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quarta-feira, julho 15, 2009

Moscou ne crois pas aux larmes

Não é que eu não acredite em lágrimas. Chorei de tensão quando meu avô faleceu, e de tristeza quando meu peixe morreu - o que, acredito, não pinta de mim contorno dos mais favoráveis. Choro um pouquinho ao final de Sonata de Tóquio, e na cena musical de Em Paris, principalmente porque hoje as antecipo, e me encanto antes de elas acontecerem. Há diversas músicas que me emocionam, mas nunca a ponto de abrir os olhos (embora "Claire de Lune" e "Avant La Haine" mandem nas lágrimas acima). Já chorei algumas vezes de vergonha, em silêncio, sem nota ou vibração.

Até que saiu o disco novo do Wilco e, como acontece com as cenas dos dois filmes aí em cima, chorei lágrimas antecipadas, incestuosas pela familiaridade impossível com a desconhecida "You And I". Mais do que uma grande canção, ela me fez acreditar que existe alguma ordem por trás das coisas; ou, ao menos, de algumas de minhas coisas. Para um ateu, é como perceber Deus. E aí vejo o encontro de novo - o encontro de fato - na noite dessa segunda-feira. Como as epifanias servem para desvelar o mundo, pude ouvir a canção novamente pela primeira vez. E percebi que não é tanto uma dificuldade de chorar; 

mas sim que as lágrimas preferem
evaporar logo
a escorrer.   

quarta-feira, abril 01, 2009

Fodeu. 



Rumours abound, but therein lies a little truth. 

Perhaps you have heard here or there that Jeff Tweedy and Feist have recorded a duet together. All true truths. The song is called "You and I".

Of course, "You and I" does not mean You (the reader) and me (the typist), the song is not about us! Unless it is? I haven't heard it yet. I'll let you know when I know, even if Pitchfork gets to it first. But then I'll tell you. Promises.


Moving ahead, this song about us (at long last) is coming out on Wilco's next album, a record to hit the made-up shelves—are there record stores anymore?—in the Summer or Fall.

I, for one, can't wait. Can You?

* * *

Enquanto ainda é impossível confirmar se isso é tão verdade quanto os shows dela no Brasil, em 2007, recomendo a cover do Bon Iver para "The Park" - prova maior de que, se Deus existe, ele cabe em um mp3 mono, em 112kbps, gravado ao vivo numa rádio na Austrália. 

quinta-feira, agosto 21, 2008

Top 5 da semana


Atrasado pela ida a São Paulo, mas mantendo semanas de apenas sete dias como critério de transparência! Ontem comecei o mergulho na inestimável mostra completa de Alain Resnais, no CCBB (Rio e SP). Aguardem cinco filmes dele comentandos aqui, na semana que vem.

Filmes

1Pai e Filha (Banshun) – Yasujiro Ozu, 1949

Se existem sempre aqueles malucos capazes de, na cara limpa, perguntarem quem seria o maior diretor de todos os tempos, eu sou o maluco que, sem titubear, responderia à pergunta: Yasujiro Ozu. Revi Pai e Filha para escrever um texto que, em breve, será publicado na Cinética. Como rápido traço blogueiro, vale dizer que ter um dos melhores filmes de Ozu lançado em DVD no Brasil (é só o segundo, gente, só o segundo!) merece semanas de comemoração. Mesmo que precisemos, no processo, relevar a tradução (do inglês, obviamente quase literal) meio porquinha da edição da Lume Filmes.

2Rushmore – Wes Anderson, 1998


Conheci o trabalho de Wes Anderson pela obra-prima Os Excêntricos Tennenbaums. Embora venha acompanhando sua carreira desde então, faltava-me conhecer seus dois primeiros e elogiadíssimos filmes. Rushmore tapa o primeiro buraco, sem o vento de novidade que deve ter sido à época de seu lançamento. O contato tardio vem, felizmente, calar uma incômoda dúvida: minha decepção com O Expresso de Darjeeling tem muito mais a ver com um momento menos inspirado na carreira do diretor, do que com um tédio meu em relação ao seu universo. Mesmo não sendo novidade alguma, o final em slow motion, as composições rigorosamente frontais, as caras de vazio, os rocks bem escolhidos, e todos os outros supostos "maneirismos" de Anderson me bateram fortemente neste seu segundo longa-metragem. Resta, agora, Bottle Rocket, na pilha de DVDs, esperando seu melhor momento.

