quarta-feira, janeiro 30, 2008

Melhores de 2007

04 – Em Busca da Vida (Sanxia haoren) – Jia Zhang-ke



Desde meu primeiro encontro com Plataforma – segundo longa-metragem do chinês Jia Zhang-ke – fiquei absolutamente embasbacado com seu olhar. Não exatamente por uma originalidade estética acentuada, pois a câmera de Jia parecia somar ao pulsante ir e vir de corpos de Hou Hsiao-hsien um certo gosto pelo estaticismo de Tsai Ming-liang. O que mais me impressiona, ainda hoje, em Plataforma é sua capacidade de criar imagens que sempre se equilibram entre a melancolia e o movimento, o desencanto e o fascínio, a morte e a vida.

No filme de 2000, Jia Zhang-ke observava a vida de um grupo de jovens artistas em uma pequena cidade chinesa (mais exatamente Fenyang – local onde o próprio Jia nasceu), e acompanhava as mudanças de curso provocadas pela progressiva abertura cultural da virada da década de 1970 para 1980. Os integrantes de um grupo de teatro folclórico financiado pelo governo vão, aos poucos, descobrindo dados culturais aos quais, antes, não tinham acesso: a calça boca-de-sino, a música pop, a vida longe da cidadezinha onde nasceram, a relativa independência de um sistema social opressor. Plataforma trazia nos planos médios de Jia um distanciamento de impressionante e(a)fetividade: da mesma forma que muitos liam o filme como um manifesto contra a globalização, sempre vi como possibilidade mais apaixonada o encantado brilho nos olhos daqueles jovens que, aos poucos, tinham chance de, apesar das perdas, escolher outros significados para suas vidas. Além disso, o filme trazia um dos meus planos favoritos do cinema recente (que ainda me parece um plano-síntese para o cinema de Jia): observamos uma das dançarinas que abandonara o grupo pela segurança de um trabalho nos correios aproveitar um momento de solidão para, subvertendo o confinamento do trabalho, dançar para si mesmo.

Depois de Plataforma, Jia Zhang-ke realizou o belo Prazeres Desconhecidos, e as obras-primas O Mundo (que, assim como Prazeres Desconhecidos e o longa de estréia de Jia, está na programação da rede Telecine) e In Public - os dois últimos marcando a conversão, até hoje vigente, de Jia Zhang-ke para o vídeo digital. E aí chegamos em Em Busca da Vida – Still Life, como é conhecido internacionalmente – e vemos os signos que aproximavam Jia de Hou e Tsai se dissiparem em nome da cristalização do desejo que fazia de O Mundo um filme tão especial: se em Plataforma Jia Zhang-ke procurava as marcas do tempo nas pessoas, em seus filmes posteriores seu olhar se volta para o espaço. As pessoas continuam lá; mas nos aproximamos delas sempre por meio do espaço, de uma relação com a paisagem que as acolhe.

Nesse sentido, não me parece descabido interpretar esse leve desvio como um amadurecimento: se Plataforma ainda me toca como poucos filmes são capazes, tenho plena consciência de que o caminho consolidado por Jia Zhang-ke em Em Busca da Vida questiona estruturas que o cinema recente parecia não estar tão interessado (ao menos não com a profundidade que é alcançada aqui). Se Plataforma exaltava a doçura do desencanto, Em Busca da Vida joga com peões bem estabelecidos, e passa a pensar a partir deles. O mundo muda muito rápido, e em países como a China – países que apertam o passo para descontar o retardamento gerado por anos de isolamento voluntário – a velocidade do processo é absolutamente devastadora. A paisagem não tem tempo de fixar, os espaços se ampliam em direções nunca antes imaginadas (lembremos da construção do espaço virtual buscada pelas animações em Flash de O Mundo, concretizando o espaço onde circulam as mensagens de texto enviadas com telefones celulares), e o homem chinês se vê se equilibrando entre passado e presente, ruína e construção, e, aqui também, vida e morte. Pois se o cinema de Jia Zhang-ke sempre foi ambivalente, em Em Busca da Vida as vidas e mortes do mundo vão para o centro da narrativa: um prédio é implodido enquanto outro é construído, uma cidade inteira é inundada para a construção de uma represa, uma ponte ostenta o brilho de estrelas decaídas que refletem na água que afoga um lar. Ao homem cabe transitar por esse espaço de referências instáveis e fugidias. Cabe a ele se acostumar com uma paisagem em estado de transformação tão intenso que, assim como um prédio vai ao chão em segundos, um monumento de concreto pode revelar-se um foguete que parte rumo ao céu.

Se existe algo, porém, que se põe no caminho de Em Busca da Vida para se firmar como mais uma obra-prima do jovem diretor (pois, que se trata de um grande filme, não há dúvidas), é que não sinto nesse filme a ambigüidade do olhar que era determinante em Plataforma e O Mundo. Em seu estudo geográfico sobre a nova ordem do mundo, Jia Zhang-ke parece chegar a conclusão de que até mesmo a beleza tem um quê de opressora. E, embora isso não me pareça nada distante da forma como as coisas parecem caminhar, não deixa de ser um pouco triste ver o cinema de Jia percorrer as estradas que levam para as beiradas extremas do mundo. Triste porque, embora tenha girado seus olhos do passado para o presente, tudo que parece enxergar é uma paisagem que encerra os olhos. Triste porque ele parece estar plenamente ciente de que frear não é uma possibilidade.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Melhores de 2007

05 – Novo Mundo (Nuovomondo) – Emanuele Crialese


Sempre que passo para um próximo filme nessa lista, dou uma olhada em algumas críticas que lembrava dizerem coisas interessantes sobre a obra em questão. Não é questão de busca de inspiração ou referências (embora eu não veja problema algum nisso), mas sim de separar o consciente do inconsciente, e tentar garantir que o texto traga, ao menos, uma ou outra observação original (ou, na pior das hipóteses, uma tentativa de alcançar algo do tipo). No caso de Novo Mundo, fica um pouco mais difícil de encontrar algo novo a se dizer depois de ter lido a excelente crítica-romance que o Rodrigo de Oliveira escreveu para a Contracampo. Não pretendo, portanto, esgotar o filme plano a plano, por simplesmente acreditar que não o faria com o brio e a paixão que o Rodrigo o fez (embora Novo Mundo ganhe um louvado quinto lugar em minha lista, tenho certeza que ele subiria algumas posições – todas, provavelmente – na lista do Rodrigo).

Existem, porém, coisas absolutamente encantadoras em Novo Mundo suficientes para render centenas de texto. Se a tentativa de capturar a migração de italianos para a América ganha, nas mãos de Crialese, estatuto de inventário do cinema italiano (já que, no filme, Fellini, Pasolini, Visconti e todos os outros mestres italianos parecem de fato conviver em plena fantasia), o que mais me fascina no filme é o estreitíssimo limite entre um cinema realista e outro assumidamente fantástico que o filme se propõe como único caminho. Nada mais coerente: a migração é sempre movida pelo sonho, pela possibilidade, pelo desejo. Um relato estritamente realista estaria imediatamente excluindo o combustível de seu objeto. Crialese não só percebe isso como realiza, em Novo Mundo, uma fusão de dois mundos: pessoas movidas por sonhos tendem sonhar acordadas.

“ ‘Você não é delicado’, disse ela com sentimento. ‘Você é resistente – como todo artista. Mas quando se trata do mundo, e estou falando de lidar com o mundo, você não passa de um bebê. O mundo é maldoso de uma ponta a outra. Você vive nele, é verdade, mas não pertence a ele. Você leva uma vida encantada. Toda vez que você se defronta com uma experiência sórdida, você a converte em algo lindo’.” Se Henry Miller escreve esse sermão para si mesmo, em Plexus, é porque o eu de seus livros (que é sempre um eu passado) sonhava em ser escritor. Em Novo Mundo nenhum dos personagens sonha viver artista; eles sonham, somente, com uma vida melhor. Mas não seria a auto-realização (o ser artista) de Henry Miller também um sonho com uma vida melhor? Se pensarmos o trecho acima à luz do filme de Crialese, não restam dúvidas de que resistente não é o artista, mas sim o sonhador. Aquele que enfrenta toda sorte de provação pela chance de realizar o ideal que traçou para si. O talento da teimosia.

As personagens de Novo Mundo (ou a maior parte delas) sonham com a América. Para a família Mancuso é a fartura de possibilidades o grande atrativo: a América sonhada por eles é o lugar onde as frutas e legumes são do tamanho de pessoas, onde moedas chovem das copas das árvores e os rios são feitos de leite. Crialese assume a visão dos personagens como a do próprio filme, tornando concretos os sonhos que a realidade poderia vir a frustrar. Saem daí alguns dos planos mais deslumbrantes de Novo Mundo, construindo atos que parecem saídos diretamente das Cidades Invisíveis, de Calvino (referência espacial que, talvez, possa ser aplicada a todo cenário do filme): os garotos que carregam cenouras gigantes, a chuva de moedas que cai sobre a lente da câmera, as galinhas maiores que cavalos. A câmera de Crialese, porém não faz distinção entre o imaginário de seus personagens: assim como filma o sonho, filma o rompimento da partida sentido por um, a possibilidade de um casamento em terras jovens vislumbrada por outra, o inferno de um navio que insiste trazer para o chão os pés de personagens com cabeças de balão. A América que acolhe, mas também a que expulsa. O país que oferece uma chance de submissão. O caminhar rápido e ordenado da modernidade que indica que Metrópolis há muito já está em andamento.

