terça-feira, janeiro 13, 2009
Postado por Fábio Andrade às 6:00 PM
2008 em 10 Shows
10 – Stone Temple Pilots
08/07 – Glens Falls Civic Center, Glens Falls, NY
Scott Weiland entende que todo show precisa de um showman. E isso conta muito mais do que o painel de luzes ao fundo, o setlist que responde a tudo que se espera, e toda a papagaiada padrão que envolve uma turnê de reunião de uma banda de rock mainstream nos dias de hoje.
09 – The National
24/10 – Tim Festival, Rio de Janeiro
Continuo achando a mesma coisa.
08 – Hold Steady
30/07 – Avalon, Los Angeles
É preciso respeitar uma banda que sobe ao palco e toca, quase na íntegra, um disco que havia saído na semana anterior (mesmo que todos ali já o escutassem há um par de meses). Mais fácil, porém, se a banda for o Hold Steady, e o disco em questão for o ótimo Stay Positive. Na segunda fila, bem na minha frente, dois amigos em outra dimensão se abraçavam, e trocavam socos na cabeça. De vez em quando um deles tentava conversar com uma das garotas que estavam na grade, e o outro lhe mandava um porradão na nuca. Eu nunca consegui fazer dessa cena uma analogia para coisa alguma, mas Craig Finn talvez seja capaz de transformá-la em uma canção.
07 – Spoon
08/11 – Festival Planeta Terra, São Paulo
Apesar de ter visto o Spoon em grande forma no Prospect Park, nada poderia ter me preparado para a avalanche sonora que a banda despejou no Planeta Terra. Um show tão bom que fez a lembrança do Jesus & Mary Chain, alguns minutos antes, se tornar uma memória pálida e distante.
06 – Josh Rouse
15/08 – Sesc Vila Mariana, São Paulo
A intensidade do brilho do artista é proporcional à consciência de suas limitações. Josh Rouse se conhece muito bem.
05 – Lucero
24/07 – The Echo, Los Angeles
E aí vem o click, e você se lembra como foi que se sentiu quando se apaixonou pelo rock. E você olha em volta, tentando entender, e tudo que vê é uma banda sem roadies e um bando de marmanjos cobertos em suor e cerveja alheios, cantando projetos de palavras fora de tom, com garrafas de cerveja erguidas em um interminável brinde à banda. E o mais constrangedor é que você entende.
04 – Ron Sexsmith
16/07 – Joe’s Pub, Nova York
A descoberta de um gênio.
03 – Bob Dylan
08/03 – Rioarena, Rio de Janeiro, RJÉ inevitável que cada uma das pessoas na Rioarena desejasse um setlist ideal diferente, e que o escolhido por Dylan não desse conta da maior parte das canções que elas gostariam de ouvir. Ainda assim, a música que vinha do palco era tão extraordinariamente envolvente (ainda mais para aqueles que, como eu, adoram Modern Times) que segurava os pensamentos pelos tornozelos, fazendo com que todos desejassem ouvir qualquer música que Dylan viesse a tocar. Independente da história, da mitologia, da idade dos afetos, tudo soava perfeito. E assim foi.
02 – Jon Brion e convidados
25/07 – Largo, Los Angeles
Mais conhecido por seus trabalhos para o cinema (as trilhas de filmes como Huckabees – A Vida É Uma Comédia, Embriagado de Amor, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, etc), Jon Brion faz shows regulares no Largo – casa de Los Angeles que o abriga em temporadas de sextas-feiras, com duas apresentações por noite. Entrei no segundo round da última noite de seu verão por lá, sem a menor idéia de o que esperar. Fui ao Largo para ver o show do Grant Lee Phillips na segunda sala da casa (apropriadamente chamada de Little Room – uma salinha à luz de velas, sem palco, microfonação mínima, e não mais que 10 mesas,) e, ao final do set, a platéia foi convidada pelo gerente da casa a pegar café e biscoitos, e seguir para a noite com Jon Brion, que começava no teatro principal.
