domingo, agosto 26, 2007
Postado por Fábio Andrade às 2:11 PM
Top 5 da semana
01 - Vou pra casa (Je rentre à la maison) - Manoel de Oliveira
02 - Reunion Tour - The Weakerthans (álbum)
03 - Sunken Treasure: Live in the Pacific Northwest - dvd de Jeff Tweedy dirigido por Christoph Green e Brendan Canty.
04 - The Picture - Son Volt (canção)
05 - Daqui pro futuro - Pato Fu (álbum)
sábado, agosto 25, 2007
Postado por Fábio Andrade às 1:59 PM
Elogio à ficção – impressões tardias sobre o episódio final de Gilmore Girls
“In love with love and lousy poetry” (The Weakerthans)
De maneira generalista e nada abalizada, sempre dividi o amor entre estar apaixonado pelo outro, ou pelo amor em si. Driblando barreiras difusas demais para decantarem a vida em cores primárias, alternamos o “ideal” entre projeções sobre sorrisos que brilham somente para os olhos de nossa memória, e tentativas de nos perdermos não no outro, mas no espaço que o separa de nós. A celebração do limite; do individual; do desejo de se tornar o outro que não se deixa frustrar na consciência de sua impossibilidade.
Costurando o amor pelo outro ao amor pelo amor está o desejo de definir o outro pela percepção de códigos e indícios que pareçam mais interessantes aos nossos olhos apaixonados. Que tipo de música ela gosta; qual a cor do telefone que ela usa para falar contigo; qual filme lhe é especial; que trecho de seu livro favorito a emociona mais. Estará ela também apaixonada por você, ou apenas flutuando com a intransitividade do amor? E, nessa excitação, passamos a construir o outro não como outro, mas como uma soma (que nunca confere) dos indícios que nos parecem mais encantadores. Amar alguém por meio do amor pelo amor é processo de construção de personagem dos mais elaborados, onde somamos nossas impressões sobre o outro com aquilo que gostaríamos que esse outro fosse. E, com o passar do tempo, aprendemos a conviver com o outro “real” - aquele que parece uma mistura da autonomia indomável do não-ser-eu com o mosaico de projeções e absorções do processo de criação do seu outro. Uma figura de estranha beleza, onde a boca perfeita deixa escapar um trecho de “Be my baby”, a curva da escápula se revela um telefone creme, os olhos pedem que salve Ferris e a palma da mão traz citações de um livro que você ainda não leu.
“What would love be without wishful thinking?” (Wilco)
Chega sempre o dia em que a projeção se inverte, e nos vemos caindo de amor por coisas até então desconhecidas. Em vez do amor que confirma, o amor que transforma. Gostar do outro nos momentos em que ele te desafia, te apresenta algo de novo. Parte da palpitação primeira de cada relacionamento está em descobrir os favoritos da pessoa amada. Amar o que seu amado ama. Amar o outro enquanto outro. Plenitude, talvez. Nos dez anos quase completos com minha Clarissa, são essas pequenas transformações que guardo com maior cuidado. A alegria incompreensível de se perceber a mudança do paladar. E, entre discos do Pato Fu e versos de Mário Quintana, os moradores de Stars Hollow lentamente abriram uma avenida (sem sinal de trânsito) no meu ócio, firmando um compromisso de periodicidade que poucas vezes antes aceitara (penso em “Seinfeld”, “Twin Peaks” e meu recente interesse por “24 horas” – provavelmente as únicas séries que conseguiram tomar, a força e com méritos, tantas horas de meus dias).
“Gilmore Girls” é mais um nome em minha lista de injustiçados pelos cânones. Ao lado de outros vira-latas como “A feiticeira” (Bewitched) de Nora Ephron, os livros de J.D. Salinger e Underneath , do Hanson, o folhetim de Amy Sherman-Palladino sempre me pareceu merecer atenção muito maior do que a que parece ter alcançado. Por trás do palavrório descontrolado de Lorelai e Rory, Palladino maquinava – com muita delicadeza – uma espécie de conto-de-fadas moderno, onde o principal interesse se encontrava na arte de se criar ficção. Por sete temporadas, “Gilmore Girls” defendeu ferozmente o espaço ficcional como salto do real, de fato. Espaço onde o artista tem a chance de criar um mundo em “wishful thinking”, e nele realizar tudo aquilo que não tem chance de mudar em seu mundo físico. Ato de amor, puro e simples.
“Would love be considered an art?” (Gena Rowlands em Love Streams, de John Cassavetes)
A pré-trama de “Gilmore Girls” é aparentemente descartável: garota de classe alta engravida na adolescência, contraria o desejo dos pais pelo casamento e sai de casa para criar a filha no muque. Arruma um emprego como faxineira de uma pousada em um vilarejo chamado Stars Hollow, onde cresce com sua filha e poucos luxos, mas total autonomia. Aos poucos, ela ganha a confiança da dona da pousada e o amor de toda a comunidade, consegue criar sua filha da maneira que acredita ser a mais correta (não só mãe e filha, mas - como sempre reaparece na boca de alguma personagem do seriado - melhores amigas) e tem indiscutível sucesso em sua liberdade.
Tudo dito até agora, porém, é um constante extra-campo no decorrer da série. “Gilmore Girls” começa em um sacrifício: o momento em que, para garantir o melhor futuro para sua filha, Lorelai precisa se reconciliar com o passado. O dinheiro que falta para matricular a filha no melhor colégio da região é o dinheiro que as escolhas de Lorelai não puderam lhe garantir. Mas é, também, o dinheiro que obriga Lorelai a procurar seus pais, a torna-los novamente parte de sua vida em um empréstimo que - disfarçada como um jantar semanal - é a ruína de um mundo até então visto como ideal.
Curiosamente, é com esse choque de realidade que Amy Sherman-Palladino põe em movimento sua ficção. Stars Hollow – uma cidadezinha inventada em algum canto do estado de Connecticut – parece ter saído diretamente da imaginação de Lorelai quando engravidara de Rory. Se o ambiente em que foi criada lhe rendeu um péssimo relacionamento com seus pais, só lhe resta inventar um outro mundo ideal para criar sua filha. Stars Hollow é o “lar” desenhado pela imaginação de uma adolescente para todos aqueles que foram expelidos para a margem do mundo “real”. Uma cidade onde as decisões municipais são tomadas em reuniões de moradores, onde as fofocas correm mais rápido que o tempo e o cinema passa sempre os mesmos filmes. Lugar que abriga, sem distinções, uma ex-atriz que nunca realmente fez sucesso, um dono de lanchonete incapaz de lidar com perdas (e que, significativamente, se veste como se os dias de Seattle ainda ditassem capas de revista), uma senhora apaixonada por gatos, uma conservadora mãe coreana que tenta frear os impulsos norte-americanos da filha (em uma família completada por um pai que nunca conhecemos). Uma pequena esquina do mundo que todos os párias e frustrados poderão chamar de sua, e onde poderão cuidar uns dos outros. E, como essa cidade é fruto da imaginação de uma adolescente submersa em cultura pop, é também o lugar onde se come batatas fritas no café-da-manhã, onde Grant Lee Phillips é o trovador oficial (e sempre parece cantar canções que conferem algum sentido ao que acaba de acontecer), onde os pedidos de casamento são validados por milhares de margaridas amarelas, e onde Sebastian Bach é o roqueiro aposentado que volta a tocar em uma banda de garotos. Stars Hollow é a página em branco.
Todos os exageros freqüentemente apontados pelos detratores da série são, na verdade, a evidência de uma mise-en-scène intrínseca a esse universo, que sobrevive até mesmo ao rodízio constante de roteiristas e diretores. O ritmo estonteante da fala de ambas as protagonistas (conversas inventadas e roteirizadas em momentos de inquieta introspecção); a abundância de referências (o texto que se evidencia como tal); os planos-sequência que fazem de qualquer caminhada um complexo balé de corpos (o mundo em perfeita sincronia); o mesmo rosto que parece desempenhar todas as funções coadjuvantes que garantem o funcionamento desse mundo (Kirk – personagem interpretado por Sean Gunn que, em diferentes momentos de um mesmo episódio, pode aparecer trabalhando como carteiro, fotógrafo e funcionário da companhia de tv a cabo); tudo em “Gilmore Girls” parece um exercício de projeção, de ficçionalização escancarada por parte de uma garota (a protagonista, ou a própria criadora da série) que gostaria de viver em um mundo feito à sua imagem e semelhança, onde até mesmo as lacunas e os mistérios servem para torna-lo ainda mais encantador.
“Steam from the cup and snow on the path, the seasons have changed from present to past” (Feist)
Fui fisgado pelo último episódio de “Gilmore Girls” de maneira bastante acidental. Há alguns meses havia trocado a intermitência da última temporada pela overdose das caixas das duas primeiras, substituindo os passos mais recentes das personagens por suas origens. Até que, certa quinta-feira, havia terminado de devorar mais um dos dvds da série e, quando desliguei o aparelho, o Warner Channel anunciou “o último episódio de Gilmore Girls”. Pulei as temporadas ainda não vistas por completo enquanto me dirigia pro sofá e, agraciado pela coincidência, aguardei que os destinos de Rory e Lorelai fossem traçados.
