão Vermelho (Le Voyage du Ballon Rouge) – de Hou Hsiao-hsien


A musicalidade do cinema de Hou Hsiao-hsien, exuberante em um de seus mais singelos filmes. Sentindo o ritmo da construção visual de Hou, percebi que a única personagem chinesa de A Viagem do Balão Vermelho se chamava Song Chan, e que a inversão do nome era quase igual a chanson – palavra francesa para “canção” – e que eu seria capaz de escrever uma crítica inteira partindo disso aí. Até que percebi que o nome dela era Song Fang, e meu mundo todo ruiu.

3 – Aquele Querido Mês de Agosto – de Miguel Gomes

Dicão do Eduardo Valente, que se firmou como uma das melhores lembranças do Festival. Queria ter revisto, mas não ficou pra repescagem. Além de começar com um poema de João de Deus, é um filme especialmente forte, para mim, por reviver minha infância em cidade pequena, com festinhas parecidas com aquelas, mitologias populares parecidas com aquelas, e bandas de baile parecidas com aquelas. Lá pro final do filme, a banda toca e uma criança fica dançando na frente do palco, e aquilo ali me pareceu muito próximo das minhas recordações de vida mais antigas. E sim, eu sei que, no filme, a criança é uma menininha, mas vamos lá.

4 – A Mulher Sem Cabeça (La Mujer Sin Cabeza) – de Lucrecia Martel

A melhor adaptação acidental de Clarice Lispector já feita pro cinema, o fime de Lucrecia Martel parece um híbrido entre O Crime do Professor de Matemática e Amor (dois dos melhores contos de Laços de Família). As comparações com Lynch são acertadas, mas passei o filme pensando em 2046 (e em Brian De Palma), porque a maneira que a Lucrecia Martel trabalha o cinemascope é tão única quanto. E têm aqueles olhos inesquecíveis, em uma inversão da Maria Falconetti de A Paixão de Joana D’Arc, como o Reygadas adoraria ser capaz de fazer. Grande filme.

5 – Pai Patrão (Padre Padrone) – de Vittorio e Paolo Taviani

Talvez o melhor filme já feito sobre enfiar coisas pontudas em animais.

6 – Sad Vacation – de Shinji Aoyama


Em breve com crítica na Cinética.

7 – Noite e Dia (Bam gua nat) – de Hong Sang-soo

Com crítica minha na Cinética.

8 – Na Cidade de Sylvia (En La Ciudad de Sylvia) – de José Luís Guerín

Mais do que um belo filme, me parece um filme de belíssimas partes. Curiosamente, o todo não me emociona tanto quanto os momentos individuais. Ainda assim, a parte do café, a edição de som no Les Aviateurs, e aquelas fusões do rosto da Sylvia sobre os trens que correm, ao final do filme, são absolutamente asfixiantes. Queria gostar mais, mas só gosto muito, muito mesmo. Só.

9 – A Fronteira da Alvorada (La Frontière de l'aube) – de Phillipe Garrel

Tem dois momentos absolutamente antológicos:

1 – Quando Laura Smet adormece, um dos seus seios pende para fora da camisola, e o Louis Garrel vai lá acertar a roupa da moça;
2 – Quando ela cochicha no ouvido dele algo como: “Sabe o que eles dizem nas canções? É tudo verdade”. Melhor fala de todo o Festival.

10 – Segurando as Pontas (Pineapple Express) – de David Gordon Green

Com crítica minha na Cinética.

11 – Les Amours D’Astrée et de Céladon – de Eric Rohmer

Mais do que um filme de época, um filme sobre a representação de um filme de época.

12 – Cinzas do Passado Redux (Ashes of Time Redux) – Wong Kar-wai

Nunca foi dos meus favoritos de Wong Kar-wai, e se manteve razoavelmente igual na revisão. A mexida nas cores tem resultados ora interessantes, ora exagerados demais. Embora exibido em película, a correção de cores digital deixou a cópia final com uma baita cara de vídeo. Tenho curiosidade de saber o que o Chris Doyle (fotógrafo do filme, hoje brigado com Wong Kar-wai) achou do resultado.