3Pecados de Guerra (Casualties Of War) – Brian De Palma, 1989
Mais um De Palma riscado da lista, não exatamente entre os maiores, mas bem acima dos menores. É impressionante como um gênero aparentemente tão pouco frutífero aos interesses mais claros do cineasta abre brechas para suas mais manjadas obsessões, sem que a hostilidade do universo filmado confine De Palma nos cantos mal iluminados de um desejo obsessivamente realista, ou da necessidade de curvar sua mise-en-scéne diante de um grande tema. Pecados de Guerra é, rigorosamente, um filme de Brian De Palma, e traz, ao menos, duas das mais surpreendentes sequências de sua carreira: os túneis vietnamitas que fazem campo do extra-campo; e o assassinato da garota vietnamita – filmado como sequência de filme de horror. A mistura de gêneros deixa de ser assinatura estilística e se torna, nesse cruzamento, uma forte declaração política: filmar o horror como horror, puro e simples.

4Encarnação do Demônio – José Mojica Marins, 2008

Salvos os louros sem freios, a politicagem crítica, a sombra do tempo longe das telas, a montagem muitas vezes descaralhada, a caricatura da superexposição invertida das últimas décadas, os repórteres obcecados com suas unhas, etc; o retorno de José Mojica Marins à direção traz algumas das imagens mais impactantes vistas no cinema este ano. Apesar de os problemas do filme me afastarem do coro de “obra-prima”, é difícil imaginar uma volta mais apropriada para Mojica e seu Zé do Caixão. Por vezes, o filme toma vias de atualização que giram em círculo; mas quando ele decide, de fato, se pensar como um novo momento em um longo e admirável processo (os filmes antigos que voltam à tela; as impressionantes personagens em preto e branco que caminham pelas cores; a mulher que sai do porco; a putaria; os banhos de sangue; o esconderijo na favela; o céu vermelho; o trem-fantasma), Encarnação do Demônio acaba sendo um dos mais emocionantes filmes do ano. Mojica sempre teve consciência absoluta de sua posição como realizador, e o tempo longe das câmeras parece não tê-la abalado em rigorosamente nada.

5Man In The Sand – Kim Hopkins, 1999

Man In The Sand é um documentário sobre a realização de Mermaid Avenue – álbum em dois volumes de Billy Bragg e Wilco, a partir de letras inéditas de Woody Guthrie. Mais notável do que o inevitável fetichismo em ver parte do processo escancarada é a maneira como, pelo trabalho de Bragg e da filha de Woody Guthrie, uma figura tão escorregadia quanto Guthrie começa a ganhar contornos pela recuperação de uma memória que não é a dele, mas sim a de quem o busca. Uma memória inventada. Seja pela estória com traços de “h”, narrada por Nora Guthrie (e a câmera colocada na cabine de gravação, expondo o rosto da voz em off, é uma escolha brilhante), ou pela maneira como Billy Bragg monta seu Woody Guthrie a partir dessas canções (a cena em que Bragg comenta “Ingrid Bergman” em um show, por exemplo), o filme de Kim Hopkins equilibra-se nessa busca fadada à incompletude, nessa necessidade de se criar Guthries particulares, pois o Woody Guthrie de Woody Guthrie não está mais ali.

Canções

Especial “Eu fui no show do Josh Rouse”! Fotos tiradas pela Clarissa, da fileira H do Sesc Vila Mariana.

1“Streetlights”

Todos sabíamos que “Winter In The Hamptons” – maior hit de Rouse – seria um momento memorável, por isso reservo estes cinco lugares a canções menos esperadas; às surpresas que todo grande show reserva (pois a noite com a Rouse foi, definitivamente, grande). Sempre achei “Streetlights” uma de suas mais belas canções, afinal, a identificação com um refrão que diz “We can talk about the streetlights” era inevitável – tão próximo que está do meu universo de composição. Como Rouse tem muitas canções, estava preparado para não ouvi-la. Mas se o show deixou uma impressão incontornável a respeito de Rouse é a sua plena consciência de quais são suas melhores canções, e “Streetlights” veio marcada pelo violão de 12 cordas, já próxima ao final da noite. Ao contrário de canções como “Givin’ It Up” – sensivelmente lascada pela falta das cordas – em “Streetlights”, a saída dos violinos gerou uma versão mais crua, mas talvez ainda mais forte, mais orgânica, do que a conhecida em Nashville.