O mais bonito nesse abraço ao sonho dado em Novo Mundo é que, embora sejam sonhos diferentes para cada um de seus personagens, são desejos que só podem ser concretizados. Não pela ingenuidade que conduz à goela do leviatã, mas sim porque o sonhador dedicado não aceita a frustração. Sua entrega ao sonho se revela uma capacidade transformadora, pois é capaz de fazer enxergar azeitonas gigantes mesmo se a razão lhes disser o contrário. O filme de Crialese acaba sendo a devida recompensa a esse novo homem, fazendo esse mundo de sonhos se tornar concreto na tela do cinema. A migração, a mudança é apenas o passo necessário para que o mundo antes imaginado agora apareça vivo e em movimento – mesmo que a realidade e o tato digam diferente. O novo mundo já estava lá, pronto, esperando apenas a decisão de cada um se deixar levar pela correnteza dos rios de leite. O rio que transforma toda e qualquer experiência – por mais sórdida que seja – em algo lindo.

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Se o cinema em 2007 pareceu com preguiça de mostrar suas jóias mais valiosas – muitas delas chegando só no segundo semestre – 2008 já começa com um gás asfixiante. O primeiro grande filme do ano, A Espiã, de Paul Verhoeven, ganha crítica minha na Cinética. Se somarmos o filme de Verhoeven a Paranoid Park e Em Paris (que, enfim, estréia no Rio na próxima sexta-feira) já temos três fortíssimos candidatos para a lista do fim do ano que vem. Isso em ano em que ainda teremos os Coen, Wong Kar-wai, Brian de Palma, Tim Burton, Hou Hsiao-hsien (assim espero), Tarantino, Cronenberg, Todd Haynes...

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Melhores de 2007

06 – Santiago – João Moreira Salles


Listas como esta sempre encontram jeito de ressaltar a inutilidade completa do recorte temporal (sem falar do próprio ato de se listar): assim como, no ano passado, incluí entre meus discos favoritos um que só havia ouvido já no ano seguinte, dessa vez trago cá um filme que, embora lançado comercialmente em 2007, eu assisti (e duas vezes) em 2006. A primeira foi em uma sessão para convidados no Instituto Moreira Salles, organizada pelo próprio João. A segunda foi na primeira sessão pública do filme no Brasil (acredito eu), no nosso CinePUC, com presença do João para debate após o filme. Em ambas as ocasiões, o diretor ainda se mostrava incerto sobre o lançamento comercial de Santiago (embora, lembremos, ele tivesse à mão uma distribuidora – sua VideoFilmes - e, ao menos, uma casa exibidora certa – o próprio IMS). Mais curioso, porém, era que a relutância vinha acompanhada de uma enigmática serenidade: não era angústia que João passava em relação a Santiago, mas sim a convicção de um filme que ele precisava fazer para si mesmo. Um filme que alcançava sua plenitude muito antes de ir a público, por dívidas e inquietações particulares que ele parecia vir acalmar.

Mas se Santiago talvez tenha surgido de uma certa auto-suficiência em relação ao público, por que esse bastar nunca empinava o nariz ao entrar na sala? De onde poderia vir tamanha serenidade? O olhar assumidamente pessoal que me traz a este texto vem de uma impressão extraída do próprio Santiago: não existe maneira honesta de lidar com a arte que não seja extremamente pessoal, parcial, afetiva (e talvez aí se explique minha quebra jornalística em tratar o realizador pelo primeiro nome – em intimidade que eu talvez só me permita ao chamar o Springsteen de Bruce). Por isso, talvez, a serenidade de João me pareça tão importante para minha relação com Santiago quanto qualquer coisa que se vê na tela – o que seria uma tela, afinal, que não uma fatia da vida? Para quê serve o cinema senão para registrar a passagem das pessoas pelo mundo, o caminhar sem sentido, o caótico ir e vir que vai buscar nesse mesmo cinema algo que lhe dê um acento de significado?

Ao lançamento de Santiago, a maior parte das críticas se detia sobre o quebra-cabeças metalingüístico que ele não deixa de propor: filmado em 1992, o perfil do mordomo da família Moreira Salles era o filme que João nunca havia conseguido terminar. Retomado 14 anos depois – com seu personagem principal já habitante do mundo dos mortos – Santiago se tornou uma “reflexão sobre o material bruto”, e o perfil do mordomo havia se tornado, também, uma linha-do-tempo de João Moreira Salles como documentarista. Ao longo da hora e vinte de projeção, observamos, com João, sua mudança de perspectiva em relação ao documentário, e à maneira de lidar com seus personagens e com as histórias que tem em mãos. Muito desse processo é extremamente doloroso: o João que ouvimos no extra-campo não traz em sua voz a serenidade que tanto marcara os primeiros parágrafos, mas sim uma rispidez muitas vezes agressiva, constrangedora (o documentarista que segue agindo como filho do patrão). Como no plano final de Pickpocket¸ de Robert Bresson, é inevitável pensar nos caminhos tortuosos que João Moreira Salles precisou percorrer para encontrar a si mesmo: depois de fazer filmes com uma estratégia bastante áspera e pouco generosa com o que filmava, o diretor descobre na possibilidade do cinema-direto – e no certo desejo de anulação do eu que move o documentário de observação – um caminho menos auto-centrado, embora não seja mais que uma outra certeza, para seu cinema. Depois de Nelson Freire e Entreatos – os dois filmes de sua fase mais encantada com os dispositivos do documentário – João percebe que, ao aprender a olhar para o outro, aprendera, finalmente, a olhar para si. E aquele diretor que parecia tão envolvido consigo mesmo ao filmar Santiago ganha, neste auto-retrato, traços de criança triste. Sob vários aspectos, Santiago é sim um expurgo público – com toda a vaidade e morbidez que isso pode trazer.

Se o filme que poderia ter sido é algo que essa reflexão sobre o material bruto propõe como questão (e o interesse e a rejeição pelo jogo metalingüístico acabam se revelando caminhos muito próximos), ela acaba fazendo fumaça àquilo que mais me interessa em Santiago: o filme que ele, 17 anos depois, de fato é. Pois se existe uma percepção que me parece realmente valiosa, é a de que a vida e a arte são linhas de um mesmo tear. Por isso, os momentos que mais me emocionam no filme (e me emocionam como filme algum de João, bons como alguns deles são, já havia feito) são justamente aqueles em que o diretor sai do armário de dispositivos em que buscara refúgio pela última década, e percebe que se a vida realmente não faz sentido, resta fazer poesia sobre ela. É aí que o filme passa a ser, de fato, sobre João: é quando ele se liberta das amarras do cinema, e vai, de peito aberto, buscar imagens e sons que contem sua vida. É quando ele não hesita em trazer Fred Astaire, em cena de A Roda da Fortuna (o filme favorito de Santiago), para se deixar versar sobre uma dança que começa em maravilhosa gratuidade, e com isso faz uma das mais belas metáforas da passagem da juventude para a vida adulta que o cinema jamais viu (a narração em off, gravada por Fernando Moreira Salles – irmão de João – conta sobre o momento em que João decidira sair da casa dos pais para enfrentar, sozinho, sua própria vida). Quando traz uma filmagem de sua família à piscina para, melancolicamente, nos convidar a observar, em silêncio, aquele mundo que não mais existe. Quando, em movimento inverso, anula as imagens para ouvir “O Barbeiro de Sevilha” no escuro. E depois busca em Yasujiro Ozu o sorriso da personagem de Era Uma Vez em Tóquio que concorda que a vida é realmente uma coisa decepcionante. É uma relação que se dá dentro do filme, mas que encontra maior assertividade na própria existência do filme – pois Santiago é, sobretudo, um produto de um tempo que passa.

Essas intervenções – que fogem do registro mantido pelo filme até ali – acabam re-significando tudo que vemos em Santiago. Pois qual seria a função das imagens – se é que existe uma – que não se apresentar ao mundo como significados que as pessoas podem trazer para suas vidas? O que seria o cinema que não um oceano de sensibilidades, de afetividades produzidas para despertarem outros afetos? Para que serve um filme senão para travar uma relação com a vida de quem o assiste? Aí, sim, encontra-se a reflexão de linguagem mais sofisticada em Santiago: as imagens filmadas 14 anos antes pertencem à memória. Resta ao cinema pensa-las enquanto tal – e, nesse sentido, a relação estabelecida com a narração em off é tão próxima dos cine-diários de Jonas Mekas quanto da auto-significação das primeiras pessoas de Wong Kar-wai. Uma vez que a ausência de sentido da vida é iluminada pela certeza, cabe buscar na arte alguma coisa que aproxime esse despropósito daquilo que nos comove.

Em 1992, João decidira fazer um documentário sobre o mordomo que, no passado, trabalhara para sua família. À época, negligenciara aquilo que mais era caro a Santiago: uma estranha coleção de anotações sobre a nobreza dos mais variados países e épocas. Santiago se acreditava um nobre desgarrado, e fantasiava sua própria vida recontando as vidas dessas pessoas, conservando-as em memória. E aí, numa dessas surpresas maravilhosas que o cinema tantas vezes nos guarda, percebemos a lógica de Santiago triunfar sobre todo o racionalismo de linguagem aparente de Santiago: os documentos que ele organizava para conservar as nobrezas de outros tempos acabam servindo como guia para que a nobreza de seu tempo – afinal, que outra coisa poderia ser a família Moreira Salles? – venha olhar para si e registrar sua passagem pelo mundo no filme de João. Não à toa, esse registro ganha seu nome. Se para aprender a olhar para si mesmo, João antes precisara prestar atenção no outro, não deixa de ser uma ironia que ele consiga dar tanta voz ao outro justamente no filme que ele acredita fazer sobre si mesmo. Ao fim e ao cabo, a poesia que conduz Santiago pertence muito mais a seu personagem-título do que ao próprio realizador. A João talvez tenha cabido apenas abrir as cortinas. E ao filmar sua vida, acabou fazendo um filme sobre o outro. Um filme sobre Santiago, mas também sobre todos os que buscam, no escuro da sala de cinema, uma imagem que venha conferir algum sentido às suas perdas.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Melhores de 2007

07 - Maria (Mary) - Abel Ferrara


Como filmar o invisível? Como fazer a fé, o milagre, a transcendência se manifestarem fisicamente e se tornarem imagem? Se começar textos com perguntas se tornou estratégia corriqueira para lideiros vagabundos, é difícil se posicionar de maneira diferente diante de Maria. Por nenhuma razão outra que não a posição do diretor diante daquilo que decide filmar, e do próprio ato de filmar: em Maria, a única aproximação que parece sincera a Abel Ferrara é pela dúvida. A dúvida diante da fé, da imagem, da representação, do mistério do mundo. Em Maria, cada plano é uma interrogação, uma pergunta, uma inquietação. Precisamos, portanto, pensar em Maria Madalena.