13 – Velha Juventude (Youth Without Youth) – Francis Ford Coppola

Um filme sobre a história da imagem, desde sua formação física invertida, até à imagem especular de Gilles Deleuze. Gratíssima surpresa, mas seria ainda melhor se não tivesse aquela barriga explicativa que o Coppola se obriga a engolir logo depois da primeira hora. Não fosse aquilo, poderia ser um dos melhores filmes de Alain Resnais.

14 – Leonera – de Pablo Trapero

Martina Gusman possui um magnetismo cinematográfico como eu não via desde Rosane Mullholand, em Falsa Loura.

15 – Na Guerra (De la guerre) – de Bertrand Bonello

Para o bem e para o mal, o que acontece quando um cineasta francês se encanta com Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul.

16 – Aquiles e a Tartaruga (Achilles to kame) – de Takeshi Kitano

Em breve com texto na Cinética.

17 – A Erva do Rato – de Julio Bressane

Cleber Eduardo, alguns dias depois: “Vocês viram que a dublê de vulva do filme se chama Floresta Perpétua?”.

18 – Inútil (Wuyong) – de Jia Zhang-ke

Um Jia Zhang-ke menor, mas que ainda traz planos incríveis como o casal andando de moto, os garotos andando de bicicleta, e os filhotes de cachorro disputando as tetas da mãe.

19 – Vocês, Os Vivos (Du Levande) – de Roy Andersson

Absolutamente adorável, embora nem sempre forte, o filme de Roy Andersson tem um trunfo preciosíssimo: parte de um deboche da tal “estética de festival” (os planos em tableu, o esvaziamento psicológico das personagens, a musicalidade) e, com isso, revitaliza essas convenções como há muito não se via.

20 – O Lar (Home) – de Ursula Meier

A mais grata surpresa de todo o festival, com texto meu na Cinética.

21 – Glória Ao Cineasta (Kantoku * Banzai!) – de Takeshi Kitano

Já tinha visto em DVD e, com o atraso da cópia, acabei não revendo no Festival. Quando Kitano sacaneia todo o cinema de seus pares (de Wong Kar-wai aos espadachins voadores de Ang Lee e Zhang Yimou), é absolutamente hilário. Fica um tanto auto-indulgente na segunda parte, com altos bem altos, e baixos bem baixos. Kitano anda malucão.

22 – Quatro Noites com Anna (Cztery noce z Anna) – de Jerzy Skolimowski

Talvez o 23o melhor filme já feito sobre enfiar coisas pontudas nos animais. Com texto meu na Cinética.

23 – O Último Reduto (Dernier Maquis) – de Rabah Ameur-Zaimeche

Um filme neo-leninista sobre a força do trabalho, em que o próprio diretor interpreta um vilão chamado Mao.

24 – Sukiyaki Western Django – de Takashi Miike

Outro malucão japonês, que também se equilibra parcamente entre o trabalho apaixonado das referências e um senso de paródia meio aborrecido. Tem bons momentos, mas está longe de se aproximar dos melhores filmes de Miike.

25 – Juventude – de Domingos Oliveira

Com texto meu na Cinética.

26 – Sobre o Tempo e a Cidade (Of Time and the City) – de Terence Davies

Filme quase sempre bonito, mas nunca realmente arrebatador. Fica ali, naquele espaço morno e nada desagradável, junto com diversas outras maneiras interessantes de se queimar duas horas de vida.

27 – Waltz with Bashir – de Ari Folman

Em breve com texto meu na Cinética. Seria ótimo se fosse tão bom de assistir quanto é consciente do que faz.

28 – CSNY Déjà Vu – de Bernard Shakey

Apesar de todos os graves pesares, ainda assim tem o Neil Young. Com texto meu na Cinética.

29 – Sol Secreto (Milyang) – de Lee Chang-dong

Uma chatice razoável com alguns planos interessantes. Meu mundo não é tão pesado, e não é sempre que quero assumir o peso do dos outros. Guardo isso pro próximo da Naomi Kawase.