2“Hollywood Bassplayer”

Embora mal possamos ouvir guitarras em seus dois últimos discos, é ela o instrumento que permaneceu nos braços de Rouse pela maior parte da noite. Não espere, porém, ouvir transposições de arranjos para o instrumento, ou sequer ver Josh Rouse mover os dedos pelo braço da guitarra para fazer um solo – os essenciais ficam a cargo de Mike Cruz, que em duas ou três canções abandonaria o teclado para tocar uma segunda guitarra. Em “Hollywood Bassplayer”, a ausência foi tapada por um recurso genial: o agudo solo de guitarra foi “cantado” por toda a banda. “Hollywood Bassplayer” é a melhor canção de Country Mouse, City House, seu mais novo álbum, comentado aqui à época dos Melhores de 2007.

3 “Quiet Town”

Faixa de abertura do impecável Subtítulo, “Quiet Town” é uma canção quase boba, mas que ganhou contornos realmente inesperados em sua versão ao vivo. Seja pelo trabalho de luz durante sua apresentação (nesse momento, apenas um corte amarelo retirava o rosto de Rouse da escuridão do palco) ou pela acentuada dinâmica no momento em que o violão passa a ser acompanhado pelo resto da banda, “Quiet Town” mostrou, ao vivo, uma força que sua versão em estúdio – por melhor que seja – nunca pareceu encontrar.

4“His Majesty Rides”

A organização do SESC é tão competente que chega a alguns absurdos: na entrada do show, havia uma pilha de programas que, além de explicarem quem era Rouse, anunciavam o repertório completo do show. Embora não tenha resistido a uma breve conferida em minhas favoritas, fiquei um pouco chateado de a inevitável olhada estragar as possíveis surpresas da noite. “His Majesty Rides” foi a primeiríssima canção da noite, contrariando a fraca “Pilgrim” (que apareceria, mais tarde, só para eu ter uma canção para, imaginariamente, substituir pelas grandes que ficaram de fora - como "Rise", "My Love Has Gone", "Nothing Gives Me Pleasure", "1972", "Late Night Conversation"...), anunciada como abertura no folheto. E ali passei a agradecer por, embora impecável, a organização do SESC também ter suas falhas.

5“It’s The Nighttime”

Já estava com o nome da canção rodando na boca, percebendo que o show caminhava para o fim e ela ainda não havia aparecido. Pensava que não haveria maneira mais bonita de encerrar noite tão especial do que com canção que dizia “It’s the nighttime, baby, don’t let go on my love”. Antes que pudesse gritar por ela, Rouse assinou embaixo da intuição de que temos cabeças musicais extremamente parecidas, puxando a canção ao violão para encerrar o tempo regulamentar. Ele voltaria ao bis com “Slaveship”, “Sad Eyes” e “Directions”, mas “It’s The Nighttime” foi a canção que me acompanhou até o hotel. Fato digno de nota: ao fazer o check in, após o show, vejo que a Clarissa olhava fixamente para o bar do hotel. Perguntei o que era, e sua resposta foi manter os olhos fixos. Olho pro bar e lá estão Josh Rouse e banda. E eu fui lá agradecer mais uma vez, por tudo, antes de ir dormir.

Faixas tocadas:

de Home - "Directions"

de 1972 - "Come Back", "Love Vibration" e "Slaveship"

de Nashville - "It's The Nighttime", "Winter In The Hamptons", "Streetlights", "Carolina", "Why Won't You Tell Me What" e "Sad Eyes"

de Subtítulo - "Quiet Town", "It Looks Like Love", "Summertime", "His Majesty Rides" e "Givin' It Up"

de Country Mouse, City House - "Sweetie", "Pilgrim" e "Hollywood Bass Player".

segunda-feira, agosto 11, 2008

Top 5 da semana

Sim, eles estão de volta.

