segunda-feira, julho 20, 2009

A produção da distância

Untitled (1988/90), de Zoe Leonard;

em exposição em The Female Gaze - Women Look At Women, na Cheim & Read Gallery



A artista que vê o conceito "mulher" por meio da arte. Fotografar um quadro. Ressaltar, com isso, as camadas deformadoras de distância e de discurso. Tirar a cor da tinta. Reenquadrar. Colar-se à tela. Alterar a matéria - a cor, o recorte - mas, principalmente, seu estatuto. Fotografar um quadro é fotografar a tinta seca, porosa, rachada pelos anos. Produzir textura. Produzir pele. Como Chantal Akerman, Pedro Costa, ou Grindhouse, perceber o meio como gerador de sentidos. Revitalizar o antigo; transformar pelo simples deslocamento da reprodução. Pensar, sobretudo, o espaço intransferível e intransponível entre os olhares - quem olha a foto, de quem olhava a pintura, de quem olhava a mulher. A tela é a pele, é o tema, é o centro de interesse. Ao mesmo tempo, a pele é a tela, a mulher é a matéria do discurso. A mulher feita obra de arte; a obra de arte feita mulher.

sábado, julho 18, 2009

Like a hurricane


Se os shows do Wilco são tão virtuosamente perfeitos que parecem ter me colocado em uma eterna suspensão, as outras bandas vistas por aqui pareciam sempre passar por debaixo de meu corpo flutuante. Conor Oberst faz um redondo show à americana, o que significa que sua carreira solo não é mais que um sub-Tom Petty; o Yo La Tengo parece ter alcançado status de veterano só para dar um mínimo de dignidade àquela bundamolice toda; o Pains of Being Pure At Heart tem músicas boas, mas precisa rodar muito para construir um show minimamente engajador; as bandas que abriram para eles (Ribbons e Zaza) são tão conscientes de sua mediocridade musical que tentam se destacar com formações incomuns (só guitarra e bateria, no Ribbons, para músicas que claramente precisam de um baixo; baterista tocando em pé, no Zaza, que é uma chatice de qualquer maneira).

Até que ontem veio o Superchunk - banda que acompanhei sempre à distância, e que nunca cheguei a ver no Brasil - e me puxou lá do alto, rachando minha cabeça contra o chão. 50 minutos de pancadaria - "Detroit Has A Skyline", "Water Wings", o murro final com "Slack Motherfucker" - com uma mínima pausa para respirar ao som da linda "Driveway to Driveway". Faltou "Hyper Enough" - o rockão dos rockões - mas, naquele ambiente inóspito que é o South Street Seaport, o Superchunk me jogou ao chão. Era exatamente o que eu precisava.

sexta-feira, julho 17, 2009

Orkut, Twitter, Facebook


E agora, Flickr.

quarta-feira, julho 15, 2009

Notas infundadas sobre o envelhecimento


É oportuno que o calendário tenha feito coincidirem, em Nova York, as exposições Avedon Fashion, no ICP, e a retrospectiva de James Ensor, no MoMA. Pois, em ambos os casos, o que vemos é o enfraquecimento latente de armaç ões internamente subversivas na medida em que elas se tornam mais claramente conscientes para seus realizadores, virando leitmotif auto-evidente de trabalho.

Logo em sua primeira foto de moda de sucesso, Richard Avedon já deixava claro que sua preocupação era sempre problematizar a imagem. The New Look of Dior trazia a modelo Renée de costas para a câmera, em composição que combina a pose estudada à impressão de instantâneo de um Cartier-Bresson. Em seu contraplano (o plano da foto), porém, temos um homem que não olha para a modelo, mas sim diretamente para a câmera. Mais do que exibir um modelo (a roupa, ou a pessoa), Avedon insere esse olhar problematizador que pensa a imagem dentro da própria imagem.