30 – Casa Negra (Geomeun jip) – de Terra Shin

Com crítica minha na Cinética.

31 – Minha Mágica (My Magic) – de Eric Khoo

Vou resistir ao ímpeto natural de fazer uma piada com o sobrenome do diretor. O filme não é mais que uma doce nulidade.

32 – Ano Unha (Año Uña) – de Jonás Cuarón

Com crítica minha na Cinética.

33 – Il Divo – de Paolo Sorrentino

Em breve com crítica minha na Cinética.

34 – Filme Pirata (Kaizokuban Bootleg Film) – de Masahiro Kobayashi

Outra chatice com bons enquadramentos, só que em vez do peso desmedido do luto, piadas sem graça sobre Quentin Tarantino e O Poderoso Chefão. O que, de alguma maneira, consegue ser ainda mais chato (só que com mais de uma hora a menos). Antes se reduzisse a um simples clone de Seijun Suzuki.

35 – Gomorra – de Mateo Garrone

É bastante revelador que, enquanto proposta de denúncia, a única força do filme venha justamente das cenas dos assassinatos. Garrone fez o filme errado.

36 – Joe Strummer: O Futuro Está Para Ser Escrito (Joe Strummer: The Future is Unwritten) – de Julien Temple


Com crítica minha na Cinética.

37 – Delta – de Kornél Mundruczó

Com crítica minha na Cinética.

38 – Paris – de Cédric Klapisch

Além da crítica que escrevi pra Cinética, apresento, aqui, as duas fotos do filme que eu escolhi pra matéria, mas que o Valente achou que eram engraçadas demais.


39 – Liverpool – de Lisandro Alonso

Liverpoop.

40 – Entre Cães e Deuses (Liu lang shen gao ren) - de Singing Chen

Com crítica minha na Cinética.

41 – RockNRolla – de Guy Ritchie

Com crítica minha na Cinética.

42 – O Visitante (The Visitor) – de Thomas McCarthy

Um imigrante sírio que, mesmo na casa dos outros, só curte tocar tambor de cueca.

quinta-feira, outubro 09, 2008

When it rains, it pours

O mergulho de olhos abertos na intensa experiência cinematográfica que é o Festival do Rio chega, agora, ao fim. Os olhos abertos são importantes pois, apesar da salinidade que queima e incha os globos oculares, o mergulho só faz sentido como busca. Após três semanas buscando o filme desse Festival, é curioso que ele tenha aparecido para mim no último dia: Sonata de Tóquio, obra-de-arte especialíssima de Kiyoshi Kurosawa. Alguns diriam que é só o cansaço falando mas, se for, ele grita: foi o filme que, nessas últimas três semanas, abriu as enferrujadas compotas do coração de um velho amante, fazendo voltar aquela primeira melodia, aquela primeira imagem, aquela primeira emoção já sentida, que buscamos avidamente no contato diário com o mundo. Com o passar do tempo, os encontros com esse sentimento primeiro parecem cada vez mais raros. Mas quando chove...

Esse post, porém, é para dizer que, apesar do fim do Festival, aqueles que ainda tiverem olhos, coluna e coração em boas condições têm uma última chance de ver a bela cópia em película em temporada no Rio: Sonata de Tóquio é o filé da programação da repescagem, e passa no Estação Botafogo 1, neste sábado (11/10), às 13h15 da tarde. O impacto do filme foi tamanho que, ao fim da sessão, chutei de lado um Mike Leigh, um Sokurov e um De Palma que havia programado ver no mesmo dia, e me guardei para uma segunda visita (nada de revisão; nova visão, mais apropriadamente) ao filme, encerrando as três semanas de excesso vendo apenas um filme, duas vezes. Voltei pra casa caminhando sozinho, não para pensar sobre o filme, mas sim para carregar aquela rara sensação comigo por mais meia horinha. Infelizmente, não poderei ir à última sessão do filme no Rio. A quem for, deixe correr uma lágrima em meu nome. Já está na hora de eu aprender a lidar com esse papo de chorar em filme.

