sexta-feira, setembro 28, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:17 PM
Festival do Rio – Dias 3 e 4
DIA 3
Sempre bela (Belle Toujours) – Manoel de Oliveira
Um dos processos inevitáveis de se assistir filmes em seqüência (e um festival se torna terreno fertilíssimo para isso) é a busca de paralelos, de relações entre os filmes que se tornam mais evidentes pela proximidade em que são assistidos. Assim como outro veterano com filme na mostra – Claude Chabrol e seu “Moça dividida em dois”, abordado no post passado – o português Manoel de Oliveira também traz a moralidade para o centro de discussão de seu “Sempre Bela”. No caso de Oliveira, a fonte de inspiração tem endereço: “Sempre bela” é uma livre continuação de “A bela da tarde”, filme realizado por Luis Buñuel em 1967. O reencontro de Henri Husson (Michel Piccoli, em ambos os filmes) e Séverine Serizy (antes Catherine Deneuve, agora reencarnada por Bulle Orgier) é pretexto para que Oliveira depure ainda mais sua rigorosíssima mise-en-scène, e seus pequenos toques mágicos que fazem brotar exuberância de cenas incrivelmente simples.
Essa simplicidade, nunca simplista, é o que mais emociona em “Sempre bela”. Embora a promoção do reencontro de dois personagens célebres na história do cinema não deixe de ser um fetiche para o espectador (e Manoel de Oliveira é bastante econômico nessa relação, trazendo elementos do filme de Buñuel que sejam apenas suficientes em situar o espectador no universo de “Sempre bela”), é na habilidade de narrar do diretor que se escondem os grandes momentos do filme. Sim, pois quando se chega perto dos 100 anos de idade em plena atividade – como é caso de Oliveira – é a agudez desenvolvida pelo olhar que impressiona olhos ainda jovens como o meu (o plano do cão amarrado ao barco em “Um filme falado” talvez seja o mais claro exemplo disso). Trabalhando as particularidades narrativas de uma arte pouco mais velha que ele mesmo, Manoel de Oliveira cria pequenos momentos de deslumbramento onde outros diretores talvez vissem apenas mais um cenário, um diálogo, um gesto, um enquadramento.
Dois momentos chamam atenção particular nesse sentido: quando Husson e Séverine finalmente trocam suas primeiras palavras, o diretor desmonta a onisciência da captação de som e, num plano médio, acompanhamos visualmente o diálogo enquanto, na banda sonora, ele é absolutamente devorado pelos ruídos do ambiente. Essa estratégia já havia sido usada por Oliveira no primoroso “Vou pra casa” (com o mesmo Piccoli), mas reaparece aqui saudavelmente zombeteira, jogando com a relevância cinéfila das primeiras palavras trocadas por personagens eternos após 38 anos de separação. É quando, finalmente, Husson e Séverine conversam sobre o passado que Manoel constrói outro momento que parece chegar à tela já eternizado. Depois de uma longa e silenciosa refeição, presenciamos os dois personagens-lenda conversando em um ambiente iluminado apenas por velas que, ao longo da conversa, apagam-se, uma a uma. Os personagens se perdem no negro do primeiro plano e a cidade, ao fundo, enche o quadro pela janela. Com um recurso simples de fotografia prática, Manoel de Oliveira constrói um dos mais belos planos já feitos sobre a velhice e a passagem do tempo.
Essa economia extrema e absolutamente eficiente (o filme tem apenas 68 minutos!) conferem a “Sempre bela” uma fluidez impressionante. Manoel de Oliveira conduz o espectador por seus ambientes sem nunca esbarrar em um móvel, ou apertar a passada. O tempo das coisas é o tempo das coisas, parece nos dizer. Com mais esse belo filme, um dos mestres maiores do cinema me manteve contando nos dedos os dias para assistir “Cristóvão Colombo – O Enigma”, seu mais novo filme que estréia hoje no Festival.
DIA 4
A floresta dos lamentos (Mogari no Mori) – Naomi Kawase
Assim como a rotina do Festival traz novos filmes à lista de interesses, alguns são riscados – em alguns casos com certo pesar – da lista por motivos externos. Foi o caso de “Silenciosa luz”, filme de Carlos Reygadas que o cansaço me impediu de emendar em “A floresta dos lamentos”. Fiquemos, porém, no que foi visto; e, nesse caso, “A floresta dos lamentos” é experiência digna de várias notas. Despertando paixões como poucos filmes conseguem, esse último trabalho da japonesa Naomi Kawase pareceu polarizar as opiniões de todos que saíam da sala.
Em “Shara”, seu majestoso longa anterior, Naomi Kawase construiu uma das mais impressionantes seqüências de abertura do cinema contemporâneo: dois irmãos brincavam juntos, correndo pelas ruas da cidade, até que, em um “descuido” no enquadramento, um dos irmãos sai de quadro e desaparece, de fato, por todo o resto do filme. Esse irmão desaparecido não será mencionado após essa seqüência, mas sua ausência se tornará dado influente em tudo que nos é mostrado ao longo de “Shara”. Embora em “Floresta dos lamentos” não exista um prólogo como o do filme anterior, Naomi Kawase mais uma vez trabalhará a partir de ausências. Os personagens de “Floresta dos lamentos” estão reunidos em uma espécie de retiro de luto; um lugar onde as pessoas vão para aprender a lidar com perdas passadas – recentes ou não – e restabelecer um contato com o mundo vivo.
A ausência, porém, é confirmada nos diálogos: sabemos que Machiko está ali por ter perdido seu filho, e logo descobrimos que Shigeki tenta, há 33 anos, ficar em paz com a morte de Mako, sua esposa. O impacto de luto tão duradouro faz que Machiko se aproxime de Shigeki, para que ambos possam superar suas perdas juntos. A partir daí, “A floresta dos lamentos” sai do retiro e entra na floresta de fato; momento que também marca o mergulho do filme em um simbolismo bastante definido, mas sempre muito impressionante.
As chaves para o filme de Kawase são bastante visuais: a floresta como luto (e a vontade de Shigeki de se perder nessa floresta, de não mais sair dela), a pesada mala que Shigeki carrega sozinho, sem deixar que Machiko o ajude (assim como em “O sabor da melancia”, de Tsai Ming-liang, a “bagagem” aparece mais com o peso do termo em inglês do que com uma suposta “sabedoria” trazida pela palavra em português), a água como vida (Shigeki luta contra a enxurrada, não deixando que a vida o curso da vida o tire de seu luto) e a terra como mãe, como útero (a seqüência final do filme – em que Shigeki deita junto ao solo e diz se sentir bem ali – é a manifestação clara do desejo de retorno ao útero materno, ao ambiente de maior proteção).
A verdadeira batalha de Machiko e Shigeki contra o luto é, porém, entrecortada por belíssimas pausas para a interação com a vida. Em uma canção que tocam juntos ao piano, ou em uma brincadeira de esconde-esconde nos jardins do retiro (ou, mais tarde, em um campo de melancias), Machiko e Shigeki parecem ainda se maravilhar com a vida, e encontram, ali, os parceiros ideais na jornada pelo fim do luto (a presença do marido de Machiko, em uma cena em que culpa a mulher pela morte do filme, é especialmente esclarecedora em sua pontualidade).
É sobre a vida que sobrevive à morte que Kawase se interessa, e é aí que “A floresta dos lamentos” se aproxima muito de “Shara”. Após acompanharmos a exaustiva caminhada pela floresta de dois corpos ainda encharcados de vida, somos presenteados com uma seqüência tão impressionante quanto o sumiço do irmão em “Shara”: quando Shigeki deita-se à terra junto ao túmulo de sua esposa, o verde resplandecente de um jovem broto insiste tomar o primeiro plano, apesar do reenquadramento constante da câmera solta de Kawase. A floresta, o luto, talvez de fato insuperáveis; mas que também são fontes de uma vida nova. O túmulo que também é útero. A vida a partir da morte.
domingo, setembro 23, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:00 PM
Festival do Rio – Dias 1 e 2
Estava tentando evitar a idéia de fazer uma cobertura filme a filme do festival por aqui. O problema é que saio de cada sessão cheio de idéias sobre o que vi, e tomado pela vontade de organizar essas idéias de maneira mais sólida e coerente. A única forma que conheço de fazer isso, porém, é escrevendo. Começo, então, esse diário de bordo (embora já traia, de cara, seu título, ao acumular dois dias em um só, e jogar o hoje para amanhã) com essa finalidade. Apenas impressões sobre filmes que acabei de ver e que gostaria de compartilhar com vocês.
DIA 1
Uma moça dividida em dois (La fille coupée en deux) – Claude Chabrol
Claude Chabrol está entre os diretores da nouvelle vague francesa que menos conheço. Assisti a alguns de seus filmes mais recentes, mas nada que me ajudasse a configurar uma idéia mais ampla de qual seria seu projeto estético, suas questões. Confesso, porém, que não havia me encantado com nenhum dos filmes que assisti. Seu lançamento anterior – o elogiado “A comédia do poder” – sustentara meu interesse em ondas bastante irregulares e, embora o considere um bom filme, sua morosidade não me era convite tentador para investidas futuras.
Mas a conveniência propiciada pelo Festival de poder emendar seu novo filme em “Síndromes e um século”, em um cinema que fica literalmente em frente à minha casa, acabou me seduzindo à sala, e me convencendo a começar o Festival por um filme que sequer constava em minha lista de intenções.