Que essa primeira foto sirva como guia de aproximação: nos primeiros dez anos cobertos pela exposição como fotógrafo de moda (do final da década de 1940, ao final de 1950), Richard Avedon invariavelmente coordenava os elementos em cena de forma a produzir uma auto-crítica não só a seu trabalho, mas principalmente ao meio em que ele se inseria. Quando não construía um onirismo absolutamente irreal, escancarando a fantasia que a publicidade sempre tenta escamotear, Avedon misturava suas modelos a performers de toda natureza - em coreografia com elefantes de circo, ou em uma mesa sobre um palco onde se apresentam dançarinas de cancan.




Com a simples composição da cena, Avedon estabelecia um complexo discurso de auto-ironia, onde a imagem não só era construída buscando força plástica, mas também um bem articulado jogo de camadas político. As mulheres não apareciam como mulheres; mas sim como performers que viviam do corpo, da imagem, da sedução (em sua série de fotos de Sunny Harnett em cassinos, em 1954, temos a impressão de que os prêmios apostados são as próprias modelos).

A mulher aparece reduzida a cabide; a manequim, como vemos em associação literal na belíssima Workroom - tirada no ateliê de Dior, em 1947 (infelizmente, não encontrada na rede) - em que o enquadramento coloca, lado a lado e em poses igualmente esvaziadas, os corpos inanimados de uma modelo viva e de uma boneca que serve como molde para o costureiro. Esse conceito ele repetiria em 1998, ainda com bastante força, em foto cujos nomes das modelos (Carmen Kass e Audrey Marnay) aparecem como marca, descolados de possível identificação.


De certa forma, a busca por ironia coberta em Avedon Fashion só irá ser retomada em In Memory of the Late Mr. and Mrs. Comfort - série de fotos realizadas para a New Yorker em 1995. Claramente inspirada pela iconografia da pintura madura de James Ensor, Mr. and Mrs. Comfort traz uma modelo (Nadja Auermann) contracenando com um esqueleto.



Tanto em Avedon como em Ansor, a inserção do artifício (o esqueleto) só faz ressaltar o empalidecimento de uma crise que, antes disfarçada, já perdera sua força. Há uma diferença brutal em se compor a ironia a partir do momento, e inseri-la como signo externo à diegese; em Avedon e em Ansor, a necessidade da inserção ergue a cabeça para fora d'água, como buscando um último gole de ar que não é suficiente para manter a pulsação dos pulmões.




O universo dominante da maturidade de Ensor é frustrante, pois traz para o terreno figurativo questões que já eram plenas quando subcutâneas em seus primeiros trabalhos. A ambivalência em relação à vida aparece tão mais bem expressa em suas pesquisas gestaltistas da relação figura/fundo (e é uma grande ironia que um de seus mais belos quadros se chame The Domain of Arnheim, e seja muito anterior aos estudos de Rudolph Arnheim dos fundamentos da gestalt), onde a figura (pois nem sempre é o ser) aparece tencionada entre a vontade de se ver integrada ao m(f)undo, e a necessidade pessoal de se destacar dele - algo que, talvez, atinja maior nível de clareza em suas gravuras a carvão.




Onde termina o chão? Onde começa o rosto? Um se projeta sobre o outro, e a imagem se torna esse espaço indiscernível, imprecisável, incomensurável. A fase madura de Ensor é por demais auto-consciente, e o auto-retrato não é mais movido pelo drama do desaparecimento, mas sim pelos limites que os separam de suas criaturas. Há, aí, algo de carnavalesco, e não é à toa que o carnaval tenha adotado o termo "alegoria"; há necessidade de clareza, pois o meio (o rapaz que olha para a câmera, naquela foto de Avedon) não é mais o centro de discussão. É apenas um meio, de fato.

Quando constrói sua iconografia de caveiras e máscaras, Ensor deixa de se expressar com as particularidades inerentes ao seu craft, como o uso da cor em Fireworks; ou o brilho quase lautreciano - e, por isso mesmo, subversivamente incomum - que ele aplica a The Drunkards, com personagens que parecem prestes a serem absorvidos pelas cores das paredes. Quando Avedon produz um ambiente absolutamente impalpável em In Memory of the Late Mr. and Mrs. Comfort (não bastasse a mão pesada com o título), reduz sua ironia a mensagem. Pois a ironia da ironia é que ela, mesmo quando calculada (como toda composição é), precisa aparentar espontaneidade. Caso contrário, ganha-se em clareza, e perde-se em tensão. E quando alguém evidencia sua intenção de ironia, normalmente ela não é mais que cinismo.