Entre carpetes de borgonhas lynchianos, Brion tocava piano no canto de um palco onde estavam montados cerca de 30 instrumentos diferentes. Junto ao contrabaixo de Sebastian Steinberg (Soul Coughing), único convidado da noite, Brion improvisava uma peça de jazz a partir de riffs de “Iron Man”, do Black Sabbath. Terminada a primeira música, ele se levanta e pergunta à platéia o que todos gostariam de ouvir. Da chuva de sugestões, Brion escolhe uma que pareça interessante, e improvisa uma versão em real time. E assim vai até o final da noite, pulando de instrumento para instrumento, de canção para canção: “Eye of the Tiger” em versão two-step, “This Charming Man” dando errado e virando “Please, Let Me Get What I Want” no meio, “If I Only Had A Brain” na pianola, uma versão jazzy para “Come And Knock Yourself Out” (canção-tema do Huckabees) – tudo improvisado, com a participação direta do público. Até que ele anuncia a hora do sing along, e alguém pede que ele toque Queen. “What song?”, ele pergunta. “Bohemian Rhapsody!”, grita uma voz do meio do teatro. Jon dá uma gargalhada, e responde: “You know what? I’ll fucking do it!” As luzes sobre a platéia se acendem, Brion pede que o PA seja desligado e, ao piano, comanda o coro que vem de todas as cadeiras do teatro. E vamos, todos juntos, à direção qualquer que o vento desejar soprar.
01 – Feist
9/07 - Prospect Park, Brooklyn
Oh Leslie, quel drôle de chemin il m‘a fallu prendre pour arriver jusqu‘à toi.
O melhor show que eu não vi em 1999:
Face to Face
O melhor motivo para se ir a um show:
Eu poderia dizer que conheço bem sua discografia; ou então que adoro uma ou outra de suas canções. Mentira. Eu fui ao show do Grant Lee Phillips só pra ver o trovador de Gilmore Girls.
quinta-feira, agosto 21, 2008
Postado por Fábio Andrade às 11:10 AM
Top 5 da semana
Atrasado pela ida a São Paulo, mas mantendo semanas de apenas sete dias como critério de transparência! Ontem comecei o mergulho na inestimável mostra completa de Alain Resnais, no CCBB (Rio e SP). Aguardem cinco filmes dele comentandos aqui, na semana que vem.
Filmes
1 – Pai e Filha (Banshun) – Yasujiro Ozu, 1949
Se existem sempre aqueles malucos capazes de, na cara limpa, perguntarem quem seria o maior diretor de todos os tempos, eu sou o maluco que, sem titubear, responderia à pergunta: Yasujiro Ozu. Revi Pai e Filha para escrever um texto que, em breve, será publicado na Cinética. Como rápido traço blogueiro, vale dizer que ter um dos melhores filmes de Ozu lançado em DVD no Brasil (é só o segundo, gente, só o segundo!) merece semanas de comemoração. Mesmo que precisemos, no processo, relevar a tradução (do inglês, obviamente quase literal) meio porquinha da edição da Lume Filmes.
2 – Rushmore – Wes Anderson, 1998
Conheci o trabalho de Wes Anderson pela obra-prima Os Excêntricos Tennenbaums. Embora venha acompanhando sua carreira desde então, faltava-me conhecer seus dois primeiros e elogiadíssimos filmes. Rushmore tapa o primeiro buraco, sem o vento de novidade que deve ter sido à época de seu lançamento. O contato tardio vem, felizmente, calar uma incômoda dúvida: minha decepção com O Expresso de Darjeeling tem muito mais a ver com um momento menos inspirado na carreira do diretor, do que com um tédio meu em relação ao seu universo. Mesmo não sendo novidade alguma, o final em slow motion, as composições rigorosamente frontais, as caras de vazio, os rocks bem escolhidos, e todos os outros supostos "maneirismos" de Anderson me bateram fortemente neste seu segundo longa-metragem. Resta, agora, Bottle Rocket, na pilha de DVDs, esperando seu melhor momento.
