sexta-feira, maio 15, 2009
Postado por Fábio Andrade às 9:18 AM
Cinética
quinta-feira, maio 14, 2009
Postado por Fábio Andrade às 1:26 AM
2008 em 10 discos
07 - Girl Talk - Feed The Animals
Girl Talk é o paroxismo do método deleuziano. Alinhando-se a obras tão distintas quanto um ...se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, e os Kill Bill`s de Quentin Tarantino, Feed The Animals é mais um trabalho que - consoante a tendências ultra contemporâneas - pensa a taxinomia, a evocação, o inventário como um discurso artístico. Desde Secret Diary, o DJ Greg Gillis (o homem por trás da garota) usa uma mesma técnica de composição: criar peças musicais novas a partir de samples de outros artistas. Até este momento, seus álbuns se enterravam em limitações bastante previsíveis desse formato: tanto nos mais (Night Ripper) quanto nos menos interessantes de seus discos (Secret Diary), sempre pairava a impressão de estarmos ouvindo um exercício curioso de associações, mas nunca uma obra com joelhos firmes. Com Feed The Animals, porém, somos convidados a pular todas as páginas restantes do manual para, enfim, botar o brinquedo pra funcionar. E Feed The Animals funciona.
A diferença dele para os títulos anteriores não é de método, mas sim de aplicação. Em Secret Diary, os samples eram esmigalhados em microframes, construindo batidas e linhas a partir da combinação desses fragmentos. Com isso, Gillis fazia, talvez, seu mais radical exercício, tirando daquelas ínfimas unidades a possibilidade mais ampla de reconhecimento. Mas o sample, o inventário, funciona justamente a partir da identificação. Podemos não saber de onde, exatamente, vem cada referência de Kill Bill, mas elas são escoradas pela certeza da familiaridade. Nunca vimos aquelas imagens antes, mas sabemos que elas vêm de lugares imaginários muito específicos. Enquanto Secret Diary era como um quebra-cabeças sem peças, Night Ripper trazia peças bastante reconhecíveis (de "Where Is My Mind?" a "Tiny Dancer") que, ainda assim, não formavam uma imagem muito interessante. Unstoppable, seu terceiro disco, juntava as duas pontas, e encaixotava um quebra-cabeças de peças que não se encaixavam.
Até aqui, portanto, a relação com o Girl Talk era - embora fascinante em essência - de resultados um tanto tolos. A arte como jogo de montar nunca foi exercício dos mais interessantes, e os discos do Girl Talk pareciam expor o problema mais grave do método popularizado e rubricado por Gilles Deleuze: enfileirar referências não é, em absoluto, um discurso artístico. A chave encontrada por Gillis, em seu quarto disco, é simples, mas de resultados não raro muito surpreendentes: ele deixa os trechos das canções durarem um pouco mais, mas nunca os deixa tocarem sós, se esvaziando como simples citação. Além de sua preciosa arqueologia musical, o Girl Talk tem a seu favor um talento notável para perceber proximidades, e sobrepor canções ( o tão falado mash up) muitas vezes separadas por décadas (momentos como o que um verso de Lil Wayne é projetado sobre a introdução de "Under The Bridge", do Red Hot Chili Peppers, são de um timing musical desconcertante) - algo que acontece, nesse disco, muito mais vezes do que nos anteriores.
Mas Feed The Animals é mesmo uma obra notável por, enfim, encaminhar as pulsões de uma geração que se comunica por citações, e busca, na cultura pop, encontrar voz para expressar sentimentos genuinos e fabricados. O que temos, aqui, é o som dessa voz. Em um primeiro momento, é impossível não se deixar levar pelo jogo de advinhações: Radiohead, Cranberries, David Bowie, Faith No More, Toni Loc, Thin Lizzy, Elvis Costello, Nirvana, Jay-Z, Avril Lavigne, The Cure (jogo que, a propósito, as montagens feitas no YouTube a partir das faixas de Feed The Animals servem bem como gabarito). Tudo isso marcado pela batida incessante (lembremos que Gillis sempre diz que sua música favorita é "Scentless Apprentice" - aquele genuíno pancadão do Nirvana) que vai esburacando essa grande dobra temporal, trazendo um "Jump! Jump!" pra cima de um refrão do The Band; indo buscar Sinnead'O'Connor e Ace of Base em lugares cobertos de luminosa poeira; emendando o refrão de "Lovefool", do Cardigans, com o hit do ano do Hot Chip. Tudo em uma velocidade galopante, trazendo, a cada novo sample, um número avassalador de lembranças.
No entanto, se existe algo comum que faz de Kill Bill e ...se um viajante numa noite de inverno obras notáveis, é justamente o salto da taxinomia para o discurso próprio. Buscamos as palavras dos outros porque as palavras são sempre as mesmas; mas podemos criar frases fabulosas trocando cada uma delas de lugar. Logo passamos para um segundo estágio, que é o de perceber o que é criado de novo a partir de combinações de elementos já tão sedimentados na memória. É esse sentido de unidade que faz de Feed The Animals um disco tão bacana, pois Gillis não só escava a memória de cada ouvinte com os samples que tira de sua discoteca, mas, principalmente, cria momentos extraordinariamente únicos na combinação desses elementos individuais. É claro que o solo de guitarra de "In A Big Country", do Big Country, é genial por si só; mas quão mais genial ele se torna quando combinado com o refrão de "Whoomp! (There It Is)"? Quando ouvimos "ABC" montada sobre um solo de "Bohemian Rhapsody" - talvez duas das canções mais reconhecíveis da história da música pop - e sentimos ouvir essas velhas conhecidas pela primeira vez, é sinal que uma operação muito especial está acontecendo ali. Feed The Animals é uma festa ininterrupta onde essas operações acontecem diversas vezes por minuto.