Às vezes a beleza teima se esconder em ranhuras que, se regras servissem para alguma coisa, poderiam gerar tropeços: a redundância maravilhosa do voice over de “Desencanto” (Brief Encounter), o aparente mesmo filme que Ozu fez em toda a sua carreira, os intermináveis parágrafos de Proust, o desrespeito formal de Henry Miller. Enquanto acompanhava o último dia das Gilmore, era inevitável perceber a normalidade com que todos os envolvidos atropelavam o peso do episódio definitivo. O pouco de trama que ainda restava vinha de episódios anteriores (o pedido de casamento que Logan faz a Rory, a expectativa frustrada na negação de seu estágio no New York Times, uma possível declaração de amor de Lorelai a Luke) e servia como mero pano de fundo para as banalidades que sempre conferiram charme à série. Até que, já no meio do episódio, Rory anuncia no jantar familiar que fora convidada pelo site em que escrevia para cobrir a campanha primária de Barack Obama. Mais uma vez, o choque de realidade que gerara aquele mundo ficcional é o que o põe em crise, e o misto de autonomia e proximidade buscado por Lorelai desde o princípio é o que virá a ferir o mundo que ela construira. As garotas Gilmore, enquanto unidade, não mais existirão. Resta, portanto, dar fim à estória.
Esse fiapo de crise serve para que, uma última vez, acompanhemos Rory e Lorelai na despedida de um quotidiano em transformação. Em vez da costumeira apoteose dramática dos piores finais, as garotas passam por um último jantar de família, vão às compras, arrumam a mala de Rory e ganham uma última festa em Stars Hollow (recurso por tantas vezes usado ao longo da série para que seus personagens desfilassem pelas ruas da cidade, lembrando mais o universo de Fellini do que quase tudo que já foi taxado de felliniano). E, aos poucos, Palladino acaba nos mostrando que “Gilmore Girls” sempre foi sobre aceitação e convivência. Não só a convivência entre os moradores de Stars Hollow, mas também a diluição da aspereza da relação de Lorelai com os pais (seja pela confirmação de que os jantares familiares continuarão, seja pelo reconhecimento dos pais de que Lorelai havia se saído melhor como mãe e pessoa do que eles jamais imaginaram) e o próprio rumo tomado pela vida de Rory (em vez de um emprego no maior jornal dos EUA, um salário baixo em um site desconhecido, mas que garante que ela presencie um importante momento histórico). E se o beijo de Lorelai em Luke poderia ser visto como um gran finale, Palladino passa por ele com elegância, e termina a obra de maneira ainda mais previsível: Rory e Lorelai tomando café-da-manhã no Luke’s e conversando sobre tudo que gostariam de comer.
A previsibilidade do último episódio de “Gilmore Girls” anula qualquer expectativa dramática, e nos diz que o seriado sempre foi sobre o conviver (até mesmo entre espectadores e obras – que, no caso dos folhetins, é ainda mais agudo). O mundo projetado por Lorelai não é de grandes acontecimentos. Eles até aparecem por lá, mas nunca têm a projeção da neve que cai com as folhas de plátano sobre o coreto, das canções que decoram as esquinas, de um legume perfeito ou de um copo de café. O mundo da ficção é construído dessas pequenas coisas – bastante paupáveis – e, aos poucos, ele vai abrindo espaço para que uma realidade mais traumática possa entrar: o relacionamento com os pais, o indefinido carinho que sente por Luke, a partida de Rory para a vida adulta. O fim de “Gilmore Girls” é, na verdade, um ritual de passagem do mundo de ficção para o mundo adulto. Esse ritual pode ser precoce – no caso de Rory – ou tardio – em Lorelai –; mas sua inevitabilidade eventualmente baterá à porta e forçará entrada. É curioso que Palladino associe a necessidade da ficção justamente a esse período de transformação, de passagem. Seria a ficção uma forma de atenuar as crises? Uma maneira de conferir sentido a uma realidade não raro esmagadora, e que se transforma rápido demais para que entendamos o que se passa? Durante os sete anos que existiu, “Gilmore Girls” foi a defesa dessa necessidade de se criar ficção, e de usa-la como ponto de fuga (mas que é, também, ponto de retorno) para uma realidade extremamente instigante – daí as xícaras de café, as margaridas amarelas, as luzes de natal na varanda – mas carente de interpretação. Uma defesa da capacidade que temos, todos, de criar um lugar onde possamos viver com alguma tranqüilidade, e cuidarmos uns dos outros. E de, com o tempo, fazê-lo real.
quinta-feira, agosto 16, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:08 AM
Top 5 da semana
01 - O gosto do chá (Cha no aji) - Ishii Katsuhito
02 - Feelin' The Same Way - Norah Jones (canção)
03 - "A verdade é que, havia muitos meses, Dick se via naquele dilema dos jovens, quando se deve decidir se vale a pena ou não morrer pelas coisas em que não mais acreditamos. Nas horas mortas, em Zurique, olhando para dentro de uma casa estranha, à luz de um lampião de rua, sentiu que queria ser bom, que queria ser corajoso e sábio, mas que era tudo muito difícil. Desejava também ser amado, se isto pudesse encaixar-se no resto". - Trecho de "Suave é a noite" (Tender Is The Night) de F. Scott Fitzgerald.
04 - "Andarilho" - perfil do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por João Moreira Salles, publicado na edição de Agosto da revista Piauí.
05 - The Last Fight - Velvet Revolver (canção)
sexta-feira, agosto 03, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:51 AM
Sobrecanções
Você olha para a pista cheia e vê as pessoas dançando com a música que você escolheu. As motivações das entregas individuais são outras - certamente não as mesmas que fazem aquela música especial para você. Nenhuma dança é igual, e você brinca de adivinhar as sensações que cada pessoa associa com aquela canção. Um rapaz pensa sobre a beleza dos viadutos; uma garota lembra da luz que se deitava sobre a rua em uma noite cuja única reminiscência é a maneira como a luz se deitava sobre a rua; alguém que precisa de um corte de cabelo agradece por ter tomado mais uma cerveja, porque essa canção se torna incrivelmente apropriada depois da quinta. E depois vêm outras músicas, outros significados, outras diferenças. Todas essas diferenças são costuradas pelas melodias das canções – receptáculos para significados múltiplos, individuais e absolutamente livres. As canções são de todos. E, enquanto você passa os olhos pelos seus cds e pensa em qual memória gostaria de reacender depois daquela que ainda brilha na pista, sua atenção é roubada por casais que tentam se fundir afobadamente demais para ser qualquer vez que não a primeira. Para aquelas pessoas e os capítulos (mais breves ou mais longos) que elas venham a escrever juntas, as canções que você põe pra tocar ganham novos significados a cada acorde. Você percebe que está pensando algo que já pensou infinitas vezes, e acha curioso como, desde que você percebeu essa frágil certeza, cada momento parece estar ali para reafirma-la. Um mergulho na certeza ou na ignorância, mas certamente um mergulho. Certo ou errado, estamos escrevendo História. A única que realmente parece importar alguma coisa.
sexta-feira, julho 27, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:22 AM
Tell me that you love me more
1- Há algum tempo venho ensaiando uma volta à rotina deste blog. Terminei as gravações há cerca de um mês, mas estava esperando o site de minha nova banda ficar pronto para sincronizar um retorno completo e triunfal. Como sempre falho em triunfar, desisti de esperar e cá estou. As músicas permanecem escondidas por mais alguns dias, enquanto providencio a casa mais confortável possível para elas. Esse blog, porém, retorna hoje às atualizações (quase) freqüentes. Espero que esse tempo tenha servido para todos desenjoarem de mim.
2- Antes do GNT voltar sua programação para o público feminino, o canal exibia um documentário quadradão, mas ainda assim bem interessante, sobre os Beach Boys chamado "Endless Harmony". Já bem no finalzinho, Brian Wilson dizia que certas canções pareciam ter a capacidade de transmitir incondicional alegria ao mundo. Segundo ele, Paul McCartney teria alcançado isso com "Let it be", e os Beach Boys podiam se orgulhar desse feito com "Surfer girl".
Os ingleses do Magic Numbers não escreveram “Let it be” ou “Surfer girl”, e certamente não estão na mesma liga dos gênios acima (deveriam estar?). Mas na noite de anteontem, enquanto assistia ao show deles no Circo Voador, era tomado pela certeza de estar vendo uma banda que busca, canção após canção, transmitir a tal alegria incondicional definida de Brian Wilson. Se as fantasias e os confetes fazem do show do Flaming Lips uma inesquecível celebração de sorrisos, os Magic Numbers transmitem sensação muito semelhante (e tão intensa quanto) confiando apenas em sua música. No palco, os irmãos Stodart & Gannon transformam-se em pãezinhos cantores, e as simpáticas canções da banda tornam-se mais memoráveis a cada compasso. Se em disco a banda oscila entre belas melodias e momentos que beiram o asceticismo, é ao vivo que os vocais quase transparentes de Romeo e Angela ganham força real, as canções assumem seus devidos traços, e a baixista Michele Stodart prova ser das personagens mais interessantes de se ver em um palco na atualidade (não só por - como havia me alertado o Melvin - pilotar o instrumento com impressionante ousadia, mas também pela desinibida presença de palco que confere uma graça a mais à simpatia latente da banda).