3 – Pecados de Guerra (Casualties Of War) – Brian De Palma, 1989
Mais um De Palma riscado da lista, não exatamente entre os maiores, mas bem acima dos menores. É impressionante como um gênero aparentemente tão pouco frutífero aos interesses mais claros do cineasta abre brechas para suas mais manjadas obsessões, sem que a hostilidade do universo filmado confine De Palma nos cantos mal iluminados de um desejo obsessivamente realista, ou da necessidade de curvar sua mise-en-scéne diante de um grande tema. Pecados de Guerra é, rigorosamente, um filme de Brian De Palma, e traz, ao menos, duas das mais surpreendentes sequências de sua carreira: os túneis vietnamitas que fazem campo do extra-campo; e o assassinato da garota vietnamita – filmado como sequência de filme de horror. A mistura de gêneros deixa de ser assinatura estilística e se torna, nesse cruzamento, uma forte declaração política: filmar o horror como horror, puro e simples.
4 – Encarnação do Demônio – José Mojica Marins, 2008
Salvos os louros sem freios, a politicagem crítica, a sombra do tempo longe das telas, a montagem muitas vezes descaralhada, a caricatura da superexposição invertida das últimas décadas, os repórteres obcecados com suas unhas, etc; o retorno de José Mojica Marins à direção traz algumas das imagens mais impactantes vistas no cinema este ano. Apesar de os problemas do filme me afastarem do coro de “obra-prima”, é difícil imaginar uma volta mais apropriada para Mojica e seu Zé do Caixão. Por vezes, o filme toma vias de atualização que giram em círculo; mas quando ele decide, de fato, se pensar como um novo momento em um longo e admirável processo (os filmes antigos que voltam à tela; as impressionantes personagens em preto e branco que caminham pelas cores; a mulher que sai do porco; a putaria; os banhos de sangue; o esconderijo na favela; o céu vermelho; o trem-fantasma), Encarnação do Demônio acaba sendo um dos mais emocionantes filmes do ano. Mojica sempre teve consciência absoluta de sua posição como realizador, e o tempo longe das câmeras parece não tê-la abalado em rigorosamente nada.
5 – Man In The Sand – Kim Hopkins, 1999
Man In The Sand é um documentário sobre a realização de Mermaid Avenue – álbum em dois volumes de Billy Bragg e Wilco, a partir de letras inéditas de Woody Guthrie. Mais notável do que o inevitável fetichismo em ver parte do processo escancarada é a maneira como, pelo trabalho de Bragg e da filha de Woody Guthrie, uma figura tão escorregadia quanto Guthrie começa a ganhar contornos pela recuperação de uma memória que não é a dele, mas sim a de quem o busca. Uma memória inventada. Seja pela estória com traços de “h”, narrada por Nora Guthrie (e a câmera colocada na cabine de gravação, expondo o rosto da voz em off, é uma escolha brilhante), ou pela maneira como Billy Bragg monta seu Woody Guthrie a partir dessas canções (a cena em que Bragg comenta “Ingrid Bergman” em um show, por exemplo), o filme de Kim Hopkins equilibra-se nessa busca fadada à incompletude, nessa necessidade de se criar Guthries particulares, pois o Woody Guthrie de Woody Guthrie não está mais ali.
Canções
Especial “Eu fui no show do Josh Rouse”! Fotos tiradas pela Clarissa, da fileira H do Sesc Vila Mariana.
1 – “Streetlights”
Todos sabíamos que “Winter In The Hamptons” – maior hit de Rouse – seria um momento memorável, por isso reservo estes cinco lugares a canções menos esperadas; às surpresas que todo grande show reserva (pois a noite com a Rouse foi, definitivamente, grande). Sempre achei “Streetlights” uma de suas mais belas canções, afinal, a identificação com um refrão que diz “We can talk about the streetlights” era inevitável – tão próximo que está do meu universo de composição. Como Rouse tem muitas canções, estava preparado para não ouvi-la. Mas se o show deixou uma impressão incontornável a respeito de Rouse é a sua plena consciência de quais são suas melhores canções, e “Streetlights” veio marcada pelo violão de 12 cordas, já próxima ao final da noite. Ao contrário de canções como “Givin’ It Up” – sensivelmente lascada pela falta das cordas – em “Streetlights”, a saída dos violinos gerou uma versão mais crua, mas talvez ainda mais forte, mais orgânica, do que a conhecida em Nashville.