For dummies
Álbuns do Girl Talk recomendados em ordem de interesse
Feed The Animals, 2008
Night Ripper, 2006
Unstoppable, 2006
Secret Diary, 2004
sexta-feira, maio 08, 2009
Postado por Fábio Andrade às 10:40 AM
Um parágrafo
The Pains of Being Pure At Heart
A maior surpresa do disco de estréia do The Pains of Being Pure At Heart - talvez o primeiro hype de 2009 - é a de que uma banda com um nome tão ridículo não seja uma merda. Não é. Na verdade, a suposta inclinação shoegaze advogada por aí é uma tentativa bastante desesperada de parte da crítica (ou da própria banda) em tentar legitimizar algo que, em si, já é plenamente legítimo: o TPOBPAH escreve ótimas canções pop. Se existe algo que impressiona mais do que o número alto de músicas boas no disco de estréia da banda, é o número quase inexistente de canções ruins. Tudo soa bastante derivativo, parecendo um disco perdido da virada da década de 1980 para 1990, mas não por isso menos agradável de se ouvir. É claro que eles cresceram ouvindo My Bloody Valentine, mas a influência aparece como roupa (os vocais enfumaçados, por exemplo) que esconde armações internas tiradas de outras fontes: Jesus & Mary Chain ("Contender"), Echo & the Bunnymen ("The Tenure Itch"), Teenage Fanclub ("Come Saturday" e "This Love Is Fucking Right!" parecem tiradas do Thirteen), Pretenders ("A Teenager In Love"), Cranberries ("Stay Alive") e até algo de Hoodoo Gurus (a ótima "Young Adult Friction"). Como se pode notar, o disco é uma festa indie pronta. Mas o que realmente me intrigou nas primeiras audições do TPOBPAH foi que, embora eu conseguisse detectar todas essas influências aí, na verdade eu só pensava em bandas indie brasileiras. Em algum momento pensava em Pin Ups, outro em Pelvs, Second Come, Cigarettes, brincando de deus... e quebrava a cabeça tentando entender o porquê dessa segunda camada de derivação. Até que meu pensamento foi interrompido pela décima quinta virada de bateria mal executada no disco. E aí, eu entendi. 
quarta-feira, abril 29, 2009
segunda-feira, abril 27, 2009
Postado por Fábio Andrade às 2:23 AM
Outro
terça-feira, abril 14, 2009
Postado por Fábio Andrade às 3:08 PM
Driving Music no Rio
quarta-feira, abril 08, 2009
Postado por Fábio Andrade às 2:48 AM
Obrigado, internet
Connecting to server...
Looking for someone you can chat with. Hang on.
You're now chatting with a random stranger. Say hi!
Stranger: ASL?
You: can you hold on one second? the baby wants to say hello
You: lksf[pds[0
Stranger: what are you talking about?
You: the baby said hello!
Stranger: hahahahahaha...say hi to the baby from me too
You: sorry i am babysitting for my mom's boss
You: ok one second
You: omg! i told the baby and it totally smiled!
You: i think it knows you said hello and is happy
Stranger: hahahaha....i have that effect on people...i make people smile :)
You: uh oh the baby wants to say hi again
You: one sec
Stranger: ok
You: aAHSAUja
Stranger: ok
You: the baby hit caps lock that time!
You: ok ok so whats up
Stranger: nothing much...listening to music
You: what kind of music?
Stranger: bryan adams
You: oh which song?
Stranger: heaven
You: awesome!
You: dang the baby is like in love with this keyboard
You: it wants to type again
You: one sec
Stranger: yeah it is a great song...
You: aadhags wtf man? bryan adams? really? is this 1994? why don't you put on some coolio while you're at it?
You: ashw
You: oh man sorry!
You: the baby gets really judgemental sometimes
You: it's my mom's boss's baby
Stranger: yeah sure...
You: don't listen to it. it doesn't even know what it's talking about
Stranger: and this is addressed to you and not the baby....bryan adams is much better than coolio.....and any other retarded crap that you listen to..
You: ok that's a lot to tell a baby. give me 2 seconds
You: hmm i can't tell for sure but it looks like the baby just gave a tiny middle finger
Stranger: and while you are at it....you can tell the baby about how you are a retarded piece of shit
You: it's fingers are so tiny
Stranger: that's nice...they are the size of your penis
You: uh i can't talk like that to a baby
You: that is inappropriate
Stranger: whatever dickhead
You: i'm sorry but i have to ask you to watch your language
Stranger: oh oh...i am sorry...my dog was typing all of that while i was away!
You: it may be a baby but it can sense when the language is aggressive or vulgar
You: are you for real?
You: a dog can't type dummy!
Stranger: yeah i know...my dog just types stuff...
You: asawa i want to ride your dog like a horsie assqqnsab
You: ok i want you to guess who just wrote that
You: hint: not me
Stranger: i am hoping this is the baby...
You: yeah!
You: are you a woman?
You: you have good intuition
Stranger: because it would be pretty pathetic of you typed....considering how that would probably be the only ride you would ever get
Stranger: no i am a guy....
You: sorry i hope this doesn't sound complicated but when you are talking to me can you say "MR." and when you are talking to the baby say "BABY"?
You: it makes it easier for me
Stranger: ok...MR, you are a retard...
You: excuse me
Stranger: MR., you are a retard
You: but you need to teach your dog the phrase "mentally handicapped"
You: and no, dog. i am not a "retard"
You: retards aren't allowed to watch babies
Stranger: no no....i typed it...not my dog....he just thinks you are a retard...a pathetic retard...he asked me to type this to you...
You: i can't tell if you the human are talking or if your dog is lying to me and tryin to convince me he is you
You: because if it's the latter i am not amused
Stranger: no this is the human....
You: get off the computer dog
You: i want to talk to the man
Stranger: and both human and dog think that you are a dumbass dipshit who doesnt have a life.....
You: ok who is this now?
Stranger: human....
You: and how do you know what the human and the dog think?
Stranger: see....you come up retarded questions like the one you just did above...
Stranger: and thus both my dog and i believe you are a pathetic loser
You: i'm sorry ok now when you are talking to me say "MR." and when you are talking to the baby say "BABY" and when it is the dog talking say "DOG" and when it is the man talking say "JAZZ STANDARD"
Your conversational partner has disconnected.
quarta-feira, abril 01, 2009
Postado por Fábio Andrade às 2:19 AM
Fodeu.
Perhaps you have heard here or there that Jeff Tweedy and Feist have recorded a duet together. All true truths. The song is called "You and I".
Of course, "You and I" does not mean You (the reader) and me (the typist), the song is not about us! Unless it is? I haven't heard it yet. I'll let you know when I know, even if Pitchfork gets to it first. But then I'll tell you. Promises.
Moving ahead, this song about us (at long last) is coming out on Wilco's next album, a record to hit the made-up shelves—are there record stores anymore?—in the Summer or Fall.
I, for one, can't wait. Can You?
sexta-feira, março 13, 2009
Postado por Fábio Andrade às 3:35 AM
2008 em 10 discos
09 - Little Joy - Little Joy
O disco de estréia do Little Joy era aguardado ansiosamente por muita gente. Não por mim. As duas maiores credenciais da banda não faziam bem o lobby por aqui, já que, fora uma ou outra canção avulsa, tanto Strokes como Hermanos se perderam em meu interesse há bastante tempo (no caso do Strokes, depois do primeiro disco; dos Hermanos, após o segundo). Embora eu me simpatizasse com a escolha feita por Amarante de trocar um previsível solo mais firme por um vôo mais baixo, porém mais panorâmico, essa simpatia reduziria a banda a um fenômeno, o que seria o maior desserviço que eu poderia lhe fazer. Joguei de lado todas as comparações mexeriqueiras (bobagens do tipo "quem fez melhor, Camelo ou Amarante?"), e esperei, sem ânsia ou inquietude, que viessem as canções.