Moscou ne crois pas aux larmes

Não é que eu não acredite em lágrimas. Chorei de tensão quando meu avô faleceu, e de tristeza quando meu peixe morreu - o que, acredito, não pinta de mim contorno dos mais favoráveis. Choro um pouquinho ao final de Sonata de Tóquio, e na cena musical de Em Paris, principalmente porque hoje as antecipo, e me encanto antes de elas acontecerem. Há diversas músicas que me emocionam, mas nunca a ponto de abrir os olhos (embora "Claire de Lune" e "Avant La Haine" mandem nas lágrimas acima). Já chorei algumas vezes de vergonha, em silêncio, sem nota ou vibração.

Até que saiu o disco novo do Wilco e, como acontece com as cenas dos dois filmes aí em cima, chorei lágrimas antecipadas, incestuosas pela familiaridade impossível com a desconhecida "You And I". Mais do que uma grande canção, ela me fez acreditar que existe alguma ordem por trás das coisas; ou, ao menos, de algumas de minhas coisas. Para um ateu, é como perceber Deus. E aí vejo o encontro de novo - o encontro de fato - na noite dessa segunda-feira. Como as epifanias servem para desvelar o mundo, pude ouvir a canção novamente pela primeira vez. E percebi que não é tanto uma dificuldade de chorar; 

mas sim que as lágrimas preferem
evaporar logo
a escorrer.   

sexta-feira, julho 10, 2009

Once a sailor, always a sailor

Foto brilhantemente fanfarrona de Richard Avedon, parte de Avedon Fashion, exposição no International Center of Photography.

quinta-feira, julho 09, 2009

Cinema Argentino

É bastante expressivo que o brasileiro Curumin tenha fechado sua apresentação de ontem, no Central Park, com uma versão para "Beat It", do Michael Jackson - e ainda mais gritante que tão pouca gente tenha comprado a adulação. Expressivo, pois sela a minha impressão de que o problema mais grave dessa tal nova música brasileira é a vontade excessiva de agradar. Sua música é bem tocada, com boas referências, e tudo mais; mas é simpática demais, redondinha demais. Com isso, se torna inofensiva, inócua, estéril.

Há, no trabalho de Curumin, uma coordenação clara que agrupa muito da música brasileira que funcionou fora do Brasil (de Jorge Ben ao funk carioca), mas que tira delas o fator de risco que lhes era originalmente revigorante. O mesmo acontece com a relação com a música alternativa contemporânea, do que o sampler de violão é o grito mais alto (por que não tocá-lo ao vivo, se o sampler, em si, nada acrescenta?). É Tim Maia sem peso, samba sem a iminência do descontrole, Karnak feito óbvio (em vez de "O mundo caquinho de vidro" temos "A esperança é a última que morre"), Animal Collective como tocador de playback. Falta uma ponta de algo que, talvez, só seja perfeitamente expresso em inglês: edge. Algo que estava lá até mesmo no pior de Caetano, Chico, João Gilberto, ou nos momentos mais auto-indulgentes dos Hermanos.

O show do Curumin fez lembrar o do Ludov que vi no Curitiba Pop Festival (ano do Pixies), em que a vocalista parecia ter medo de deixar dissipar o sorriso constante, como se toda pessoa na platéia fosse um executivo de gravadora em potencial. E poucas coisas são tão repulsivas quanto o sorriso forçado, a simpatia obrigatória.