2 – “Hollywood Bassplayer”
Embora mal possamos ouvir guitarras em seus dois últimos discos, é ela o instrumento que permaneceu nos braços de Rouse pela maior parte da noite. Não espere, porém, ouvir transposições de arranjos para o instrumento, ou sequer ver Josh Rouse mover os dedos pelo braço da guitarra para fazer um solo – os essenciais ficam a cargo de Mike Cruz, que em duas ou três canções abandonaria o teclado para tocar uma segunda guitarra. Em “Hollywood Bassplayer”, a ausência foi tapada por um recurso genial: o agudo solo de guitarra foi “cantado” por toda a banda. “Hollywood Bassplayer” é a melhor canção de Country Mouse, City House, seu mais novo álbum, comentado aqui à época dos Melhores de 2007.
3 – “Quiet Town”
Faixa de abertura do impecável Subtítulo, “Quiet Town” é uma canção quase boba, mas que ganhou contornos realmente inesperados em sua versão ao vivo. Seja pelo trabalho de luz durante sua apresentação (nesse momento, apenas um corte amarelo retirava o rosto de Rouse da escuridão do palco) ou pela acentuada dinâmica no momento em que o violão passa a ser acompanhado pelo resto da banda, “Quiet Town” mostrou, ao vivo, uma força que sua versão em estúdio – por melhor que seja – nunca pareceu encontrar.
4 – “His Majesty Rides”
A organização do SESC é tão competente que chega a alguns absurdos: na entrada do show, havia uma pilha de programas que, além de explicarem quem era Rouse, anunciavam o repertório completo do show. Embora não tenha resistido a uma breve conferida em minhas favoritas, fiquei um pouco chateado de a inevitável olhada estragar as possíveis surpresas da noite. “His Majesty Rides” foi a primeiríssima canção da noite, contrariando a fraca “Pilgrim” (que apareceria, mais tarde, só para eu ter uma canção para, imaginariamente, substituir pelas grandes que ficaram de fora - como "Rise", "My Love Has Gone", "Nothing Gives Me Pleasure", "1972", "Late Night Conversation"...), anunciada como abertura no folheto. E ali passei a agradecer por, embora impecável, a organização do SESC também ter suas falhas.
5 – “It’s The Nighttime”
Já estava com o nome da canção rodando na boca, percebendo que o show caminhava para o fim e ela ainda não havia aparecido. Pensava que não haveria maneira mais bonita de encerrar noite tão especial do que com canção que dizia “It’s the nighttime, baby, don’t let go on my love”. Antes que pudesse gritar por ela, Rouse assinou embaixo da intuição de que temos cabeças musicais extremamente parecidas, puxando a canção ao violão para encerrar o tempo regulamentar. Ele voltaria ao bis com “Slaveship”, “Sad Eyes” e “Directions”, mas “It’s The Nighttime” foi a canção que me acompanhou até o hotel. Fato digno de nota: ao fazer o check in, após o show, vejo que a Clarissa olhava fixamente para o bar do hotel. Perguntei o que era, e sua resposta foi manter os olhos fixos. Olho pro bar e lá estão Josh Rouse e banda. E eu fui lá agradecer mais uma vez, por tudo, antes de ir dormir.