Não é por acaso que Ferrara escolhe uma das mais controversas personagens bíblicas para guiar sua investigação do espírito das imagens. De prostituta a apóstola, de testemunha ocular da ressurreição de Jesus a mulher de Cristo, Maria Madalena talvez seja a figura religiosa a despertar maiores bifurcações interpretativas. No filme de Ferrara, a mulher-título é pura virtualidade: Maria Madalena é personagem interpretada por Marie Palese (Juliette Binoche) em This Is My Blood, filme dentro do filme em que o diretor Tony Childress (Matthew Modine) reencarna Jesus para recontar sua história. Ao término das filmagens, Marie abandona sua carreira de atriz e parte para Jerusalém em uma jornada pela iluminação espiritual. Em paralelo, conhecemos Ted Younger (Forest Whitaker), apresentador de um talk-show de investigação dos caminhos da crença religiosa que começa a fazer algum sucesso de público nos EUA.

O que faz as vidas de Younger, Childress e Marie se cruzarem é This Is My Blood: as imagens ainda não vistas do filme de Childress geram comoções de todas as direções. Younger vê o filme em uma sessão para a imprensa e convida Childress a participar de seu programa. O diretor aceita quando o apresentador concorda cobrir as manifestações esperadas para a estréia do filme. Nesse ambiente onde fé e comércio se misturam, Marie faz o caminho inverso: embora as intenções de Childress com o filme sejam constantemente postas em dúvida, é o convite para o papel que propicia sua iluminação. Os trajetos escolhidos pelas almas que o filme incorpora fogem de qualquer generalização, pois cada busca vem de uma carência, de uma dor que é só sua. Não existe resposta fácil em Maria, pois não existe resposta alguma; o que temos são três seres perdidos no vácuo que existe entre fé e representação, o caráter impronunciável da crença e a fisicalidade agressiva da imagem.

Se com Ordet Carl Th. Dreyer faz um monumento de fé ao transformar em imagem um milagre – jogando para o espectador cético o peso de sua descrença – em Maria, Ferrara parece se interessar justamente pela incapacidade da imagem em conter o sagrado. Ela é questão tão central no filme que seu registro só pode ser múltiplo: convivem programas de tv, filmes diegéticos e não-diegéticos; vídeo e película; câmera no ombro e carrinho; cortes ásperos e doces fusões. Em qual deles o sagrado estará mais propício a se apresentar? A sensação, porém, é sempre a mesma: se a iluminação está por vir, não é em um longo plano do silêncio impassível de Jesus à cruz, mas sim entre um fotograma e outro, no espaço que a ilusão de ótica preenche e torna possível o cinema. Esse interesse pela imagem faz de Maria mais um capítulo para um verdadeiro tratado sobre o tema escrito no ano cinematográfico carioca, onde também se inserem I'm not there, Sombras de Goya, a dupla de Grindhouse e Maria Antonieta.

Com o (des)andar dos acontecimentos, os três personagens principais se colocam em posições cada vez mais complexas: o oportunismo arrogante de Childress é questionado pela obstinação em projetar seu filme, solitariamente, apesar de uma ameaça de bomba ter evacuado o cinema; a peregrinação de Marie é abalada por uma bomba durante as comemorações do Pessach; a investigação fria de Younger demanda mergulho pessoal quando as vidas de sua mulher e filho são entregues à sorte do mundo em um hospital. O cruzamento de suas trajetórias é um mero esbarrão em uma jornada pessoal mais ampla, que o filme nunca mostra ter intenções de encerrar entre início e fim. Pois se as perguntas que Ferrara propõe em Maria não são respondidas, é porque isso é resposta mais eloqüente: a fé só existe se acompanhada da dúvida. Se o cinema é possível por conta de uma limitação física do olhar humano, a fé encontra lugar nas brechas do espírito, nos lugares onde as perguntas ecoam no vazio. Questionando a possibilidade de a representação física dar conta desses espaços – espaços esses que parecem extrapolar os 24 quadros em que o cinema divide cada segundo – Ferrara, pelo simples ato de realizar este filme, faz uma contundente declaração de fé na capacidade sagrada inerente a essa mesma imagem.

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Mais uma parágrafo meu publicado na Cinética. Dessa vez e na sessão Textículos, com um breve olhar sobre O Diário de uma Babá.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Enquanto o top 10 segue aguardando tempo livre

A Culpa é do Fidel!, filme bem sem sal da Julie Gavras, tem crítica minha na Cinética.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Melhores de 2007

Filmes

08 - Os Donos da Noite (We Own the Night) - James Gray



É um prazer imenso topar com um filme de um radicalismo tão sutil que é capaz de passar não-visto mesmo aos olhos mais atentos. Os Donos da Noite é um desses raros casos. É inevitável a sensação de estarmos vendo um filme que parece dissonante em relação à produção de seu tempo, mas que consegue ainda assim nunca parecer alheio ao cinema que o cerca. E aí percebemos que a guinada proposta por James Gray é, na verdade, de radical mudança de estrutura. Afinal, estamos diante de um filme de gênero (uma típica narrativa policial), mas não vemos em Os Donos da Noite as características mais marcantes que os dias recentes lhe conferiu: nada da referencialidade de De Palma ou Tarantino, da pesquisa de texturas de um Miami Vice ou de Zodíaco, tampouco do niilismo assumido por Takashi Miike ou Johnny To. O que temos é um apaixonado retorno a um cinema calcado na mais tradicional dramaturgia, onde mais importante do que se encantar com camadas e camadas de metalinguagem é se deixar conduzir pela narrativa.

Mas existe algo tão original na estória de Os Donos da Noite para carregar o espectador pelas duas horas de filme? Aparentemente não, mas no filme de James Gray é preciso estar atento para não ser desviado do caminho pelas aparências. A estória é conduzida Bobby (Joaquin Phoenix), homem da noite nova iorquina que administra a El Caribe, boate mantida por um patriarca russo com planos imperiais. Apesar de vir de uma família de policiais, Bobby leva uma vida feliz sem reservas morais tradicionais: é apaixonado por sua namorada latina (Eva Mendes), convive com toda sorte de marginal sem nunca sujar as mãos e, embora suas escolhas não agradem ao pai (Robert Duval) e ao irmão (Mark Wahlberg), é tido como filho pela família russa para quem trabalha, garantindo seu futuro com um misto de profissionalismo e afetividade que não encontra em casa. Bobby tem uma vida bacana e poucas vezes o cinema captou isso tão bem como na primeira seqüência filmada (pois o filme começa com uma montagem de fotos) de Os Donos da Noite: ao som de “Heart of Glass”, do Blondie, somos apresentados ao casal principal em cena de extrema intimidade que, antes de parecer vulgar ou gratuita, cria um elo entre dois personagens que somente uma cagada monumental seria capaz de romper. Preparemo-nos, portanto, para a cagada monumental.

Bobby é chamado pelo irmão e pelo pai para uma conversa: a polícia pretendia invadir o clube administrado por ele para capturar um peixe grande do tráfico local. Peixe russo, sobrinho de seu patrão. Eles pedem sua cooperação. Ele nega. O El Caribe é invadido pela polícia e, embora a operação não seja exatamente bem sucedida, Bobby é levado à cadeia junto com um par de marginais. Pouco depois vemos seu irmão à porta de casa, onde é surpreendido com um tiro no meio do rosto. O distanciamento que garantia a boa vida de Bobby é rompido: se ele não queria se envolver na prisão do sobrinho de seu “padrinho”, uma bala na cara do irmão é capaz de faze-lo reconsiderar. A questão familiar que se apresentara é revertida, e se torna ainda mais familiar. Shakespeare, enfim.

E se o início da cooperação de Bobby também poderia marcar uma tomada de posição reacionária, em Os Donos da Noite ela é o prenúncio do inferno: a invasão da boate, do paraíso tropical que seu nome prometia, marca o fim da inconseqüência, pois não é possível lidar com lixo sem sujar as mãos. Mas marca, principalmente, o fim da felicidade: não veremos mais, ao longo de toda projeção, uma cena tão pulsante quanto a que abre o filme. Não veremos mais um sorriso sequer. Veremos, porém, uma tragédia dirigida com precisão milimétrica, atores extraordinários em seus melhores momentos, e pelo menos mais três seqüências tão marcantes quanto a primeira: o momento em que Bobby se infiltra em uma operação do tráfico de drogas local; a perseguição de carros confinada à visão limitada pela chuva torrencial; e a extraordinária busca pelo matagal enfumaçado, onde toda contextualização cede espaço a um não-tempo e um não-lugar tão impressionantes quanto o paraíso perdido de Obsessão, de Luchino Visconti, ou a praia do final de A Doce Vida, de Federico Fellini. Momento sublime que o cinema de gênero não via com tanta força desde o plano final de O Pagamento Final, de Brian de Palma.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Melhores de 2007

09 – Possuídos (Bug) – William Friedkin



Sob várias óticas, Possuídos se colocou como o filme-questão internacional mais interessante de 2007 (pois não há dúvida que, entre os nossos, o trono fica para Tropa de Elite). Em primeiro lugar por trazer o nome de William Friedkin – tão oscarizado à época de Operação França e O Exorcista – de volta às pautas (questão muito bem problematizada por Paulo Santos Lima em texto publicado na Cinética). Em segundo, por ter sido apontado por boa parte da crítica como um filme-bifurcação: se, por um lado, Friedkin nos conduz por terreno estético bastante extremo (e extremo me parece o adjetivo mais acertado a acompanhar Possuídos), por outro ele usa esse radicalismo em prol de um discurso político que se colocaria como de extrema direita.