“Uma moça dividida em dois” começa com um cromatismo já impressionante: um passeio de carro onde toda a imagem é tingida de vermelho, enquanto, na banda sonora, ouvimos uma peça de música erudita. Logo que as cores tomam seus lugares tradicionais, o carro pára e continuamos ouvindo a música que nos acompanhou pelos créditos iniciais. Uma mão entra em quadro e, pacientemente, espera que a música acabe para que possa desligar o rádio. É com esse pequeno gesto – uma mão esperando uma música acabar, não querendo ferir a diegese criada por aquela música junto àquele passeio de carro – que Claude Chabrol, nos primeiros minutos de “Uma moça dividida em dois”, me ganha por completo. Alguns filmes correm horas sem conseguirem sequer sentar ao meu lado. Em um bom filme, como é o caso de “Uma moça dividida em dois”, um pequeno gesto de identificação (parar uma música antes de ela chegar ao fim me é experiência dolorosíssima) pode ser a chave que o leva ao espectador.
“Uma moça dividida em dois” divide Gabrielle (Ludivine Sagnier) entre o amor incondicional pelo escritor Charles Saint-Denis (François Berléand) e o galantismo do playboy Paul Gaudens (Benoît Magimel). Jovem jornalista com carreira em lenta (mas promissora) ascensão, Gabrielle é, ao mesmo tempo, cortejada pela sofisticação sedutora (embora um tanto cafajeste) de Charles, e a inconseqüência brincalhona (mas, como toda inconseqüência, desmedida e um pouco assustadora) de Paul. Charles tem uma carreira de extremo sucesso e um casamento que não demonstra intenções de abandonar. Paul vive das rendas da família – que é dona de um grande laboratório – e sente ódio mortal, embora pouco explicado, por Charles.
Se a trama traz à discussão uma certa ilusão de moralidade sabiamente problematizada por Chabrol, são os pequenos gestos – como o do início do filme – que fazem de “Moça” um belo filme. Gestos que denotam um controle exímio de mise-en-scène: não há, em todo o filme, um corte que não seja de absoluta expressividade; um movimento de câmera que não tenha um significado dramatúrgico bastante claro; duas seqüências que não sejam conectadas pelo ponto de corte que parece o mais preciso possível. É nessa carpintaria de mise-en-scène que Chabrol me conquista; carpintaria que, embora extremamente eficiente, nunca se perde em descabida exuberância.
Síndromes e um século (Sang Sattawat) – Apichatpong Weerasethakul
Embora tenha chegado ao Rio com um ano de atraso (o filme foi exibido na Mostra de SP do ano passado), “Síndromes e um século” era um dos títulos que mais ansiava poder ver nesse festival. Não é todo dia que temos a chance de ver, em película, um novo filme de um jovem realizador vindo de um canto do mundo sem grande tradição cinematográfica no ocidente (no caso de Apichatpong, a Tailândia) e que, com apenas 37 anos, já tenha realizado ao menos duas obras absolutamente determinantes para o cinema de sua época (“Eternamente sua” e “Mal dos trópicos” – os únicos filmes de Apichatpong que já tive chance de assistir).
O que tanto impressiona no cinema de Apichatpong (ou Joe, como é muitas vezes referido por ocidentais) é que, embora ele seja um cinema de enigmas (as viradas radicais de ambientação e roteiro em “Mal dos trópicos” e “Síndromes e um século” não me deixam mentir), a racionalidade pouco serve como ferramenta de solução. Seus filmes pedem um embarque do espectador, mas é um embarque essencialmente emocional; diria até sensorial. Filmes que entortam tempo, espaço, tradição, movimento, misticismo, narrativa; tudo isso para construir um universo maravilhoso e novo, que Apichatpong nos convida a experimentar por pouco menos de duas horas (mas que desejaremos durar para sempre).
Difícil encadear em texto, portanto, impressões de um filme que desconstrói a própria idéia de encadeamento. Após um plano de copas de árvores que posam frente ao céu (seria uma forma de Apichatpong conduzir o espectador da mata que toma a segunda parte de “Mal dos trópicos” para um novo ambiente, como o corpo encontrado nos primeiros planos de “Mal dos trópicos” parecia vir de “Eternamente sua”?), “Síndromes e um século” começa em um hospital rural. Uma médica entrevista um ex-soldado que quer trabalhar no hospital. Aos poucos descobrimos que, entre outras coisas, o candidato tem pavor de ver sangue. São desses extraordinários questionamentos de figura que nascem os personagens de “Síndromes e um século”: um médico que tem medo de sangue, um dentista que gostaria de ser cantor, um velho monge que maltrata galinhas e tem sonhos que se tornou uma delas, um florista que criou uma orquídea que brilha no escuro, um jovem monge que gostaria de ser dj e compreende sua santidade como a obrigação de vestir trajes açafrão, o paciente que joga tênis sozinho no corredor, a médica que esconde garrafas de bebida em próteses ocas. Personagens tão interessantes e pouco-explicáveis como a antológica cena do aparelho hospitalar que suga fumaça do ambiente, e aos poucos parece também ir sugando o espectador para um outro mundo.
Apichatpong parece, o tempo todo, querer nos dizer que a vida é bem mais complexa do que nossa simples razão pode compreender. Essa reconfiguração completa acontece tanto em termos narrativos (a história que, até a metade do filme, habitava um hospital campestre, migra-se para o ambiente urbano com a falta de consideração de um corte seco) como de linguagem (basta um pad grave de sintetizador tomar a banda sonora para que o iluminado hospital da cidade ganhe um ar de mistério, de suspense). Mais impressionante, porém, é que “Síndromes e um século” nos diz isso com um humor e uma leveza raríssimos no dito cinema “de arte” contemporâneo (talvez só encontrando paralelo em Tsai Ming-liang). Sim, pois parte do discurso de Apichatpong é que o mundo é maravilhoso em seu enigma, e que devemos receber esse enigma com um sorriso, e nos deixar levar. Nada mais apropriado que essa celebração termine como o faz: em uma extraordinária sessão coletiva de aeróbica em praça pública, onde um garotinho transita em meio aos adultos, e imita seus movimentos. Movimentos gratuitos, que, enquanto aeróbica, tem como único fim o próprio ato de se movimentar.
DIA 2
À prova de morte (Death Proof) – Quentin Tarantino
Embora eu costume evitar filmes já comprados para exibição comercial durante os festivais, “À prova de morte” me parecia inadiável. Apesar de o lançamento no Brasil tenha optado pelo desmembramento de “Grindhouse” em suas duas partes (a saber, essa de Tarantino e “Planeta Terror”, de Robert Rodriguez), a possibilidade de se assistir a um novo trabalho de Quentin Tarantino nunca deve ser deixada para depois. Felizmente, “À prova de morte” vem comprovar minhas fiéis expectativas: Tarantino é um dos diretores mais talentosos, originais e envolventes do cinema mundial, e seu último filme (que dava a impressão de ter nascido como um projeto menor) é tão bom quanto qualquer um de seus predecessores.
Desde “Cães de aluguel”, Tarantino vem filmando o cinema. A cada novo trabalho, o diretor adiciona uma nova camada de exploração do meio cinematográfico (enquanto linguagem, arte, comunicação, iconografia, mitologia moderna), e o díptico “Kill Bill” parecia levar esse projeto ao quase paroxismo. Se, em princípio, “À prova de morte” aparenta chover no molhado (o jogo de referências e auto-referências aparentemente esgotado pela exuberância de seu par de filmes anterior), em poucos segundos de projeção entendemos qual é o novo dado adicionado por Tarantino em seu último filme: a experiência cinematográfica do espectador.
Se, de certa forma, todos os seus trabalhos anteriores já tinham essa preocupação, nunca ela chegou tão à superfície (e nunca foi tão complexa) quanto em “À prova de morte”. Superfície de fato: uma das preocupações de Tarantino em seu último filme é com a relação do espectador com a celulóide, a película que carrega as imagens que são projetadas na tela do cinema. Uma primeira questão de “À prova de morte” é a influência cultural do artefato visual que é a película cinematográfica. Os primeiros rolos do filme são propositadamente sujos, riscados, com fotogramas faltando (e o urro da platéia masculina com a interrupção brusca da lap dance de Butterfly foi uma das mais impressionantes manifestações de interatividade com um filme que já vi), com grosseiras orientações de troca de rolos, e incluem até mesmo um acidente de projeção (a inclusão de um rolo preto e branco no meio do filme, como que enviado para exibição por uma distribuidora pouco cuidadosa). Muito mais que um jogo com o espectador, Tarantino traça um quase tratado sobre a percepção do espectador em relação ao papel afetivo da materialidade do cinema (como a inevitável estranheza pela ausência de batimento da legenda em projeções digitais, por exemplo), e como o meio material influencia na fruição artística dos filmes.