Até que, um dia, elas vieram, e não me pareceram nada geniais. Melhor: não me pareceram desejar aparentar genialidade. Desde a primeira audição, Little Joy se assume minúsculo, leve, aerado - palavras que uma vez já vestiram bem o Strokes (saudades de "Someday"), mas que nunca molharam os olhos dos Hermanos. Nada de hinos, grandiloquência ou iscas de salvação; apenas 11 canções tropicais, misturando Buddy Holy com ukeleles, letras que desejavam mais os fonemas do que as palavras, uns dedilhados de bossa nova pouco ou nada revisionistas, e uma moça de voz transparente. Um disco doce, mas um tantinho ácido; certamente com gosto de verão. Não soava como o céu; soava como um pedaço de areia, e isso era ótimo. Era um grupo formado por músicos que não exatamente precisavam se desvencilhar do passado, mas que pareciam querer respirar um pouco de brisa salgada - mudança de relação que, pelo show, os fãs antigos não parecem ter compreendido, deixando Amarante com cara de quem, após um primeiro encontro promissor, percebe ter passado a noite sentado de costas para a ex-mulher. Little Joy é, com toda a leveza da palavra, uma banda de férias.
Mas, após as primeiras audições, Little Joy logo se mostra bom o suficiente para deixar as menções às bandas matrizes apenas para parágrafos introdutórios. E, embora o disco ainda me pareça muito claramente dividido entre as canções principais e os (bons) fillers, sua passada é extremamente convidativa, mesmo quando algumas boas idéias parecem não ir a lugar algum (caso mais exemplar de "Unattainable", promessa que só faz girar em seu próprio eixo). Essa impressão é incorporada à letra de "The Next Time Around", que estabelece maravilhosamente o tom do álbum: "E onde a sorte há de te levar / saiba, o caminho é o fim, mais que chegar", canta Binki Shapiro, em português empapado de sotaque, com frase envergada pela fraqueza da rima. A alegria está na jornada, no durante, nas texturas de rádio AM que fazem tudo parecer imediato. É platitude que, em si, tem pouco de reveladora, mas que serve muito bem como motivação estética para o disco, pois mesmo quando há buracos no acabamento ("How To Hang A Warhol", ou mesmo o encerramento um tanto grosseiro da ótima "Brand New Start"), eles são incorporados à fruição do conjunto.
Fica, no disco, essa impressão de canções nativas de lugar algum, temperadas com toques tradicionais de regiões imprecisas: ao mesmo tempo brasileiro, caribenho, havaiano, californiano. Mais do que um apego a tradições (algo um tanto esperado de um disco que se assume vintage), há um interesse por determinados climas e paisagens: Little Joy é sempre solar, praiano, ágil, leve. Daí a canção mais deslocada no conjunto não ser exatamente "Evaporar" - a única totalmente em português - mas sim "With Strangers", exceção em tons menores de morosidade texana que faz lembrar o Cake (o solo de guitarra, aliás, é moldado pelas frases de trompete de Vince DiFiore). Os destaques, porém, são mesmo os mais óbvios: "The Next Time Around" e sua orquestra de pulgas; o irresistível refrão de "Brand New Start"; a levada recortada de "For No One's Better Sake"; o quase rock "Keep Me In Mind"; e as baladas "Shoulder to Shoulder" e "Don't Watch Me Dancing" - melhor momento de Shapiro, em que um belo recorte instrumental faz lembrar os intermezzos de "Sentimental" e "Todo Carnaval Tem Seu Fim".
E, como as férias, Little Joy acaba muito pouco depois de começar - ligeireza que dificulta a escrita, amarrando as palavras aos diários das jovenzinhas. Voltam os trabalhos, os cenhos franzidos e os shows de reunião. Tudo isso, por maior que possa vir a ser, sempre parece um pouco menor do que aquele mês; aquele pequeno e liso risco de despreocupação.
quarta-feira, março 11, 2009
Postado por Fábio Andrade às 2:14 PM
Um parágrafo: Ben Lee - The Rebirth of Venus
É um tanto lamentável que Ben Lee não tenha dado um passo adiante, e convidado apenas crianças para compor o coro que responde seus chamados nas melhores faixas de The Rebirth of Venus. Lamentável, pois se Ripe parecia um álbum de adult contemporary pop for dummies, esse novo disco parece mesmo ser pop for kids (under the age of 5). Desde a primeira faixa, Ben Lee - de seu jeito igualmente simpático e meio mongolóide - parece uma espécie de Bia Bedran do novo milênio, cercado por seus aluninhos, aprendendo sobre a vida por meio de canções, repetindo sempre o que o mestre mandar. Esses ensinamentos começam por uma justa limpeza de culpa ("What's so bad about feeling good"), transmitem lições sobre lealdade ("Surrender" - a melhor do disco) e sobre o valor da música ("Sing" e "I Love Pop Music"); no meio tempo, tio Ben ainda fala sobre o orgulho de ser diferente ("Boys with Barbies"), e ensina até um palavrão, ao apresentar as crianças a "Yoko Ono" (dá até pra imaginar os risos abafados). A abordagem nem sempre funciona (casos de "Boys with Barbies" e "I Love Pop Music" - ambas embaraçosas demais até mesmo para os altos padrões de Ben Lee), e o disco perde bastante força quando esse conceito começa a se dissipar. Mas é difícil negar que a primeira metade de The Rebirth of Venus tem um vigor que Ben Lee talvez só tenha mesmo alcançado antes em Awake Is The New Sleep. Além disso, toda a atmosfera do disco - onde o Botticelli e o clipe de "I Love Pop Music", com seu cachecol de teclado, são o ápice - deixa claro que ouvir Ben Lee é um exercício de colaboração, simpatia e paciência muito parecido com o de se ouvir Daniel Johnston.
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Postado por Fábio Andrade às 1:23 AM
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Postado por Fábio Andrade às 12:09 PM
Cavando a própria cova;
ou A necrofilia de se ler apenas as capas dos livros
O homem saiu de casa para levar o cachorro para dar um passeio noturno no calçadão de Ipanema. Parou para beber um côco em um quiosque, e jogou a carcaça da fruta pro seu golden retriever. O cão atacava a casca com um gosto que fazia qualquer um ter vontade de imitá-lo.