Juana Molina, por sua vez, foi exatamente o oposto disso. Dá seu boa noite cheio de doçura (mas sempre meio tímido) em vestido xadrez amarelo, e começa logo a impressionar pela destreza e criatividade com que pilota seus aparatos (dessa vez escorados por dois outros músicas - baixo e bateria). Não é pro meu gosto, mas é sempre bom, instigante e sólido. Vi umas cinco músicas (lembrando que eu já tinha visto seu show no ano passado), mas aí ja era tarde para recompor a pau molência proporcionada por Curumin e o dj El G - que animava os intervalos com overdoses de raggaton (vulgo: o ritmo mais chato do mundo, a não ser pela abertura do Beau Travail).

quarta-feira, julho 08, 2009

Contrabando de Formigas

5. The Everlasting Youth


Perto da Washington Square, um jovem aproveitava o raro dia de vento no verão. Naquele breve cruzamento, nada sobre ele importava muito, a não ser o fato de ele ser jovem. E, como quase todos os jovens do país, tinha algo de roqueiro. A camisa azul clara fazia menção a um festival de 2002. No centro dela, um desenho de traços à New Yorker de um homem de perfil, com os cabelos penteados para trás, e o rosto sério como o de um jovem Leonard Cohen. Logo abaixo, o nome da estrela aparecia todo em caixa alta, feito ELVIS, BEATLES ou RAMONES:

MAHLER.

domingo, julho 05, 2009

Those Lovely Seaside Girls



É esse o nome do ep que traz "Chorus" e "Rain or Shine", as duas mais novas canções do Driving Music. Passei os últimos meses (mesmo com alguns longos intervalos) trabalhando pesado nas duas filhotas, e agora elas estão aí, pelo mundo, esperando que você as escute. Você pode fazer o download direto do novo site do Driving Music, ou escutá-las primeiro (para ver se vale a pena) no MySpace. Passe para quem você acredite que possa se interessar, e não deixe de depositar seus dois tostões de prosa nos comentários

* * *

Hoje parto para Nova York para mais um mês de férias roqueiras. Como estarei devidamente conectável por lá, enviarei atualizações rápidas ou por aqui, ou pelo Twitter. Até Agosto!

segunda-feira, junho 29, 2009

Party
Manoel de Oliveira, 1996

É claro que não se sai de um filme de Manoel de Oliveira sem um punhado de momentos inesquecíveis (a ventania; Leonor Silveira em silhueta, secando os cabelos; os brilhantes últimos cinco minutos; o peixe sobre a mesa; etc.) , mas, nesse primeiro contato, Party pareceu-me estranhamente pesado. Fui encontrar o motivo para a minha impressão em um trechinho simples e preciso na confluência com a leitura de ABC da Literatura (ótima recomendação do André), do Ezra Pound, quando ele fala sobre o uso do texto no teatro:

Em última análise, penso que todo homem animado de uma razoável curiosidade literária há de ler o Agamenon, de Ésquilo. Mas se ele pensar no teatro como meio de expressão, verá que enquanto o veículo da poesia são PALAVRAS, o veículo do teatro são pessoas em movimento sobre o palco usando palavras. Isto é, as palavras constituem apenas uma parte do veículo e as lacunas entre elas, ou as deficiências dos seus significados, podem ser preenchidas por "ação".

Pessoas que examinaram o assunto com critério e isenção estão absolutamente convencidas de que a máxima carga de significado verbal não pode ser usada no palco, exceto por breves instantes. "Leva tempo para que ela seja apreendida", etc.


O volume do texto em Party é um problema, pois Manoel de Oliveira não preenche sempre tão bem as lacunas entre as palavras. Há muita fala, mas o problema não é tanto esse, quanto a sua distribuição pelo quadro, pelos espaço, pelos gestos. Com isso, muita coisa acaba se anulando, se perdendo, se esvaziando. É precisamente a diferença de pesos de um texto como o de Party, para o de Um Filme Falado.