A segunda, e mais profunda, camada de análise do espectador em “À prova de morte” está na maneira de se filmar. Tarantino filma toda e qualquer coisa com envergadura de fetiche. Os pés das atrizes, os carros, as canções, o uniforme de cheerleader, os diálogos, as bundas, os amarelos, o sangue, as cenas de ação; tudo que vai à tela em “À prova de morte” é filmado como iconografia já consolidada. Impressionante, portanto, essa capacidade de Tarantino de conferir às imagens um estatuto que, a princípio, só o tempo e a memória afetiva pareciam capazes de conferir. O mais assustador de “À prova de morte” (mais que em qualquer outro de seus filmes) é a percepção de que a história da iconografia contemporânea está sendo escrita às suas vistas, e de que tudo que vemos na tela será tomado como referência de nossa época com o passar do tempo (as várias referências a “Kill Bill” são prova irrefutável de que Tarantino é, realmente, tomado por essa crença). Pretensão maior que o mundo, mas que é executada de forma leve e natural, como se fazedores de imagem produzissem imaginário como os pedreiros empilham tijolos.
sexta-feira, setembro 21, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:31 AM
Nasce um fantasma
Passei o último meio ano tentando fazer uma idéia ganhar vida. Aos poucos ela começa a dar os primeiros passos – já equilibrados o suficiente para permitirem um aperto de mãos e um sorriso de satisfação por conhece-los – e chega a hora de solta-las no mundo. Apresento-vos, portanto, o Driving Music.
Quando demos fim ao Invisibles, abracei o encerramento com a possibilidade de começar algo novo, solto de todas as amarras que faziam de minha antiga banda uma experiência menos prazerosa. Decidi gravar minhas primeiras novas canções sozinho, em casa, utilizando tudo aquilo que a tecnologia, e certa falta de respeito pelos direitos de propriedade alheios, me proporcionavam. Desenhei as bases de bateria no Reason Sound Factory e gravei todo o resto em casa, no meu PC. Essas cinco primeiras canções se tornaram a demo de estréia do Driving Music, que – como não poderia deixar de ser – disponibilizo para download gratuito em todos os sites do gênero que consegui achar.
Essas canções já estão prontas há um tempo – um par de meses, diria – mas, como os anos de cabeçadas no Invisibles bem me ensinaram, decidi mantê-las em casa até que a varanda parecesse arrumada. Chega, hoje, o dia de elas, enfim, debutarem.
O corte do cordão umbilical é marcado pela inauguração de Driving-music.com. Site – como todo o resto relacionado à banda – feito em casa, montado a partir do belo design feito pela minha Clarissa (que, como de praxe, é também autora das fotos). No site você encontra links para tudo que existe na rede relacionado ao Driving Music (este blog, inclusive), e as cinco canções para download.
Com toda a sinceridade do mundo, espero que gostem das canções. Escrevi-as com esse propósito, e, por isso, o fracasso seria de cortar o coração. Ainda assim, acredito que nunca estive tão preparado para a rejeição; se sentirem vontade de manifesta-la, não será menos bem-vinda. Sempre almejei chegar naquele estágio em que simplesmente se produz o que se sente, fazendo com que as reações a essa produção não sejam exatamente insignificantes (nunca fui a favor do autismo artístico), mas sejam localizadas no tempo com a certeza de quem abraçou seu passado da forma mais honesta e voluntária possível. Acredito que ainda não tenha alcançado essa plenitude mas, ao mesmo tempo, certamente nunca estive tão perto dela. Parece bom o suficiente para mim.
Então, cá está. Ofereço-lhes meu coração. Não aceitar é imperdoável desfeita.
* * *
Começa hoje, para mim, o Festival do Rio. Como nos últimos anos, o trabalho me tira das sessões diurnas e me faz abandonar filmes que gostaria de ver, em privilégio de outros que considero essenciais. A lista a seguir traz a minha possível programação, deixando margens para ocasionais adições e mudanças. O critério, portanto, foi conciliar o máximo das coisas que quero ver com os horários em que posso vê-las. Além disso, alguns filmes que estariam nessa lista (os novos de Rivette e Lumet, por exemplo) ainda não têm horário no site do festival.
Ainda não sei como vai ficar a rotina do blog durante o festival, já que a maior parte do meu tempo livre será transferida para as salas de cinema. Tenho o desejo de escrever coisas, embora uma cobertura de todos os filmes abaixo me pareça inviável. Veremos. Aceito sugestões, recomendações e companhia para as sessões.
21/09 - Sexta - Síndromes e um século (Apichatpong Weerasethakul) - Estação Ipanema 2 - 22hs
22/09 - Sábado - O Expresso Tarjeeling (Wes Anderson) - Downtown 1 - 16:30 hs
23/09 - Domingo - Belle Toujours (Manoel de Oliveira) - Estação Botafogo 1 - 14hs
23/09 - Domingo - A prova de morte (Quentin Tarantino) - Roxy 2 - 19 hs
24/09 - Segunda - Floresta dos lamentos (Naomi Kawase) - Laura Alvim 1 - 19:50 hs
24/09 - Segunda - Silenciosa Luz (Carlos Reygadas) - Laura Alvim 1 - 21:40 hs
25/09 - Terça - O estado do mundo (Chantal Akerman, Apichatpong Weerasethakul, Vicente Ferraz, Ayisha Abraham, Bing Wang, Pedro Costa) - Espaço de Cinema 1 - 19hs
26/09 - Quarta - Eu não quero dormir sozinho (Tsai Ming-liang) - Estação Botafogo 1 - 21:45hs
27/09 - Quinta - As testemunhas (André Techiné) - Estação Ipanema - 19:45 hs
28/09 - Sexta - Cristóvão Colombo (Manoel de Oliveira) - Estação Botafogo 1 - 20hs
28/09 - Sexta - Nascido e criado (Pablo Trapero) - São Luiz - 21:30 hs
29/09 - Sábado - Uma velha amante (Catherine Breillat) - Barra Point 2 - 16:15 hs
29/09 - Sábado - Mulher na praia (Hong Sang-soo) - Barra Point 1 - 18:45 hs
30/09 - Domingo - Go Go Tales (Abel Ferrara) - Barra Point - 14:30 hs
30/09 - Domingo - Império dos sonhos (David Lynch) - Ipanema 2 - 22hs
01/10 - Segunda - 4 meses, 3 semanas, 2 dias (Cristian Mungiu) - Palácio 1 - 21:15 hs
03/10 - Quarta - O casamento de Tuya (Wang Quan’an) - Estação Ipanema 2 - 20:30 hs
03/10 - Quarta - Lady Chatterley - (Pascale Ferran) - Estação Ipanema 2 - 22:30 hs
04/10 - Quinta - I'm not there (Todd Haynes) - Estação Ipanema 2 - 22:15 hs
terça-feira, setembro 11, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:29 AM
Top 5 da semana (passada)
01 - "NOVAS DIVAS
KATIA B * CIBELLE
FEIST * CAT POWER
AND DIRTY DELTA BLUES
MARINA DA GLORIA
SEXTA 22:30 26-OUY-07" - Texto do ingresso pro Tim Festival que repousa em minha gaveta.
02 - "Hey, every other hour I pass that house where you told me that you had to go, I wonder if the landlord has fixed the crack that I stared at, instead of staring back at you" - trecho de "Civil Twilight", do Weakerthans
03 - "Não tenho muito tempo. Tenho medo de ser um só. Tenho medo de ser só um... alguém pra se lembrar" - trecho de "Canção pra você viver mais", do Pato Fu, ainda hoje coisa das mais bonitas de se ouvir ao vivo.
04 - "Acho que eles devem ter mexido no final, porque no dvd o filme termina sem final. Ele termina como se a estória pudesse continuar. E no cinema brasileiro não tem isso, né? Quando o filme termina, ele termina mesmo." - Restauração livre da epifania do motorista de taxi pós-show do Pato Fu sobre "Tropa de Elite".
05 - "Let's take a map across your pillow and breathe the sky in through your window. I'll stay in the riddle and watch your books cave in" - Trecho de "A Magazine Called Sunset", uma das melhores canções do Wilco.
domingo, setembro 09, 2007
Postado por Fábio Andrade às 1:27 PM
O mesmo ar
Deixando uma margem para possíveis exceções apagadas pela seletividade da memória, nunca gostei de discos ao vivo. A maior parte deles sempre pareceu morrer em um limbo entre a eternidade das gravações em estúdio e a instantaneidade insubstituível das apresentações ao vivo. O estúdio é ambiente naturalmente assombrado pela idéia de permanência; o dever de transformar aquele momento no mais representativo possível, pois ele será, de fato, a representação daquela obra. Já o palco não; é o espaço do momento, da partilha. As gravações de shows sempre me pareceram um híbrido fraco das duas pontas; o equívoco de se transformar em definitivo algo que encontra beleza justamente na efemeridade. Em vídeo, esses registros ganham outras camadas. O simulacro permanece simulacro, mas se torna mais rico à medida que incorpora novos elementos (a imagem, a presença, claro, mas também a decupagem, o enquadramento, a montagem). Ainda assim, são raros os vídeos de shows que se tornam extraordinários para além do registro. U2 Go Home: Live from Slane Castle é agradabilíssimo, mas muito mais por registrar um evento extremamente feliz (do setlist à locação) do que por ser um registro criativo desse evento. O dvd de Jeff Tweedy que apareceu em um dos meus tops semanais é o flagrante de um artista extremamente interessante em plena atividade, mas não existe nada em sua maneira de lidar com esse material que torne o registro, em si, também extraordinário. Um vídeo pirata do Face to Face que copiei da falecida Spider permanece, ainda hoje, como um dos melhores shows que já vi – embora tenha sido filmado com uma câmera VHS, frontal, que às vezes ainda arriscava com texturas e efeitos duvidosos, feitos na própria câmera. Já filmes como Don't Look Back (de D.A. Pennebaker) ou Gimme Shelter (dos irmãos Maysles) são obras-primas em seus registros, mas parecem transitar com maior conforto nas filmografias de seus realizadores do que entre as obras musicais de seus protagonistas (Gimme Shelter ou Cocksucker Blues, de Robert Frank, foram, vale lembrar, prontamente enxotados pelos Stones de sua história).