Filmes

1. Warriors – Os Selvagens da Noite (The Warriors) – Walter Hill, 1979



Warriors é uma das minhas mais caras memórias cinematográficas da infância – é o filme de menino por excelência – e retomar contato com marcos tão profundos é experiência não raro frustrante. Não é esse, porém, o caso deste grande filme de Walter Hill. Se o fascínio por uma Nova York disputada palmo a palmo pelas mais excêntricas gangues de rua imagináveis (quantos personagens tão absurdos o cinema já gerou quanto os Baseball Furies?) permanece forte na revisão, chamam muita atenção o trabalho sempre pulsante da câmera de Hill; a cuidadosa transposição estilística do universo das histórias em quadrinho à encenação, à decupagem e à edição; o carisma de atores que, pela irregularidade de suas carreiras posteriores, parece exclusivo àqueles personagens; e a nada convencional mistura de temperaturas de cor de Andrew Laszlo.

Além disso, o filme tem uma cena capaz de traduzir o underdog como o cinema poucas vezes soube fazer: o encontro de Swan (Michael Beck) e Mercy (Deborah Van Valkenburgh) com dois casais a caminho de uma festa de formatura, em um trem do metrô. A maneira como a câmera busca os pés sujos de Mercy espremidos em sapatos de salto alto é um dos movimentos mais abertamente políticos já realizados por Hill. Se é uma pena a memória ser tão freqüentemente traída pelas revisões, pena maior é os marcos cinematográficos da infância nem sempre serem da estatura de Warriors.

2. A Vida de um Tatuado (Irezumi ichidai) – Seijun Suzuki, 1965



Suzuki é um dos sujeitos mais particulares da história do cinema japonês: “operário” das linhas de montagem de um grande estúdio (Nikkatsu), fazendo quase três filmes ao ano, levou o gênero yakuza a uma estilização formal sem paralelos, esticando a tolerância da indústria até sua marginalização oficial, depois do brilhante A Marca do Assassino, de 1967. Assim como em Vagabundo de Kanto, de 1963, A Vida de um Tatuado tem seus dois primeiros terços marcados por uma mise-en-scène cirurgicamente narrativa, para, na meia hora final, culminar em uma alucinada apoteose de rigor, criatividade e pancadaria eximiamente coreografada.

O absoluto despudor das cores de Suzuki levaria o estúdio obrigá-lo a filmar exclusivamente em preto e branco, após o pandemônio de amarelos em Tóquio Violenta (único filme de Suzuki lançado em dvd no Brasil). Em A Vida de um Tatuado, sua palheta ainda vibra em plena exuberância: a luz vermelha que se faz de filhete de sangue a escorrer pelo chão, a luta de guarda-chuvas, o cenário em camadas coloridas que se abre em profundidade, o céu em berrante vermelho. A Vida de um Tatuado entra, ao lado de Juventude da Besta e os já citados Tóquio Violenta e A Marca do Assassino, para a galeria de obras-primas maiores realizadas por um dos sujeitos mais curiosos e talentosos que os espectadores parecem, enfim, começar a trazer da margem para o centro da história do cinema.

3. Amanhã a gente muda de casa (Demain On Déménage) – Chantal Akerman, 2004



Meu primeiro contato com um longa de Chantal Akerman veio marcado pelo arrebatamento profundo causado por Tombée de nuit en Shanghai – episódio no coletivo O Estado do Mundo que, a propósito, anda na programação do Canal Brasil (achando, enfim, uma utilidade para o embaraçoso episódio de Vicente Ferraz). A disparidade não poderia ser maior: Demain On Déménage é uma aceleradíssima comédia slapstick, girando sempre vários tons acima do naturalismo, sem nunca esbarrar no contemplativo de Tombée. A surpresa tirou-me do conforto, e o filme de Chantal foi me conquistando à medida que a razão de seu humor se mostrava mais clara: parodiar sem contornos os clichês e os cânones da cultura francesa. Vamos do cinema neurótico barato às comédias que confundem vazio com leveza (onde todas as personagens sabem tocar piano), passando pela chanson, o erotismo e a apropriação do espaço como manifestação da subjetividade (as relações visionárias com Medos Privados em Lugares Públicas são muitas e inevitáveis). Até Proust vira alvo de uma das melhores piadas do filme: a madalena transfigurada em frango com tomilho, que faz lembrar “lembranças, natureza e armários de carvalho”.