Do arpoador, lá vinha uma senhora, acompanhando outros dois cães. Um deles era um labrador amarelo claro, de olhar afeito a toda sorte de peraltices; o outro... ninguém reparava no outro. Quando cruzaram o quiosque, o labrador peralta veio focinhar o golden retriver, que rapidamente se levantou, protegendo seu côco. O princípio de conflito rendeu ao cão safado uma jornalhada na orelha. Ele olha para a dona (mãe - diria ela), tentando entender o esporro:
- Pára com isso, Marley!
terça-feira, fevereiro 17, 2009
Postado por Fábio Andrade às 1:07 PM
Um parágrafo: O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married)
De Jonathan Demme, 2008
É interessante que o título original de Rachel Getting Married fosse Dancing With Shiva, pois a música é, sem dúvida, o aspecto estético e político central nesse novo filme de Jonathan Demme. Como questão estética, por Demme trabalhar com essa câmera free jazz, com uma mise-en-scene que precisa ser redefinida o tempo todo, buscando os enquadramentos enquanto as situações se desenvolvem, mas antes que elas se percam completamente (resquício direto da incursão documental mais presente em sua carreira recente). Se, por um lado, essa opção estimula presenças cênicas bastante fortes (sendo a síntese aquele poodle gigante e deselegante que, ao contrário de seus donos, sempre interage com leveza com todos ao seu redor), por outro, revela a maior fraqueza do filme: a necessidade de se instaurar um elemento (Shiva, ou seja, Kym – personagem de Anne Hathaway) capaz de gerar constantes crises, fazendo do roteiro uma rubrica a um cinema que só existe se existir conflito – algo mais questionável pela banalização da idéia de conflito no roteiro de Jenny Lumet, e pela necessidade de se fechar um arco dramático, ao fim. A resposta eloquente, porém, vem da família do noivo – negros, amorosos e extremamente musicais (e dizer que isso não importa é, na verdade, fugir de uma questão que o filme propõe com muita clareza). Não faltam grandes exemplos – da presença segura e silenciosa de Sidney (Tunde Adebimpe, vocalista do TV On The Radio) ao primo militar que voltara temporariamente do Iraque com um sorriso irremovível em seu rosto – e o contraste entre essas estruturas familiares não é exatamente maniqueísta ou ingênuo, mas sim uma postura política. É interessante, portanto, que Jonathan Demme sublinhe essa musicalidade e, ao mesmo tempo, tente incorporá-la ao filme. Ao fim e ao cabo, O Casamento de Rachel é um filme sobre brancos aprendendo a dançar – seja literalmente (a ótima cena com a bateria de samba; a outra, com a máquina de lavar louças; a linda dança a quatro que ilustra esse parágrafo; o Neil Young no casamento), ou pela aceitação da imprevista irmã de cinza, e da chuva na hora do casamento; mas também pelo choro do bebê que perturba a cena, e que Jonathan Demme valoriza como uma interferência bem vinda e musical em seu próprio cinema.
domingo, fevereiro 15, 2009
Postado por Fábio Andrade às 4:28 PM
2008 em 10 discos
10 – The Killers – Day & Age
Mais uma vez, começo minha lista de melhores com uma moderada decepção. Mas como poderia, eu, falar dos discos do ano sem passar pelo insolúvel quebra-cabeça de cinco peças que é Day & Age, terceiro álbum dos Killers? Pois, considerando os excessos (já que excluí-los seria matar a banda), quantas bandas recentes foram tão bem sucedidas usando como mote criativo a esquizofrenia completa de idades e influências, criando um rosto que é, ao mesmo tempo, moderninho e anacrônico; belo e repugnante; vagabundo e glamouroso; másculo e aviadado? Ouvir os discos do Killers é, em diversos momentos, como se aproximar demais de um rosto conservado jovem por sucessivas cirurgias plásticas - às vezes, você só consegue enxergar as cicatrizes.
É plenamente compreensível, portanto, o bloqueio de fãs de música bastante dedicados diante do Killers, pois a aproximação com a banda atravessa essa espinhosa parede de referências trabalhadas em chaves que as desmentem, muitas vezes neutralizando o exato valor que a banda foi buscar ali. Em Hot Fuss, o bonde do rock de garagem era projetado contra as bolas de espelho já enferrujadas dos anos 80, desnudando a nova pose de rebeldia em uma penteadeira de sintetizadores. Em Sam’s Town, a banda transformava a motivação épica das grandes bandas de rock de arena (Queen, U2, Bruce Springsteen) em um cabaré bolorento, onde os paetês já não tinham mais brilho algum, e as plumas eram substituídas por rabos de pombos mortos. De certa forma, a nobreza maior dos discos dos Killers está justamente nessa revelação da mágica como espetáculo; do épico como alegoria carnavalesca, mostrando o banquinho de madeira em que precisa subir o frontman para fingir que seus refrões são maiores que a vida. O rock é um espetáculo, mesmo em sua raiz mais espontânea, e o Killers simplesmente não compra o engodo; ao contrário, jogam-no, todo desmontado, no colo do ouvinte (o que faz da participação de Lou Reed em "Tranquilize" - tão polêmica à época - até mais coerente que as de Elton John e Neil Tennant em "Joseph, Better You Than Me").
Day & Age é ainda mais exigente, pois não pretende sequer a ilusão de foco: desde o primeiro momento, somos apresentados a combinações que não se encaixam, influências evocadas em cômodos em que elas não cabem, versos ridiculos entoados como verdades divinas. “Are we human, or are we dancer?”, pergunta Brandon Flowers em “Human”, segunda e melhor faixa de Day & Age. Mas não pergunta, somente; se põe de joelhos, como se a resposta trouxesse solução para os mais secretos mistérios da existência – e faz isso sobre camas de teclados datados, melodia roubada de alguma balada do U2, e batidão pra se entrar correndo em um programa do Celso Portiolli. E, do lado de cá, o ouvinte olha aquela cena um tanto embaraçosa, sem saber exatamente o que fazer com aquilo - dividido entre o riso de deboche e a compaixão que o faz querer andar até o pobre coitado do cantor, e limpar os joelhos de sua calça. Até que o céu se abre e, lá de cima, Deus responde com majestosa impostação: “Dancer”.
É preciso, portanto, se assumir como dançarino, pois o Killers abre a porta para um fim de mundo onde só se caminha em passo marcado. O desafio, para roqueiros emburrados como eu, é esse exercício de soltar a franga, de se deixar levar por essa onda ridícula e, por isso mesmo, maravilhosa. É aprender a cantar banalidades como se sua vida dependesse disso; de acessar o armário de influências sem um mínimo de organização ou método, pois é essa a paixão do desvario. É entrar em Las Vegas (terra da banda) e enxergar o cenário de Fundo do Coração. E, como o Harry Haler de O Lobo da Estepe, não só perceber que o mundo é uma venda e é melhor mesmo aprender a rebolar; mas também que estamos em um livro que, apesar de ter sido levado a sério demais desde sempre, nunca deixou de ser raso e vagabundo.