Não seria descabido dizer que o Guster é a melhor banda pop em atividade. Enquanto nomes como Teenage Fanclub ou mesmo Belle & Sebastian deixam impressos em cada acorde seus esforços em alcançar o pop perfeito (muitas vezes – façamos justiça – alcançado), o Guster consegue, por vias muito menos referenciais, realiza-lo sem nunca lascar o acabamento. Em álbuns como Lost And Gone Forever e, principalmente, a obra-prima Keep It Together, o Guster alcança a perfeição inúmeras vezes, mas sempre parecendo chegar lá quase que por acidente. Não sei se o segredo está na formação pouco ortodoxa da banda (até Keep It Together o Guster nunca havia gravado uma faixa com bateria tradicional – substituída sempre pelo kit de percussão de Brian Rosenworcel) ou na falta de referências diretas das composições de Ryan Miller e Adam Gardner (sim, até pensamos em Big Star ou Violent Femmes, mas nunca com a intensidade que as influências afloram no Teenage Fanclub ou no Belle & Sebastian – para ficar nas bandas já citadas), mas o que parece fazer do Guster uma banda extraordinária é justamente sua capacidade de universalidade. Suas canções não são destinadas a nenhum público especial; estão aí para quem quiser ouvi-las. E quando uma banda consegue aperfeiçoar sua proposta no cume absoluto que é Keep It Together (sem dúvida um dos melhores discos da última década), só resta registrar esse momento especial de todas as maneiras imagináveis.
Guster On Ice é o primeiro registro ao vivo da banda. Gravados em Portland, Maine, os primeiros shows (duas noites consecutivas) em que o trio se torna oficialmente um quarteto (com a entrada de Joe Pisapia – até então presente como músico de apoio) foram lançados em um cd, que trazia como suposto bônus um registro em dvd dessas mesmas noites. E, embora eu até hoje não tenha tido interesse em ouvir o cd, o vídeo dirigido pelo talentoso fotógrafo Danny Clinch reina, soberano, sobre todos os outros dvds de música que já se hospedaram em meu player.
O que faz de Guster On Ice especial é uma idéia anterior à realização do vídeo em si. O registro proposto por Clinch se destaca de toda a pasteurização corrente, gerada por anos de padrão Mtv, justamente por perceber o que faz de um show uma experiência especial: a possibilidade do encontro. É claro que estamos todos lá para ver a banda, mas a percepção de Clinch é a de que, independente disso, um show é algo muito maior que uma banda no palco. On Ice começa com um passeio de carro. Ao lado de um fã, deslizamos pelas ruas nevadas de Portland enquanto ouvimos “Careful” – uma das melhores canções da banda – no rádio. Corte para o Guster tocando a mesma canção, no que parece ser uma performance rápida em uma loja de discos (ou seria a apresentação que ouvimos no estúdio de rádio?). E, entre relatos locais do dia em que Elvis tocou no mesmo teatro que abrigará o show e o aquecimento vocal da banda no backstage, o dia se torna noite, e a fila de fãs à porta do teatro começa a aumentar. Uma rádio local entrevista fãs que declaram seu amor pelo Guster, enquanto um outro saca o violão e, ali na fila, puxa a introdução de “Fa fa”. Corte para a banda iniciando o show em raccord da mesma música tocada pelo fã do lado de fora.
Esse prólogo parece condensar tudo que guiará o interesse de Danny Clinch pela próxima hora e meia: o momento (pré e pós incluídos) em que todas aquelas pessoas – banda, platéia, roadies, câmeras – respiram um mesmo ar e vivenciam um encontro. Não à toa, Clinch não hesita em cortar da banda para um casal que se beija na platéia, para pessoas que cantam e outras que não sabem as letras, para os cartazes levados pelos fãs e a réplica de Adam Gardner pedindo para que os cartazes sejam abaixados, para que as pessoas que estiverem atrás também possam ver o show. A multiplicidade de experiências que marca Guster On Ice – assumindo que, para banda e platéia, o show é apenas uma parte de várias noites individuais, construídas por cada uma daquelas pessoas – é visualmente realçada pela variedade de texturas de captação (que vão de micro câmeras de vídeo a variadas bitolas de película). E, se Clinch realmente acredita no show como parte, e não integralidadade, daquela noite, nada mais justo que acompanhemos a banda no backstage, nas ensolaradas caminhadas pelas ruas da cidade, na passagem de som (e o corte do ensaio de “So long” para sua execução no show é especialmente ilustrativo), na repetição das músicas (“Careful”, que abriu o vídeo, reaparece em sua versão noturna pouco antes do final) no whisky com gelo (para aliviar as mãos do percussionista) após o show. Curiosa também a capacidade do vídeo de gerar perguntas no espectador: como a banda soa tão cheia com tão poucos instrumentos? De onde sai o som do baixo em “I Spy”? O som de bateria de “Careful” é, na verdade, percussão?
Musicalmente, On Ice acaba gerando um paradoxo interessante: embora valorize o instante qualquer em sua noite, escolhe aquilo que poderíamos chamar do instante pregnante da carreira da banda (e, como Clinch é fotógrafo fixo de ofício, o paralelo com Cartier-Bresson se torna inevitável). A profusão de canções de Keep It Together entre os hits incontestáveis de Lost And Gone Forever (basta lembrar das versões gloriosas de “I Spy” ou “Happier”) fixa a banda em seu melhor momento, que só seria confirmado pelo anticlimático álbum seguinte (o correto, mas pouco inspirado Gangin’ Up On The Sun). E, se o híbrido que questionei no primeiro parágrafo retorna para fechar o texto, é porque Danny Clinch compreende o meio que está carregando sua obra como poucos outros diretores já o fizeram. Em vez de contraria-lo, usa-o a seu favor. O registro de shows é sim o parodoxo do eterno e do instante, e ignorar esse instante apenas gera um eterno incompleto. Em Guster On Ice, Danny Clinch compreende o lado orgânico dos shows que os agressivos braços esticados com celulares e máquinas digitais insistem ofuscar. E, com esse pequeno deslocamento, assina uma obra-prima justamente ao assumir a instabilidade do terreno; ao se jogar na areia movediça onde todos seus outros pares parecem morrer tentando sair.
sábado, setembro 01, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:30 PM
Top 5 da semana
01 - Começo de verão (Bakushû) - Yasujiro Ozu
02 - Aconteceu naquela noite (It happened one night) - Frank Capra
03 - Sem teto nem lei (Sans toit ni loi) - Agnès Varda
04 - Possuídos (Bug) - William Friedkin
05 - As leis da família (Derecho de familia) - Daniel Burman
domingo, agosto 26, 2007
Postado por Fábio Andrade às 2:11 PM
Top 5 da semana
01 - Vou pra casa (Je rentre à la maison) - Manoel de Oliveira
02 - Reunion Tour - The Weakerthans (álbum)
03 - Sunken Treasure: Live in the Pacific Northwest - dvd de Jeff Tweedy dirigido por Christoph Green e Brendan Canty.
04 - The Picture - Son Volt (canção)
05 - Daqui pro futuro - Pato Fu (álbum)
sábado, agosto 25, 2007
Postado por Fábio Andrade às 1:59 PM
Elogio à ficção – impressões tardias sobre o episódio final de Gilmore Girls
“In love with love and lousy poetry” (The Weakerthans)
De maneira generalista e nada abalizada, sempre dividi o amor entre estar apaixonado pelo outro, ou pelo amor em si. Driblando barreiras difusas demais para decantarem a vida em cores primárias, alternamos o “ideal” entre projeções sobre sorrisos que brilham somente para os olhos de nossa memória, e tentativas de nos perdermos não no outro, mas no espaço que o separa de nós. A celebração do limite; do individual; do desejo de se tornar o outro que não se deixa frustrar na consciência de sua impossibilidade.
Costurando o amor pelo outro ao amor pelo amor está o desejo de definir o outro pela percepção de códigos e indícios que pareçam mais interessantes aos nossos olhos apaixonados. Que tipo de música ela gosta; qual a cor do telefone que ela usa para falar contigo; qual filme lhe é especial; que trecho de seu livro favorito a emociona mais. Estará ela também apaixonada por você, ou apenas flutuando com a intransitividade do amor? E, nessa excitação, passamos a construir o outro não como outro, mas como uma soma (que nunca confere) dos indícios que nos parecem mais encantadores. Amar alguém por meio do amor pelo amor é processo de construção de personagem dos mais elaborados, onde somamos nossas impressões sobre o outro com aquilo que gostaríamos que esse outro fosse. E, com o passar do tempo, aprendemos a conviver com o outro “real” - aquele que parece uma mistura da autonomia indomável do não-ser-eu com o mosaico de projeções e absorções do processo de criação do seu outro. Uma figura de estranha beleza, onde a boca perfeita deixa escapar um trecho de “Be my baby”, a curva da escápula se revela um telefone creme, os olhos pedem que salve Ferris e a palma da mão traz citações de um livro que você ainda não leu.