4. A Questão Humana (La Question Humaine) – Nicolas Klotz, 2007



É curioso como, ao refletir questões absolutamente presentes na vida contemporânea, o francês Nicolas Klotz se faz valer de estratégias e armações muito caras ao cinema moderno francês, em especial Alain Resnais e Claude Chabrol (que, aliás, tem em cirucito o ótimo Uma Garota Dividida em Dois). O que me parece mais forte, porém, são justamente os contrapontos que Klotz impõe à frieza nacional-socialista das grandes corporações com cenas marcadamente musicais, onde o corpo e a câmera saem de um registro estático para uma mobilidade que – embora coerentemente, reconheço – por vezes me parece faltar ao filme. Não conheço os dois trabalhos anteriores de Klotz mas, apesar de não me bater como a obra-prima que ressoa em outros blogs e publicações, A Questão Humana é filme que faz o espectador sair da sala remoendo tudo o que acabou de ver. Se esse feito já não é em nada desprezível, o filme ainda tem a seu favor todas as inevitáveis comparações: consegue adentrar tematicamente as organizações corporativas sem nunca cair na chatice discursiva de um O Corte, ou, pior, um O Que Você Faria?

5. Luz Silenciosa (Stellet Licht) – Carlos Reygadas, 2007



Outro primeiro contato, desta vez com o cinema do mexicano Carlos Reygadas. Luz Silenciosa estava na minha lista de intenções do Festival do Rio do ano passado, mas acabou deixado de lado pela exaustão pós-Floresta dos Lamentos, de Naomi Kawase. Agora em circuito, o filme de Reygadas ainda me deixa indeciso se seus acertos são realmente inspirados, ou apenas flutuam em um repertório imagético de cinema de grife. Embora o filme me acerte com inegável força, também me deixa com uma série de dúvidas: como um sujeito tão econômico em sua construção narrativa deixa escapar aberrações como aquele plano em que a folhinha cai do teto? Seria o mesmo realizador aquele que cria um espaço cênico tão intrigante (personagens saídos de Ordet, de Carl Th. Dreyer, soltos nos campos do México) e, em certos momentos, decupa seqüências de maneira tão desconjuntada (o dolly in que afunda na garagem, e depois parte para um vai-e-vem de cortes despropositado; ou a própria seqüência da morte de Esther). Apesar das dúvidas, Luz Silenciosa impressiona (quando vai bem, é excepcional) pelo inabalável rigor da mise-en-scène, e pela coragem ao desmontar a fé de Ordet – um dos maiores filmes já feitos – em um desejo de atualizações e de contato com o hoje que é muito lúcido e, diria até, urgente.

Canções

1. “Marry Me” – St. Vincent



Após ver o show de Annie Clark e banda, em um fim de tarde ensolardo em Nova York, escrevi em meu caderninho sobre a faixa título de seu único álbum solo:

“Existem poucas coisas tão comoventes quanto a entrega despudorada de uma garota ao compor uma canção pedindo a um rapaz que se case com ela”.

Marry Me, o álbum, tem ótimas canções em todos os ângulos, mas me são mais caras as baladas. Além de ter pés próprios e firmes, o disco é privilegiado pelo atalho de uma velha afetividade: a voz de Annie é muito parecida com a de Sarah Shannon, vocalista do excelente Velocity Girl.

2. “If You Don’t Care” – Smoking Popes


Eu achava que o punk rock (ou ao menos, novas canções do gênero) já não tinha mais nenhum efeito sobre mim. Até que ouvi Stay Down, disco que marca a volta do fabuloso Smoking Popes (visto em um Blender quase vazio, em Nova York - o que explica o fato de, ao contrário das outras bandas, eu não ter conseguido achar uma foto sequer do show que assisti), e percebi que o problema é que as bandas de punk rock que eu sempre gostei vinham mesmo lançando discos muito ruins. Stay Down é rápido, marcante e maravilhoso logo na primeira audição – coisa que todos os discos de punk rock deveriam almejar. A mistura de base instrumental em alta rotação com melodias à Smiths segue em grandessíssima forma e, depois de três audições, Stay Down já vem deixando pegadas entre os melhores de 2008. “If You Don’t Care”, a segunda do disco e a primeira do show, é o tipo de canção que os fãs de Dookie gostariam que o Green Day ainda quisesse escrever. E já começa com um verso fortíssimo: “If you don’t care, I don’t care / We don’t belong together ‘cause we don’t belong anywhere”.