O Killers é esse minúsculo leviatã de cultura pop; essa inofensiva máquina ceifadora de rádios. Daí misturarem, em “Joyride”, funk de branco com percussões de salsa, sax de cassino e um refrão que faz lembrar as melhores coisas do Modest Mouse; ou, em “Spaceman”, começarem com um oh-oh-oh vexaminoso para, depois, culminar em refrão gigantesco, digno das maiores arenas de Springsteen. É um saco onde cabe tudo - da Cinderella white trash de “A Dustland Fairytale”, à lambada Disney de “I Can’t Stay” - que parece se resumir perfeitamente nos primeiros 30 segundos de “This Is Your Life”: abrir com uma paródia dos coros do Queen, cobri-la com um cravo sintetizado e, logo depois, chutar a porta com harmônicos de extraordinário bom gosto, carimbando a canção com a elegância silenciosa das guitarras de The Edge.
É justamente essa colagem de fragmentos que impressiona, pois os extrai de qualquer contexto, isolando-os em sua força (ou falta de) individual. Daí o falsete roubado do Bono funcionar lindamente em “Neon Tiger” (0:48 da canção), e a emulação de Bjork em “Goodnight, Travel Well” parecer tão despropositada. Pois a força da música do Killers nunca esteve no raciocínio sobre as estruturas musicais pop convencionais, mas sim por tratar a canção como a apropriação de pequenas manifestações, de sonoridades que produzem uma emoção que eles tentam, à sua maneira, reproduzir. Nesse sentido, Day & Age é, igualmente, o mais ousado e menos bem sucedido disco da banda, pois se torna inteiro justamente em sua fragmentação indiscriminada e esquizóide. É o retrato fascinante e imperfeito de uma banda que busca, com afinco cada vez maior, se tornar uma paródia de si mesmo.
For Dummies
Álbuns do Killers recomendados em ordem de interesse
Sam’s Town, 2006
Hot Fuss, 2004
Day & Age, 2008 (Download)
domingo, fevereiro 01, 2009
Postado por Fábio Andrade às 11:11 PM
Assim como em 2007, começo minha peregrinação pela memória musical mais ou menos recente disponibilizando a vocês, fiéis leitores, uma coletânea com alguns dos hits que mais bombaram por aqui. Como sempre, o fiscal do recorte é o AllMusic: todas as canções presentes nessa compilação são registradas no banco de dados do site como lançadas em 2008 (e dessa vez isso me garantiu ao menos uma boa trapaça). Vale sempre lembrar que nem todas são as minhas faixas favoritas em seus respectivos álbuns, pois a regra número 1 por aqui é a interação entre as canções, a fluidez do conjunto. E como eu sigo ouvindo alguns discos que passaram pro ano novo por debaixo da porta, é bastante provável que bandas ausentes nessa coletânea acabem aparecendo na minha listinha de melhores; na verdade, um disco que já segue seguro entre os 10 primeiros não teve faixa alguma pinçada aqui, simplesmente por nenhuma delas funcionar bem fora de contexto.Esse ano, selecionei 23 canções (3 a mais que em 2007), mantendo o limite de 80 minutos (tá, passei 39 segundos, mas isso não deve ser problema) para os antiquados modernos queimarem em um cd. O arquivo completo – com capinha superindie, subtítulo hehehe e tudo mais – está disponível para download. Abaixo, o tracklist corrido, e depois o faixa-a-faixa detalhado que vocês já bem conhecem. Coloque os headphones aí, enquanto eu coloco os meus aqui, e escrevo sobre as canções enquanto elas vão rolando.
01 – Ryan Adams & The Cardinals – Crossed Out Name (2:43)
02 – T.V. On The Radio – Crying (4:10)
03 – The B-52’s – Hot Corner (3:24)
04 – Little Joy – Keep Me In Mind (2:22)
05 – Vampire Weekend – Mansard Roof (2:09)
06 – Supergrass – Rebel In You (4:41)
07 – Smoking Popes – If You Don’t Care (4:16)
08 – The Hold Steady – Sequestered In Memphis (3:32)
09 – R.E.M. – Supernatural Superserious (3:23)
10 – Drive-By Truckers – The Righteous Path (4:13)
11 – Bon Iver – Skinny Love (3:58)
12 – Elvis Costello & The Imposters – No Hiding Place (4:00)
13 – Cat Power – Silver Stallion (2:52)
14 – MGMT – Time to Pretend (4:25)
15 – The Killers – Human (4:06)
16 – Hot Chip – Ready For The Floor (3:52)
17 – Santogold – Lights Out (3:12)
18 – Cut Copy – Unforgettable Season (3:13)
19 – Frightened Rabbit – Good Arms Vs Bad Arms (5:07)
20 – Fleet Foxes – White Winter Hymnal (2:28)
21 – Billy Bragg – If You Ever Leave (3:00)
22 – The Decemberists – The Raincoat Song (2:22)
23 – Ron Sexsmith – Hard Time (3:11)
01 – Ryan Adams & The Cardinals - Crossed Out Name
de Cardinology
Ryan Adams pode continuar lançando um disco medíocre por ano, desde que em cada um deles exista algo do peso de “Crossed Out Name”. Cardinology talvez seja ainda mais fraco do que Easy Tiger (2007), e só um pouquinho melhor do que Love Is Hell (2004) e 29 (2006), mas traz na sétima faixa a melhor e mais sofrida canção gravada por Adams desde “My Winding Wheel”. É um bocado estranho começar qualquer coletânea com uma pedrada como essa, mas é fascinante como “Crossed Out Name” vai se esgueirando pelos ouvidos, crescendo nas beiradas menos prováveis, adicionando ao violão reto um pad que canta o vento, e um piano que marca o último refrão nas oitavas mais graves, como se uma mão pesada batesse à porta - um estranho que chega para tornar mais ambígua a solidão. Apesar de estar lá no meio do disco, acaba sendo um convite forte para qualquer coisa que a siga.
Nick Hornby uma vez publicou um artigo sobre “Oh My Sweet Carolina”, onde ele definia Ryan Adams dizendo: “Some people are at their best when they're miserable”. “Crossed Out Name” parece, como nenhuma de suas canções parecia desde Heartbreaker (nem mesmo “So Alive”), fruto dessa profunda e incontornável solidão. Embora seus ásperos sussurros do primeiro disco tenham se transformado em uma impostação aberta e anasalada, só a dor e o vazio podem gerar frases de simplicidade tão forte quanto “I wish I could tell you just how I’m hurt”, ou “For everything there is a word / for everything but this”. Palavra, talvez de fato não haja. Mas quando a sua ausência encontra a força de uma bela canção, o sentimento fica absolutamente cristalino.