domingo, junho 28, 2009

2008 em 10 discos

05 - The Hold Steady -
Stay Positive


Ouvir Stay Positive sem um par de headphones é como passar pelo Hold Steady sem se atentar para o que Craig Finn está cantando. Em falantes que não estão grudado aos seus ouvidos, Stay Positive parecerá tanto mais um disco como outros do Hold Steady, quanto o Hold Steady parece uma banda de rock qualquer se não prestamos atenção nos salmos entoados por Finn. "I went to yr schools, I did my detention, but the walls are so gray I couldn't pay attention. I heard yr gospel. It moved me to tears, but I couldn't find the hate and I couldn't find the fear. I met yr savior, I knelt at his feet, and he took my ten bucks, and he went down the street. I tried to believe all the things that you said, but my friends that aren't dying are already dead", canta o monge vadio em "Constructive Summer". Canta sobre Charlemagne, Gideon e Holly; jovens já não tão jovens que se entregam, igualmente, aos prazeres do mundo terreno, e à culpada salvação projetada sobre o céu. Nas letras de Finn, os momentos realmente extraordinários (como o pinçado acima) são os que melhor se sustentam entre essas duas tensões. Questão de equilíbrio; questão de mixagem.

É preciso ouvir
Stay Positive com fones de ouvido, pois a soberba mixagem de John Agnello e Ted Young capta, literalmente, esse tênue espaço pela maneira como é configurado o espectro estéreo. Se as convenções de mixagem - que regem, inclusive, os discos passados do Hold Steady, basta lembrar como se alternam as guitarras em "Chips Ahoy" - normalmente abrem as guitarras cada uma a seu canto (uma na caixa esquerda, outra na direita), aqui, seguir a regra seria como tirar a cruz das letras de Finn. Seria aniquilar justamente o que faz do Hold Steady uma banda única. Daí que é praticamente excluída toda a segunda guitarra (e quem já viu a banda ao vivo sabe que Finn mal encosta em seu instrumento), e o estéreo se abre de maneira mais particular: de um lado, a guitarra certeira de Tad Kubler; do outro, o teclado multiforme de Franz Nicolai. Saturação/pureza; homem/mulher; inferno/céu; um copo de cerveja para o alto, um crucifixo que puxa os joelhos ao chão. Uma cabeça, um coração e dois ouvidos - o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A guitarra sempre altiva ("Lord, I'm Discouraged" deixaria Slash orgulhoso), e o teclado em constante transformação: um cravo solene; um sintetizador esquizofrênico; pianos de Asbury Park, e órgãos de catedrais. Por vezes as coisas fogem do controle, e um riff de guitarra se joga para a outra caixa como um tapa é dado em momentos de pouca clareza; mas logo as palpitações passam, e as coisas voltam para seus devidos lugares.

Se existem particularidades em
Stay Positive que o separam do quase impecável Boys And Girls In America (há mais pecados aqui), são mudanças de produção. Pois Boys And Girls In America marcava o ponto alto da estratégia usada pela banda em todos os seus discos até aquele momento: fazer com que seu andamento se aproximasse o máximo possível de um show, com canções e arranjos por vezes mal acabados que traziam, nessa precariedade, um necessário senso de urgência. Stay Positive já não pensa as canções como fragmentos de um todo, e as trabalha como obras individuais. No caso do Hold Steady, isso produz algumas de suas mais perfeitas jóias ("Sequestered In Memphis", "Constructive Summer", "Magazines" - mesmo com Ben Nichols, do Lucero, soando completamente fora de lugar - "Yeah, Sapphire", "Slapped Actress" e as extraordinárias faixas bônus "Ask Her For Aderall" e "Two-handed Handshake" - duas das melhores canções da banda, presentes apenas na versão em digipak do cd), mas também faixas que giram em certa alto-indulgência ("One For The Cutters", "Both Crosses", alguns momentos de "Navy Sheets" - que tem a seu favor um Drive-by Trucker, e uma ótima letra) e acabam nunca virando coisa alguma.