A Cinética seguirá publicando críticas sobre os filmes do Festival nos próximos dias. Amanhã, planejo retornar com um resumão de tudo que vi. Para além das notas e estrelinhas, claro.

domingo, setembro 21, 2008

Festival do Rio - agora só ano que vem (quem preferir o método das estrelinhas gostará de saber que, durante o festival, estou participando do quadro de cotaçoes da revista Contracampo)

Ano passado, o blog recebeu atenção especial nessa época do ano pela minha escrita de tudo que vi no Festival do Rio. Este ano, integrarei o grupo de cobertura da Cinética (com outros cinco redatores presentes , dedicando especial atenção ao Festival em atualizações diárias), então não haverá tempo ou razão para fazer algo parecido por aqui também. Usarei este espaço, porém, para uma lista atualizada diariamente (ou quase) com cotações para todos os filmes vistos. Em vez de criar novos posts, vou mudar a data que aparece ao lado do título sempre que a lista for atualizada. Novas adições on top, sempre.

Por três motivos, troco as típicas estrelinhas e bolas pretas dos Cahiers por notas de 1 a 10. O primeiro, é por externar meu hábito de dar notas aos filmes no imdb (how much of a geek am I, baby?), trabalhando com um sistema que já me é familiar. O segundo, por já achar uma escala de dez bastante apertada para dar conta de todas as minhas implicâncias e afetos (embora eu não tenha coragem de mergulhar no ridículo sistema decimal da Pitchfork). O terceiro, e mais importante, motivo é porque - como fazem os EUA - minha opinião é arrogante a ponto de precisar ter seu próprio sistema métrico. Que não me venham com quilômetros! Lembrem-se, porém, que sou um otimista nato, e que notas abaixo de 5 são avisos bem claros de que certa distância é recomendada.

A função da lista é alertar, mesmo que de forma telegráfica, os desavisados para possíveis jóias descobertas, ou bombas detonadas pelo caminho. A julgar pelos filmes vistos até agora, nos dois primeiros dias das cabines de imprensa (que, aliás, são famosas pela desova de lixo), elas serão maioria esmagadora. Ainda assim, vale ressaltar que a proporção é inevitável em quantidade, e pouco tem a ver com a qualidade dos pratos principais. Em especial por o cardápio de 2008 estar, de fato, riquíssimo.

Que essa lista seja um bom funeral para o tempo despendido nessas sessões, fazendo minha parte para que ninguém perca o creme enquanto procura por torrões de açúcar no meio da merda.

Festival do Rio 2008 - Filmes vistos, cotados de 1 a 10 (novidades em negrito; destaques com fotos)

Waltz with Bashir
, de Ari Folman, Israel, 2008 - 5/10
Cinzas do Passado Redux (Ashes of Time Redux), de Wong Kar-wai, Hong Kong, 2008 - 8/10

Sad Vacation, de Shinji Aoyama, Japão, 2007 - 9/10

Na Guerra (De la guerre), de Bertrand Bonello, França, 2008 - 8/10

Aquiles e a Tartaruga (Achilles to kame), de Takeshi Kitano, Japão, 2008 - 8/10

Sukiyaki Western Django, de Takashi Miike, Japão, 2007 - 6/10
Leonera, de Pablo Trapero, Argentina, 2008 - 8/10

Quatro Noites com Anna (Cztery noce z Anna), de Jerzy Skolimowski, Polônia, 2008 - 7/10

Pai Patrão (Padre Padrone), de Paolo e Vittorio Taviani, Itália, 1977 - 9/10

Il Divo, de Paolo Sorrentino, Itália, 2008 - 4/10
Filme Pirata (Kaizokuban Bootleg Film)
, de Masahiro Kobayashi, Japão, 1999 - 3/10
Minha Mágica (My Magic), de Eric Khoo, Cingapura, 2008 - 4/10
Velha Juventude (Youth Without Youth), de Francis Ford Coppola, EUA, 2007 - 8/10