3.“Lebanon, Tennessee” – Ron Sexsmith



A mais grata surpresa de minha estada em Nova York foi a adição de um show solo de Ron Sexsmith ao meu calendário pessoal. Voz e violão, público silencioso e bem aconchegado nas cadeiras e sofás do Joe’s Pub, e uma voz absolutamente extraordinária, capaz de encher o ambiente e fazer frente aos graves do metrô que, a cada três músicas, passava embaixo da casa. Ele não tocou “Secret Heart”, mas tocou uma belíssima versão para “Brandy Alexander” (para ele, nome de garota) – parceria com Feist, e uma das mais bonitas canções de The Reminder. “Lebanon, Tennessee” , porém, alugou quarto em minha cabeça justamente por, em voz e violão, transpirar uma força que eu não havia encontrado na versão original. E, melhor de tudo, alguém decidiu filmar a canção justamente naquela minha última noite na cidade que nunca dorme, mas dorme cedo.

4. “Big Empty” – Stone Temple Pilots


Passei todo o show dos Stone Temple Pilots com olhos grudados em Scott Weiland. Saí sem saber se o magnetismo era natural como seu suor, ou fruto de cuidadoso estudo de grandes performers (Axl Rose, Bono, Iggy Pop, David Bowie, Freddie Mercury, Lacraia, etc). Meus olhos, porém, não desviaram nem por um segundo. De certa forma, a dúvida espelhava a divisão do show em momentos de inesperada inspiração, e o uso extensivo das convenções roqueiras. Em alguns deles, o gosto pelo esperado saía pela culatra – “Interstate Love Song”, por exemplo, perdeu muito de sua força por vir emendada em uma matadora versão de “Plush”, lembrando que dois hits enfileirados são como a boa piada perdida, justamente por ter sido contada quando o público ainda ria da primeira. Em outros, o inesperado falava alto, e um show seguro bem pisava terrenos menos firmes. O mais marcante, sem dúvida, foi ver a banda abrir o show com a deslumbrante balada “Big Empty” – canção tão improvável como faixa de abertura que pareceu não poder, nunca mais, ceder essa vaga a qualquer outra.

5. “Glad It’s Over” – Wilco

Os EUA são a terra onde, acompanhado pelo rádio ao volante, às 3 da manhã, existe a chance real de você ouvir uma música do Wilco que nunca ouvira antes, fazendo você se emocionar quando essa era a última coisa que você esperava ser possível acontecer naquele momento.

quinta-feira, junho 05, 2008

Melhores de 2007

02 – Wilco – Sky Blue Sky




Quando escrevi, na minha lista de filmes, sobre Os Donos da Noite, de James Gray, lembro de ter ressaltado a surpreendente força extraída, pelo diretor, de construções narrativas absolutamente clássicas, habilmente contrapostas a um mundo em que o esvaziamento narrativo se tornou lugar comum. De certa forma, sentimento muito próximo me tomou ao ouvir, pela primeira vez, Sky Blue Sky – a mais nova obra-prima do mais genial grupo de rock de nosso tempo (superlativos sempre insuficientes). Mas, enquanto o projeto de cinema de Gray responde a seus pares, a conversa do Wilco é com seu próprio passado. Jeff Tweedy, o líder da banda, inventou o alt-country ainda na adolescência, tocando com o fundamental Uncle Tupelo. Finada a banda, Tweedy forma o Wilco com a ambição de desconstruir o gênero que ajudara a criar. Abre esse processo com certa timidez, em AM, disco que – embora promovesse um frutífero flerte do gênero com o indie pop – serve mais como um ótimo espanador do que como retrato do potencial da banda.