02 – T.V. On The Radio – “Crying”
de Dear Science
Respeitando a dinâmica iniciada pela abertura em canção de mesmo tom, mas arejando sensivelmente o clima, “Crying” é o hit mais imediato do extraordinário Dear Science. É notável como a sofisticação dos arranjos do T.V. On The Radio (ótima banda para se ouvir com headphones) nunca distraem o ouvinte de seu gigantesco talento para canções plenamente radiofônicas. Ao contrário, a precisa economia de baixo e guitarras fazem chão para o empilhamento incessante de teclados, palmas eletrônicas e sintetizadores etomológicos, que culminam em contágio crescente com os metais após o último refrão. Deslizando pela dinâmica, as muitas vozes de Tunde Adebimpe – um mestre do double tracking – dançam na largura de seu registro, indo do grave profundo ao falsete em um mesmo verso, alcançando efeito especial quando ele harmoniza duas vozes cantando as mesmas notas, só em oitavas diferentes (um bom exemplo aos 1:55, e outro mais radical a partir de 2:45).
03 – The B-52’s – “Hot Corner”
de Funplex
Aproveitando o convite à pista de “Crying”, celebremos o retorno do B-52’s após 16 anos de férias, exibindo a mesma forma de sempre: discos meio chatos em sua cansativa dispersão, mas que sempre trazem ao menos um momento de brilho intenso e instantâneo. Em Funplex, é esse o caso de “Hot Corner”, canção de inspiração pop semelhante a “Legal Tender” e “Roam”, mas com sonoridade saudavelmente atualizada por toques de garage rock. Os ingredientes são confiabilíssimos: riff forte de guitarra que faz lembrar o de “Flores”, dos Titãs (que, por sua vez, foi roubado de alguma canção que eu nunca lembro qual é – e os comentários estão aí para quem se lembrar), Fred Schneider cantando feito boneco de ventríloquo, cowbell e pandeirolas pendurados no ventilador, e as inconfudíveis vozes de Kate Pierson e Cindy Wilson cantando coisas como “Shake it honey! shake! shake it honey!” e (minha favorita) “Shimmy shimmy! hot! shimmy shimmy!”. E, nessa fanfarronice toda, escrevem uma canção que vale as discografias do Hives e do Kaiser Chiefs somadas.
04 – Little Joy – “Keep Me In Mind”
de Little Joy
É, eu também não imaginava, mas o fato é que o disco de estréia do Little Joy – que tem show marcado no Circo Voador em 6 de Fevereiro – continua rodando firmemente por aqui. “Keep Me In Mind” não é a favorita (prefiro “Next Time Around”, "No One's Better Sake" e “Brand New Start”), mas melhor fazia a transição do B-52’s para a faixa seguinte. Além de ser no mesmo tom da canção anterior (recurso barato que eu nunca abro mão de usar - já foram duas vezes, em quatro canções), é a que mais parece uma colagem do melhor das duas bandas que geraram o Little Joy: guitarras picadas alternadas e bateria reta como no primoroso disco de estréia do Strokes, com um refrão que os Hermanos esqueceram de incluir no Ventura.
05 – Vampire Weekend – “Mansard Roof”
de Vampire Weekend
Em outra bela estréia, o Vampire Weekend assina umas cinco canções dignas desse espaço. “Mansard Roof” é a que abre o disco, e é um sambão torto, ensolarado e divertidíssimo. A bateria em frevo marcial que atravessa o metrônomo, o tamborilado teclado que parece música de roda gigante, as imagens tropicais da letra, a presença surpreendente do arranjo de cordas (que, a propósito, garante boa parte do charme do disco), o refrão instrumental com guitarra de palhetadas natalinas – tudo em “Mansard Roof” parece jovem e urgente, em uma viagem a jato que conecta terras de sabores, cores e sonoridades distantes. Faz lembrar as primeiras coisas dos Paralamas, só que sem a produção ruim e o reverb feio das guitarras. Talvez por isso, fazem uma boa ponte “brasileira” com o Little Joy.
06 – Supergrass – “Rebel In You”
de Diamond Hoo Ha
Lembro que o que mais me impressionou quando ouvi o Supergrass pela primeira vez, lá na época do I Should Coco (1995), foi o descompromisso latente com que a banda trabalhava todos os aspectos de suas canções: da execução precisa, mas extremamente livre de Danny Goffey (um dos herdeiros mais visíveis de Keith Moon), aos backing vocals no debochado falsete de Mickey Quinn, e, principalmente, a falta de pudor com que Gaz Combes se aproveitava de influências de anos muito anteriores aos seus, sem nunca sistematizá-las em excesso. Bandas que se sustentam pelo frescor correm, porém, o risco iminente de perderem a vida com a bonança da maturidade – algo que parecia inevitável pelas densas camadas de psicodelia que cobriam Road to Rouen (2005). Diamond Hoo Ha não é exemplo de íntegro rigor – há, sobretudo, um deslumbramento de Combes com seus pedais oitavadores que cansa logo na quarta ou quinta canção – mas “Rebel In You” resgata cores que a banda parecia decidida a não mais usar. Apesar do monocromatismo da capa, os ecos de Bowie da canção fazem lembrar das camisetas coloridas do clássico clipe de “Alright”. E, mesmo com todos os anos passados, eles ainda as vestem muito bem.
07 – Smoking Popes – “If You Don’t Care”
de Stay Down
O que acontece quando uma banda de pop punk destacada pela ousadia com que sempre desbravou cantos escuros das escalas musicais retorna, após 11 anos de sumiço, com uma canção de absoluta convencionalidade melódica? Se a banda for o Smoking Popes, a resposta vem com “If You Don’t Care”: eles escrevem a melhor música de sua carreira. Os três irmãos Caterer voltam ao mundo com a companhia de Neil Hennessy (baterista dos Lawrence Arms), mostrando que o desinteresse quase absoluto que eu desenvolvi pelo punk rock nos últimos anos só aguardava que uma grande banda lançasse um grande disco para ser quebrado novamente. Em Stay Down os Smoking Popes fazem tudo aquilo que sempre fizeram de melhor: canções de tranquila urgência, onde um baixo de notável bom gosto, guitarras cortantes e baterias desenfreadas aconchegam o vozeirão de Josh Caterer, sempre nos lembrando o porquê de eles serem a banda americana favorita do Morrissey. “If You Don’t Care” é o lindo primeiro single do ultra-ignorado Stay Down, e foi a canção que abriu o show da banda que vi (ao lado de umas outras 80 pessoas) em minha passagem por Nova York.