Centrado na relação que se estabelece entre uma mulher solitária (Agnes, a personagem que deveria marcar a carreira de Ashley Judd) que se esconde do violento ex-marido (Harry Connick Jr) num suado quarto de hotel em Oklahoma, e um veterano de guerra de voz mansa e olhos perturbados (Peter, em atuação antológica de Michael Shannon), o filme de Friedkin traz o estado de um mundo com relações políticas em franca ebulição para dentro de casa. A ameaça representada pelo ex-marido logo é substituída – em um exercício de impressionante interiorização do pôr-em-cena – pela paranóia do ex-soldado: ele acredita carregar um chip de monitoração implantado em seu corpo pelo governo, e se vê perseguido por microscópicos insetos (que, a despeito de feridas bem visíveis, a câmera de Friedkin nunca consegue enxergar) que castigam sua pele e acordam seu sono.

Se o filme pode ser lido como uma ironia às teorias conspiratórias que tomam qualquer sociedade em crise, Friedkin lança mão de elementos perturbadores suficientes para nublar as interpretações fáceis. Pois como em qualquer kammerspiel¸ os personagens de Possuídos logo ganham tintas alegóricas: quando uma mãe (figura tradicionalmente associada à pátria em narrativas políticas) que perdeu o filho passa a temer a violência do marido conservador (o homem como gestor fracassado, como responsável pela ordem que não consegue estabelecer), e imediatamente abraça a primeira oportunidade de entrega à loucura que lhe aparece, é difícil não estabelecer paralelos com o terror doméstico instaurado pelos rumos agressivamente conservadores da política americana recente. A paranóia não é, de fato, questionada, mas sim questionada em sua implantação: é preciso criar um terreno bastante fértil para que ela se manifeste. Antes de questionar as teorias conspiratórias, Friedkin pensa o tipo de ambiente que as faz possíveis. Se Possuídos é fruto de um artista de inclinação destra, o filme funciona mais como um alerta à direita efetiva do que como um discurso propriamente conservador.

O que mais impressiona, porém, são as formas de representação que William Friedkin escolhe para sensações tão abstratas. A ameaça da paranóia é feita física por meio de um extraordinário plano aéreo, pelo olho de um helicóptero que se aproxima do hotel sem nunca ser justificado diegeticamente (a ameaça que vem de fora). Uma vez que a loucura encontre condições para se desenvolver (momento preciosamente marcado com o arrancar das telhas do hotel pelo vento gerado pelas hélices do helicóptero – o olho que se torna imagem), Friedkin empurra seus atores em uma vertiginosa ladeira emocional, colocando o espectador em um delicado limite entre acompanhar a trama e assistir a exercícios de entrega extrema na interpretação.

Sim, pois se a primeira metade de Possuídos constrói o ambiente propício à loucura, sua segunda metade aposta em uma doação que por vezes beira à abstração: o quarto perde suas feições, suas paredes são cobertas do prateado de papéis-adesivos que atraem mosquitos, e o calor do tungstênio é substituído pelo azul brilhante das lâmpadas repelentes. Saem Agnes e Peter, entram Ashley Judd e Michael Shannon, de fato, no foco de atenção. Tudo isso em nome de uma construção climática que, por vezes, se aproxima das intenções de Claire Denis em Desejo e Obsessão. Em situação de tamanha incerteza, o lar pode se tornar cenário de ficção científica, e o cinema de gênero pode romper telhados em direção aos extremos do corpo. Para aqueles dispostos a rodar ladeira abaixo com o filme, Friedkin fez uma das experiências cinematográficas mais intensas de 2007.

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Sombras de Goya, o mais novo filme de Milos Forman, ganhou crítica minha na Cinética. Não deixem de conferir o filme e o texto.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Melhores de 2007

Então cá estou eu novamente, catando miúdos de memória para juntar minha muito anunciada lista de melhores do ano. Mais uma vez, a lista é feita tendo como base os lançamentos comerciais em salas do Rio de Janeiro (não valem festivais, pré-estréias, mostras, etc). Mais uma outra vez, não vi alguns filmes que andam aparecendo em várias listas de gente confiável por aí (Os Anjos Exterminadores e Fora de Jogo, por exemplo). Mais uma outríssima vez, consegui perder um lançamento de um diretor que gosto muito (Cartas de Iwo-Jima, de Clint Eastwood, embora seu A Conquista da Honra não apareça por aqui por não me parecer, de fato, bom o suficiente). Esse ano, porém, consegui um feito inédito: fechei o ano sem ver o filme mais comentado do país (Tropa de Elite, de José Padilha). Nenhuma antipatia pelo diretor do excelente Ônibus 174; apenas um certo fastio em relação a todo o disse-me-disse que me fez adiar, constantemente, a ida ao cinema. Preferi deixar pra ver com a cabeça em um lugar mais justo. Ficam de fora um ou outro filme de bons diretores que mostraram fôlego reduzido (O Sobrevivente, Viagem a Darjeeling) e, por questões numéricas, outros que marcaram algumas das sessões mais agradáveis do ano: Superbad – É hoje; Planeta Terror; Zodíaco; Estamos Bem Mesmo Sem Você; Antes Só do que Mal Casado; Mutum; Lady Chatterley; Direito de Família; Ratatouille; Os Simpsons – O filme; Sombras de Goya; Borat – todos filmes que acabariam entrando em uma lista proporcionalmente maior. Dito isso, começo pelo décimo. A idéia é tentar trazer um novo filme a cada dia, mas sabemos que eu não serei homem de manter essa periodicidade. Fiquem, portanto, com a fração de homem que eu conseguir ser. E que venham, em seqüência, os discos.

Filmes

10 – Jogo de Cena – Eduardo Coutinho


Muito se falou de Jogo de Cena como uma virada de estratégia supostamente necessária à carreira de Eduardo Coutinho. Embora ache a necessidade discutível (mesmo não advogando a Peões ou O fim e o princípio um lugar paralelo ao de Edifício Máster – filme onde muitas das estratégias do diretor eram levadas ao paroxismo), colocar Jogo de Cena como filme de exceção me parece, sim, se deixar levar pelo jogo (de espelhos? De fumaça? De máscaras?) que o filme permite existir. Não significa, portanto, que a aparente mudança traga uma nova postura, de fato, de Coutinho em sua consistentíssima obra. Toda a resituação proposta pelo realizador distrai o espectador naquilo que é apenas uma mudança de dispositivo: se Coutinho vem ouvindo personagens filme após filme, é exatamente isso que ele seguirá fazendo em Jogo de Cena. O que muda são as personagens, a maneira de elas falarem, e o recorte em que estão circunscritas. Mas não seria essa mudança a única constância na filmografia recente de Eduardo Coutinho?

Jogo de Cena começa em caminho que todo filme de Coutinho eventualmente pisará: as regras do jogo. Aqui, um anúncio de jornal convida mulheres interessadas em contar suas histórias de vida. Logo em seu segundo depoimento, as cadeiras de teatro que fazem fundo de cenário se justificam com um corte: a imagem salta do rosto que a conta para continuar no da atriz Andréa Beltrão. A história, porém, permanece. Ao fim do depoimento, ela fala da experiência de recontar aquela história, de suas dificuldades e impressões ao recriar a personagem que a inspira. Mas algo sai dos eixos. Sai dos eixos porque, contrastando com a tranqüilidade da mãe que conta a perda do filho, Andréa Beltrão não consegue passar pela história sem se render às lágrimas. Lágrimas da atriz ou da personagem? Ela diz serem delas, mas aos poucos tudo que se diz em Jogo de Cena passa a ganhar uma mesma dimensão. Em cortes de rostos desconhecidos para atrizes populares, o jogo (de encaixe?) proposto por Coutinho logo se descola da adivinhação e se aproxima da auto-exposição completa. Pois uma vez que atrizes e personagens não são mais passíveis de distinção, o que sobra é a matéria-prima básica de onde Coutinho sempre moldou seus filmes: a palavra.

Nesse sentido, Jogo de Cena talvez só faça expor mais abertamente aquilo que sempre foi o centro dos documentários de Eduardo Coutinho, e o jogo de adivinhação deixa de fazer sentido, pois vai contra uma questão essencial para o diretor: não existem mentiras em sua obra, pois ela não se interessa por verdades. A verdade, para Coutinho, não é questão factual: é fruto de comprometimento. As atrizes de Jogo de Cena logo se revelam idênticas a quaisquer personagens de sua obra passada: são pessoas lidando com a expectativa de uma câmera. Alguns desses momentos podem parecer mais simpáticos (acho toda a presença de Andréa Beltrão de uma doçura comovente), enquanto outros talvez despertem certa desconfiança (as maneiras como Marília Pêra e Fernanda Torres parecem se esforçar para dar a Coutinho tudo que elas acreditam que ele espera receber me faz franzir vários cenhos). Ainda assim, a construção de Jogo de Cena é tão escancarada que tudo se torna uma questão para filme: se uma atriz se oferece de maneira mais ou menos óbvia, isso acrescenta uma nova camada de relação entre as expectativas daquelas mulheres (é isso que, mais ou menos essencialmente, todas elas são) e a câmera que as capta em representação. No cinema de Coutinho toda e qualquer fala é, sempre, uma representação.

Por isso não há diferença entre a dificuldade de Fernanda Torres em entrar no papel e o desejo da médica que retorna para um novo depoimento, por ter acreditado que sua fala anterior havia ficado pesada demais. Por isso a história que se repete com dois rostos diferentes (mais igualmente anônimos) não gera interrogações de veracidade, mas sim interesse por duas interpretações distintamente verdadeiras. E se somos tomados por estranhamento ao ouvir Coutinho fazer uma mesma pergunta duas vezes, aprendemos que a pureza (adjetivo que, usado de forma leviana, tantas vezes reduziu seu cinema) da estrutura documental do diretor é uma questão que deve, sempre, ser repensada pelo espectador.