A partir do ambicioso álbum duplo Being There, Tweedy e escudeiros sujam as mãos pondo ao chão suas próprias fundações, em canções que sorvem goles de sabores tão diversos como Velvet Underground (“Misunderstood”), David Bowie (“Sunday” – quase-plágio inspiradíssimo de “Rebel, Rebel”) e Beach Boys (“Outta Site, Outta Mind”), passeando pelo rock setentista (“I Got You (At the End of the Century)”), o pop atemporal (na belíssima “Say You Miss Me”) e o country da idade do mundo (“Someday Soon”). Recolhem e reempilham os tijolos em Summerteeth - disco impressionante por sua capacidade de ser mais desafiador à medida que se revela mais pop – para depois derrubá-los novamente com os monumentais Yankee Hotel Foxtrot e A Ghost Is Born.

Sky Blue Sky nasce como resposta a uma inevitável interrogação: quais canções seriam possíveis após o fim do mundo? Pois não é menos que o apocalipse o que a banda buscava com A Ghost Is Born. Enquanto Yankee Hotel Foxtrot cantava os restos do mundo, seu sucessor tentava traduzir em canções o som da deterioração desses restos. Sons produzidos pelo seu próprio desaparecimento. Vácuos que poderiam circular aprisionados em um eterno andamento (“Spiders (Kidsmoke)”), na balada do desejo de auto-aniquilação (“Handshake Drugs”), nas asas de um espírito do passado (“Hummingbird”), ou na insuportável prisão de um ruído sem pausas (o pós-canção de “Less Than You Think”). O aceno de resposta vinha, porém, ao fim do funeral: após o prólogo de “Less Than You Think”, somos presenteados com uma nostálgica e quase frívola cançãozinha chamada “The Late Greats”. “The best life never leaves your lungs”, canta o defunto. Troca-se o desejo de encontrar curvas no minimalismo por um retorno ao útero (à terra, se pensarmos em Naomi Kawase) das canções pop, em sensação próxima à alcançada pela última parte de Nossa Música, de Jean Luc-Godard.

Depois de destruir o mundo, parece nos responder o Wilco, a única coisa decente a se fazer é pedir desculpas. Pois é como uma longa retratação que Sky Blue Sky se configura. Não temos mais esquinas que dão em outras esquinas. Como deixa clara a repetição de seu próprio título, a ambição do Wilco parece ser dar a volta no mundo em uma só reta, para chegar, enfim, novamente ao princípio. Esse desejo é cuidadosamente arquitetado em todos os níveis que discursam em Sky Blue Sky: enquanto Yankee Hotel Foxtrot era fruto do empenho de se extrair novas texturas sonoras pela manipulação sonora promovida pela tecnologia, Sky Blue Sky é gravado e mixado como um disco de 30 anos de idade. A bateria é encaixada em um canto dos headphones, seca em espacialidade como costumava ser antes do abuso de compressão se tornar lei de mercado; as texturas são extraídas de instrumentos essencialmente orgânicos (órgãos, claro, mas também violinos e a slide guitar de Nels Cline), não mais de plug-ins de Pro-Tools; a voz de Tweedy, mais áspera e imperfeita do que jamais foi, troca o universo imagético críptico dos discos anteriores pelo encanto diante da cor do céu.

Depois do fim do mundo, temos a infância do mundo. A vida se torna circular quando os homens se percebem inseridos em uma horizontalidade absoluta. Depois do azul do céu, existe, ainda, o céu azul. As vontades e as satisfações, em Sky Blue Sky, são as mais mundanas. “With a sky blue sky / This rotten time / Wouldn’t seem so bad to me now”, canta Tweedy na faixa-título. “Oh I didn’t die / I should be satisfied / I survived / That’s good enough for now”. O mundo acabou, mas o sujeito percebe que ainda está vivo. E esse olhar recém-ressucitado é capaz de uma generosidade extraordinária. Enquanto A Ghost Is Born era um mergulho no ser-eu, Sky Blue Sky é um conjunto de pequenas epifanias mundanas. É a tradução musical do eterno retorno. É um disco sobre a intensa sensação de pertencimento ao mundo.