Faixas tocadas:de Home - "Directions"
de 1972 - "Come Back", "Love Vibration" e "Slaveship"
de Nashville - "It's The Nighttime", "Winter In The Hamptons", "Streetlights", "Carolina", "Why Won't You Tell Me What" e "Sad Eyes"
de Subtítulo - "Quiet Town", "It Looks Like Love", "Summertime", "His Majesty Rides" e "Givin' It Up"de Country Mouse, City House - "Sweetie", "Pilgrim" e "Hollywood Bass Player".
quarta-feira, agosto 13, 2008
Postado por Fábio Andrade às 8:37 PM
O susto e o sorriso
Estava lendo o ótimo Calmantes com Champagne (aliás, prometo em breve fazer uma lista apresentando mais detalhadamente as leituras recomendadas aí ao lado) quando, em meio a um post sobre o fim de uma banda que não conheço, dou de cara com a bomba:
"Então vamos parar com esse lenga lenga porque a vida segue em frente e, sexta, em São Paulo, tem show do graaaande Josh Rouse (que eu saiba, ainda tem ingressos)..."
Senti o coração parar por um ou dois minutos, me perguntando como uma notícia feita para mim (até poucos meses atrás, Josh Rouse era o meu número um no Last.fm. Hoje, ele só perde para o Bruce - o que não deveria sequer ser considerado uma derrota) poderia ter me escapado por todo esse tempo. Descobri que o show fora confirmado quando eu ainda estava fora, e que, além desta data em SP, Rouse só faria uma outra apresentação no Brasil, no MADA. E olha que, no estrangeiro, sempre dava uma olhada no Lúcio Ribeiro, para confirmar que o mundo aqui continuava muito mais caído do que o mundo de lá. Mesmo assim, nem uma nota, sequer, sobre a surpreendente passagem de Rouse pelo Brasil.
Depois de uma hora de tremedeira e dedos correndo pelos teclados (do computador e do telefone), estou com as confirmações de uma passagem da Gol (que o vôo não atrase, Clarissa, que eu já tô chegando!) e dois pares de ingresso na última fila do mezanino do Vila Mariana. Faço esse post como símbolo de meu agradecimento ao Marcelo Costa (dono dos calmantes), e como gesto de generosidade para outros possíveis fãs desavisados que, como eu, ainda podem descobrir que depois de amanhã, a última fila do mezanino do Sesc da Vila Mariana será o lugar mais feliz do mundo.
segunda-feira, março 03, 2008
Postado por Fábio Andrade às 12:15 PM
Melhores de 2007
Discos
É curioso como, fazendo esses balanços gerais de fim de ano (que aqui se estendem por alguns meses do ano seguinte), chegamos a impressões conjunturais que, por vezes, passam despercebidas no presente dos acontecimentos. Em 2006, enquanto os cinco primeiros lugares da minha lista de filmes traziam os adornos em ouro característicos das obras-primas, minha lista de discos transitava por álbuns interessantes, mas nunca exatamente perfeitos. Já em 2007, a coisa toda se inverteu: se, no cinema, a única obra irretocável chegou por aqui na despedida do ano, as primeiras posições dos álbuns foram decididas logo nos primeiros meses.
Mais difícil, portanto, seguir fingindo que essa lista tem pretensão de salvar os melhores, em vez daqueles que, simplesmente, me dão vontade de escrever sobre. Por esse motivo, ficarão de fora discos reveladores de artistas com quem demorei a roçar cotovelos, como Spoon, Band of Horses e LCD Soundsystem, além de gratas descobertas, como Andrew Bird, Bishop Allen e Beirut. Como o catálogo de lançamentos nacional é restrito e, no primeiro ano em que não comprei legalmente nenhum dos discos da minha lista, absolutamente irrelevante, o recorte é feito seguindo as datas de lançamento oficiais do AllMusic. Por esse motivo, bons discos lançados nos EUA em 2007 ficam de fora. É o caso do belo – mas, a essa altura, bem esburacado pelo tempo – segundo disco da Amy Winehouse e do segundo, e muito melhor, álbum dos Magic Numbers – ambos com a primeira data de lançamento oficial ainda em 2006. Fora isso, entre excluídos, só os hypes que não souberam me fisgar em poucas audições (Animal Collective, Panda Bear, Radiohead e outros pitchforkistas) e alguns dos favoritos que lançaram trabalhos pálidos em 2007 (Ben Lee, Foo Fighters e Ryan Adams). Destaque tristemente inevitável para o desastroso álbum de retorno da minha banda favorita: Zeitgeist, do Smashing Pumpkins, é tão insosso que me deixa com muita, muita saudade do Zwan.