Embora 2007 esteja muito longe de nos brindar com um calendário de shows tão marcante quanto o de 2005, a vinda dos Magic Numbers foi uma agradabilíssima surpresa. Curioso como uma banda que nunca tomei como mais que simpática tenha a capacidade de girar a chave certa, e me lembrar porque um dia decidi dedicar minha vida a ouvir e fazer música.
3- Assim como nos shows, 2007 não tem sido ano dos mais impressionantes no calendário cinematográfico carioca. Resta-nos celebrar a quase obra-prima "Medos privados em lugares públicos" (Coeurs), do veterano Alain Resnais, em cartaz nos cinemas do Rio. Em um filme leve, mas extremamente triste, o diretor constrói uma mise en scène das barreiras inevitáveis que, apesar dos encontros, separam as pessoas (marcado pelo belo recurso estético das cortinas e dos vidros que contornam a direção de arte, permitindo que as personagens se vejam, mas nunca se relacionem diretamente). Impressionante como Resnais parece atingir com esse filme um equilíbrio entre a abstração de suas obras mais célebres (o cinema do sujeito de "Hiroshima Mon Amour" – considerado por muitos o primeiro filme do cinema moderno – e o radicalismo temporal de "O ano passado em Marienbad") com a leveza cotidiana já indicada em “Amores parisienses”, seu último trabalho lançado no Brasil.
4- Se você sempre se interessou pelas canções que habitam as páginas deste blog, mas estava com preguiça de procura-las na internet, seus problemas acabaram! Basta ir à Casa da Matriz no próximo domingo (dia 29), onde estarei discotecando na pista 2 da festa Sundae Tracks, que encerra sua magnífica temporada de inverno. Na pista 1, show da banda Phone Trio e DJ Lins Valley cobrindo férias do Melvin. A festa começa às 23hs e vai até o sol raiar. Até meia-noite, promoção de duas caipirinhas pelo preço de uma (esbórnia garantida), e entrada por 10 R$ pra quem tiver com o nome na lista amiga. Se quiser tomar parte na bocada, é só deixar o nome completo nos comentários desse post até o meio-dia de domingo. Vai ser rock.
sexta-feira, maio 18, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:28 AM
Justificativas de uma falta não sentida
Sim, eu sei que estou passando mais tempo longe desse meu caro jardim do que de costume. Venho brincando mentalmente com novos posts dia sim, dia não, mas a verdade é que a falta de tempo tem sido entrave na dedicação mínima que cada texto me impõe. Não gosto de escrever só para tapar buracos – como é o caso desse dolorido post – e sempre tento oferecer o máximo de minha atenção a cada uma dessas mal tecladas linhas. Isso significa que - mesmo que nem sempre aparente no produto final - cada post leva de mim um tempo que, agora, não tenho para oferecer. Desde que arrumei um segundo emprego, os dias se tornaram sensivelmente mais curtos, e esse quintalzinho foi coberto pela folhagem de um outono despencado. Tenho dedicado o par de horas que separa o trabalho do sono aos últimos detalhes das minhas músicas novas, e acho que é a melhor satisfação que posso dar aos meus numerosíssimos leitores. Esse quase-tempo não tem sido suficiente para eu determinar um prazo confiável, mas acredito que nas próximas semanas concluirei as gravações, e poderei, enfim, compartilhar esses meus novos cantantes com vocês. É extremamente excitante estar tão envolvido com música novamente, trabalhando comigo mesmo, criando em casa. Estou positivamente surpreso com o resultado das gravações até agora, e espero que vocês gostem das crianças e tenham vontade de leva-las para um passeio ao sol - quiçá um sorvete. Enquanto essas novas cançõezinhas correm desordenadamente pela casa, trocando e destrocando seus calções de banho coloridos, parto com a promessa de visitas bem mais freqüentes assim que estiverem todas penteadas e prontas pro fim-de-semana. Até lá, assistam várias vezes ao novo clipe da Feist. Essa garota não só é das artistas mais interessantes de nossos dias, como faz questão de dançar em todos os seus vídeos.
sábado, abril 14, 2007
Postado por Fábio Andrade às 3:09 PM
Por uma vida menos mediada
The tyranny of framing our attention with all the eyes their eyes no longer see. (The Weakerthans)
Meio dia atrás, quatro ou cinco pessoas me separavam da fisicalidade de meu passado. Dividia meu suor com desconhecidos, tentando chegar um pouco mais perto da imagem presente de ícones de minha formação. Aprendi o que é rock com o Guns’n’Roses. Quando tinha nove anos de idade descobri o Appetite for Destruction, dando o segundo passo em direção à vida que tenho hoje, em caminhada que começou com “Patience”, no post passado. Comprava toda e qualquer revista que trazia matérias sobre o Guns, abrindo a porta do jornalismo musical que, por caminhos maravilhosamente impensáveis, me desembocou na dosagem de ego semanal deste blog. Deixei de participar de uma noite de fondue que meus pais fizeram, quando era garoto, para ficar na sala vendo o tributo a Freddie Mercury. Eu adorava fondue. O Axl cantou “We will rock you” e fez uma ponta inesquecível em “Bohemian rhapsody”, e o Guns’n’Roses como eu conhecia subiu ao palco em uma performance memorável de “Knockin’ on heaven’s doors”. Foi, também, a primeira vez que me lembro de ter visto Gilby Clarke, integrante mais insignificante da história da banda (mas que seria razão principal para, no ano passado, eu ter começado a ver “Rock Star Supernova”, no People & Arts). Pouco tempo depois escrevi a única carta que já mandei à Mtv, praquele CepMtv, pedindo que eles passassem a tal apresentação. Recebi uma carta de desculpas da emissora, pois eles não tinham os direitos de exibição da performance dos meus sonhos. Embora aquele pedaço de show tenha se tornado clipe mais votado no “Top 10 Europa”, a MtvBrasil não podia exibir o clipe em sua programação normal, pois os direitos – como hoje percebo – estavam na mão da Rede Bandeirantes. A mesma Bandeirantes que passou o insuperável show de Paris, e um encontro mal situado na memória de Slash com Lenny Kravitz (segundo a narradora, amigos desde a época do colégio).
Meio dia atrás, porém, estava diante da coisa em si. Adeus anos de mediação e simulacros; à minha frente estava o homem que me fez, um dia, querer chegar perto de uma guitarra. Slash parece ter sido conservado pela memória de seus fãs; sua imagem atual é quase idêntica à que temos, todos, na memória. Na quarta fila do Citibank Hall, eu tinha a chance de olha-lo, literalmente, nos olhos. À minha volta, porém, dezenas de supostos fãs acidentavam o trajeto da visão com mãos em riste, empunhando máquinas fotográficas digitais e telefones celulares. Espremiam-se para chegar mais perto, mas buscavam território apenas para conseguir um melhor enquadramento. Tiravam, todos, fotos essencialmente iguais; mas pareciam acreditar que a autoria do registro valia mais que o momento perdido, a vida que os olhos deixaram de ver enquanto estavam fixos no LCD da câmera. Em devaneio de desejo, empunhava, eu, um taco de beisebol e, com gritos espartanos, quebrava os pulsos, um a um, de todos que insistiam mediar meu contato visual com o passado. Por longos anos, minha relação com essa memória foi conduzida por simulacros. E quando tenho a chance, muitas vezes impensável, de ter um encontro físico com minha trajetória de vida, duas dúzias de aparelhos eletrônicos insistem em tornar essa troca direta em contato novamente mediado.
Sou grande entusiasta tecnológico. Acho magnífico que, a partir de determinado momento, todos os show do Invisibles tenham sido registrados, anonimamente, de alguma forma. Acho a democratização do autor tão bacana que, ora bolas, tenho meu próprio blog. O porém só se torna necessário quando a possibilidade de registro permitida pela tecnologia passa a substituir a vida. O registro tem como função imortalizar um encontro real. Sempre será, porém, simulacro de algo que passou, que não voltará, e cuja essência não é (e tendo a acreditar que, a despeito de todas as impensáveis tecnologias que o futuro nos trará, nunca será) transferida ao simulacro. O incômodo da substituição do encontro pelo simulacro vem justamente do sentimento de que esse registro é legitimado pela autoria. Mais importante do que estar presente é ter as fotos que você mesmo pôde bater como prova de sua presença (se estiver perto, melhor ainda). E aí surgem fenômenos tresloucados como o enquadramento fotologueano de uma mão tirando uma foto de um show, em uma versão moderna da piada do “Mad about you” em que o personagem de Paul Reiser dirigia o making of do making of do “Titanic”. A falta de etiqueta faz o simulacro ser mais importante do que o mundo.