“What would love be without wishful thinking?” (Wilco)
Chega sempre o dia em que a projeção se inverte, e nos vemos caindo de amor por coisas até então desconhecidas. Em vez do amor que confirma, o amor que transforma. Gostar do outro nos momentos em que ele te desafia, te apresenta algo de novo. Parte da palpitação primeira de cada relacionamento está em descobrir os favoritos da pessoa amada. Amar o que seu amado ama. Amar o outro enquanto outro. Plenitude, talvez. Nos dez anos quase completos com minha Clarissa, são essas pequenas transformações que guardo com maior cuidado. A alegria incompreensível de se perceber a mudança do paladar. E, entre discos do Pato Fu e versos de Mário Quintana, os moradores de Stars Hollow lentamente abriram uma avenida (sem sinal de trânsito) no meu ócio, firmando um compromisso de periodicidade que poucas vezes antes aceitara (penso em “Seinfeld”, “Twin Peaks” e meu recente interesse por “24 horas” – provavelmente as únicas séries que conseguiram tomar, a força e com méritos, tantas horas de meus dias).
“Gilmore Girls” é mais um nome em minha lista de injustiçados pelos cânones. Ao lado de outros vira-latas como “A feiticeira” (Bewitched) de Nora Ephron, os livros de J.D. Salinger e Underneath , do Hanson, o folhetim de Amy Sherman-Palladino sempre me pareceu merecer atenção muito maior do que a que parece ter alcançado. Por trás do palavrório descontrolado de Lorelai e Rory, Palladino maquinava – com muita delicadeza – uma espécie de conto-de-fadas moderno, onde o principal interesse se encontrava na arte de se criar ficção. Por sete temporadas, “Gilmore Girls” defendeu ferozmente o espaço ficcional como salto do real, de fato. Espaço onde o artista tem a chance de criar um mundo em “wishful thinking”, e nele realizar tudo aquilo que não tem chance de mudar em seu mundo físico. Ato de amor, puro e simples.
“Would love be considered an art?” (Gena Rowlands em Love Streams, de John Cassavetes)
A pré-trama de “Gilmore Girls” é aparentemente descartável: garota de classe alta engravida na adolescência, contraria o desejo dos pais pelo casamento e sai de casa para criar a filha no muque. Arruma um emprego como faxineira de uma pousada em um vilarejo chamado Stars Hollow, onde cresce com sua filha e poucos luxos, mas total autonomia. Aos poucos, ela ganha a confiança da dona da pousada e o amor de toda a comunidade, consegue criar sua filha da maneira que acredita ser a mais correta (não só mãe e filha, mas - como sempre reaparece na boca de alguma personagem do seriado - melhores amigas) e tem indiscutível sucesso em sua liberdade.
Tudo dito até agora, porém, é um constante extra-campo no decorrer da série. “Gilmore Girls” começa em um sacrifício: o momento em que, para garantir o melhor futuro para sua filha, Lorelai precisa se reconciliar com o passado. O dinheiro que falta para matricular a filha no melhor colégio da região é o dinheiro que as escolhas de Lorelai não puderam lhe garantir. Mas é, também, o dinheiro que obriga Lorelai a procurar seus pais, a torna-los novamente parte de sua vida em um empréstimo que - disfarçada como um jantar semanal - é a ruína de um mundo até então visto como ideal.
Curiosamente, é com esse choque de realidade que Amy Sherman-Palladino põe em movimento sua ficção. Stars Hollow – uma cidadezinha inventada em algum canto do estado de Connecticut – parece ter saído diretamente da imaginação de Lorelai quando engravidara de Rory. Se o ambiente em que foi criada lhe rendeu um péssimo relacionamento com seus pais, só lhe resta inventar um outro mundo ideal para criar sua filha. Stars Hollow é o “lar” desenhado pela imaginação de uma adolescente para todos aqueles que foram expelidos para a margem do mundo “real”. Uma cidade onde as decisões municipais são tomadas em reuniões de moradores, onde as fofocas correm mais rápido que o tempo e o cinema passa sempre os mesmos filmes. Lugar que abriga, sem distinções, uma ex-atriz que nunca realmente fez sucesso, um dono de lanchonete incapaz de lidar com perdas (e que, significativamente, se veste como se os dias de Seattle ainda ditassem capas de revista), uma senhora apaixonada por gatos, uma conservadora mãe coreana que tenta frear os impulsos norte-americanos da filha (em uma família completada por um pai que nunca conhecemos). Uma pequena esquina do mundo que todos os párias e frustrados poderão chamar de sua, e onde poderão cuidar uns dos outros. E, como essa cidade é fruto da imaginação de uma adolescente submersa em cultura pop, é também o lugar onde se come batatas fritas no café-da-manhã, onde Grant Lee Phillips é o trovador oficial (e sempre parece cantar canções que conferem algum sentido ao que acaba de acontecer), onde os pedidos de casamento são validados por milhares de margaridas amarelas, e onde Sebastian Bach é o roqueiro aposentado que volta a tocar em uma banda de garotos. Stars Hollow é a página em branco.
Todos os exageros freqüentemente apontados pelos detratores da série são, na verdade, a evidência de uma mise-en-scène intrínseca a esse universo, que sobrevive até mesmo ao rodízio constante de roteiristas e diretores. O ritmo estonteante da fala de ambas as protagonistas (conversas inventadas e roteirizadas em momentos de inquieta introspecção); a abundância de referências (o texto que se evidencia como tal); os planos-sequência que fazem de qualquer caminhada um complexo balé de corpos (o mundo em perfeita sincronia); o mesmo rosto que parece desempenhar todas as funções coadjuvantes que garantem o funcionamento desse mundo (Kirk – personagem interpretado por Sean Gunn que, em diferentes momentos de um mesmo episódio, pode aparecer trabalhando como carteiro, fotógrafo e funcionário da companhia de tv a cabo); tudo em “Gilmore Girls” parece um exercício de projeção, de ficçionalização escancarada por parte de uma garota (a protagonista, ou a própria criadora da série) que gostaria de viver em um mundo feito à sua imagem e semelhança, onde até mesmo as lacunas e os mistérios servem para torna-lo ainda mais encantador.
“Steam from the cup and snow on the path, the seasons have changed from present to past” (Feist)
Fui fisgado pelo último episódio de “Gilmore Girls” de maneira bastante acidental. Há alguns meses havia trocado a intermitência da última temporada pela overdose das caixas das duas primeiras, substituindo os passos mais recentes das personagens por suas origens. Até que, certa quinta-feira, havia terminado de devorar mais um dos dvds da série e, quando desliguei o aparelho, o Warner Channel anunciou “o último episódio de Gilmore Girls”. Pulei as temporadas ainda não vistas por completo enquanto me dirigia pro sofá e, agraciado pela coincidência, aguardei que os destinos de Rory e Lorelai fossem traçados.
Às vezes a beleza teima se esconder em ranhuras que, se regras servissem para alguma coisa, poderiam gerar tropeços: a redundância maravilhosa do voice over de “Desencanto” (Brief Encounter), o aparente mesmo filme que Ozu fez em toda a sua carreira, os intermináveis parágrafos de Proust, o desrespeito formal de Henry Miller. Enquanto acompanhava o último dia das Gilmore, era inevitável perceber a normalidade com que todos os envolvidos atropelavam o peso do episódio definitivo. O pouco de trama que ainda restava vinha de episódios anteriores (o pedido de casamento que Logan faz a Rory, a expectativa frustrada na negação de seu estágio no New York Times, uma possível declaração de amor de Lorelai a Luke) e servia como mero pano de fundo para as banalidades que sempre conferiram charme à série. Até que, já no meio do episódio, Rory anuncia no jantar familiar que fora convidada pelo site em que escrevia para cobrir a campanha primária de Barack Obama. Mais uma vez, o choque de realidade que gerara aquele mundo ficcional é o que o põe em crise, e o misto de autonomia e proximidade buscado por Lorelai desde o princípio é o que virá a ferir o mundo que ela construira. As garotas Gilmore, enquanto unidade, não mais existirão. Resta, portanto, dar fim à estória.
Esse fiapo de crise serve para que, uma última vez, acompanhemos Rory e Lorelai na despedida de um quotidiano em transformação. Em vez da costumeira apoteose dramática dos piores finais, as garotas passam por um último jantar de família, vão às compras, arrumam a mala de Rory e ganham uma última festa em Stars Hollow (recurso por tantas vezes usado ao longo da série para que seus personagens desfilassem pelas ruas da cidade, lembrando mais o universo de Fellini do que quase tudo que já foi taxado de felliniano). E, aos poucos, Palladino acaba nos mostrando que “Gilmore Girls” sempre foi sobre aceitação e convivência. Não só a convivência entre os moradores de Stars Hollow, mas também a diluição da aspereza da relação de Lorelai com os pais (seja pela confirmação de que os jantares familiares continuarão, seja pelo reconhecimento dos pais de que Lorelai havia se saído melhor como mãe e pessoa do que eles jamais imaginaram) e o próprio rumo tomado pela vida de Rory (em vez de um emprego no maior jornal dos EUA, um salário baixo em um site desconhecido, mas que garante que ela presencie um importante momento histórico). E se o beijo de Lorelai em Luke poderia ser visto como um gran finale, Palladino passa por ele com elegância, e termina a obra de maneira ainda mais previsível: Rory e Lorelai tomando café-da-manhã no Luke’s e conversando sobre tudo que gostariam de comer.