O que não muda, porém, é a destreza com que Finn constrói um dos universos mais fascinantes e particulares da música atual. Ele aprende com Bruce Springsteen a dedicar o olhar para os
underdogs, mas percebe que o drama hoje não está mais no proletariado, mas sim na potência de apatia dos jovens de classe média. Pois se em "Thunder Road" havia o desejo de sair da cidade para vencer, em "Constructive Summer" há apenas a consciência de que se morrerá nela. Temos o sujeito de meia idade moldado por Joe Strummer, "Youth of Today and the early 7 Seconds"; a garota que é sempre encantadora pela manhã, mas nunca à noite; as canções cantaroladas entre lábios que se beijam; o sangue derramado; os jovens que saem de casa virgens, e voltam vampiros; as suturas e os hematomas; a vida como performance; os garotos que ficam mais novos, e as bandas que soam mais altas (e sabem que nunca se tornarão estrelas); o dinheiro que custa sonhos; os rapazes que mal tentam, e as garotas que em nada ajudam. "I hope you'll still let me kiss you". Corpos que se esbarram e, donos do tempo que preferem ver passar, se entregam intensamente à vida que são capazes de inventar. "I'll be Ben Gazarra, You'll be Gena Rowlads (...) I'll be John Cassavettes, let me know when you're ready".

For Dummies
Álbuns do Hold Steady em ordem de preferência

Boys And Girls In America (2006)
Stay Positive (2008)
Almost Killed Me (2004)
Separation Sunday (2005) 

sexta-feira, junho 05, 2009

Tipo Eisenstein

E o tal jogo do Adriano para Playstation, ao menos a versão vendida na Itapirú, ganha uma capa redux. Nela, o gigante Adriano - que toma toda a extensão da capa - esnoba uma foto menor, sobreposta, de Ronaldo com a camisa do Corinthians, as mãos na cintura e um sorriso amarelo no rosto.

domingo, maio 31, 2009

2008 em 10 discos

06 - Smoking Popes - Stay Down

Os Smoking Popes surgiram para o mundo, na segunda metade da década de 1990, como mais uma banda de pop punk a ser rapidamente assimilada pelas majors na onda pós-Green Day. Lançaram dois álbuns belíssimos (Born To Quit, de 1995; e o irrepreensível Destination Failure, de 1997); depois partiram para coletâneas de demos (Get Fired; depois relançado com faixas bônus, como 1988-1998) e de covers (The Party's Over) bem menos dignas de atenção e apareceram com músicas em trilhas-sonoras razoavelmente populares (As Patricinhas de Beverly Hills; Angus - O Comilão, filme que teve sua trilha lançada no Brasil, e acabou mais conhecido pelo cd do que por possíveis méritos cinematográficos - nada surpreendente, aliás). Até que Josh Caterer, vocalista e guitarrista da banda, encontrou Deus e, meio como o Rodox, resolveu que só cantaria letras de fé. Josh montou o Duvall para cantar sobre Jesus, banda que praticamente não existiu; Mike Felumlee lançou canções solo e teve uma breve passagem pelo Alkaline Trio; e Eli Caterer tocou com o Colossal. Enquanto isso, os discos dos Popes iam lentamente desaparecendo do catálogo da Capitol. As lembranças da banda apareceriam em um disco tributo, e nas constantes menções de Morrissey, que sempre apontava o quarteto de Chicago como sua banda "nova" favorita.

A história comercial dos Smoking Popes é, portanto, a mesma de diversas outras bandas do período, de Ruth Ruth a Muffs. Mas a história comercial é, também, a que menos importa. Musicalmente, os Popes passaram lamentavelmente por debaixo do radar de boa parte dos ouvidos mais dedicados - embora Destination Failure tenha recebido um nada desprezível 8.8 da Pitchfork - como mais uma entre as inúmeras bandas de pop punk descartadas no período. Uma audição mais atenta, porém, seria suficiente para perceber não só uma abordagem bastante única do gênero (pelo simples fato de Josh Caterer desafiar as paredes de guitarra como um crooner de graves inabaláveis - preferência que ficava ainda mais clara no repertório nada ortodoxo de The Party's Over), mas principalmente uma inquietação aguda diante das convenções melódicas que caracterizaram o punk desde seu nascimento. Por baixo do verniz de simplicidade, as canções de Caterer invariavelmente tomavam os rumos menos prováveis, mudando de tom ou andamento quando já parecíamos ter roubado seu mapa, e buscando menores e diminutos que, em um primeiro momento, pareciam travar a fruição, mas logo depois se mostravam muito mais recompensadores. Enquanto os acomodados engoliam qualquer coisa lançada pela Fat Wreck Chords ou pela Epitaph, e os inconformados se expandiam para os catálogos da Dischord e da Jade Tree, os Smoking Popes morriam em um fosso de desatenção.