Les Amours d'Astrée et de Céladon, de Eric Rohmer, França, 2007 - 8/10

Segurando as pontas (The Pineapple Express), de David Gordon Greene, EUA, 2008 - 8/10

Noite e Dia (Bam gua nat), de Hong Sang-soo, Coréia do Sul, 2008 - 8/10

Caos (Heya Fawada), de Youseff Chahine, Egito, 2007 - abandonado aos 40 minutos
O Lar (Home), de Ursula Meier, França/Suíça, 2008 - 7/10

Ano Unha (Anõ Unã), de Jonás Cuarón, México, 2007 - 4/10
A Viagem do Balão Vermelho
(Le Voyage du Ballon Rouge), de Hou Hsiao-hsien, França, 2007 - 10/10

Paris, de Cédric Klapisch, França, 2008 - 3/10
Juventude, de Domingos Oliveira, Brasil, 2008 - 6/10
A Erva do Rato, de Júlio Bressane, Brasil, 2008 - 8/10

Joe Strummer - O futuro está para ser escrito (Joe Strummer: The Future is Unwritten), de Julien Temple, EUA, 2007 - 3/10
O Último Reduto (Dernier maquis), de Rabah Ameur-Zaimeche, França, 2008 - 7/10


Entre Cães e Deuses (Liu lang shen gao ren), de Singing Chen, Taiwan, 2007 - 2/10
A Fronteira da Alvorada (La Frontière de l'aube), de Philippe Garrel, França, 2008 - 8/10

Sol Secreto (Milyang), de Lee Chang-dong, Coréia do Sul, 2007 - 5/10
Vocês, Os Vivos (Du Levande), de Roy Anderson, Suécia, 2007 - 7/10

Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, Portugal, 2008 - 9/10

Na cidade de Sylvia (En La Ciudad de Sylvia), de José Luís Guerrin, Espanha, 2007 - 8/10

A Mulher Sem Cabeça (La Mujer Sin Cabeza), de Lucrecia Martel, Argentina, 2008 - 9/10

Liverpool, de Lisandro Alonso, Argentina, 2008 - 2/10
Inútil (Wuyong)
, de Jia Zhang-ke, China, 2007 - 7/10

Glória ao Cineasta (Kantoku * Banzai!), de Takeshi Kitano, Japão, 2007 - 7/10

Sobre o Tempo e a Cidade (Of Time and the City), de Terence Davies, Reino Unido, 2008 - 6/10
Casa Negra (
Geomeun jip), de Terra Shin, Coréia do Sul, 2007 - 4/10
RockNRolla, de Guy Ritchie, Reino Unido, 2008 - 2/10
Delta, de Kornél Mundruczó, Hungria, 2008 - 3/10
Gomorra, de Matteo Garrone, Itália, 2008 - 3/10
CSNY Déjà Vu, de Bernard Shakey (pseudônimo de Neil Young), EUA, 2008 - 5/10
O Visitante (The Visitor), de Thomas McCarthy, EUA, 2008 - 1/10

terça-feira, setembro 16, 2008

Driving Music

Setembro começa com o Driving Music bombando em páginas virtuais: além de uma ótima resenha no blog norte-americano Sound As Language, o Driving Music é banda do mês na PunkNet. O especial traz uma resenha e três entrevistas comigo: um faixa-a-faixa da demo; uma lista dos 10 discos que mais me influenciaram; e uma conversa geral sobre ser uma banda. Diverti-me bastante com o processo, então espero que o resultado seja, também, minimamente interessante para quem lê. Aproveitem!

quinta-feira, setembro 11, 2008

Praticamente um metereologista

Depois de um verão de curtição, retorno à Cinética com críticas sobre os ótimos Trovão Tropical, de Ben Stiller, e O Nevoeiro, filme de Frank Darabont em debate com Fabio Diaz Camarneiro.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Top 5 da semana

Filmes

01Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups) – François Truffaut, 1959

Terminada a mostra do Resnais, comecei a rever alguns Truffauts que eu tenho em DVD. Comecei pela fabulosa caixa da Criterion de Antoine Doinel – a mais adorável vertente da obra do diretor. Os Incompreendidos está ali, com Aniki Bobó e Eu Nasci, Mas..., entre os melhores retratos da infância já filmados. Embora seja difícil dizer qualquer coisa nova sobre o filme, sinto-me obrigado a assinar apenas uma nota levemente melancólica: a certeza de que Jean-Pierre Leaud e seu Doinel atingiam, nessa primeira infância, um nível de excelência que não se repetiria nos filmes seguintes.