Duas semanas atrás, fui ver a bela apresentação do Evens na AudioRebel. Como disse o vocalista da banda, show que começava no palco, mas terminava na última pessoa presente na casa, que compartilhava aquele frágil momento com Ian Mackaye e Amy Farina. A delicada atmosfera criada por banda e público, que conseguia fazer do calor e aperto da Rebel um ambiente agradável, era ferida pelo flash irritantemente constante de alguém que queria registrar o show inteiro em sua máquina digital. Após a primeira ou segunda música, Ian Mackaye perguntou diretamente à pessoa se não existia uma maneira de se fazer a gravação sem que o insistente flash ficasse ligado o tempo todo. Corte seco para fevereiro do ano passado, e o momento em que uma das garotas escolhidas por Bono para subir ao palco do U2 teve sua tentativa de registro com a câmera de seu telefone celular impedida pelo próprio vocalista. Você paga caro para ir ao show do U2, tem a sorte de ser puxada para o palco pela estrela principal da noite e, em vez de aproveitar seu momento, perde tempo sacando o celular para tirar sua própria foto. No dia seguinte, fotos diferentes daquele mesmo momento ilustravam reportagens em todo tipo de mídia sobre o show. O registro, portanto, seria feito. A garota escolhida pelo vocalista do U2 era tomada pela insana necessidade de ter o registro do seu ponto de vista, mesmo que isso fragmentasse a experiência real. Se Bono, artista que encoraja que as pessoas levantem seus celulares durante o show, achou que a moça tinha passado dos limites, é porque as intenções andam por caminhos errados.
O encontro que caracteriza todo show vem sendo sacrificado pelo seu registro. O simulacro, que sempre serviu para encurtar a distância entre mundos, é agora ferramenta que cria abismos entre pessoas que respiram um mesmo ar. Lembro de como sempre foi difícil enxergar os olhos de Slash nas fotografias. O cabelo no rosto, os óculos escuros e a cartola - cuja sombra fazia a função dos óculos quando os olhos estavam descobertos - impediam que a luz penetrasse nas concavidades de seu rosto. Ontem, quando conseguia olhar por entre os braços levantados – pilares de deselegante inconveniência – minhas lembranças ganhavam feições no presente. Feições fluidas que contrariam a própria noção de enquadramento. Afeto que não cabe em um LCD. Nesses instantes iluminados, ver o Velvet Revolver de tão perto foi um tributo à minha existência. Pude, enfim, olhar meu passado nos olhos, enxergar os detalhes que estão fora do alcance do filme (ou da imagem eletrônica). E, enquanto olhava o presente construído pelas pessoas ao meu lado, fiquei em paz com o pensamento de que aquela caminhada começada com “Patience” não tem sido tão ruim assim.
quinta-feira, abril 05, 2007
Postado por Fábio Andrade às 10:54 PM
Entre dias
Quem acompanha o blog do Lúcio Ribeiro sabe que ele vive citando o mais novo hit do mais novo hype que fala que Smiths é apenas uma banda, e que Arctic Mokeys também é apenas uma banda. Embora eu não consiga imaginar que alguém no mundo pudesse pensar que os Arctic Monkeys fossem qualquer coisa além disso (pra falar a verdade, mal isso eles são), existem canções que não me parecem somente canções. No último domingo, fui requebrar as noites sem dormir em mais uma noite sem dormir na Sundae Tracks, festa do Melvin. Lá pelas muitas ele tocou a versão apressadinha do Ben Folds para “In Between Days”, clássico inquestionável do Cure. E, enquanto dançava a música pela milionésima vez, não conseguia afastar a impressão de que “In Between Days” não é apenas uma canção.
Desde que passei a realmente me interessar por rock, tenho o costume inconsciente de memorizar a primeira vez em que ouvi determinadas músicas. Se penso em “Every night”, do Screeching Weasel, ela vem com o excesso de agudos do timbre da Sony-UX que meu amigo Léo à época me emprestou. Ouvi “Patience” na rádio 104.1 de Barra Mansa, quando era garoto, e logo vi que alguma coisa tinha acabado de mudar radicalmente em minha vida. “Today”, do Smashing Pumpkins, chegou até mim pelo péssimo sinal UHF da Mtv (assim como “Say it ain’t so” e “Basket Case”), enchendo minha vida de cores ruidosas que até então desconhecia. “Misunderstood”, do Wilco, foi pelo meu discman, ouvindo o Being there, à época emprestado (que permanece “emprestado” até hoje), em uma noite de verão no ônibus da Cidade do Aço, a caminho de Barra Mansa. “The way I feel inside”, canção do Zombies que o Invisibles tocou em todos os shows de despedida, foi assistindo “A vida marinha com Steve Zissou”, no Vivo Open Air de 2005. “Regret”, do New Order, tocava na propaganda de alguma trilha-sonora de novela (era a mesma que tinha “Luka”, ou minha memória mistura as trilhas?). “Smells like teen spirit” também veio em trechinho, em uma vinheta de bandas novas da Mtv que também tinha “Alive” e “Man in the Box”. “The outdoor type” foi numa cena do filme “Heavy”, onde a Liv Tyler contracenava com o Evan Dando tocando a música no violão. “Suspiscious minds” foi em “Um estranho chamado Elvis”, filme com Harvey Keitel de onde tiramos o diálogo da parte instrumental de “Hello”. Mas e “In Between Days”?
Quando estudava inglês, minha professora gostava de levar letras de músicas com pedaços faltando pra gente completar. Toni Braxton, Take That (com aquela música bichona do Cat Stevens) e a música do Aerosmith pra trilha do “Armagedom” eram o padrão que ela normalmente escolhia; até que um dia levou “Boys don’t cry”, que não me lembrava de já ter ouvido antes. Gostei tanto da canção que pedi o cd emprestado. Era uma versão safada do Staring at the sea, com capa diferente e o incompreensível título de The Cure in Brazil. Passei pelo resto do cd sem impressões marcantes, até que lá pro final do disco tocou “In Between Days”. Embora não conhecesse “Boys don’t cry”, “Inbetween Days” se revelou prontamente familiar com sua inconfundível frase de teclado. O ar logo ficou mais curto – como sempre fica quando me emociono repentinamente – e comecei a cantarolar a melodia daquela emoção há tanto perdida na memória. Não tinha a menor idéia de que aquela canção era do Cure, pois até o momento sequer me lembrava da canção em si. Desde então venho tentando rastrear a primeira vez em que ouvi a mais deslumbrante criação de Robert Smith, sempre ciente de que a busca está fadada à esterilidade. “In Between Days” é uma daquelas raras obras que parecem se confundir com a própria vida, sem que a gente consiga imaginar o mundo antes de ela existir. É madalena que não leva a tempo algum. É a canção pop perfeita, pois Robert Smith provou ser possível construir a estrutura de todo um imaginário coletivo em apenas dois acordes (os outros dois do refrão são apenas o acabamento). E, mais impressionante, sempre que a ouço novamente ela ainda me parece tão bela quanto da imemorável primeira vez. Se eu tivesse que escolher a minha canção favorita de todos os tempos, qualquer outra seria uma imperdoável injustiça.
* * *
Na mesma Sundae Tracks, o DJ Rasta espremeu “Conversation” entre Lemonheads e Weezer quando eu ainda estava na pista. Não ouvia a canção desde o último show do Invisibles e, devo confessar, ela soou extremamente bem naquele momento. É muito incomum eu conseguir ouvir uma das minhas canções sem ficar constrangido, mas acho que nesse domingo tive a rara chance de receber “Conversation” como qualquer outra pessoa. Deixei que os arranjos me surpreendessem, que a letra aos poucos voltasse à memória, e por um momento quase desejei que o Invisibles ainda existisse para que nós pudéssemos toca-la mais uma vez. Mas só por um momento. Porque as canções que realmente desejo tocar hoje em dia são as que tenho feito recentemente, e que pretendo dividir com vocês assim que elas aprenderem a respirar com os próprios pulmões.
sexta-feira, março 30, 2007
Postado por Fábio Andrade às 8:22 PM
Sob a música
Bruno Maia - amigo desde a faculdade e atual parceiro no Chappa - escreveu no seu ótimo sobremusica uma reflexão acerca de uma conversa que tivemos há um par de dias. Comentava com o Bruno que apesar do número crescente de veículos na internet que se propõem a falar sobre música, poucos realmente dedicavam atenção à música em si. Sabemos quem está fazendo turnê com quem, quais as cores das novas camisas lançadas por todas as bandas do mundo, ou que roqueiro louco foi parar na cadeia depois de fazer alguma roqueirice mais descontrolada. Mas, tirando a Pitchfork e algumas gotas mais inspiradas do AMG, ninguém estava realmente se debruçando com maior cuidado sobre a música pop na atualidade. Como dizia o professor Fernando Sá sobre o jornalismo político brasileiro nos tempos de faculdade, a cobertura musical se tornou relato de corte. Sabemos com quem o rei almoçou, e quem transita pelo castelo, mas ninguém parece se importar com a natureza do quê está sendo feito.