A previsibilidade do último episódio de “Gilmore Girls” anula qualquer expectativa dramática, e nos diz que o seriado sempre foi sobre o conviver (até mesmo entre espectadores e obras – que, no caso dos folhetins, é ainda mais agudo). O mundo projetado por Lorelai não é de grandes acontecimentos. Eles até aparecem por lá, mas nunca têm a projeção da neve que cai com as folhas de plátano sobre o coreto, das canções que decoram as esquinas, de um legume perfeito ou de um copo de café. O mundo da ficção é construído dessas pequenas coisas – bastante paupáveis – e, aos poucos, ele vai abrindo espaço para que uma realidade mais traumática possa entrar: o relacionamento com os pais, o indefinido carinho que sente por Luke, a partida de Rory para a vida adulta. O fim de “Gilmore Girls” é, na verdade, um ritual de passagem do mundo de ficção para o mundo adulto. Esse ritual pode ser precoce – no caso de Rory – ou tardio – em Lorelai –; mas sua inevitabilidade eventualmente baterá à porta e forçará entrada. É curioso que Palladino associe a necessidade da ficção justamente a esse período de transformação, de passagem. Seria a ficção uma forma de atenuar as crises? Uma maneira de conferir sentido a uma realidade não raro esmagadora, e que se transforma rápido demais para que entendamos o que se passa? Durante os sete anos que existiu, “Gilmore Girls” foi a defesa dessa necessidade de se criar ficção, e de usa-la como ponto de fuga (mas que é, também, ponto de retorno) para uma realidade extremamente instigante – daí as xícaras de café, as margaridas amarelas, as luzes de natal na varanda – mas carente de interpretação. Uma defesa da capacidade que temos, todos, de criar um lugar onde possamos viver com alguma tranqüilidade, e cuidarmos uns dos outros. E de, com o tempo, fazê-lo real.
quinta-feira, agosto 16, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:08 AM
Top 5 da semana
01 - O gosto do chá (Cha no aji) - Ishii Katsuhito
02 - Feelin' The Same Way - Norah Jones (canção)
03 - "A verdade é que, havia muitos meses, Dick se via naquele dilema dos jovens, quando se deve decidir se vale a pena ou não morrer pelas coisas em que não mais acreditamos. Nas horas mortas, em Zurique, olhando para dentro de uma casa estranha, à luz de um lampião de rua, sentiu que queria ser bom, que queria ser corajoso e sábio, mas que era tudo muito difícil. Desejava também ser amado, se isto pudesse encaixar-se no resto". - Trecho de "Suave é a noite" (Tender Is The Night) de F. Scott Fitzgerald.
04 - "Andarilho" - perfil do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por João Moreira Salles, publicado na edição de Agosto da revista Piauí.
05 - The Last Fight - Velvet Revolver (canção)
sexta-feira, agosto 03, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:51 AM
Sobrecanções
Você olha para a pista cheia e vê as pessoas dançando com a música que você escolheu. As motivações das entregas individuais são outras - certamente não as mesmas que fazem aquela música especial para você. Nenhuma dança é igual, e você brinca de adivinhar as sensações que cada pessoa associa com aquela canção. Um rapaz pensa sobre a beleza dos viadutos; uma garota lembra da luz que se deitava sobre a rua em uma noite cuja única reminiscência é a maneira como a luz se deitava sobre a rua; alguém que precisa de um corte de cabelo agradece por ter tomado mais uma cerveja, porque essa canção se torna incrivelmente apropriada depois da quinta. E depois vêm outras músicas, outros significados, outras diferenças. Todas essas diferenças são costuradas pelas melodias das canções – receptáculos para significados múltiplos, individuais e absolutamente livres. As canções são de todos. E, enquanto você passa os olhos pelos seus cds e pensa em qual memória gostaria de reacender depois daquela que ainda brilha na pista, sua atenção é roubada por casais que tentam se fundir afobadamente demais para ser qualquer vez que não a primeira. Para aquelas pessoas e os capítulos (mais breves ou mais longos) que elas venham a escrever juntas, as canções que você põe pra tocar ganham novos significados a cada acorde. Você percebe que está pensando algo que já pensou infinitas vezes, e acha curioso como, desde que você percebeu essa frágil certeza, cada momento parece estar ali para reafirma-la. Um mergulho na certeza ou na ignorância, mas certamente um mergulho. Certo ou errado, estamos escrevendo História. A única que realmente parece importar alguma coisa.
sexta-feira, julho 27, 2007
Postado por Fábio Andrade às 11:22 AM
Tell me that you love me more
1- Há algum tempo venho ensaiando uma volta à rotina deste blog. Terminei as gravações há cerca de um mês, mas estava esperando o site de minha nova banda ficar pronto para sincronizar um retorno completo e triunfal. Como sempre falho em triunfar, desisti de esperar e cá estou. As músicas permanecem escondidas por mais alguns dias, enquanto providencio a casa mais confortável possível para elas. Esse blog, porém, retorna hoje às atualizações (quase) freqüentes. Espero que esse tempo tenha servido para todos desenjoarem de mim.
2- Antes do GNT voltar sua programação para o público feminino, o canal exibia um documentário quadradão, mas ainda assim bem interessante, sobre os Beach Boys chamado "Endless Harmony". Já bem no finalzinho, Brian Wilson dizia que certas canções pareciam ter a capacidade de transmitir incondicional alegria ao mundo. Segundo ele, Paul McCartney teria alcançado isso com "Let it be", e os Beach Boys podiam se orgulhar desse feito com "Surfer girl".
Os ingleses do Magic Numbers não escreveram “Let it be” ou “Surfer girl”, e certamente não estão na mesma liga dos gênios acima (deveriam estar?). Mas na noite de anteontem, enquanto assistia ao show deles no Circo Voador, era tomado pela certeza de estar vendo uma banda que busca, canção após canção, transmitir a tal alegria incondicional definida de Brian Wilson. Se as fantasias e os confetes fazem do show do Flaming Lips uma inesquecível celebração de sorrisos, os Magic Numbers transmitem sensação muito semelhante (e tão intensa quanto) confiando apenas em sua música. No palco, os irmãos Stodart & Gannon transformam-se em pãezinhos cantores, e as simpáticas canções da banda tornam-se mais memoráveis a cada compasso. Se em disco a banda oscila entre belas melodias e momentos que beiram o asceticismo, é ao vivo que os vocais quase transparentes de Romeo e Angela ganham força real, as canções assumem seus devidos traços, e a baixista Michele Stodart prova ser das personagens mais interessantes de se ver em um palco na atualidade (não só por - como havia me alertado o Melvin - pilotar o instrumento com impressionante ousadia, mas também pela desinibida presença de palco que confere uma graça a mais à simpatia latente da banda).
Embora 2007 esteja muito longe de nos brindar com um calendário de shows tão marcante quanto o de 2005, a vinda dos Magic Numbers foi uma agradabilíssima surpresa. Curioso como uma banda que nunca tomei como mais que simpática tenha a capacidade de girar a chave certa, e me lembrar porque um dia decidi dedicar minha vida a ouvir e fazer música.
3- Assim como nos shows, 2007 não tem sido ano dos mais impressionantes no calendário cinematográfico carioca. Resta-nos celebrar a quase obra-prima "Medos privados em lugares públicos" (Coeurs), do veterano Alain Resnais, em cartaz nos cinemas do Rio. Em um filme leve, mas extremamente triste, o diretor constrói uma mise en scène das barreiras inevitáveis que, apesar dos encontros, separam as pessoas (marcado pelo belo recurso estético das cortinas e dos vidros que contornam a direção de arte, permitindo que as personagens se vejam, mas nunca se relacionem diretamente). Impressionante como Resnais parece atingir com esse filme um equilíbrio entre a abstração de suas obras mais célebres (o cinema do sujeito de "Hiroshima Mon Amour" – considerado por muitos o primeiro filme do cinema moderno – e o radicalismo temporal de "O ano passado em Marienbad") com a leveza cotidiana já indicada em “Amores parisienses”, seu último trabalho lançado no Brasil.
4- Se você sempre se interessou pelas canções que habitam as páginas deste blog, mas estava com preguiça de procura-las na internet, seus problemas acabaram! Basta ir à Casa da Matriz no próximo domingo (dia 29), onde estarei discotecando na pista 2 da festa Sundae Tracks, que encerra sua magnífica temporada de inverno. Na pista 1, show da banda Phone Trio e DJ Lins Valley cobrindo férias do Melvin. A festa começa às 23hs e vai até o sol raiar. Até meia-noite, promoção de duas caipirinhas pelo preço de uma (esbórnia garantida), e entrada por 10 R$ pra quem tiver com o nome na lista amiga. Se quiser tomar parte na bocada, é só deixar o nome completo nos comentários desse post até o meio-dia de domingo. Vai ser rock.