10 – Josh Rouse – Country Mouse, City House
e She’s Spanish, I’m American 
É bastante significativo, para a compreensão do critério dessa lista, saber que a inauguro com um álbum que, de certo modo, poderia ser alocado entre as decepções. Por outro lado, me parece desonesto começar de outra maneira que não por quem, em 2007, saiu do nada, para o topo da minha lista de mais ouvidos do Last.FM. Josh Rouse talvez seja o artista que melhor sintetize uma relação de apropriação livre com a cultura pop que me parece muito marcante nesse momento. Não existe território proibido para suas canções, que, com a mesma naturalidade, saem do indie rock (“Late Night Conversation”) para a disco (“Giving It Up”); de Carole King (“1972”) a Smiths (“Winter In The Hamptons”); do piano (“Sad Eyes”) às cuícas (“His Majesty Rides”); da voz e violão (“El Outro Lado”) ao dueto (“The Man Who Doesn’t Know How To Smile”). Nesse desafio de inventariar e atualizar toda a música pop, Rouse tem como característica a capacidade de aparar todas as contra-indicações e marcas do tempo de seus ambientes originais. Muito por isso, seu salto para o posto de artista que mais ouvi em 2007 foi tão natural quanto imperceptível: Josh Rouse é tão agradável de se ouvir justamente por não trazer contra-indicações.
O problema é que, mais cedo ou mais tarde, essa ausência de contra-indicações pode se tornar a sua grande contra-indicação. Assim como Rouse é capaz de invocar os Bens (Lee, Kweller e Folds) sem os excessos de esperteza muitas vezes irritante dos originais (pensemos em quase todo o último disco do Ben Lee), ou de recuperar melodias do Abba sem a grossa camada de poeira que cobre os suecos, ao mesmo tempo seus passeios pela discografia do Smiths não trazem a refinada ironia de Morrissey, como sua inclinação country não vem acompanhada da coragem de um Dylan. Em uma definição clássica, mas aqui bastante efetiva, Rouse seria um artista interessado pelo craft, pelo aspecto estrutural das canções pop. Em vez de psicografar melodias e palavras, Josh Rouse – como um Ryan Adams – parece enxergar os acordes e convenções como peças em um jogo de encaixe onde a meta é sempre a canção pop perfeita.
A questão é que, quando bem sucedido, esse jogo chega a feitos extraordinários; mas, quando mal encaixado, ele se torna francamente insípido. É o caso de algumas das canções de Country Mouse, City House – e o fato de Rouse ter trocado o trabalho extensivo pelo intensivo, lançando discos com uma periodicidade notável, mas sempre com poucas faixas, amplia essa sensação. Enquanto “Sweetie” abre o álbum com uma admirável mistura de temperos de diferentes locais (a lap steel guitar do Tennessee, local imortalizado por Rouse em seus discos passados, e la-la-las em progressão por menores que podem, facilmente, ser atribuídos à sua mudança para a Espanha). “Italian Dry Ice”, porém, desestabiliza um álbum logo na segunda faixa – mais por ter sido pessimamente posicionada no início do álbum, do que pela discrição de seu brilho.
Country Mouse, City House se divide entre canções que não funcionam muito bem (“Italian Dry Ice”, “God, Please Let Me Go Back” e “Pilgrim”), e outras onde Rouse passa por terrenos já pisados, mas sempre marcados por seu talento. Pois se a inquietação formal do artista parecia corresponder à migração constante de sua vida pessoal, o segundo disco de Rouse gravado na Espanha é tomado por um conforto e uma serenidade inéditos em sua obra. Mesmo em suas melhores canções, Country Mouse, City House deixa de buscar novas moradias possíveis, e prefere aprimorar pesquisas já indicadas em canções anteriores. A extraordinária “Hollywood Bass Player”, por exemplo, resgata a base do refrão de “It Looks Like Love” (de Subtítulo) para, sobre os mesmos acordes, construir uma linha melódica ainda mais marcante. “Nice To Fit In” resgata uma urgência perdida desde a obra-prima Nashville, enquanto o expressivo delay vocal em “London Bridges” faz com que a primeira parte da canção pareça cantada pela voz da própria consciência do personagem que pede para ser visto como mais que uma ponte.