Qual foi a última vez que você leu uma crítica brasileira que fizesse mais que indicar similares, do tipo “se você gosta de X e Y, vai gostar de Z também”? A crítica de música pop no Brasil orienta nossas compras, mas pouco diz sobre as obras. Canções estão inseridas no mundo, e cada uma delas é transcrição de um olhar sobre o mundo. O que diz esse olhar? Como ele se articula com o que está sendo feito na arte no momento, ou foi feito no passado? Como recebemos essas declarações sobre o mundo? O que normalmente nos é oferecido são resenhas chapa-branca (amor pela democracia ou medo de perder anunciantes?), ou indicações como “banda com letras políticas” (sem nunca ter o cuidado de entender que discurso político é esse) e “uma original mistura de ritmos” (que ritmos? O que quer dizer essa mistura?), em duas ou três linhas de palavras jogadas. Todo mundo sabe que Amy Winehouse é uma garota branca com voz de negona, que ela tem atitude e visual controversos, e que suas letras falam de sexo (nossa!) e drogas (duplo nossa!). Mas quantos textos você leu que discorressem sobre a maravilha que é o disco Back to black?
A impressão que tenho é que, com raras exceções, a crítica de música pop não leva o gênero que se propõe comentar a sério. Se temos hoje a Contracampo e a Cinética fazendo trabalhos interessantes no cinema, são frutos de uma consciência crítica que já existe no Brasil desde Moniz Viana ou Alex Viany. O que as duas revistas perceberam de original é que na internet não existe a limitação de espaço dos boxes de jornais e revistas, e que por isso é meio ideal para análises mais dedicadas. A crítica musical na internet mantém as três linhas das revistas superpopuladas por resenhas, e as impressões cristalizadas nos primeiros 20 segundos da primeira canção. Em mundo onde o tempo de se baixar um disco é quase o mesmo de o necessário para se ler uma resenha, para quem esse tipo de crítica ainda é relevante?
O Bruno fala em época de vacas magras na música brasileira; mas como esperar que fosse diferente? Se o crítico não leva a sério a produção de sua época, a tendência é que o ouvinte tenha uma relação cada vez mais efêmera com ela, e que o Ryan Adams continue lançando 30.000 discos de bobagens por minuto na internet. Balela aquela história de que a crítica é mera atividade parasitária, pois o pensamento crítico ajuda a definir os caminhos da arte. É claro que todos os avanços tecnológicos e as tendências comportamentais são importantes, mas e o centro de tudo isso? Temos interessantes estudos sociológicos sobre o YouTube, olhares cuidadosos sobre os sucessos do MySpace, e dissertações cíclicas sobre o novo samba de classe média na Lapa. Que eles continuem sendo feitos. Mas e a música? Quem fala sobre ela? Quem ainda tenta decifrar um disco com paixão e afinco nos dias de hoje? Quem dedica quatro ou cinco parágrafos de reflexão original sobre o impacto de uma obra? E, ao mesmo tempo, será que precisamos de mais gente nos dizendo que o sucesso do Fresno e do Cansei de Ser Sexy são pedras fundamentais de uma nova era dos meios de comunicação?
Fenômenos como esses têm lá seu interesse, mas são o ruído branco que emudece boas questões. Esse blog não é exatamente sobre música, mas toda vez que me proponho a escrever sobre o assunto, tento faze-lo da forma mais dedicada possível. Tento entender o que existe sob a música; o que faz que uma determinada combinação de barulho e melodia chegue até mim de forma mais intensa do que outra. Tento perceber como elas alteram meu olhar sobre o mundo e me formam enquanto escritor de canções. Tento respeitar o trabalho sério de artistas extraordinários que ainda fazem da música pop uma constante fonte de inspiração na minha vida. Tento escolher as melhores palavras para a batalha perdida de se narrar o brilho nos olhos. É o mínimo que posso oferecer nesse meu mal cuidado quintal. E fico com a impressão que dessa conversa com o Bruno podem sair coisas boas. Resta a torcida de que mais gente entre na discussão. Podem começar aí pelos comentários.
domingo, março 25, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:33 PM
Melhores de 2006 - Discos 
01 - Lucero - Rebels, rogues and sworn brothers
Conheci o Lucero pelo segundo álbum, uma quase obra-prima chamada Tennessee¸ lançada em 2002. A curiosa mistura de Uncle Tupelo e Replacements praticada pela banda ganhava um charme mais que especial nas gravações lo-fi à Guided by Voices, na insistente abordagem minimalista dos arranjos, e no impressionante vocal de Ben Nichols, rasgando convenções sulistas com gosto de whisky e beijos roubados. O alt-country de Tennessee afundaria ainda mais na baixa fidelidade no disco seguinte, That much further west, e viraria 180o com a produção mais elaborada (para padrões lucerianos) de Nobody’s darlings. Embora ambos fossem bons discos, o álbum de 2002 ainda guardava a aura de um tesouro perdido, de uma sensibilidade bruta que não desabrochara como imaginado nos passos seguintes da banda. Mesmo Nobody’s darlings tendo apontado um norte musical diferente, era difícil prever a virada dada nesse Rebel, rogues and sworn brothers. Ao alt-country discreto das primeiras gravações, o Lucero foi buscar inspiração em Bruce Springsteen, gerando um paradoxo musical: um disco de rock arena essencialmente minimalista. Novas sementes em solo já maduro, de onde brota não só o melhor álbum já feito pelo quarteto de Memphis, mas também a obra musical mais impressionante de 2006.
Impressionante por nascer de uma contradição de termos: como abordar o rock clássico sem trair o característico minimalismo da banda? Como resposta, o Lucero cria algo completamente novo, rearticulando convenções separadas pelo tempo. Sobrevivem a inabalável timidez da bateria de Roy Berry e o timbre particular (terrível quando isolado, mas homem de família dentro das canções da banda) da guitarra de Brian Venable; mas entram os inestimáveis teclados de Rick Steff (responsável pelas teclas nos discos da Srta. Cat Power), uma boa dose de velocidade, e o vocal de Nichols em sua melhor forma, traduzindo como nunca a urgência das canções da banda. Sim, a pequenez dos arranjos (nunca tocando mais do que o estritamente necessário) do Lucero não trai a urgência de cada peça musical que compõe Rebel, rogues and sworn brothers, e muito disso nasce na interpretação vocal de Nichols. Contradição que transcreve o que existe de mais interessante na cultura norte-americana: a reapropriação, o convívio das mais arraigadas tradições com a ponta extrema da modernidade, a criação de algo novo pela inversão de desgastadas convenções.
Valores muito bem resumidos em “What else would you have me be?”, lamento de um marginal apaixonado que cobre batida tirada dos clássicos de Phil Spector (produtor famoso pela super-produção dos arranjos) com simples Mi-Lá-Si. Contradição tão clara quanto o encontro do produtor com os Ramones, em End of the century: a convivência de extremos do básico e da exuberância. O bruto que se dobra. O bandido que chora por a amada (para quem comprava bebida e cigarro) ter partido: “I gave you everything I stole / And you stole your heart away from me / A pair of thieves and don't you know / That's the way that we will always be / You used to love me / Running wild and sleeping with the thieves / C'mon baby, what else would you have me be?”. “I don’t wanna be the one” busca outros três acordes (que, ao fim do dia, acabam sendo os mesmos) para desenhar um rock sem curvas, em que a bateria não pisa no freio nem mesmo para o solo de hammond, no meio da canção, e um quarto acorde aparece para ajudar no belo riff de guitarra.
É em “San Francisco”, porém, que o Lucero mostra onde de fato chegou. Tão básica quanto qualquer outra canção da banda, ela mistura acordeão a riffs precisos de guitarra, e uma das interpretações vocais mais impressionantes da música recente. “Like unlucky sailors just swept out to sea / I think all the girls I've loved walked through your streets /But the waves and the fog always took 'em from me”, canta Ben Nichols, esgarçando cordas vocais em desespero autêntico como não víamos desde a partida de Kurt Cobain. Todas as bandas de screamo parecem ainda mais patéticas, e toda a porcariada que se convencionou chamar de emo afoga em rasos pires; os homens encarnados por Nichols já passaram há muito da adolescência e já viram de tudo nessa vida, mas ainda assim sofrem como o diabo nas mãos das mulheres. Mas em vez de criarem barreiras de rancor, como alguns famosos maus rapazes do rock, curvam-se como narradores de filmes noir -vistos sempre através de copos cheios e fumaça de cigarro - diante da femme fatale que é o amor.
E bem quando achamos ter presenciado o ápice de uma banda, vem “I can get us out of here” para mostrar que o jogo está muito longe do fim. Guiada por intoxicantes linhas de teclado, a canção é síntese irretocável do inusitado encontro de gêneros promovido pelo Lucero em seu mais recente trabalho. Como em “Depois de horas”, acompanhamos o casal que passa a madrugada perdido no lado errado da cidade (quase enxergamos os olhos azuis da garota que cegam como o sol), e sentimos que a canção que narra o evento poderia bem ser a sua trilha-sonora. E com quatro ou cinco acordes o Lucero nos carrega por uma das melhores canções do ano, berrando “isto sim é o ápice de uma banda”.