Em Jogo de Cena, Eduardo Coutinho expõe as regras do jogo não só de seu filme, mas da própria relação com quem consome (e, mais do que nunca, completa) seu trabalho. Pois em uma obra onde as expectativas sobre sua própria feitura sempre foram centro de interesse (o que são os documentários de Coutinho que não registros dos encontros que o próprio filme proporciona?), é natural que, em algum momento, o espectador fosse o convidado de honra. Somos nós os convidados a jogar com sua cena.

domingo, dezembro 30, 2007

Fabito’s Way 2007 Mix

Aprimorando as minhas tradicionais listas de fim de ano (lembrando que esse ano já foi povoado de listas por aqui), resolvi fazer uma coletânea das minhas canções favoritas lançadas em 2007. Sempre gostei de fazer coletâneas, mas tornar o hábito público me dá um novo tipo de satisfação. Várias das canções que aparecem neste "cd" (tá na medida pra queimar em um disco, se é que alguém ainda faz isso) já ganharam linhas desse blog, mas a idéia era tornar a coisa um pouco menos abstrata reunindo as canções, de fato, para download. Segue, portanto, a trilha-sonora sugerida para os tops que começo a publicar a partir de amanhã. Logo abaixo, derramo-me sobre cada uma das canções com a redundância apaixonada que já lhes é familiar. E que 2008 seja um ano mais bacana pra todos nós!






















01 – Maritime – Guns of Navarone

02 – Josh Ritter – Right Moves
03 – Son Volt – The Picture
04 – The Weakerthans – Tournament of Hearts
05 – Against Me! – Thrash Unreal
06 – The New Pornographers – My Rights Versus Yours
07 – Ben Lee – Love Me Like The World Is Ending
08 – Driving Music – I Am Trying Not to Break Your Heart
09 – Josh Rouse & Paz Suay – Car Crash
10 – Bishop Allen – Rain
11 – Ryan Adams – Oh My God, Whatever, Etc.
12 – Feist – 1, 2, 3, 4
13 – Wilco – Hate it Here
14 – Velvet Revolver – The Last Fight
15 – Bruce Springsteen – Long Walk Home
16 – Arcade Fire – No Cars Go
17 – The National – Start a War
18 – Idlewild – You and I Are Both Away
19 – Jimmy Eat World – Here it Goes
20 – Of Montreal – A Sentence of Sorts in Kongsvinger

01 – Maritime – “Guns of Navarone”
do álbum Heresy and the Hotel Choir

Faixas de abertura são uma questão delicada, pois elas determinam a maneira como você vai se relacionar com toda a obra que vem em seqüência. Não à toa, raramente consigo abrir uma coletânea com uma canção que não abra seu disco de origem. Não é questão de respeitar uma intenção autoral, mas sim de não conseguir me desprender de um frescor característico que me parece intrínseco a todas as boas primeiras faixas. No caso de “Guns of Navarone”, é uma faixa que empurra o ouvinte com uma força realmente impressionante, não deixando muita margem para hesitação. É uma canção que gosto de ouvir pela manhã, e o fato de ela ser a minha mais ouvida no Last.fm diz muito sobre o quanto de fé meus dias depositam nela. Poucas coisas podem ser tão cafeínicas nas primeiras horas quanto uma boa seqüência de três ou quatro acordes, espalhada por guitarras sem curvas em 3 cravadíssimos minutos.

02 – Josh Ritter – “Right Moves”
do album The Historical Conquests of Josh Ritter

O Josh Ritter está, definitivamente, entre os compositores que buscam no passado as referências para se criar algo familiarmente novo. Há alguns posts atrás, escrevi aqui que “Right Moves” parecia uma composição perdida do Brian Wilson para o Travelling Wilburys; de fato, a canção tem tanto de Wilson quanto de Dylan, Petty ou Harrison. Seu arranjo também me lembra muito o primeiro disco dos TW, principalmente por ficar naquela mistura simpaticamente desengonçada de estruturas de composição tradicional com um desejo de renovação pop que marca o disco de estréia da superbanda. Embora Ritter não seja exatamente um grande letrista, o paralelismo entre a integração do homem com a natureza e do amor com a música não deixa de ter bons momentos (gosto, em especial, do verso “I heard the night birds picking up the song / You threw your hair back and sang along / And I realized that I might lose you, you might lose me / Drift apart in the night and never know why”). Ao fim, minha relação com música não está muito distante disso.

03 – Son Volt – “The Picture”
do álbum The Search

O Son Volt é a banda formada pela segunda metade criativa do fabuloso Uncle Tupelo: enquanto Jeff Tweedy foi dominar o mundo com o Wilco, Jay Farrar e sua banda seguem com seu alt-country mais tradicional, mas igualmente convincente. Em “The Picture” - o primeiro single e a melhor faixa do álbum The Search - a inflexão de Farrar por vezes evoca Michael Stipe, mas com impostação travada pelos dentes que mascam tabaco. A sensacional linha de metais que puxa a canção está, sem esforço, entre os melhores riffs do ano. O bom é que a banda tem plena consciência disso, e a traz de volta várias vezes durante a canção.

04 – The Weakerthans – “Tournament of Hearts”
do álbum Reunion Tour

Desde Fallow, album de estréia do quarteto canadense The Weakerthans, tenho John Samson como um dos mais habilidosos contadores de estória do nosso tempo. “Tournament of Hearts” acompanha um sujeito que não quer ir pra casa, e entorna suas angústias como pints de cerveja em um bar. O repertório de imagens de Samson é de sufocante expressividade: as flâmulas velhas que amarelam na parede; os integrantes de um time campeão do passado que, emoldurados em uma velha foto, desaprovam o comportamento do protagonista; o tira-gosto que pergunta o que ele ainda faz fora de casa. Tudo isso para lutar com a dificuldade que cerca todos os discos da banda: a falta de palavras novas que dêem conta de sentimentos que já não encontram expressão precisa em vernáculos empalidecidos pelo uso. É com essas imagens que Samson constrói mais um de seus inesquecíveis personagens, imortal em três minutos e meio de uma canção pop. Como bônus ainda temos a deliciosa brincadeira de “never ever”s do refrão; palavras que rolam pela boca como uma bala que nunca parece doce demais.

05 – Against Me! – “Thrash Unreal”
do álbum New Wave

A personagem de “Thrash Unreal” não está muito distante da angústia que toma “Tournament of Hearts”, e suas soluções são basicamente as mesmas: escapar das semanas bebendo e dançando a desesperança de uma vida diferente. Em um primeiro momento o coro de pa-pa-pa pode parecer golpe baixo, mas é só Tom Gabel atropelá-lo com a melodia do refrão para apagar a dúvida de que estamos diante de um dos mais vigorosos rockões do ano.

06 – The New Pornographers – “My Rights Versus Yours”
do álbum Challengers

Os New Pornographers não só fizeram uma das melhores canções do ano, como provavelmente fizeram a melhor letra. De certa forma, “My Rights Versus Yours” é uma resposta – embora essencialmente onírica, e por isso mesmo arriscada – às questões das duas canções anteriores: diante da angústia, resta sempre a oportunidade de se encontrar “a verdade em uma tarde livre”. A letra de “My Right Versus Yours” me faz lembrar o belíssimo passeio de carro ensolarado que toma o sonho dos garotos ao final de As Virgens Suicidas (embora seu lado mais otimista também esteja muito próximo de toda a segunda metade de Blissfully Yours), e muito da letra caminha em desequilíbrio parecido: são personagens em constante risco de perda (“The medicine, it still won't work / But there's dangerous levels of it here”), que seguem em frente tomados pela esperança de vivenciar, nem que seja por um breve instante, a essência do mundo (“Under your wheels, the hope of spring / Mirage of loss, a few more things / You left your sorrow dangling / It hangs in air like a school cheer”). Acho “miragem de perda” uma imagem de riqueza ímpar. É algo que eu gostaria de ter escrito.

07 – Ben Lee – “Love Me Like The World Is Ending”
do álbum Ripe

Quando passei da primeira para a segunda faixa dessa compilação, me espantei por ter conseguido enfileirar duas faixas com a palavra “lions” em suas letras. Mais espantoso (meio patológico, até), porém, é ver o desenho temático em que as canções foram se ajustando, e que só percebo agora, enquanto escrevo sobre cada uma delas. Com Ripe o Ben Lee sai de vez do conforto de singer/songwriter para indies, e entra no delicado terreno dos artistas com intenções francamente pop. O disco patina em diversos momentos, mas não o suficiente para apagar seu brilho. “Love Me Like The World Is Ending” é um complemento radiofônico a “My Rights Versus Yours”: enquanto a canção dos New Pornographers se entrega a um imaginário livre e dominante, Ben Lee busca conforto na promessa de uma frase vazia, de um lugar comum. A idéia de se extinguir para poder viver, porém, é a mesma, e Ben Lee não passa por ela sem deixar versos de comovente simplicidade (“And I know the sky is what makes the ocean blue”, ou “And they all say to pour it has to rain / So don’t complain if we get wet”).

08 – Driving Music – “I Am Trying Not to Break Your Heart”
de Demo 2007

Como o blog é meu, a coletânea é minha, e o ano foi meu, não pensei duas vezes em colocar uma das minhas canções aqui no meio também. De certa forma, o desejo é bastante próximo do último par de canções: navegar embora com a ironia que nos resta. Mas digo, sem rodeios, que colocaria meu filhote entre os mais adoráveis sem grande culpa: gosto muito, muito mesmo dessa canção. E não deixa de ser um conforto (e de, em retrospecto, fazer um sentido danado) perceber que minhas ansiedades são compartilhadas por algumas das canções que vêm encaixando as peças dos meus dias.