08 – The Hold Steady – “Sequestered In Memphis”
de Stay Positive
De todos os discos do Hold Steady, Stay Positive é o que mais traz à vista – a começar pelo título – as raízes punk da banda. Curiosamente, é nele que aparece a canção mais pop que Craig Finn e companhia já escreveram: “Sequestered In Memphis” tem riff forte de piano, guitarras roqueirérrimas dividindo as orelhas com o hammond (cada um pra um lado), sax quase Kid Abelha, e refrão tão fácil de cantar junto que a banda ainda volta a ele com palmas e coro antes de fechar. Mas, como sempre se deve esperar do Hold Steady, os fortes raios de sol encobrem apenas parcialmente um mundo de personagens fora de foco, de significados que se escondem nas sombras. A toda a alegria dos tons maiores, a letra (na verdade, um interrogatório policial) da canção ilumina imagens muito particulares, por um ponto de vista que raramente ganha tanta complexidade em canções pop. “In barlight, she looked alright / In daylight, she looked desperate”, canta a banda no pré-refrão. Barra pesada, mas que Craig Finn olha com honestidade tão apaixonada que dilui esses momentos nas contradições e banalidades de personagens absolutamente cotidianos.
09 – R.E.M. – “Supernatural Superserious”
de Accelerate
Considerando que as duas últimas grandes canções escritas pelo R.E.M. eram baladas (“At My Most Beautiful”, de Up, e “Imitation of Life”, de Reveal), é bastante surpreendente que o melhor momento de Accelerate seja um dos rockões mais furiosos da carreira da banda. “Supernatural Superserious” tem uma pegada fortíssima, com guitarras tão marcadas que lembram até Ramones, e um refrão que traz todo o drama registrado por Michael Stipe.
10 – Drive-By Truckers – “The Righteous Path”
de Brighter Than Creation’s Dark
Patterson Hood canta praticamente uma nota só durante toda a canção e isso diz tudo: é a tentativa de se manter “on the righteous path”. Letra e música se equivalem com uma precisão assustadora, e a entrega do Drive-By Trucks aos adornos que sustentam essa quase única nota é tão dedicada que mantém (as oscilações se devem ao "trying", do refrão), tranquilamente, a força durante os quatro minutos de “The Righteous Path”. No hi-hat que morde a baqueta, na pedal steel que desliza sobre as guitarras, na postura absurdamente roqueira que nunca quer ser roqueira demais (quantas canções tão rock têm guitarras tão leves? Quantas têm tão poucas viradas de bateria?) e em frases como “I don’t know God, but I fear his wrath”, os Drive-By Truckers sintetizam o espírito do sul dos EUA como poucos artistas já foram capazes.
11 – Bon Iver – “Skinny Love”
de For Emma, Forever Ago
Fico saltitante por o AllMusic não considerar a data original de lançamento de For Emma, Forever Ago, caso contrário, o Bon Iver seria a grande ausência de meus melhores de 2007. Graças ao relançamento oficial pela Jagjaguwar, pude incluir a linda “Skinny Love” nesse mix, fazendo justiça a um dos artistas que mais ouvi nesse ano. As comparações da voz de Justin Vernom com a de Adebimpe, do T.V. On The Radio, vêm não pelo timbre, mas pelo recurso de execução: ambos abusam de falsetes em double tracking, fazendo com que a voz perca sua textura mais reconhecível, parecendo mais uma teia, um tecido esburacado que tenta cobrir esse amor magricela, frágil, quebradiço. Acho impressionante como antes de cantar “And I told you to be patient”, no segundo refrão, Vernom acrescenta um compasso de pausa, como que exercitando a paciência que ele pediu no refrão anterior, e que não lhe foi concedida. Naqueles segundos de silêncio, de aparente hesitação, temos um dos mais fortes momentos da música em 2008.
12 – Elvis Costello & The Imposters – “No Hiding Place”
de Momofuku
O nome do disco parece coisa do Sérgio Mallandro, mas Costellão é sempre Costellão: “No Hiding Place” mostra que ninguém tem a capacidade dele de pegar uma canção de estrutura simples e, aos poucos, ir transformando-a a partir de suas bases mais sólidas. Isso pode vir na mudança do mi maior, do verso, para o menor, na ponte; na progressão perfeitamente executada para um improvável sol maior, no refrão; ou ao adicionar uma nova parte à canção quando ela já aparece terminada. Embora “No Hiding Place” prometa uma boa forma que Elvis Costello não consegue manter até o final de Momofuku, até mesmo seus discos menos firmes são incrustados de grandes soluções, e de um domínio absoluto das convenções da composição pop.
13 – Cat Power – “Silver Stallion”
de Jukebox
Se eu conseguisse congelar minhas primeiras impressões até as listas de melhores do ano ficarem prontas, Jukebox teria um lugar folgado na de 2008. Talvez tenha sido a empolgação com o belo placebo-não-Feist que ela ofereceu no Tim de 2007, ou a confirmação de que, apesar de ser boa compositora, Chan Marshall é uma interprete ainda mais interessante. Logo que saiu, o disco não parava de tocar por aqui. Mas com o tempo, Jukebox foi se cristalizando como o que realmente parece ser: um disco de covers bastante divertido em sua intenção de criar novos standards, mas não exatamente memorável em sua totalidade.
Não à toa, a única versão realmente brilhante é essa aqui: uma interpretação levemente sombria em voz e violão para “Silver Stallion”, rock à Dire Straits dos Highwaymen. A interpretação de Cat Power é mais do que superior à original: faz real o chavão “parece ter sido escrita para ela”. Isso porque quando a voz falha de Chan Marshall canta “I’m gonna find me a reckless man / Razorblades and ice in his eyes / Just a touch of sadness in his fingers / Thunder and lightning in his thighs”, as imagens ganham contornos de tocante delicadeza, como se ela imaginasse em voz alta o homem dos seus sonhos jovens. E para gerar essa impressão, a voz sussurrada de uma mulher é muito mais instigante do que a de um sujeito que masca as palavras como um punhado de tabaco.
14 – MGMT – “Time to Pretend”
de Oracular Spectacular
O show é uma chatice, o disco não é lá grande coisa, mas é questão de justiça: “Time to Pretend” é uma das canções mais bacanas do ano, e dá início à lasca mais dançante desse mix. O MGMT embarca em uma (boa) onda recente de revisitar o que havia de legal na música disco dos anos 1970, tirando aquela falsa alegria putrefata e focando na putaria, no desbunde da década que se escondia sob pantalonas brancas. “Time to Pretend” fala sobre casar com modelos e morrer cedo; mistura ABBA com cocaína, passado sem futuro, e, bom, dá uma puta vontade de dançar.
15 – The Killers – “Human”
de Day & Age
Are we human, or are we dancer?