Se o ritmo imposto pelas quatro primeiras canções não é mantido pelo resto do disco, Rebels, rogues and sworn brothers traz boas surpresas suficientes em nunca perder a atenção do ouvinte. “1979” baixa a pressão do disco e, mesmo não sendo tão brilhante quanto o hino dos Smashing Pumpkins, tem espaço para versos como “Now don't, don't give up on me not quite yet / Leaving me with only letters that I said I never kept” ou o final “Tell me why, just why / You had to go / Cause I'm, I'm no good / Out here on my own”. “Cass” lembra “A mulher mais linda da cidade”, de Bukowski, e ganha um memorável riff de guitarra. “The mountain” e “Sing me no hymns” se aproximam de The Who, em rockões mais cadenciados e dinâmicos. A extraordinária “She’s just that kind of girl” retoma o pique inicial das primeiras faixas com um belo riff, e parece a irmã pouco menos atraente (mas ainda deslumbrante) de “I can get us out of here”.
E, ao fim do disco, temos as baladas, claro. “On the way back home” e “She wakes when she dreams” fecham o disco à maneira do velho Lucero, melancólico e nostálgico como todo balcão de bar. Na primeira, dois amigos que saíram da cidade natal se reencontram a caminho de casa, e contemplam as curvas que suas vidas tomaram. “To get outta here / Two options one chance / You joined the army / I started a band”, canta Nichols em verso capaz de resumir um país. “She wakes when she dreams” é conduzida por uma linda linha de piano, tocada com uma delicadeza que se choca com a rouquidão do vocal. Mais uma vez o passado define o presente: “Nothing it seems went according to plan / Who are we kidding, there was never a plan / We followed our instincts / In the worst kind of ways”. E agora a garota dorme quando está acordada, e busca refúgio nos sonhos que a levam para a vida que gostaria de ter tido.
segunda-feira, março 12, 2007
Postado por Fábio Andrade às 10:10 PM
Melhores de 2006 - Discos 
02 - The Hold Steady - Boys and Girls in America
Colocar uma descoberta recente entre as melhores coisas de 2006 pode parecer exagero de ouvinte afobado. A não ser que a descoberta em questão seja Boys and Girls in America, mais novo trabalho do quinteto nova-iorquino Hold Steady. O terceiro disco da banda (conheci os outros dois apenas em retrospecto) é a mais urgente peça de música lançada em 2006. Auto-intitulada como a banda de bar número 1 da América, o Hold Steady dilui Bruce Springsteen e Thin Lizzy em uma mistura de destilado com todas as drogas que estiverem ao alcance, e em 11 faixas te leva para uma noite que parece sempre longe de acabar.
Mas por que canções que combinam álcool, drogas, garotas e rapazes ainda fazem tanto sentido? O que diferencia a poesia de pé sujo de Craig Finn, líder do Hold Steady, de toda a bagaceirice chata dos anos 70? Por que um álbum que começa citando Kerouac ainda ressoa no mundo? O enigma por trás de várias dessas perguntas é um dos principais méritos de Boys and Girls in America. E quando tiramos do caminho tudo aquilo que não conseguimos decifrar, sobra uma particularidade essencial: em vez de falar sobre os atos, Finn canta a sinestesia das lembranças.
Para os olhos de Craig Finn, o mundo é bastante semelhante àquele de Wong Kar-wai. Os encontros são fugazes, os reencontros não raro decepcionantes, os significados são posteriores, os diálogos se repetem. A memória é o único registro. A diferença é que os filmes de Kar-wai se preocupam com questões amorosas de policiais, matadores e escritores, enquanto as canções do Hold Steady falam sobre jovens em uma festa interminável. E se o recorte traz riscos inevitáveis (paternalismo, moralismo, generalização), Finn torna toda a situação mais complexa adicionando uma dose cavalar de culpa cristã. Os rapazes e garotas na América se despem da moralidade para encontrar a noite perfeita, mas esbarram em dogmas e costumes da infância que impedem que a experiência seja plena. Tomam toda sorte de drogas para construir momentos inesquecíveis, mas essas mesmas drogas esfumaçam a memória e deturpam o registro. “Most nights were crystal clear but tonite its like it's stuck between stations on the radio”, define a faixa de abertura. A imprecisão da memória é dado essencial em Boys and girls in America. Era ou não era a mesma garota? Houve ou não houve o beijo?
Difícil separar o conteúdo musical do lírico no Hold Steady: o conceito da banda é tão bem delineado que acordes e palavras buscam, sempre, um mesmo efeito. Estão lá os pianos tirados de Born to run, as guitarras oitavadas de Jailbreak, os metais que lembram Rocket From the Crypt e os solos que derretem os rostos dos mais dedicados heróis da air guitar. Mas tudo isso cairia no saudosismo vazio não fossem as estórias. A garota que beija como nenhuma outra, mas não é cristã das mais confiáveis (e que dança melhor que qualquer uma, mas daria uma péssima namorada). O poeta que morre por acreditar que suas palavras eram boas o suficiente para salvar sua vida. A viciada que ganha dinheiro nas corridas de cavalo e gasta tudo comprando drogas pros amigos (personagem que parece saída de “Estranhos no paraíso”, clássico de Jim Jarmusch). A banda que toca “Sabbath bloody sabbath”. A garota que sofre por nunca conseguir ficar tão chapada quanto da primeira vez, e chora ao falar sobre Jesus. Os beijos que fariam Judas parecer sincero. Os lençóis que mancham, e os pecados que saem com água. Personagens e idéias que reaparecem em diferentes canções, como as pessoas que você conhece de vista por irem sempre à mesma festa que você.
Se o universo criado por Finn alcança a rara proeza de fazer um disco parecer interessante no papel, as canções são razão suficiente para colocar (quase) todo o Boys and girls in America na lista dos rocks mais legais de 2006. “Stuck between station” abre o disco de forma mais que apropriada: todos os elementos que serão aprofundados nas canções seguintes já aparecem nos primeiros 30 segundos. Os riffs pontudos de guitarra, as belas linhas de teclado e órgão, o vocal quase falado de Craig Finn; o jogo fica claro de início, e a fruição do álbum está voluntariamente vinculada a essa primeira impressão. “Chips Ahoy” é séria candidata a melhor faixa do disco, com seu memorável duelo de guitarra e hammond e o vocal de galerão no refrão. A compassada “Hot soft light” tem um dos melhores refrões do disco. “Same kooks” é, sozinha, justificativa para a invenção da guitarra.
E, como toda banda de rock clássico digna de um vintém, o Hold Steady também compõe baladas. “First night” é a que melhor desempenha o papel, embora os violões de “Citrus” e os pianos de “Party pit” rendam preciosos respiros ao longo do disco. “Massive nights” é fanfarronice em forma de música, e a incrível “Southtown girls” é pronta candidata a uma das melhores canções para se cantar bêbado já feitas na história (lembrando que “Living on a prayer” tem título intransferível nessa categoria). E embora a banda promova o cruzamento de gêneros e instrumentos pouco prováveis, Boys and girls in America se sustenta com inabalável unidade.
A preocupante exceção é “Chilout tent”, penúltima faixa do álbum. Tentativa mais rebuscada de contar uma estória, a canção traz Finn como narrador, enquanto Dave Pirner (ex-Soul Asylum) e Elizabeth Elmore (Sarge/The Reputation) fazem as vozes dos personagens principais. O aprofundamento teatral na estória de dois jovens que se conhecem tomando intra-venoso no posto médico de um show acaba revelando uma canção mal acabada, provando que muito do que impressiona nas letras de Craig Finn está mais intimamente ligado à música tocada pela banda do que percebemos. A voz de Elizabeth Elmore está em registro tão desconfortável que estraga um bom refrão, quebrando a diegese proposta pela própria canção. Todas essas deficiências fazem de “Chilout tent” uma exceção em um álbum quase perfeito. Essa exceção só se torna preocupante quando percebemos que a canção expõe algumas das fraquezas do universo lírico que, até então, nos conduzira de forma tão impressionante. Os personagens ganham caracterizações tão extremas que se aproximam de caricaturas, e as sedutoras imagens de Finn parecem ressoar em um acomodado vazio.
Não fosse a possibilidade de esgotamento prematuro de um projeto estético em formação, Boys and Girls in America estaria no topo da minha lista esse ano. Raramente encontramos discos tão abertamente apaixonados pelo rock’n’roll quanto esse, e estar diante de obra que transpira honestidade só faz desmontar as aparências que macularam um mundo que, um dia, nascera para ser espontâneo.
domingo, março 11, 2007
Postado por Fábio Andrade às 9:57 PM
Chappa
A razão para minha falta de periodicidade recente aqui no blog é que estou, também, escrevendo para o recém-criado site Chappa. Enquanto esse blog continua sendo lar de todas as minhas inflamações de ego, o Chappa é uma boa fonte para quem se interessa por todo o lado industrial/tecnológico/econômico da música. Além do site, o grupo Chappa estará promovendo, nas próximas quatro quartas-feiras, o Música Chappa Quente - uma série de debates sobre música em quatro faculdades cariocas. A lista dos convidados confirmados para cada uma das mesas está disponível no site, e o flyerabaixo traz todas as datas e locais. O evento é gratuito e aberto ao público. Não hesitem em repassar.
sexta-feira, março 09, 2007
Postado por Fábio Andrade às 8:25 PM
Melhores de 2006 - Discos 
03 - Johnny Cash - American V: A Hundred Highways
“It should be a while before I see doctor Death”, canta Johnny Cash em “Like the 309”, a única canção propriamente inédita de American V: A Hundred Highways. Somos tomados pela sensação de que, talvez, a primeira linha da última canção escrita por Cash não seja mais que uma tentativa de auto-convencimento, e imaginar sua imponência curvada diante do inevitável é de desmontar homens feitos. Pouco tempo depois, Johnny Cash foi tirar suas contas com o tal doutor, e esse A Hundred Highways ganha inevitáveis feições de testamento. A obra derradeira do iluminado encontro de dois homens-música (Johnny Cash e Rick Rubin) é um auto-retrato, uma biografia em canções.