Até que Josh resolve voltar a cantar sobre o que sempre cantou. A banda faz uma turnê de reunião (com um novo baterista se juntando aos irmãos Caterer) e, dois anos depois, lança Stay Down, seu primeiro disco de inéditas em 10 anos. E, numa uruca de timing sem tamanho, se restabelecem como uma banda que não interessa a quase ninguém. Pois Stay Down é um disco muito mais direto que a maior parte das pessoas está disposta a se interessar, sem artifícios de momento que simulem algum frescor (penso, aqui, na emulação de Springsteen que tenta esconder o pop punk quadradíssimo feito por bandas como Gaslight Anthem e Loved Ones, por exemplo), ou interesses acessórios que possam vir a falar mais alto que as canções (da ironia babaca dos últimos do Weezer, à precariedade conceitual de bandas como Vivian Girls, Matt & Kim e No Age). As canções dos Popes continuam ricas demais para os ouvidos simplórios, e simples demais para os esnobes. Enquanto todos se surpreendem com a pegada roqueira que Morrissey vem afiando em seus últimos discos (lembremos, inclusive, que Destination Failure foi uma das melhores produções de Jerry Finn - falecido gênio das frequências que vinha pilotando os últimos do Moz), a banda que parece ter inspirado tudo isso segue lançando discos belíssimos, fadados ao desconhecimento.

Stay Down é, por diversos ângulos, o mais puro dos discos dos Smoking Popes. Enquanto Destination Failure construía encantamento nas dobras surpreendentes da escala musical, em Stay Down toda canção parece absorver essas esquinas com uma naturalidade serena. Seja pela urgência latente ("Welcome to Janesville", "Maybe I'll Stay") ou pela delicadeza de suas canções quase infantis ("Little Jane-Marie", "Into The Summer Sky", a própria faixa-título), os Popes deslizam pelas 12 faixas de seu último disco com a facilidade dos talentos natos. Josh ainda tem a voz de um anjo, Eli Caterer ainda cria riffs penetrantes, Matt Caterer ainda sai com linhas de extremo bom gosto (o baixo de "If You Don't Care" é um grande exemplo), e Neil Hennessy (dos Lawrence Arms) preenche os pedais de Mike Felumlee com absoluta precisão. Apesar dos momentos de fraqueza ("It's Never Too Late (For Love)" é a canção mais acomodada que a banda, entre erros e acertos, já escreveu), Stay Down tira a poeira de um gênero extremamente desgastado pelos anos de mau uso e excesso de exposição, sem nunca precisar recorrer a falsos conceitos, atalhos, makeovers que fracassam por sempre tenderem a uma nova caricatura. E se o disco me faz retomar um caminho que venho abandonando há alguns anos, é porque o que faltava eram boas canções, registradas com honestidade e paixão, sem a impressão de estarmos ouvindo a um plano de marketing. Aqui estão elas.




For Dummies
Álbuns dos Smoking Popes em ordem de preferência

Destination Failure (1997)
Stay Down (2008)
Born to Quit (1995)
Get Fired (1996)
The Party's Over (2001)

sexta-feira, maio 22, 2009

Be quick or be dead

Na subida da Rua Itapirú, um camelô vende um jogo de Playstation que traz, na capa, a foto de Adriano vestindo novamente a camisa do Flamengo.

terça-feira, maio 19, 2009

I Am Trying Not To Break Your Heart