sexta-feira, maio 18, 2007
Postado por Fábio Andrade às 12:28 AM
Justificativas de uma falta não sentida
Sim, eu sei que estou passando mais tempo longe desse meu caro jardim do que de costume. Venho brincando mentalmente com novos posts dia sim, dia não, mas a verdade é que a falta de tempo tem sido entrave na dedicação mínima que cada texto me impõe. Não gosto de escrever só para tapar buracos – como é o caso desse dolorido post – e sempre tento oferecer o máximo de minha atenção a cada uma dessas mal tecladas linhas. Isso significa que - mesmo que nem sempre aparente no produto final - cada post leva de mim um tempo que, agora, não tenho para oferecer. Desde que arrumei um segundo emprego, os dias se tornaram sensivelmente mais curtos, e esse quintalzinho foi coberto pela folhagem de um outono despencado. Tenho dedicado o par de horas que separa o trabalho do sono aos últimos detalhes das minhas músicas novas, e acho que é a melhor satisfação que posso dar aos meus numerosíssimos leitores. Esse quase-tempo não tem sido suficiente para eu determinar um prazo confiável, mas acredito que nas próximas semanas concluirei as gravações, e poderei, enfim, compartilhar esses meus novos cantantes com vocês. É extremamente excitante estar tão envolvido com música novamente, trabalhando comigo mesmo, criando em casa. Estou positivamente surpreso com o resultado das gravações até agora, e espero que vocês gostem das crianças e tenham vontade de leva-las para um passeio ao sol - quiçá um sorvete. Enquanto essas novas cançõezinhas correm desordenadamente pela casa, trocando e destrocando seus calções de banho coloridos, parto com a promessa de visitas bem mais freqüentes assim que estiverem todas penteadas e prontas pro fim-de-semana. Até lá, assistam várias vezes ao novo clipe da Feist. Essa garota não só é das artistas mais interessantes de nossos dias, como faz questão de dançar em todos os seus vídeos.
sábado, abril 14, 2007
Postado por Fábio Andrade às 3:09 PM
Por uma vida menos mediada
The tyranny of framing our attention with all the eyes their eyes no longer see. (The Weakerthans)
Meio dia atrás, quatro ou cinco pessoas me separavam da fisicalidade de meu passado. Dividia meu suor com desconhecidos, tentando chegar um pouco mais perto da imagem presente de ícones de minha formação. Aprendi o que é rock com o Guns’n’Roses. Quando tinha nove anos de idade descobri o Appetite for Destruction, dando o segundo passo em direção à vida que tenho hoje, em caminhada que começou com “Patience”, no post passado. Comprava toda e qualquer revista que trazia matérias sobre o Guns, abrindo a porta do jornalismo musical que, por caminhos maravilhosamente impensáveis, me desembocou na dosagem de ego semanal deste blog. Deixei de participar de uma noite de fondue que meus pais fizeram, quando era garoto, para ficar na sala vendo o tributo a Freddie Mercury. Eu adorava fondue. O Axl cantou “We will rock you” e fez uma ponta inesquecível em “Bohemian rhapsody”, e o Guns’n’Roses como eu conhecia subiu ao palco em uma performance memorável de “Knockin’ on heaven’s doors”. Foi, também, a primeira vez que me lembro de ter visto Gilby Clarke, integrante mais insignificante da história da banda (mas que seria razão principal para, no ano passado, eu ter começado a ver “Rock Star Supernova”, no People & Arts). Pouco tempo depois escrevi a única carta que já mandei à Mtv, praquele CepMtv, pedindo que eles passassem a tal apresentação. Recebi uma carta de desculpas da emissora, pois eles não tinham os direitos de exibição da performance dos meus sonhos. Embora aquele pedaço de show tenha se tornado clipe mais votado no “Top 10 Europa”, a MtvBrasil não podia exibir o clipe em sua programação normal, pois os direitos – como hoje percebo – estavam na mão da Rede Bandeirantes. A mesma Bandeirantes que passou o insuperável show de Paris, e um encontro mal situado na memória de Slash com Lenny Kravitz (segundo a narradora, amigos desde a época do colégio).
Meio dia atrás, porém, estava diante da coisa em si. Adeus anos de mediação e simulacros; à minha frente estava o homem que me fez, um dia, querer chegar perto de uma guitarra. Slash parece ter sido conservado pela memória de seus fãs; sua imagem atual é quase idêntica à que temos, todos, na memória. Na quarta fila do Citibank Hall, eu tinha a chance de olha-lo, literalmente, nos olhos. À minha volta, porém, dezenas de supostos fãs acidentavam o trajeto da visão com mãos em riste, empunhando máquinas fotográficas digitais e telefones celulares. Espremiam-se para chegar mais perto, mas buscavam território apenas para conseguir um melhor enquadramento. Tiravam, todos, fotos essencialmente iguais; mas pareciam acreditar que a autoria do registro valia mais que o momento perdido, a vida que os olhos deixaram de ver enquanto estavam fixos no LCD da câmera. Em devaneio de desejo, empunhava, eu, um taco de beisebol e, com gritos espartanos, quebrava os pulsos, um a um, de todos que insistiam mediar meu contato visual com o passado. Por longos anos, minha relação com essa memória foi conduzida por simulacros. E quando tenho a chance, muitas vezes impensável, de ter um encontro físico com minha trajetória de vida, duas dúzias de aparelhos eletrônicos insistem em tornar essa troca direta em contato novamente mediado.
Sou grande entusiasta tecnológico. Acho magnífico que, a partir de determinado momento, todos os show do Invisibles tenham sido registrados, anonimamente, de alguma forma. Acho a democratização do autor tão bacana que, ora bolas, tenho meu próprio blog. O porém só se torna necessário quando a possibilidade de registro permitida pela tecnologia passa a substituir a vida. O registro tem como função imortalizar um encontro real. Sempre será, porém, simulacro de algo que passou, que não voltará, e cuja essência não é (e tendo a acreditar que, a despeito de todas as impensáveis tecnologias que o futuro nos trará, nunca será) transferida ao simulacro. O incômodo da substituição do encontro pelo simulacro vem justamente do sentimento de que esse registro é legitimado pela autoria. Mais importante do que estar presente é ter as fotos que você mesmo pôde bater como prova de sua presença (se estiver perto, melhor ainda). E aí surgem fenômenos tresloucados como o enquadramento fotologueano de uma mão tirando uma foto de um show, em uma versão moderna da piada do “Mad about you” em que o personagem de Paul Reiser dirigia o making of do making of do “Titanic”. A falta de etiqueta faz o simulacro ser mais importante do que o mundo.
Duas semanas atrás, fui ver a bela apresentação do Evens na AudioRebel. Como disse o vocalista da banda, show que começava no palco, mas terminava na última pessoa presente na casa, que compartilhava aquele frágil momento com Ian Mackaye e Amy Farina. A delicada atmosfera criada por banda e público, que conseguia fazer do calor e aperto da Rebel um ambiente agradável, era ferida pelo flash irritantemente constante de alguém que queria registrar o show inteiro em sua máquina digital. Após a primeira ou segunda música, Ian Mackaye perguntou diretamente à pessoa se não existia uma maneira de se fazer a gravação sem que o insistente flash ficasse ligado o tempo todo. Corte seco para fevereiro do ano passado, e o momento em que uma das garotas escolhidas por Bono para subir ao palco do U2 teve sua tentativa de registro com a câmera de seu telefone celular impedida pelo próprio vocalista. Você paga caro para ir ao show do U2, tem a sorte de ser puxada para o palco pela estrela principal da noite e, em vez de aproveitar seu momento, perde tempo sacando o celular para tirar sua própria foto. No dia seguinte, fotos diferentes daquele mesmo momento ilustravam reportagens em todo tipo de mídia sobre o show. O registro, portanto, seria feito. A garota escolhida pelo vocalista do U2 era tomada pela insana necessidade de ter o registro do seu ponto de vista, mesmo que isso fragmentasse a experiência real. Se Bono, artista que encoraja que as pessoas levantem seus celulares durante o show, achou que a moça tinha passado dos limites, é porque as intenções andam por caminhos errados.
O encontro que caracteriza todo show vem sendo sacrificado pelo seu registro. O simulacro, que sempre serviu para encurtar a distância entre mundos, é agora ferramenta que cria abismos entre pessoas que respiram um mesmo ar. Lembro de como sempre foi difícil enxergar os olhos de Slash nas fotografias. O cabelo no rosto, os óculos escuros e a cartola - cuja sombra fazia a função dos óculos quando os olhos estavam descobertos - impediam que a luz penetrasse nas concavidades de seu rosto. Ontem, quando conseguia olhar por entre os braços levantados – pilares de deselegante inconveniência – minhas lembranças ganhavam feições no presente. Feições fluidas que contrariam a própria noção de enquadramento. Afeto que não cabe em um LCD. Nesses instantes iluminados, ver o Velvet Revolver de tão perto foi um tributo à minha existência. Pude, enfim, olhar meu passado nos olhos, enxergar os detalhes que estão fora do alcance do filme (ou da imagem eletrônica). E, enquanto olhava o presente construído pelas pessoas ao meu lado, fiquei em paz com o pensamento de que aquela caminhada começada com “Patience” não tem sido tão ruim assim.
quinta-feira, abril 05, 2007
Postado por Fábio Andrade às 10:54 PM
Entre dias
Quem acompanha o blog do Lúcio Ribeiro sabe que ele vive citando o mais novo hit do mais novo hype que fala que Smiths é apenas uma banda, e que Arctic Mokeys também é apenas uma banda. Embora eu não consiga imaginar que alguém no mundo pudesse pensar que os Arctic Monkeys fossem qualquer coisa além disso (pra falar a verdade, mal isso eles são), existem canções que não me parecem somente canções. No último domingo, fui requebrar as noites sem dormir em mais uma noite sem dormir na Sundae Tracks, festa do Melvin. Lá pelas muitas ele tocou a versão apressadinha do Ben Folds para “In Between Days”, clássico inquestionável do Cure. E, enquanto dançava a música pela milionésima vez, não conseguia afastar a impressão de que “In Between Days” não é apenas uma canção.