09 – Josh Rouse & Paz Suay – “Car Crash”
do ep She’s Spanish, I’m American

Após o belíssimo dueto em “The Man Who Doesn’t Know How To Smile” (de Subtítulo), o casal Josh Rouse e Paz Suay lançam o ótimo ep She’s Spanish, I’m American. A primeira faixa é “Car Crash”, uma das melhores e mais animadas canções já escritas por Rouse (chega a flertar com o funk, espalhando wah wahs pelos cantos). A letra da canção é quase uma transcrição de tudo que passa pela minha cabeça quando pego um táxi no Rio de Janeiro.

10 – Bishop Allen – “Rain”
do album The Broken String

A lógica de “Rain” é de niilismo diferente da de “My Rights Versus Yours” ou de “Love Me Like The World Is Ending”: para o Bishop Allen, as coisas só melhoram após ficarem realmente ruins por um dia. A melodia de “Rain”, porém, olha para o depois da chuva, para a cidade já limpa depois de a enxurrada tirar tudo do lugar. É um refrão incrivelmente sedutor, e a versão que você encontra nessa coletânea é exclusiva (‘cause I’m good like that!): enquanto a introdução de bateria é compartilhada com o fim da faixa anterior na masterização original, só aqui você pode ouvir o compasso inteirinho, sem ter que começar a dançar antes mesmo de entender o tempo da porcaria.

11 – Ryan Adams – “Oh My God, Whatever, Etc.”
do álbum Easy Tiger

Não me parece errado dizer que Easy Tiger se situa entre os discos menos inspirados de Ryan Adams: não há nada ali que faça jus aos dias de Heartbraker, Gold ou mesmo Jacksonville City Nights. Muito por Adams não fazer muita cerimônia em cair no piloto automático, desperdiçando momentos inspirados em canções que parecem se escreverem sozinhas e sem muita vontade. “Oh My God, Whatever, Etc” é uma das melhores do disco, talvez por lembrar mesmo a época de Heartbreaker. E se é uma pena que, na segunda estrofe, Ryan Adams não dê cabo à interessante primeira metade da canção (o homem que ouve pedaços da vida do vizinho pela parede), ainda temos uma melodia belíssima para levar na cabeça.

12 – Feist – “1, 2, 3, 4”
do álbum The Reminder

Eu tinha pensado em driblar a obviedade e colocar uma outra canção da Feist aqui. A questão é que “1, 2, 3, 4” é a melhor canção do ano, e tira-la desse cd seria como o Coutinho tirando “My Way” do final do Edifício Master só porque ia ficar um final bom demais.

13 – Wilco – “Hate it Here”
do álbum Sky Blue Sky

No dvd que acompanha a edição gringa de Sky Blue Sky, Jeff Tweedy diz que só queria escrever letras que sua mulher pudesse cantar sem temer pela sanidade do marido. De diversas maneiras, Sky Blue Sky é um longo pedido de desculpas, e em “Hate It Here” isso ganha uma transparência desconcertante: o homem que busca maneiras de passar o tempo enquanto espera pela sua amada, para só no final admitir que, na verdade, ele não sabe lidar com a realidade de que ela não mora mais ali.

14 – Velvet Revolver – “The Last Fight”
do álbum Libertad

Você sabe que o mundo segue correndo sobre os eixos certos quando bandas de rock ainda escrevem grandes baladas sobre os dias passados na cadeia.

15 – Bruce Springsteen – “Long Walk Home”
do álbum Magic

O Bruce Springsteen ainda canta sobre cidades mortas como ninguém, e “Long Walk Home” é o melhor exemplo a se encontrar no excelente Magic. Se a canção do Velvet Revolver fala da culpa do transgressor, o narrador de Springsteen parece sempre recém-saído da prisão: seu desejo de sorver o mundo é avassalador, mas é um desejo insaciável, pois esse mundo não é mais reconhecível. “Long Walk Home” tem ao menos duas grandes encapsulações desse sentimento: “The diner was shuttered and boarded /With a sign that just said ‘gone’ ” e o pai que diz ao filho “Your flag flyin' over the courthouse / Means certain things are set in stone / Who we are, what we'll do and what we won't”

16 – Arcade Fire – “No Cars Go”
do álbum Neon Bible

Funeral, o disco de estréia do Arcade Fire, continha um indiscutível hino: “Wake Up” era uma canção tão absolutamente grandiosa que extraiu elogios de meio mundo, e se tornou introdução para os shows da turnê Vertigo do U2. De certa forma, Neon Bible é um disco de anti-hinos, o que não deixa de ser uma resposta digna a toda a expectativa criada em torno da banda. Muito por isso, acho extremamente difícil isolar as canções do disco sem tirar sua força contextual. “No Cars Go” talvez seja a única exceção, o que faz bastante sentido: a versão de Neon Bible é uma regravação da canção, que já aparecia no ep de estréia da banda. A melodia esplendorosa faz contraste notável à simplicidade certeira da letra, gerando mais um belo momento de um dos grupos mais legais a surgir nos últimos anos.

17 – The National – “Start a War”
do álbum Boxer

“Start A War” talvez preceda o lamento conformado que Tweedy desfia em “Hate It Here”: o que temos aqui é o momento irreparável da separação, e o desespero de quem se vê empurrado à desagradável esquina da vontade contrariada. Se no brilhante Alligator Matt Berninger se firmava como uma das vozes mais profundas do pop atual, recitando as cinco linhas de “Start A War” ele soa como o canto da própria consciência. Poucas frases já traduziram tão bem o fim de um relacionamento quanto “Whatever went away I’ll get it over now / I’ll get money, I’ll get funny again”.

18 – Idlewild – “You and I Are Both Away”
do álbum Make a New World

Depois do fraco Warnings, promises, o Idlewild recupera parte do seu brilho em Make a New World com alguns pares de belas canções. “You and I Are Both Away” é da fração mais U2 da banda, de onde já surgiram coisas primorosas como “American English” e “Live in a Hiding Place”. Embora eles nunca tenham me impressionado pelas letras, às vezes pesco uma ou outra jóia de simplicidade, e “You and I Are Both Away” tem uma delas: “It's more than I am / To be more than I am”.

19 – Jimmy Eat World – “Here It Goes”
do álbum Chase This Light

Desde o fantástico Bleed American, o Jimmy Eat World vem se empurrando para o desconfortável limite entre quem não quer se levar a sério demais, e quem se leva a sério demais. Assim como Futures, Chase This Light se perde um pouco nesse buraco, sem nunca mostrar vontade de fato de sair dele. Mas em certas canções eles chutam a vergonha de lado e voltam a fazer música abertamente pop, com batidas de dance music, refrões pegajosérrimos e até um hey-hey-hey de frat party meio constrangedor. “Here It Goes” tem tudo isso, e por isso mesmo se sai como a melhor do disco. Quando levo meu discman (sim, eu ainda uso discman) comigo, sempre me flagro adequando o passo ao andamento da canção que me chega pelos headphones. “Here It Goes” ainda traz esse potencial de constrangimento: mais de uma vez já me percebi marchando pelas ruas da cidade, em uma ridícula dancinha involuntária.

20 – Of Montreal – “A Sentence of Sorts in Kongsvinger”
do álbum Hissing Fauna, are you the Destroyer?

De tudo que eu ouvi em 2007, o Of Montreal é a banda que eu gostaria de ter curtido mais. “A Sentence of...” abre Hissing Fauna como um Abba moderno, com programações divertidas e tiradas de humor na medida certa (quantas canções começam fazendo troça de bandas de metal norueguesas?). Além disso, construções melódicas bastante sofisticadas (em certo momento chegam a lembrar o que Brian Wilson tornava normal em Pet Sounds ou mesmo Smile) e uma ou outra imagem de inegável simpatia (“Our plane is sleeping on a cloud”) levam o baile da canção com uma vivacidade extremamente bem vinda. É pena que o resto de Hissing Fauna ainda não me pareça tão bom quanto seu começo. Fechar essa coletânea dessa maneira não deixa de ser um desejo de ano novo, esperando clicks e acenos amigáveis de canções tão sorridentes quanto essa.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

If everybody had an ocean

Em jornada prima próxima dos passeios de ônibus de “Vai e vem”, gratinava eu em um 110, sob o azul-croma de feriado que meu dia útil se negava a disfarçar. Lá na frente, esse mesmo calor revelava, ao translucidar com suor o uniforme do trocador, a ideologia da camiseta de baixo que não se intimidava frente o peso do trabalho: Every day is a good day for surfing.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Top 5 da semana

Em meio à confusão de natal+aniversário (já aceito parabéns nos comentários, embora espere ainda postar isso no dia 26)+passagem de ano, resolvi deixar cá uma última listinha, antecipando a listona que abre todo novo ano aqui, no Fabito's Way. Logo nos primeiros dias de 2008, portanto, começo a eleger meus melhores por cá – filmes primeiro, discos em seguida, como no ano passado. Depois de quatro necessários dias de descanso em Barra Mansa, encerrei meu 25 tentando matar a alergia crônica com os últimos copos de chope do barril do Natal, enquanto seguia quitando – pau-la-ti-na-men-te – minha dívida com o Rohmer. Foi uma belíssima maneira de enterrar o feriado, e não deixei de me enfurecer com essa vida ingrata de trabalhos fixos que não permitem realizar a vontade de ficar, por um dia ou dois mais, onde eu realmente gostaria de estar. Espero que no ano que vem eu consiga extrair os milhões que se escondem nessa carreira de roqueiro em potencial, para poder reclamar com um pouco menos de razão.

Filmes

01 - O Mundo (Shijie) – Jia Zhang-ke


Até hoje só tinha visto "O Mundo" em um rip baixado no eMule. Revendo o filme em um belo dvd área 1, é desnecessário dizer que minhas impressões foram ainda melhores. Jia Zhang-ke me ganhou por completo da primeira vez que vi "Plataforma", e seus filmes seguintes vêm mantendo um nível realmente assustador. O tal World Park, onde ele filma "O Mundo", me parece a locação perfeita para abrigar o misto de fascínio e repúdio que o atual estado de coisas na China põe em movimento dentro do diretor. É, de fato, um filme absolutamente embasbacante.