02Smoking/No Smoking – Alain Resnais, 1993

Difícil imaginar maneira mais adequada de terminar minha passagem pela mostra do que com a dupla Smoking/No Smoking – filme tão intrigante quanto delicioso de se assistir. Resnais passa, aqui, por um processo de extrema redução: apenas dois atores interpretando quatro ou cinco personagens cada, mantendo sempre só duas pessoas em cena, em planos longos que permitem a perfeição do timing entre os dois, em cenários imóveis que ressaltam as saídas e entradas de cena de Sabine Azéma e Pierre Arditi. Além de três ou quatro personagens absolutamente geniais e de um texto primoroso, Smoking/No Smoking impressiona como visão: no fim das contas, tudo de que o cinema precisa é de um homem e uma mulher tentando gerar fagulhas em cena.

03Beijos Proibidos (Baisers Volés) – François Truffaut, 1968

Depois do bonito, mas um pouco excessivamente auto-referente Antoine et Colette (episódio de Truffaut no coletivo Amor Aos Vinte Anos), Antoine Doinel retorna no ótimo Beijos Proibidos. Mais do que uma continuação dos filmes anteriores, Beijos Proibidos parece um filme inventado pelo próprio Doinel de Os Incompreendidos. Sua trama detetivesca (que, como um filme de François Truffaut, serve apenas como disfarce para o amor) e suas idas e vindas de roteiro parecem imaginadas por um pré-adolescente, em uma realização visual de o que ele sonha para seu futuro. Assim como Os Incompreendidos, Beijos Proibidos possui uma das mais extraordinárias sequências finais já filmadas.

04
A Famosa Espada Bijomaru (Meito bijomaru) – Kenji Mizoguchi, 1945

Tido por muitos como um mero trabalho de sobrevivência comercial (como ressalta a entrevista com Kaneto Shindo, nos extras da edição francesa em DVD), A Famosa Espada Bijomaru é de um subtexto tão gritante que salta à primeira página: realizado durante a guerra, logo após alguns pares de filmes feitos de acordo com os preceitos estabelecidos pela política de exceção do governo japonês, Mizoguchi filma a estória de um forjador de espadas consumido pelo dilema entre produzir espadas para o Imperador, e espadas que possuam uma alma própria. Em determinado momento, a personagem principal afirma algo como: “Eu e você morreremos, mas as espadas continuarão aí para sempre”. A Famosa Espada Bijomaru vem para afirmar que, na filmografia de um sujeito como Kenji Mizoguchi, os filmes tidos como “menores” não raro dizem muito mais sobre a cegueira crítica diante de suas questões do que sobre seu valor. Em 65 minutos, Kenji Mizoguchi faz um estupendo tratado sobre a responsabilidade e o comprometimento artístico.

05Os Pivetes (Les Mistons) – François Truffaut, 1958

Célebre curta-metragem de Truffaut, realizado naquele que se mostraria seu mais caro ambiente: a idealização do amor jovem. Em seu andar apaixonantemente desconjuntado, Les Mistons é belíssimo justamente por seu trabalho de afetos, por filmar o amor com olhos absolutamente amorosos. Mesmo sendo, ao fim e ao cabo, uma tragédia.

Canções

01 – “Brandy Alexander” – Ron Sexsmith

Finalmente botei pra rodar Exit Strategy For The Soul, novo álbum de Ron Sexsmith. E lá estava ela: uma versão deslumbrante para “Brandy Alexander” – parceria com Leslie Feist, já gravada por ela em The Reminder. Enquanto os arranjos de Feist se seguram na delicadeza do estalar de dedos, Sexsmith cria uma versão pulsante, com metais que vibram com a levada de bateria e violões à Tom Petty. Lá uma das melhores canções já gravadas por Feist; aqui, entre as melhores de Ron Sexsmith. Uma beleza.