Muito do brilho da série American Recordings é mérito de Rick Rubin. A idéia do produtor de trazer Cash para o presente, buscando cruzamentos possíveis de suas premissas estéticas com a música pop contemporânea, é o que faz com que os cinco discos sejam pontos altos em uma obra tão vasta e importante. Embora nem todos os passos tenham sido firmes, a American Recordings se afirma, com esse último volume, como uma das mais impressionantes criações da música recente. A produção de Rubin – aqui concluída após o falecimento de Johnny Cash – não trai a adequada discrição dos volumes anteriores, e adorna uma das mais icônicas vozes da música mundial com arranjos simples e de finíssimo gosto.
Mas como falar de música quando estamos ouvindo o balanço de vida de um artista? O que é a música diante da existência? Para que servem canções quando a morte não mais se confunde com a linha do horizonte? Em A Hundred Highways, o artista parece nos dizer que vida e música são uma coisa só. E se o disco é tomado de uma serenidade por vezes desconcertante (sensação próxima à transmitida pelos últimos filmes de Akira Kurosawa), a voz de Cash parece ter amado cantar a vida. Se ele abre o disco pedindo ajuda a Deus em seus últimos passos, é porque Cash quer nos levar em uma última caminhada pelos entroncamentos da memória. A humildade perante os mistérios da vida - nervo central de sua estética - requer esse humilde pedido diante dessa inquietação maior. Atendido o pedido, Johnny Cash canta para nos mostrar, em cada faixa, a beleza desses mistérios.
“If you could read my mind” canta a distância inevitável entre duas pessoas que se amam, e a combinação entre a interpretação do cantor e o humor original da letra culmina em fascinante ambigüidade. “The feeling’s gone and I just can’t get it back”, lamenta Cash, ao final da canção. Mas a caminhada continua, como diz “Further on up the road” – bela interpretação de Cash para a canção de Bruce Springsteen. “On the evening train” traz a dor para o primeiro plano: “The babies eyes are red from weeping / His little heart is filled with pain / ‘Oh daddy,’ he cried, ‘they're takin' momma / Away from us on the evening train’ ", diz o narrador, enquanto um caixão é colocado dentro do trem. Moldada pelo timbre de Cash, a dor da criança pela percepção da morte se torna evidência da vida.
“Love’s been good to me” começa humilde, mas escala diminutos para terminar como uma das mais impressionantes canções do disco. O amor que partiu em “If you could read my mind” é revisitado, aqui, sem nenhum traço de arrependimento: “There was a girl in Denver / Before the summer storm / Oh, her eyes were tender / Oh, her arms were warm /And she could smile away the thunder / Kiss away the rain / Even though she's gone away / You won't hear me complain”. Ao fim da vida, a memória perde qualquer rastro de amargor, e se torna agradecimento pelo que foi vivido. E, aos poucos, Johnny Cash nos conduz por todos os mistérios que sempre o encantaram: amor, Deus, vida, música, morte, consciência.
O quinto volume da American Recordings é um registro último dessa visão de mundo, que se torna ainda mais fascinante por chegar íntegra ao final. A interpretação de Cash demonstra o refinamento conquistado com os anos, e a consistência de seu projeto artístico domina cada uma das 12 faixas do álbum. Seu testamento não poderia contradizer mais o discurso de “Johnny & June” (ou, se preferir, Walk the line), filme de James Mangold sobre a vida do cantor. Enquanto Mangold constrói um homem partido que alcança a redenção, Johnny Cash retruca que a vida partida é a redenção em si. Se as linhas onde ele caminhou foram tortas, foram as linhas que ele escolheu para escrever sua história. Os eventos, em si, pouco significam. O que sobrevive é a intensidade com que eles foram vividos, a pulsação que conduzia a caneta nos traços dessa biografia.
quarta-feira, março 07, 2007
Postado por Fábio Andrade às 1:07 PM
Melhores de 2006 - Discos 
04 - Belle & Sebastian - The life pursuit
Dia desses ouvi uma estória sobre o Miles Davis. Reza a tal estória que ele ficava incomodado por as pessoas ficarem conversando durante suas apresentações, até que decidiu se afastar um pouco do microfone. Miles Davis reparou que, tocando mais baixo, as pessoas tinham que fazer silêncio para ouvi-lo, e por conta disso ele criou um novo estilo, uma nova maneira de tocar. É mais ou menos assim que eu me sinto em relação ao Belle & Sebastian. A delicadeza que a banda usa para esculpir cada acorde é tão bem calculada que você tem que parar de fazer qualquer coisa para ouvir seus discos. Tudo parece tão belo e frágil que um movimento mais brusco teria o poder de quebrar o tempo das canções. Então você senta e fica ali, quieto, ouvindo o que a banda tem pra te dizer.
Essa delicadeza é o que o Belle & Sebastian sempre teve de mais original. Foi isso que impressionou quando o grupo tomou o mundo pelo pé do ouvido, com o belo The boy with the arab strap – disco que, na verdade, resume o trabalho que a banda já fazia nos álbuns e singles anteriores. Em época de gravações ultracomprimidas, os sussurros da banda se destacaram entre os gritos, e o mundo parou para ouvir. Esse estilo tão bem delineado parecia, porém, atingir o paroxismo no disco seguinte. Fold your hands child, you walk like a peasant mantinha todos os elementos que faziam do B&S uma banda especial. Apesar disso, a fragilidade das canções logo assumia a forma de fraqueza, e a impressão inevitável era a de que a estética da banda se tornava decrescente. Tudo estava no mesmo lugar, mas esse lugar não parecia mais tão agradável. O disco te mandava sentar para escutar, mas você logo ficava com calor e tinha vontade de ir fazer outra coisa.
O fim do B&S como conhecíamos estava decretado pelas próprias canções. Até que saiu o disco seguinte, Dear catastrophe waitress, e a trupe de Stuart Murdoch se mostrava tão ciente das limitações de seu velho projeto estético quanto qualquer pessoa com orelhas. Chamar o disco de ruptura seria banalizar o termo, mas canções como a magnífica “If she wants me” e “You don’t send me” traziam um inesperado novo fôlego à banda. Não era a constatação de que o paroxismo não passava de aparência, mas sim sutis mudanças que indicavam um processo de transformação lento, porém definidor.
The life pursuit começa com poucas novidades aparentes. “Act of the Apostle part 1” desfia as tradicionais imagens religiosas de Murdoch por uma melodia embebida no melhor dos Zombies. Soa delicado, bonito e a garota que adormece ao sentir o peso do sol sobre a nuca sonha em se tornar uma canção (“Oh, if I could make sense of it all! / I wish that I could sing /I’d stay in a melody / I would float along in my everlasting song / What would I do to believe??”). Soa exatamente como Belle & Sebastian, mas algo parece dizer que a canção será apenas um guia conhecido em uma jornada por lugares nunca antes visitados. O andamento aperta em “Another sunny day”, lembrando as melhores faixas do brilhante If you’re feeling sinister. Apesar de ainda estarmos em território conhecido, a canção é tomada por uma energia que contradiz a fina porcelana dos acordes, e torna a faixa ainda mais interessante. E se a vista ainda parece familiar demais para ser propriamente excitante, Murdoch, o contador de estórias, as sustenta com algumas de suas melhores linhas. “The lovin is a mess what happened to all of the feeling? / I thought it was for real; babies, rings and fools kneeling / And words of pledging trust and lifetimes stretching forever / So what went wrong? It was a lie, it crumbled apart /Ghost figures of past, present, future haunting the heart”, canta ele, sobre o amor que chega ao fim. As primeiras canções de The life pursuit parecem, também, cantar sobre uma banda que chega ao fim. Mas com o fim do amor desgastado, nasce outro mais atual e excitante.