02 – Pauline na praia (Pauline à la plage) – Eric Rohmer


De Rohmer, até pouco tempo só conhecia "Conto de verão". Lembro ter visto o filme no cinema, com minha mãe e minha irmã. Elas ficaram extremamente irritadas com a canção do piratinha que alguém começa a cantar lá pela metade do filme, e saíram um pouco aborrecidas. Em mim, o filme deixou impressa a suavidade do desenrolar, a leveza climática, o desapego de Rohmer a tudo que o mundo tende a considerar grande em nome de coisas pequeníssimas. Dia desses me lembrei com carinho dessa sensação, e decidi mergulhar nos filmes do diretor. De fato, a locação de "Pauline na praia" me trouxe de volta – e com muita vivacidade – tudo aquilo que lembro de ter sentido em relação a "Conto de verão". A diferença é que, hoje, o tal apego miúdo de Rohmer me parece projeto de nobreza realmente insuperável. Seus filmes são um prazer só.

03 – Operação França (The French Connection) – William Friedkin


Outra dessas dívidas que ao pouco vou riscando do caderninho, o famosíssimo filme de Friedkin merece tudo que construiu ao longo dos anos. Inclusive "Os donos da noite", filme de James Gray que faz ao menos um par de homenagens a algumas das melhores seqüências do filme. É o tipo de situação em que pai e filho só têm a se orgulhar.

04 – O virgem de 40 anos (The 40 Year Old Virgin) – Judd Apatow


Finalmente vi o director's cut de uma das melhores comédias lançadas nos últimos anos. Mesmo com quase 20 minutos a mais, o ritmo de "O virgem de 40 anos" permanece absolutamente inabalável. Que venha a faixa comentada.

05 – Viver ou morrer (Dead or Alive: Hanzaisha) – Takashi Miike


É uma satisfação ver as filmografias (ou parte delas) de sujeitos tão interessantes quanto Takashi Miike e Johnny To sendo lançada em dvd no Brasil. Os incríveis dez minutos iniciais de "Viver ou morrer" parecem resumir todas as intenções do cinema de Miike, e o fato de o filme conseguir se sustentar depois dessa enxurrada diz muito sobre o talento de Miike como diretor. "Viver ou morrer" é um dos filmes mais extremos e descontrolados de um dos artistas mais extremos e descontrolados dos nossos tempos. Famoso por interesses temáticos peculiarmente desafiadores (só em "Viver ou morrer" temos cenas de bestialidade, escatologia, mutilação, muita droga, muito tiro – até de bazuca – e muito sangue), me impressiona como Miike acaba tendo ignorado seu impressionante talento visual. Vendo "Viver ou morrer", por muitas vezes me senti diante do mais direto herdeiro de Seijun Suzuki.

Canções

01 – "Long way home" – Norah Jones

Nas compras de Natal, me dei de presente o dvd "Norah Jones and the Handsome Band Live", de 2004. Assistindo à belíssima apresentação (filmada sem grande brilho de direção, a não ser pelos bonitos registros em passagem de som) fui surpreendido quando Norah Jones anunciou uma canção do Tom Waits, e logo tocou "Long way home" – uma de minhas faixas favoritas de Feels Like Home, seu melhor álbum. Amaldiçoei o fato de eu não comprar mais cds ou ler sobre tudo que ouço no Allmusic – locais onde posso ter esse tipo de informação de forma muito mais suave. A descoberta, porém, faz todo sentido: embora eu não conheça a versão de Waits (que, ao que parece, só foi lançada em 2006, no seu álbum triplo de sobras), toda a estrutura da canção sugere a interpretação do cantor. O trabalho de Norah Jones, porém, não é menos que extraordinário, e sua voz ganha um belo adorno (timidíssimo, me parece) ao vivo.

02 - "Take me anywhere" – Tegan & Sara

Ainda não fui de todo sugado por The Con – último disco de Tegan & Sara que já vem aparecendo em algumas listas de melhores do ano. The Reason, o anterior, tem canções agradabilíssimas, e "Take me anywhere" é a melhor delas. Além de artistas de talento, as duas canadenses são irmãs gêmeas e lésbicas. Sim, irmãs gêmeas e lésbicas. Se isso é pauta valiosa para qualquer publicação, não sou eu que vou fazer do Fabito's Way uma exceção.

03 – "Silly love songs" – Paul McCartney

Porque Paul McCartney sem vergonha de fazer músicas para discoteca é bom demais para se ignorar.

04 – "Beautiful girl" – INXS

Há muito tempo atrás, estava eu prestes a descer de um táxi quando uma familiar melodia de teclado começa a tocar no rádio. Deu vontade de ficar para ouvir o resto da canção, mas minha fobia de táxis foi mais forte. Meses depois, lá estava eu em minha aula de pilates quando o mesmo teclado encheu a sala. Foi só entrar a voz do Michael Hutchence para eu me lembrar do INXS – banda que nunca me dei ao trabalho de conhecer com um mínimo de cuidado. "Beautiful girl" é, com efeito, uma excelente canção. Logo depois o rádio veio se confirmar como relevante veículo de alegria, e foi vez de o Ben Lee entrar com "Catch my disease". Obrigado Antena 1.

05 - "Life On A Chain" - Pete Yorn

O Pete Yorn é mais famoso por suas covers - uma do Buzzcocks na trilha do segundo Shrek, outra do Ramones naquele álbum tributo de alguns anos atrás - do que por seu trabalho como compositor. Tremenda injustiça. Lá fora, a inclusão de "Strange Condition" na trilha de "Eu, eu mesmo e Irene" fez de musicforthemorningafter - seu primeiro álbum - um razoável sucesso. "Life On A Chain" é a canção que abre o disco, e o faz de maneira brilhante. Uma boa letra e um grande refrão seriam plenamente suficientes, mas ainda temos um solo de baixo surrupiado da cartilha de Peter Hook, que faz par a uma surpreendente intervenção de gaita. Seus discos não são regulares, mas musicforthemorningafter é o que chega mais perto. Ainda assim, Yorn conseguiu cravar um número considerável de faixas memoráveis em seus álbums seguintes. Basta uma audição de "Crystal Village" (de Day I Forgot) ou de "The Man" (de Nightcrawler) para ter certeza de que o talento de Yorn é vítima de grande subestimação.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Top 5 da semana

Vou tentar, a partir dessa semana, levar a cabo um top 5 duplo: uma lista de filmes, outra de canções. As idéias de o quê escrever para o blog não jorram como eu gostaria, e essas listas aleatórias deixam de ser inúteis ao me conformarem a uma mínima periodicidade, forçando as palavras ao convívio com o mundo. Parece-me um bom exercício.

Por fim (antes do começo), não sei qual a temperatura da descoberta, mas hoje cedo fiquei sabendo de duas grandessíssimas aquisições do Telecine Cult para 2008: “O mundo”, de Jia Zhang-ke, e “Three Times”, de Hou Hsiao-hsien, entram para a grade do canal em Janeiro. Mais do que duas belas estréias, a abertura do canal a dois dos nomes mais importantes do cinema mundial contemporâneo (somada ao lançamento de “Em busca da vida” nos cinemas do Rio, e da já anunciada aquisição de “A viagem do balão vermelho” para distribuição comercial) talvez sinalize a entrada definitiva dos dois realizadores no circuito brasileiro. “Three times” não é irretocável como “Millennium Mambo”, “Adeus ao Sul” ou “Café Lumière”; a culpa, porém, é de seu primeiro tempo (o do amor). A beleza que Hou Hsiao-hsien alcança na primeira de suas três estórias é tão estonteante que acaba dificultando a vida das partes seguintes (quem será capaz de fazer frente a um jogo de sinuca ao som de “Smoke gets in your eyes”? Quem?). Parece-me, porém, uma ótima iniciação à obra daquele que muitos consideram o mais importante realizador em atividade. De Jia Zhang-ke, basta dizer aos que viram “Em busca da vida” (filme que certamente entrará na minha lista de melhores do ano) que “O mundo” é ainda melhor. Além disso, também pesquei um “Close Up” na grade do canal. Resta torcer para que seja, de fato, o de Kiarostami, e não uma excentricidade de tradução.

Filmes

01 – Império dos sonhos (Inland Empire) – David Lynch


A minha sensação de que o fim de ano guardava as melhores estréias vem se confirmando.Mais do que uma obra-prima, “Império dos sonhos” é mais uma confirmação de um cineasta de espírito inquieto, disposto a desafiar até mesmo a sua própria (já consagrada) estética. É um desses filmes que pedem, de fato, uma nova relação até mesmo dos espectadores mais vacinados (e quantos fãs de Claire Denis não conseguiram passar por “O Intruso”?). No caso de Lynch, o movimento é extremamente saudável: seus seguidores mais cartesianos são tipo dos mais chatos em qualquer discussão sobre cinema. “Império dos sonhos” me parece radical o suficiente para faze-los engolir os risos (e as risadas desconexas de toda a encenação da família-coelho me parece um recado bastante direto a todos que sempre acreditaram estar rindo com David Lynch) e os manuais de instruções, acuando-os para o fundo da sala.

02 – Repulsa ao sexo (Repulsion) – Roman Polanski


O que mais me impressiona no cinema de Polanski é sua capacidade de ir borrando, progressivamente, o limite entre a paranóia e o desejo obsessivo. “Repulsa ao sexo” se entrega a essa ambição com a mesma voluntariedade que “O bebê de Rosemary”, e o resultado não é nada menos impactante. Além do mais, a carcaça do coelho morto é metáfora de literalidade tão desconcertante que faz frente ao choro sobre o leite derramado de “Não Amarás”.