Desde que passei a realmente me interessar por rock, tenho o costume inconsciente de memorizar a primeira vez em que ouvi determinadas músicas. Se penso em “Every night”, do Screeching Weasel, ela vem com o excesso de agudos do timbre da Sony-UX que meu amigo Léo à época me emprestou. Ouvi “Patience” na rádio 104.1 de Barra Mansa, quando era garoto, e logo vi que alguma coisa tinha acabado de mudar radicalmente em minha vida. “Today”, do Smashing Pumpkins, chegou até mim pelo péssimo sinal UHF da Mtv (assim como “Say it ain’t so” e “Basket Case”), enchendo minha vida de cores ruidosas que até então desconhecia. “Misunderstood”, do Wilco, foi pelo meu discman, ouvindo o Being there, à época emprestado (que permanece “emprestado” até hoje), em uma noite de verão no ônibus da Cidade do Aço, a caminho de Barra Mansa. “The way I feel inside”, canção do Zombies que o Invisibles tocou em todos os shows de despedida, foi assistindo “A vida marinha com Steve Zissou”, no Vivo Open Air de 2005. “Regret”, do New Order, tocava na propaganda de alguma trilha-sonora de novela (era a mesma que tinha “Luka”, ou minha memória mistura as trilhas?). “Smells like teen spirit” também veio em trechinho, em uma vinheta de bandas novas da Mtv que também tinha “Alive” e “Man in the Box”. “The outdoor type” foi numa cena do filme “Heavy”, onde a Liv Tyler contracenava com o Evan Dando tocando a música no violão. “Suspiscious minds” foi em “Um estranho chamado Elvis”, filme com Harvey Keitel de onde tiramos o diálogo da parte instrumental de “Hello”. Mas e “In Between Days”?
Quando estudava inglês, minha professora gostava de levar letras de músicas com pedaços faltando pra gente completar. Toni Braxton, Take That (com aquela música bichona do Cat Stevens) e a música do Aerosmith pra trilha do “Armagedom” eram o padrão que ela normalmente escolhia; até que um dia levou “Boys don’t cry”, que não me lembrava de já ter ouvido antes. Gostei tanto da canção que pedi o cd emprestado. Era uma versão safada do Staring at the sea, com capa diferente e o incompreensível título de The Cure in Brazil. Passei pelo resto do cd sem impressões marcantes, até que lá pro final do disco tocou “In Between Days”. Embora não conhecesse “Boys don’t cry”, “Inbetween Days” se revelou prontamente familiar com sua inconfundível frase de teclado. O ar logo ficou mais curto – como sempre fica quando me emociono repentinamente – e comecei a cantarolar a melodia daquela emoção há tanto perdida na memória. Não tinha a menor idéia de que aquela canção era do Cure, pois até o momento sequer me lembrava da canção em si. Desde então venho tentando rastrear a primeira vez em que ouvi a mais deslumbrante criação de Robert Smith, sempre ciente de que a busca está fadada à esterilidade. “In Between Days” é uma daquelas raras obras que parecem se confundir com a própria vida, sem que a gente consiga imaginar o mundo antes de ela existir. É madalena que não leva a tempo algum. É a canção pop perfeita, pois Robert Smith provou ser possível construir a estrutura de todo um imaginário coletivo em apenas dois acordes (os outros dois do refrão são apenas o acabamento). E, mais impressionante, sempre que a ouço novamente ela ainda me parece tão bela quanto da imemorável primeira vez. Se eu tivesse que escolher a minha canção favorita de todos os tempos, qualquer outra seria uma imperdoável injustiça.
* * *
Na mesma Sundae Tracks, o DJ Rasta espremeu “Conversation” entre Lemonheads e Weezer quando eu ainda estava na pista. Não ouvia a canção desde o último show do Invisibles e, devo confessar, ela soou extremamente bem naquele momento. É muito incomum eu conseguir ouvir uma das minhas canções sem ficar constrangido, mas acho que nesse domingo tive a rara chance de receber “Conversation” como qualquer outra pessoa. Deixei que os arranjos me surpreendessem, que a letra aos poucos voltasse à memória, e por um momento quase desejei que o Invisibles ainda existisse para que nós pudéssemos toca-la mais uma vez. Mas só por um momento. Porque as canções que realmente desejo tocar hoje em dia são as que tenho feito recentemente, e que pretendo dividir com vocês assim que elas aprenderem a respirar com os próprios pulmões.
sexta-feira, março 30, 2007
Postado por Fábio Andrade às 8:22 PM
Sob a música
Bruno Maia - amigo desde a faculdade e atual parceiro no Chappa - escreveu no seu ótimo sobremusica uma reflexão acerca de uma conversa que tivemos há um par de dias. Comentava com o Bruno que apesar do número crescente de veículos na internet que se propõem a falar sobre música, poucos realmente dedicavam atenção à música em si. Sabemos quem está fazendo turnê com quem, quais as cores das novas camisas lançadas por todas as bandas do mundo, ou que roqueiro louco foi parar na cadeia depois de fazer alguma roqueirice mais descontrolada. Mas, tirando a Pitchfork e algumas gotas mais inspiradas do AMG, ninguém estava realmente se debruçando com maior cuidado sobre a música pop na atualidade. Como dizia o professor Fernando Sá sobre o jornalismo político brasileiro nos tempos de faculdade, a cobertura musical se tornou relato de corte. Sabemos com quem o rei almoçou, e quem transita pelo castelo, mas ninguém parece se importar com a natureza do quê está sendo feito.
Qual foi a última vez que você leu uma crítica brasileira que fizesse mais que indicar similares, do tipo “se você gosta de X e Y, vai gostar de Z também”? A crítica de música pop no Brasil orienta nossas compras, mas pouco diz sobre as obras. Canções estão inseridas no mundo, e cada uma delas é transcrição de um olhar sobre o mundo. O que diz esse olhar? Como ele se articula com o que está sendo feito na arte no momento, ou foi feito no passado? Como recebemos essas declarações sobre o mundo? O que normalmente nos é oferecido são resenhas chapa-branca (amor pela democracia ou medo de perder anunciantes?), ou indicações como “banda com letras políticas” (sem nunca ter o cuidado de entender que discurso político é esse) e “uma original mistura de ritmos” (que ritmos? O que quer dizer essa mistura?), em duas ou três linhas de palavras jogadas. Todo mundo sabe que Amy Winehouse é uma garota branca com voz de negona, que ela tem atitude e visual controversos, e que suas letras falam de sexo (nossa!) e drogas (duplo nossa!). Mas quantos textos você leu que discorressem sobre a maravilha que é o disco Back to black?
A impressão que tenho é que, com raras exceções, a crítica de música pop não leva o gênero que se propõe comentar a sério. Se temos hoje a Contracampo e a Cinética fazendo trabalhos interessantes no cinema, são frutos de uma consciência crítica que já existe no Brasil desde Moniz Viana ou Alex Viany. O que as duas revistas perceberam de original é que na internet não existe a limitação de espaço dos boxes de jornais e revistas, e que por isso é meio ideal para análises mais dedicadas. A crítica musical na internet mantém as três linhas das revistas superpopuladas por resenhas, e as impressões cristalizadas nos primeiros 20 segundos da primeira canção. Em mundo onde o tempo de se baixar um disco é quase o mesmo de o necessário para se ler uma resenha, para quem esse tipo de crítica ainda é relevante?
O Bruno fala em época de vacas magras na música brasileira; mas como esperar que fosse diferente? Se o crítico não leva a sério a produção de sua época, a tendência é que o ouvinte tenha uma relação cada vez mais efêmera com ela, e que o Ryan Adams continue lançando 30.000 discos de bobagens por minuto na internet. Balela aquela história de que a crítica é mera atividade parasitária, pois o pensamento crítico ajuda a definir os caminhos da arte. É claro que todos os avanços tecnológicos e as tendências comportamentais são importantes, mas e o centro de tudo isso? Temos interessantes estudos sociológicos sobre o YouTube, olhares cuidadosos sobre os sucessos do MySpace, e dissertações cíclicas sobre o novo samba de classe média na Lapa. Que eles continuem sendo feitos. Mas e a música? Quem fala sobre ela? Quem ainda tenta decifrar um disco com paixão e afinco nos dias de hoje? Quem dedica quatro ou cinco parágrafos de reflexão original sobre o impacto de uma obra? E, ao mesmo tempo, será que precisamos de mais gente nos dizendo que o sucesso do Fresno e do Cansei de Ser Sexy são pedras fundamentais de uma nova era dos meios de comunicação?
Fenômenos como esses têm lá seu interesse, mas são o ruído branco que emudece boas questões. Esse blog não é exatamente sobre música, mas toda vez que me proponho a escrever sobre o assunto, tento faze-lo da forma mais dedicada possível. Tento entender o que existe sob a música; o que faz que uma determinada combinação de barulho e melodia chegue até mim de forma mais intensa do que outra. Tento perceber como elas alteram meu olhar sobre o mundo e me formam enquanto escritor de canções. Tento respeitar o trabalho sério de artistas extraordinários que ainda fazem da música pop uma constante fonte de inspiração na minha vida. Tento escolher as melhores palavras para a batalha perdida de se narrar o brilho nos olhos. É o mínimo que posso oferecer nesse meu mal cuidado quintal. E fico com a impressão que dessa conversa com o Bruno podem sair coisas boas. Resta a torcida de que mais gente entre na discussão. Podem começar aí pelos comentários.