Muito por isso, é um álbum obcecado com a idéia do movimento da vida. Logo na primeira faixa, “Either Way”, Tweedy se entrega a um jogo de “talvez” que vem justamente colocar suas canções em um ritmo uno, inabalavelmente mantido ao longo de todo o disco. “Maybe you still love me / Maybe you don’t”. Nove faixas depois, na deliciosa “Walken”, encontraremos compasso parecido em “I was singing / This song about you / I was thinking about singing / This song for you” – sensação que se repete no título de “Leave Me (Like You Found Me)”; ou na reiteração que é ferramenta para a aceitação do inevitável em “Hate It Here”; ou ainda como “white light”, “one light” e “what light” se misturam na penúltima canção do disco. Tweedy busca força na repetição dos fonemas (ou dos riffs – como em “Impossible Germany”), e aproveita a abundância de consoantes da língua inglesa como tradução concreta desse sentimento de repetição, de retorno.

Mas se a repetição nos leva do fim ao princípio, não existem fins nem princípios. O que existe é o som de uma vogal que atravessa o tempo, soando, soando, soando. Tweedy atinge, enfim, o objetivo que colocará para si no primeiro verso de "Hummingbird": torna-se um eco. A busca quase budista pelo som do universo fecha o disco em “On And On And On” – a canção que a banda parece ter passado todos esses anos tentando fazer. As vogais são reinterpretadas pela linha-base de piano e guitarra – que, conscientemente, evita que o som do contato dos dedos com os instrumentos interrompa o soar das notas, como as consoantes interrompem o som que sai pela boca. O Wilco realiza, com esse último e brilhante número, a canção-de-ninar que a banda já, antes, buscara um sem número de vezes (“In A Future Age”, “My Darling”, “Reservations”, “Wishful Thinking”). E com isso, Sky Blue Sky faz valer a máxima de que as obras-de-arte mais bem acabadas são aquelas construídas com um rigor formal tão absoluto que ele se torna transparente. Vê-se através dele como se ele não estivesse ali. Em canção que continua soando após o disco acabar, voltamos ao início novamente, no delicioso movimento de, ao fim de Sky Blue Sky, continuar enfileirando blue sky blue sky blue...


For Dummies
Álbuns do Wilco recomendados em ordem decrescente de interesse:

01 - Sky Blue Sky (2007)
A Ghost Is Born (2004)
Yankee Hotel Foxtrot (2002)
Summerteeth (1999)
Being There (1996)

06 - AM (1995)

terça-feira, setembro 11, 2007

Top 5 da semana (passada)

01 -
"NOVAS DIVAS
KATIA B * CIBELLE
FEIST * CAT POWER
AND DIRTY DELTA BLUES
MARINA DA GLORIA
SEXTA 22:30 26-OUY-07" - Texto do ingresso pro Tim Festival que repousa em minha gaveta.

02 - "Hey, every other hour I pass that house where you told me that you had to go, I wonder if the landlord has fixed the crack that I stared at, instead of staring back at you" - trecho de "Civil Twilight", do Weakerthans

03 -
"Não tenho muito tempo. Tenho medo de ser um só. Tenho medo de ser só um... alguém pra se lembrar" - trecho de "Canção pra você viver mais", do Pato Fu, ainda hoje coisa das mais bonitas de se ouvir ao vivo.

04 -
"Acho que eles devem ter mexido no final, porque no dvd o filme termina sem final. Ele termina como se a estória pudesse continuar. E no cinema brasileiro não tem isso, né? Quando o filme termina, ele termina mesmo." - Restauração livre da epifania do motorista de taxi pós-show do Pato Fu sobre "Tropa de Elite".

05 -
"Let's take a map across your pillow and breathe the sky in through your window. I'll stay in the riddle and watch your books cave in" - Trecho de "A Magazine Called Sunset", uma das melhores canções do Wilco.

domingo, agosto 26, 2007

Top 5 da semana

01
- Vou pra casa (Je rentre à la maison) - Manoel de Oliveira
02 - Reunion Tour - The Weakerthans (álbum)
03 - Sunken Treasure: Live in the Pacific Northwest - dvd de Jeff Tweedy dirigido por Christoph Green e Brendan Canty.
04 - The Picture - Son Volt (canção)
05 - Daqui pro futuro - Pato Fu (álbum)