03 – Irmãs diabólicas (Sisters) – Brian de Palma


Quanto mais rumo ao passado de Brian de Palma, maior a impressão de ser ele um desses raros casos (como Orson Welles, Tsai Ming-liang, Quentin Tarantino) de diretores que já nascem com o olhar absolutamente maduro. “Irmãs diabólicas”, um de seus primeiros longas (e não conheço nenhum dos anteriores), já é tomado por todas as questões que povoam a obra de De Palma: o duplo (que reaparece em “Síndrome de Caim”, “Vestida para matar”), a consciência extrema da mise-en-scène, o jogo com uma estética popular (o início de “Irmãs diabólicas” é quase idêntico em estrutura ao de “Um tiro na noite”), a referencialidade (e Hitchcock é apenas a ponta mais óbvia de um repertório extremamente vasto), a resignificação dos objetos pelas convenções (a bisnaga de confeiteiro que é empunhada como uma faca, nos primeiros minutos de “Irmãs diabólicas”, indicando o assassinato que virá a ocorrer pouco depois). É um filme em que a contribuição que me parece maior em toda a obra do diretor já está em pleno vigor: a câmera que nunca olha, sempre espia, espreita, vê o que não deve, gerando uma mise-en-scène no entorno da diegese (a mise-en-scène de quem olha). Essa obsessão marcará toda a obra de De Palma: da antológica seqüência do vestiário feminino de “Carrie” à câmera que sobe o telhado para testemunhar um assassinato em “Dália negra” (e que toma o centro da narrativa em filmes como “Um tiro na noite”, “Dublê de corpo” e, pelo que indica o pouco que li, “Redacted”).

04 – Noites de lua cheia (Les nuits de la pleine lune) – Eric Rohmer


Às vezes basta você colocar telas de Mondrian no quarto de uma das personagens (e deixar que a estrutura das telas transforme as linhas da janela de um quarto em uma composição apropriada), e colunas gregas na de outro para indicar como seus olhares sobre uma mesma relação podem ser dissonantes. Eric Rohmer tem uma habilidade invejável em conciliar o rigor com uma fruição inabalavelmente agradável; muito do que falei sobre Bergman na semana passada parece encontrar resposta direta nos filmes de Rohmer, e “Noites de lua cheia” é apenas mais um bom exemplo.

05 – Um amor jovem (The Hottest State) – Ethan Hawke


O filme de Ethan Hawke provavelmente não entraria nessa lista se sobrasse na conta. Mas, façamos justiça, é ele que inspira a minha primeira contribuição à revista Cinética – onde você pode ler minha a minha crítica sobre o filme. O convite para escrever na Cinética vem dar vazão às minhas impressões sobre cinema, e espero que seja apenas a primeira de uma série de contribuições. E sim, eu dei um jeito de enfiar o Wilco e a Feist no meu primeiro texto por lá também.

Canções

01 – "Ol’ 55" – Tom Waits

Eu sou absolutamente obcecado pelo Tom Waits. O problema é que às vezes eu me esqueço disso, e preciso que o Godard esfregue “Ruby’s arms” em meu nariz para me fazer perceber que eu deveria estar ouvindo toda a discografia do Tom Waits no repeat, dia após dia. “Ol’ 55” é a canção que abre o fabuloso Closing Time, e é a favorita dessa semana. Por nenhum motivo que não o de ser uma canção absolutamente irresistível.

02 – "Rain" – Bishop Allen

É uma grande ironia sofrer com três dias de chuva ininterrupta após passar a semana inteira cantando “Oh, let the rain fall down and wash this world away”. Nesses dias o Rio parece ser o único lugar capaz de desafiar o mantra de Travis Bickle, pois quanto mais chove, mais sujeira parece sair das entranhas da cidade. Dando fim à digressão, “Rain” poderia ser uma canção do Guster, mas só se nascida de uma parceria com o Gordon Gano, movida pelo ciúme doentio que “Careful” sente da frivolidade de “Amsterdam”.

03 – "Sinner Man" – Nina Simone

E quando eu achava, do alto de meu conforto, que “Novo Mundo” havia amarrado o imaginário visual sugerido pela canção, lá me vêm os créditos de “Império dos sonhos”, trazendo à canção uma intensidade que parecia ainda inexplorada.

04 – "The Silence Between Us" – Bob Mould

Bob Mould é um de meus compositors favoritos, e é sempre reconfortante ouvir uma nova criação sua e se sentir testemunha de forma tão plena. “The Silence Between Us” é uma canção belíssima, e vem confirmar seu District Line como um dos mais aguardados discos de 2008.

05 – "1, 2, 3, 4" – Feist

No fundo, acredito já ter perdoado a Feist pelo perdidão no Tim Festival. Mas dia desses eu tava vendo Mtv (sim, eu nutro curiosidades que às vezes escapam a qualquer explicação) e passou uma vinheta com um trecho do clipe de “1,2,3,4”. Desde então venho me perguntando se custava muito ela ter vindo até o Congo fazer a meninada mais feliz.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Top 5 da semana

01 – Carmen de Godard (Prénom Carmen) – Jean-Luc Godard – Nunca tinha visto “Carmen”, e ver um Godard pela primeira vez me é sempre uma experiência mais física do que intelectual. Nesse sentido, as ondas (do mar, da luz, das cores, das músicas, dos corpos) de “Carmen” são um banquete. E acho melhor nem entrar na beleza quase indecente que ele arranca de “Ruby’s Arms”, do Tom Waits, pelo risco de passar a noite toda escrevendo e não conseguir ir trabalhar amanhã.

02 – Novo Mundo (Nuovomondo) – Emanuele Crialese – É uma tristeza ver o que uma cópia ruim (mesmo nova) pode fazer com a fotografia de Agnès Godard. O preto empastelado, a dessaturazação, o contraste todo cagado... tudo tenta jogar contra o filme. Ainda assim, “Novo Mundo” é, como esperava, uma maravilha só.

03 Videodrome – David Cronenberg – Embora todo filme de Cronenberg me pareça uma síntese de todo seu projeto estético, “Videodrome” me parece ser o momento em que isso se dá de forma mais acabada, completa (o abraço à ficção, o cinema como arte essencialmente sexual, o sujeito em risco de anulação, as texturas). Não é meu filme favorito de Cronenberg (tendo a gostar mais de coisas menos acabadas e completas), mas é provavelmente o que eu recomendaria para qualquer pessoa querendo compreender melhor a obra do diretor.

04 A música de Guion (Gion bayashi) – Kenji Mizoguchi – Não me parece um grande Mizoguchi (não como “Contos da lua vaga” ou “Os amantes crucificados”, por exemplo), talvez por ser menos exuberante (nos travellings, no jogo de luz e sombra, nos enquadramentos). Ainda assim, poder conhecer mais um pedaço da obra de um dos mais importantes realizadores do cinema japonês (o filme reprisa na sexta-feira, no CCBB-Rio) traz sempre uma nova nuance a uma personalidade cinematográfica aparentemente tão consolidada. Enfim, nada como ver os filmes.

05 Sonata de Outono (Hostsonaten) – Ingmar Bergman - Não consigo ter outro sentimento em relação a Bergman que não um de ambigüidade. Porque ao mesmo tempo em que ele fez filmes que gosto muito, como “Morangos Silvestres” e, sobretudo, “Persona”, alguns de seus trabalhos – mesmo trazendo questões interessantes – me parecem pai dessa auto-comiseração chata, desse apreço pelo sofrimento e pelo drama fácil que define um certo cinema de “arte” de nossos tempos. É meio injusto culpar o pai pelos filhos feios, mas entre os belos amarelos de “Sonata de Outono”, entre os rostos sempre impressionantes de Liv Ullmann e Ingrid Bergman, entre o belo olhar para a câmera de Halvar Bjork e as vogais desconcertantes (em língua cheia de consoantes) de Lena Nyman, essa coisa toda batia com uma intensidade bastante incômoda.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Sobre sábado

Por mais que eu seja pagante dos mais dedicados, nunca realmente cogitei ir ao show do Police. Em primeiro lugar porque, com exceção de uma meia-dúzia de canções, não acho a banda lá grande coisa. Em segundo, porque qualquer show que burle meu código de sobrevivência em primeiras filas cobrando mais caro pelo privilégio das áreas vips não vai ver meu dinheiro. E em terceiro – e mais importante – porque toda vez que ouço uma gravação de rock brasileiro feita dos anos 80 pra cá e me irrito com os timbres magros e com aquele sonzico de Fender ensopado de reverb, não consigo afastar a suspeita de que, de alguma forma, o Sting está por trás disso tudo.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Top 5 da semana

01 – “Guns of Navarone” – Maritime – 15 audições depois, ainda me parece uma canção incrível.

02 – “My Right Versus Yours” – The New Ponographers – Não conheço o New Pornographers a ponto de me considerar fã, mas Challengers – o último disco da banda – é uma beleza. “My Right Versus Yours”, faixa que abre o disco disposta a não se deixar ser superada, é de um refinamento melódico próximo ao que marcava as melhores coisas do Left Banke.

03 – “Right Moves” – Josh Ritter – The Historical Conquests of Josh Ritter é ainda melhor que o belo The Animal Years, e “Right Moves” é só um dos destaques possíveis de um disco que beira o impecável. A canção parece ser uma gravação perdida dos Travelling Wilburys para uma música inédita do Brian Wilson.

04 – “Thrash Unreal” – Against Me! – O AM! lançou o disco mais rock do ano, e “Thrash Unreal” foi a primeira faixa a realmente me impressionar. Depois ela cedeu espaço para “New Wave”, “Up the Cuts” ou “Borne on the FM Waves of the heart”, mas na última semana o refrão dela voltou a ocupar fração considerável da minha cabeça, e me acompanhou por vários cantos da cidade.

05 – “Saddest Quo” – The Pernice Brothers – Às vezes ouvir um disco do Pernice Brothers traz efeito semelhante ao de se comer três sobremesas em seqüência. Mas quando eles conseguem arredondar todas as pontas de uma canção, se tornam de fato irresistíveis. Acho a letra de “Saddest Quo” de uma pureza meio cafona, mas a melodia é tão boa que fica fácil de passar por cima.