Se as fraquezas de Country Mouse, City House ficam mais evidentes por tomarem uma porcentagem maior do que normalmente encontramos em sua obra (é um disco de apenas 9 músicas), felizmente 2007 também nos trouxe o belíssimo ep She’s Spanish, I’m American. Gravado em parceria com a namorada Paz Suay (cantora que motivara a mudança de Rouse para a Espanha, e que já havia emprestado sua voz à belíssima “The Man Who Doesn’t Know How To Smile”, de Subtítulo), o ep parece deixar claro que o caminho mais frutífero da jornada de Rouse pelo velho continente é mesmo o do coração. Trocando a pesquisa formal pelas páginas de um diário, as cinco canções de She’s Spanish, I’m American trazem de volta a vitalidade mal trocada pela calmaria de Country Mouse¸ passeando, aqui, por caminhos que o compositor ainda não esgotara.
Marcam o compasso saltitantemente funkeado de “Car Crash” (uma das melhores canções de Rouse), as camadas de sintetizadores e tremolos de “Jon Jon”, o vocal-vento de Paz Suay em “The Ocean Always Wins”, a melodia morosamente flutuante de “These Long Summer Days” (em um momento onde a sonoridade dos instrumentos parece capturar as intenções da letra com precisão espantosa) e o marcante trabalho de programações (abandonadas por Rouse desde Under Cold Blue Stars) de “Answers”. Somadas ao que Country Mouse, City House tem de melhor, as cinco canções de She’s Spanish, I’m American afastam todas as dúvidas de que Rouse ainda é dos compositores mais confiáveis que o mundo (pois ele é, definitivamente, cidadão do mundo) tem a oferecer, e que sua jornada pela música pop pode se tornar mais interessante à medida que o interesse pelo universo do outro passa a ser substituído por um olhar para dentro de si.
For Dummies
Álbuns de Josh Rouse recomendados em ordem decrescente de interesse:
1 – Nashville (2005)
2 – Subtítulo (2006)
3 – Under Cold Blue Stars (2002)
4 – 1972 (2003)
5 – Dressed Up Like Nebraska (1998)
6 – Country Mouse, City House (2007)
7 – Home (2000)
domingo, outubro 21, 2007
Postado por Fábio Andrade às 1:51 AM
Uma pequena revisão
1- Ontem acordei com "Here we go", do Shelter, na cabeça. Creepy.
2- No fotolog do Driving Music comecei a publicar uma série de fotos que eu e Clarissa temos produzido a partir das letras das canções da demo. Cada verso ganha uma transcriação visual livre, e a cada dia (ou quase) uma delas é publicada. A experiência tem sido bastante
estimulante, e acho que coisas bacanas podem sair dali. Fiquem de olho. Se quiserem, claro.
3- Se as listas de fim de ano servem para alguma coisa, é para sofrerem constantes revisões. Embora ainda esteja de acordo com os filmes que escolhi (e continue sem ter visto coisas essencias que poderiam acabar por ali), estou sempre (re)descobrindo discos que mereciam ter figurado entre os melhores de 2006. Seguem cinco razões pelas quais meu top 10 deveria ter sido, na verdade, um top 15.