Boomp3.com

02 – “She’s So Static” – The Joykiller

Sem dúvida a banda mais subestimada em todo o catálogo da Epitaph, o Joykiller foi formado pelos ex-TSOL Jack Grisham (vocais) e Ron Emory (guitarras), em 1995. A banda lançou três discos em três anos, e depois só ouvimos falar novamente de Grisham por uma faixa solo em uma coletânea da Epitaph, e por sua (séria) candidatura ao governo da Califórnia – no mesmo ano do Governator. Static, o segundo disco, é uma obra-prima particularíssima: gravado ao vivo no estúdio, traz 14 canções esmiuçando ansiedades, um Jack Grisham entre Jello Biafra e Frank Sinatra, e um originalíssimo porto entre o punk rock e a lounge music de Burt Bacharach (com direito a pianos e órgãos – ainda mais presentes no seguinte, Three). Ao longo de todo o disco, impressiona a dosagem milimétrica de fúria – “I Don’t Know” e “Nowhere Ever” – e doçura – “Sad”, “White Boy, White Girl”, “Brainless”. “She’s So Static”, porém, é a que parece trazer a melhor dosagem dos ingredientes: bateria afogada em cafeína, riffs de guitarra de um bom gosto extremo, e o irretocável vocal de Grisham – saltando de uma oitava à outra dentro de um só refrão, queimando a melodia em nossa cabeça pelo resto do dia. Como registro, a foto pixelada: o Joykiller anda tão esquecido que encontrar uma foto com mais de 11kb na internet se torna tarefa quase irrealizável.

Boomp3.com

03 – “Nuclear” – Ryan Adams

É de um humor inegável perceber que, hoje lançando álbuns oficiais com canções que nunca passam do agradável, em 2002 Ryan Adams lançara um disco de demos com canções tão mais inspiradas. Antes mesmo do irônico RockNRoll, Adams já escrevia – por livre e espontânea vontade – rockões do calibre de “Nuclear”, “Starting To Hurt” e “Gimme A Sign” (das três, a única que sofre consideravelmente pelo registro menos cuidadoso de uma “demo”). Em “Nuclear”, até o reverb mal dosado da caixa de bateria ajuda a construir o clima da canção, fazendo uma cama perfeita para o solo de slides oitavados. A voz de Adams rasgando “This is where the summer ends” é um dos momentos mais fortes de toda sua discografia.

Boomp3.com

04 – “Trouble” – Limbeck

Meus sentimentos em relação ao Limbeck sempre se dividiram entre a musicalidade sedutoramente agradável de suas canções, e um irritante simplismo nas letras. É notável, porém, que a banda se torna melhor - em ambos os quesitos - a cada disco. “Trouble” convoca os pés a manterem o ritmo, com um refrão deliciosamente clássico, e uma letra que – menor dos males – não incomoda. Ainda assim, eles deveriam gastar mais dinheiro em livros. Quem sabe eles não aprendam, assim, a lançar um disco que seja sem uma canção sobre estacionamentos.

Boomp3.com

05 – “Pearl” – Maritime

Embora eu já tenha escrito mais de uma nota sobre o último disco do Maritime, “Pearl” foi uma das músicas mais presentes por aqui durante essa semana. É a síntese perfeita dos três discos da banda, com uma melodia bonita de doer o peito.

Boomp3.com

sexta-feira, setembro 05, 2008

Por trás de todo grande homem

Falando, há cinco minutos, com a Clarissa ao telefone, quando ia contar que os shows do Jesus & Mary Chain e do REM pareciam confirmados:

- Então, parece que duas paradas muito maneiras foram confirmadas pro fim do ano.

E ela, com seu timing em grande forma, rebate:

- O quê? O Natal e a passagem de ano?