“White collar boy” soa quase como uma outra banda. A bateria, mixada surpreendentemente alta para um disco do B&S, guia a linha de baixo marcante e os vocais de pergunta e resposta, como um onisciente coro grego que tenta convencer o protagonista a tomar o caminho inverso (“You were chained to a girl that would kill you with a look / It’s a nice way to die she’s so easy on the eye”). A melodia lembra Beach Boys e (vá-lá!) Supertramp, e as possibilidades de mudança indicadas pelo disco anterior tomam dimensões dificilmente imaginadas. Com as quase microfonias do final, somos conduzidos a “The blues are still blue”. Quem diria que aquela frágil banda escocesa construiria uma de suas melhores canções em cima de um riff clássico de guitarra? Murdoch brinca com as palavras e as cores, e troca os signos religiosos por roupas em uma lavanderia. Backing vocals galhofeiros e solos de guitarra adicionam à sobriedade da banda um toque inestimável de inconseqüência, e o Belle & Sebastian – aquele senhor aprisionado em corpo de jovem – se encanta, um pouco tardiamente, com as belezas da juventude.
The life pursuit é dominado por canções extrovertidas como as do parágrafo anterior. “Sukie in the graveyard” e “Song for sunshine” buscam teclados em Stevie Wonder, com resultados inesperadamente funkeados. “We are the sleepyheads” com seu abre e fecha de cimbal, e “Funny little frog” misturam soul e disco em divertida equação. “For the price of a cup of tea” é uma das melhores canções já escritas pela banda, e o humor discreto de Murdoch convida o ouvinte para dançar escondendo o ridículo atrás das pálpebras cerradas. “Act of the Apostle part 2” dá um passeio em um teatro vaudeville antes de retomar a primeira parte, dando mais um sujeito à cidade onde Deus adormeceu. O guia conhecido retorna para perguntar como tem sido o passeio, e assumimos a voz da personagem, cantando junto a vontade de se tornar canção.
O curioso é que, como o alívio cômico em um filme de horror, as canções de sorriso largo só fazem destacar os momentos em que o Belle & Sebastian retorna à charmosa timidez dos primeiros discos. “Mornington crescent” e “Dress up in you”, respirações necessárias para quando já perdemos o fôlego na pista de dança, soam, se não mais belas do que o Belle & Sebastian que nos conquistou no passado, mais completas por assumirem, no disco, papéis que colaboram com a fruição do todo. Nesse sentido, The life pursuit é sequenciado como nenhum disco anterior da banda, pois traz uma diversidade inédita que, inevitavelmente, cria uma obra mais versátil. Embora essa idéia não seja regra, os escoceses do B&S a usam com inteligência, e criam o disco mais consistente de suas carreiras.
Surpreendente que, em ano em que bandas razoavelmente semelhantes lançaram discos tão bons, o pai de todas elas ainda se coloque acima da prole. The life pursuit não é tão melancólico quanto o belo álbum do Camera Obscura, ou tão desafiador quanto The crane wife, dos Decemberists. Tampouco tão divertido quanto o surpreendente álbum de estréia dos (25) suecos do I’m from Barcelona. Mas é um disco que incorpora um pouco de cada um desses valores, e monta uma peça por fim mais complexa. Na arte dos discos, nas letras das canções, no design de toda a parte gráfica (ainda sonho em comprar todo o merchandise da banda, até mesmo os itens feitos para garotas), nos arranjos, nas fotos; o Belle & Sebastian sempre me parece um pouco mais do que uma banda. É uma atmosfera, um olhar, uma vontade diante do mundo. E ver essa vontade (de) se travestir de personagens diferentes, sem nunca deixar de ser ela mesma, confirma The life pursuit como um grande disco.
quinta-feira, março 01, 2007
Postado por Fábio Andrade às 3:02 PM
Melhores de 2006 - Discos 
05 - Bruce Springsteen - We shall overcome: the Seeger sessions
Bruce Springsteen foi o artista mais importante de 2006. Embora ele não tenha lançado um disco de canções inéditas, e suas turnês americanas não atraiam mais o enorme número de seguidores do passado, a influência de Bruce (o único homem que o jornalismo deveria se negar a chamar pelo sobrenome) na música pop nunca foi tão proeminente. Vários dos discos mais interessantes do ano bebiam diretamente nos melhores trabalhos do chefe, fazendo seu nome voltar a circular nas publicações de música independente. Além de tudo isso, Bruce trocou sua E street por uma big band para gravar um disco apaixonante, chamado We shall overcome: the Seeger sessions.
Para nós, brasileiros, a recepção de We shall overcome é inevitavelmente incompleta. Em primeiro lugar por sua inspiração maior, o ícone folk Pete Seeger, não ter no Brasil expressão próxima da que tem nos EUA. Conhecido por aqui mais como o purista que se revoltou ao ouvir Bob Dylan tocando guitarra elétrica pela primeira vez - no famoso episódio do Newport Folk Festival - Seeger é, na verdade, uma figura chave no movimento folk norte-americano. Embora musicalmente conservador, foi ele um dos pivôs do movimento pelos direitos civis nas décadas de 50 e 60, além de ter escrito canções de enorme sucesso (“Turn, turn, turn” gravada pelos Byrds, e “If I had a hammer”, de Peter, Paul & Mary, por exemplo), restaurado clássicos esquecidos do cancioneiro popular americano, e até mesmo escrito um famoso método para banjo de cinco cordas. We shall overcome não é exatamente uma homenagem a Pete Seeger, o compositor (apenas uma das 13 canções do disco é de co-autoria de Seeger), mas sim ao impacto do músico na cultura norte-americana. Impacto forte o suficiente para fazer Bruce gravar o primeiro disco de covers em seus mais de 30 anos de carreira.
A cegueira à importância de Pete Seeger não é, porém, o que faz de We shall overcome um álbum diferente aos nossos ouvidos. O que é intransferível é a carga cultural impressa no álbum: são canções tão populares nos Estados Unidos que se confundem com a própria identidade do país. Projetar o impacto de We shall overcome nos ouvintes norte-americanos é como imaginar que Bruce Springsteen tivesse gravado um disco de canções de roda, ou algo que o valha. We shall overcome acaba sendo, para nós, um olhar mais profundo no afeto do outro, em um lado da América que raramente nos é mostrado. O mais novo álbum de Bruce se torna ainda mais interessante justamente nesse salto de significado, e na maneira que o artista lidou com esse ruído inevitável. Ao contrário da maioria dos discos de Bruce Springsteen - de produção quase sempre dispendiosa - We shall overcome foi gravado ao vivo no estúdio, em três dias. Talvez por isso o disco se aproxime tanto de outro importante registro folk do ano: a extraordinária trilha-sonora de “A última noite”, filme derradeiro de Robert Altman (já comentado por aqui). A abordagem de valorizar o encontro (a banda tocando ao vivo) é a mesma, com a diferença de que o disco gravado pela Prairie Home Companion tem a atmosfera radiofônica essencial ao funcionamento do show (e do filme). Aqui, a mixagem discreta faz com que uma big band afiadíssima soe intimista, e a voz de Bruce aparece limpa, como se cantada pessoalmente ao lado do ouvinte. Somos jogados, portanto, no meio da festa.
Se a trilha do filme de Altman já traz a fase embranquecida da música folk norte-americana (com muito bom gosto, é preciso ressaltar), Bruce e sua banda parecem ir mais atrás, buscando compreender como seriam as tradições antes de terem se tornado tradições (como fez a fantástica trilha de “E aí meu irmão cadê você?”, anos atrás). A maior parte de We shall overcome é de uma exuberância ímpar. O refrão de “O Mary don’t you weep” é de rara devoção, com um coro que convida o ouvinte a embarcar, de vez, no disco. “Old Dan Tucker” traz Bruce em humor mais leve do que em qualquer outro momento de sua carreira. “John Henry” e a vaudevilliana “Jacob’s ladder” têm mais vida do que qualquer festa que você já possa ter ido. “Jesse James” e “My Oklahoma home” soam tão atuais que poderiam se tornar melhores amigas do Being there, do Wilco. A balada “Shenandoah” é moldada tão perfeitamente pelo timbre de Bruce Springsteen que estaria em casa em seus melhores discos mais recentes, como Devils and dust e The rising. “We shall overcome”, música que se tornou tema do movimento pelos direitos civis nos EUA (equivalente americano para “Pra não dizer que não falei de rosas”, hino de Geraldo Vandré nos dias da ditadura), ganha no disco uma leveza que a carga histórica parecia ter negado à canção até hoje.
O interesse por um disco tão rico quanto We shall overcome vem das mais diferentes fontes. O bom gosto dos arranjos, a elegância da produção, a alma que transparece no encontro. O significado de canções tão embrenhadas culturalmente que os 13 músicos do disco (incluindo o homem de frente) gravaram, de forma tão esplêndida, sem precisar de um ensaio sequer. A voz de Bruce Springsteen que nega sua essência messiânica por uma humildade perante a História. A possibilidade de travar contato direto com a riqueza de uma cultura que tomamos por íntima, mas que consumimos com autenticidade equivalente à do hot Filadélfia na culinária japonesa. E, intelectualizações a parte, pela diversão. Raramente somos presenteados com momentos tão vivos e excitantes quanto os registrados nessas Seeger sessions. Nós, que aqui travamos contato com boa parte das canções pela primeira vez, ganhamos um empurrão extra. Mas, mesmo sem ele, presenciar um artista com uma trajetória como a de Bruce injetando vitalidade em canções que conhece desde garoto (e se divertindo imensamente com tudo isso) é inspiração contundente demais para ser ignorada.