Josh Rouse - Subtítulo
Há alguns meses recebi um email de meu amigo Jorgim me recomendando o disco Nashville, de um sujeito chamado Josh Rouse. "Ele canta sobre ruas, postes... todos os seus temas", dizia Jorgim. Nada longe da verdade. De lá pra cá, mergulhei na discografia de Rouse a ponto de
coloca-lo no topo de minha parada do Last.FM (passando Wilco, Feist, Bruce Springsteen, Ryan Adams e todos os meus outros favoritos). Embora Rouse, como Ben Lee, às vezes pareça meio retardado em sua entrega incondicional à pureza ("Life", que fecha Nashville, é um bom exemplo), ele é compositor mais consistente que qualquer um dos Bens, e seus discos são agradáveis como poucos nos dias de hoje. Nashville continua sua obra-prima, mas Subtítulo talvez seja seu segundo melhor disco. Se o email de Jorgim houvesse despertado meu interesse poucos meses antes, canções como "The man who doesn't know how to smile", "Summertime", "His majesty rides" e "Givin' it up" não só garantiriam um lugar de Rouse entre os melhores do ano; o colocariam, de fato, bem perto do trono.
Amy Winehouse - Back to black
Às vezes o hype faz algum sentido. Ninguém aguenta mais essa cafonice de reabilitação, de dente caindo e de dar idéia pra Pitty pôr laquê no cabelo e gravar disco de jazz; o que importa é que, ao contrário de Frank (que acho fraco, fraco), Black to Black tem músicas boas pra caramba, e que o timbre de Amy Winehouse deu uma necessária arejada na música pop atual. Mas quando alguém lança disco em dezembro, a culpa da ausência deixa de ser de quem faz a lista e passa para quem não se programou para conseguir lugar nela em tempo.
Maritime - We, the vehicles
Gosto muito de Glass Floor, primeiro disco da banda formada por Davey von Bohlen após o fim do Promise Ring (banda que, a meu ver, só se tornou merecedora da adoração que sempre lhe perseguiu com o belíssimo, e subestimado, disco final, Wood/Water). Quando ouvi We, the vehicles achei que algo se perdera na mudança de rumo de quase-Belle & Sebastian para quase-Coldplay. Deixei o disco de lado por um bom tempo e, quando voltei a ele, a aproximação com Coldplay me pareceu completamente amalucada, e percebi, ali, um disco até melhor que Glass Floor. We, the vehicles é menos afetado, tem cara mais própria e, o que importa, traz canções melhores. Como eles prometem um disco novo ainda para 2007, sigo com chance de me redimir. Isso, claro, se não achar que ele mais parece ser o disco novo do Coldplay.
I'm from Barcelona - Let me introduce my friends
Cheguei a mencionar o disco do I'm from Barcelona quando escrevi sobre o Belle & Sebastian. Faltou, porém, tempo para o disco assentar. Let me introduce my friends é divertidíssimo de se ouvir e começa com uma sequência de fôlego impressionante ("Oversleeping", "Collection of Stamps", "We're from Barcelona" e "Treehouse"). Além disso tem muito, muito glockenspil, tecladinhos, cornetas e tudo de mais bacana que o rock às vezes deixa de lado. Como na minha cabeça existe a categoria "banda de galerão" (que inclui o próprio Belle & Sebastian, Broken Social Scene, Arcade Fire, Lambchop, Polyphonice Spree, etc), é justo dizer que o I'm from Barcelona é quem melhor se saiu nesse nicho. Não só por compor ótimas canções, mas, principalmente, por conseguir manter 29 pessoas em uma banda, e fazer isso parecer apenas parcialmente ridiculo.
Josh Ritter - The Animal Years
Se Ben Kweller me fez prestar maior atenção em outros Bens, é hora de Josh Rouse atrair olhos para sua classe. Josh Ritter não está muito distante dessa leva de singer/songwriters que tanto me agrada; parece, porém, gostar mais de Wilco e Bob Dylan que qualquer um deles, e, com isso, foge dos momentos meio constrangedores que pontuam as carreiras de seus colegas. Se ele nunca erra totalmente o alvo (e o último disco do Ben Lee é um bom manual de como se atirar no próprio pé e condenar boas canções errando a mira em um verso), as letras de Ritter caminham em terreno seguro demais para grandes tacadas. Ainda assim, The Animal Years é um dos melhores discos de country/folk lançado nos últimos anos, e canções como "Wolves", "Girl in the war" e "Lillian, Egypt" colocam Ritter entre os compositores atuais que merecem acompanhamento dos mais entusiasmados.