16 – Hot Chip – “Ready for the Floor”
de Made In The Dark
Hit de pista absoluto de 2008, “Ready for the Floor” combina batidas tortas de electro, barulhinhos de tudo que é jeito, e um refrão digno dos melhores dias dos Pet Shop Boys. Além disso, é a melhor música já feita para se dançar imitando robô. Se isso é coisa que te apetece, claro.
17 – Santogold – “Lights Out”
de Santogold
Santogold é uma ex-A&R da indústria da música norte-americana que, um dia, decidiu já conhecer suficientemente bem o mercado para cavar seu espaço nele. O resultado é um disco extremamente diverso, em que Santogold muda de voz como muda de gênero (e de estampas, no clipe de “Lights Out”): vai do raggamuffin ao rock, passando por r&b, pancadões à M.I.A., e uma penca de gêneros bons pra pista. Nem sempre Santogold funciona por aqui, mas “Lights Out” é um deleite: com seus doces "aahs", parece uma versão synth pop para uma canção perdida dos Fastbacks.
18 – Cut Copy – “Unforgettable Season”
de In Ghost Colours
Outra feliz descoberta de 2008, o Cut Copy mistura tudo que de melhor foi feito na dance music durante as décadas de 1980 e 1990: baixo à New Order, passagens oníricas dignas de “Being Boring”, teclados ritmados que emulam Erasure, e até umas guitarrices tiradas do Jesus & Mary Chain. “Unforgettable Season” é a “Regret” de In Ghost Colours; canção em vibrante dó maior, com riff de guitarra insistente, imagens ensolaradas jogadas a esmo pela letra, uma linha de baixo marcante, e um refrão que o ouvinte já intui como será antes mesmo que se chegue a ele pela primeira vez.
19 – Frightened Rabbit – “Good Arms Vs. Bad Arms”
de The Midnight Organ Fight
O Frightened Rabbit era uma das bandas que apareceram na lista de melhores do Filipe no Roadrunner e na lista da Pitchfork, e que eu nunca nem tinha ouvido falar. O que imediatamente me chamou a atenção em The Midnight Organ Fight é como o vocal de Scott Hutchinson se parece com o de John Roderick, dos Long Winters. A diferença é que, antes de mergulharem no indie rock, os escoceses do Frightened Rabbit parecem ter passado bons anos ouvindo Death Cab For Cutie e Get Up Kids (basta ouvir “The Modern Leper”), enquanto o sr.Long Winters (um quarentão, ora bolas) escutava Neil Young e R.E.M. O resultado é tão estranho quanto a base da equação: apesar da semelhança, The Midnight Organ Fight é mais legal de se ouvir de cabo a rabo do que qualquer disco dos Long Winters. “Good Arms Vs. Bad Arms” vem cumprir a obrigatória cota de canções em compasso 3/4 nesse mix, sustentando o dó maior da canção anterior nos violões da introdução. É a transição mais bonita de toda a coletânea.
20 – Fleet Foxes – “White Winter Hymnal”
de Fleet Foxes
Quando estava programando minha viagem de férias, o nome Fleet Foxes se tornou familiar por me seguir em turnê de uma costa à outra nos EUA. Nunca tinha ouvido falar na banda, e esnobei solenemente suas apresentações. É claro que pouco depois eles despontariam como grande hype do ano e, pior, hype dos bons. “White Winter Hymnal” é canção que joga em uma mesma fogueira The Band, Beach Boys e Fleewood Mac, criando algo que parece brotar das cascas das árvores, do ar, das folhas secas, dos duendes, ou algo que o valha. É estranho, bonito e circular, dando aquela familiar impressão de estarmos diante de uma melodia que é tão velha quanto o mundo.
21 – Billy Bragg – “If You Ever Leave”
de Mr. Love and Justice
Talvez a ponte do Fleet Foxes para o Billy Bragg tenha vindo das imagens que encerram o comentário sobre a canção anterior: aquilo que parece sugerido nas entrelinhas de "White Winter Hymnal" se torna literal em Bragg, com menções ao sol, à praia, à tempestade, às marés, à costa, às estrelas. Tudo ao alcance do rapaz que, apesar do contato oferecido pelo mundo, diz “If you ever leave / there’s nothing for me here”. Mr. Love and Justice é incrivelmente forte nas primeiras audições, mas logo se desgasta em algum esquematismo, e uma certa previsibilidade. “If You Ever Leave” nada tem de surpreendente, mas prova que o cuidado da carpintaria de Bragg é capaz de gerar frutos muito impressionantes. Em acordes simples, refrão familiar e imagens aparentemente desgastadas, Billy Bragg consegue criar uma canção fresca, cheia de vida, sustentada apenas pelo exímio controle de sua estrutura.
22 – The Decemberists – “Raincoat Song”
de Always the Bridesmaid vol.3
É impressionante como a série de singles Always the Bridesmaid começou a pintar os Decemberists como uma caricatura de seu próprio passado: se discos como Her Majesty e mesmo The Crane Wife inflavam seu pop naif com sopros de novidade, as canções de Always the Bridesmaid parecem todas inspiradas na trilha-sonora de Juno. Os resultados podem ser minimamente agradáveis (“Valerie Plame”) ou totalmente ridículos ( “I’m sticking with you”), mas sempre esterilizando o indie pop com melodias infantis e uma fofura desmedida, quiçá um tanto embaraçosa.
“Raincoat Song” só é diferente no que lhe é essencial: é uma ótima canção. Rolam um violão dedilhado de fazer Dylan corar de vergonha; uma previsível harmonização em quinta logo no segundo compasso, e a decência de acabar com isso tudo antes que o constrangimento bata. Ao fim da canção, fico sempre me perguntando por que “And the raincoat that you wore when it rained today / I think it only made it rain more” é tão melhor do que “I’m sticking with you / ‘cause I’m made out of glue”. Não encontro resposta mais satisfatória do que um “porque sim”, mas isso é suficiente para convidar o refrão – esse sim feito de cola – a passar o resto do dia zanzando em minha cabeça.
23 - Ron Sexsmith - "Hard Time"
de Exit Strategy of the Soul
Poucas coisas tão tristes já foram escritas quanto a frase "One could say I'm having a hard time". É de uma entrega tão resignada e absoluta que sequer faz questão de pegar ar, de manter a cabeça pra fora da janela. É triste, triste, triste. Não sei o porquê de ter resolvido encerrar o ano pesando tanto a barra, mas "Hard Time" é tão bonita que me dá vontade de filmar um longa-metragem, só pra poder usá-la como encerramento. É genial como ela, saindo do mesmo tom de "Raincoat Song" (ah, a safadeza!) passa bem a bola para "Crossed Out Name" - caso alguém caia na pilha de ouvir a coletânea no repeat.
E assim foi.


